Inquietude

14 Cicatrizes


Chica voltava de um jantar com Ricardo quando decidiu passar na casa da filha mais velha para saber como as coisas estavam e para matar um pouco da saudade que parecia não sumir nunca.
Quando o casal entrou no apartamento se entreolharam perguntando-se onde seria o velório e quem era o morto, por que as expressões faciais dos presentes na sala demonstravam que alguém tinha morrido.
Ivan dormia no quarto de Luiza. O choro e o cansaço o haviam vencido.
Rosa perguntou sobre o jantar, mas ninguém respondeu positivamente. O estômago de todos parecia revoltado. Não conseguiam pensar em nada a não ser em como as coisas ficariam depois daquela tempestade de minutos atrás.
– O Ivan pode dormir aqui, Helena? Não estou com cabeça para conversar com ele agora – perguntou Cadu passando a mão nos cabelos.
– Fica tranquilo, Cadu. Cuidaremos bem dele – garantiu Helena esboçando um sorriso.
– O que aconteceu aqui, gente? – perguntou Ricardo dando espaço para que Cadu passasse.
Todos se entreolharam, mas ninguém respondeu.
– É alguma coisa com alguém da família? O que aconteceu? Me fala, vocês estão me deixando nervosa – disse Chica aflita.
Helena chamou a mãe para o quarto. Pegou as fotos que estavam em cima da mesa e levou junto com ela.

Clara chegou a sua nova casa completamente anestesiada. Sua cabeça girava e imagens da briga pipocavam em sua mente. Alucinando-a.
Marina preparou a banheira e Clara entrou sentando-se abraçada aos joelhos flexionados. As lágrimas quentes faziam a pele abaixo dos olhos arderem, mas era inevitável. Naquela noite além de Marina as lágrimas seriam sua companhia.
Quando saiu do banho, Clara permaneceu envolta num roupão felpudo e aconchegante. Lembrou-se dos abraços que recebia da mãe quando criança e novas lágrimas rolaram face abaixo. Não poderia imaginar que a busca pela felicidade doeria tanto.
Não saberia como a mãe iria reagir, nem o filho. E isso a assustava.
Clara sentou na cama imóvel, o olhar parado em algum ponto perdido daquele imenso quarto. O seu novo quarto. Sua nova cama. Sua nova companhia. Seu novo amor.
Marina saiu do closet com uma pequena maleta preta e pousou na cama ao lado de Clara. Antes de começar seu trabalho como uma enfermeira amadora puxou Clara para seus braços, entrelaçando seus dedos nos cabelos molhados.
– Vou cuidar desse machucado – disse Marina abrindo a pequena maleta – Tem certeza que não precisa ir ao médico? E se precisar dar ponto?
– Não! – disse Clara tocando o machucado com o dedo – Eu tô bem.
Marina virou o rosto de Clara para a fonte de luz a direita. Segurou o queixo da amada entre os dedos e com a outra mão limpou e secou o ferimento.
– Seu lábio está inchado – observou Marina enquanto pressionava o ferimento com uma gaze.
– Daqui a pouco melhora – disse Clara passando a mão nos olhos marejados – Daqui a pouco tudo melhora.
Clara gemeu quando Marina passou um líquido cicatrizante.
Depois de cuidar da pequena ferida Clara afastou a maleta para o meio da cama e buscou os braços de Marina. Embrenhou-se nos cabelos da fotógrafa, sentindo o cheiro já familiar de paz e tranquilidade. Sua mandíbula encostou no pescoço de Marina e Clara abafou um gemido que Marina percebeu.
– Se você resmungar mais uma vez eu vou te amarrar no banco do carro e te levar ao médico, queira você ou não – disse Marina num tom autoritário acompanhado de um cafuné.
Clara fungava e Marina a apertava ainda mais em seus braços.
A fotógrafa lembrou dos avisos inúteis que Vanessa havia dado quando percebeu que estava se apaixonando, do medo que sentiu quando percebeu que era paixão. Lembrou-se de quando a viu na exposição, dos olhares e do aperto de mão que deram. Um filme passava por sua cabeça quando Clara fez seu coração parar de bater por alguns segundos.
– Eu te amo – disse Clara.
Clara não via, mas Marina tinha nos lábios o sorriso mais iluminado do mundo.
– Ama? – perguntou a fotógrafa não acreditando.
– Uhum – confirmou Clara levantando-se do abraço. Olhou Marina nos olhos e acariciou o rosto dela com seus dedos.
Marina fechou os olhos encantada.
– Amo você, Marina. Muito. Hoje mais do que nunca eu tenho certeza do que sinto por você e é amor. – continuou Clara de modo sussurrado.
Marina não conseguia responder verbalmente. Seus lábios sorridentes sentiram as lágrimas de felicidade desaguarem neles.
Marina pousou seus lábios nos lábios de Clara e quando sentiu os lábios se movimentarem, Clara gemeu de novo e afastou a boca de Marina.
Fez cara de incômodo e balançou a cabeça negativamente enquanto Marina balançava afirmativamente.
– Pode não ser nada, mas pode ser que aquele idiota tenha te machucado – disse Marina pegando a chave do carro no criado mudo.
A contra gosto, Clara tirou o roupão e colocou um vestido de Marina. Secou os cabelos com a toalha e saiu junto da amada.

Depois de contar a história detalhadamente para a mãe, Helena mostrou duas fotos das várias que tinham naquele envelope. Chica queria ver as outras, mas Helena relutou. A reação da mãe não foi das melhores, não foi das piores, Helena só não conseguia decifrar e por isso achou melhor não mostrar demais.
– Não era pra eu ter te contado isso, a Clara é a pessoa certa, mas você chegou bem no momento que o furacão tinha passado, não poderia te deixar em meio aos escombros sem uma explicação – disse Helena para mãe que permanecia em silêncio. – Fala alguma coisa, seu silêncio tá me matando.
– Não sei o que falar – disse Chica visivelmente atordoada – A Clara... A Clara deve ter enlouquecido. Ela jogou fora um casamento de anos por causa de uma aventura. Com uma mulher... É demais para minha cabeça.
– Não acho que seja uma aventura.
– E você sabia disso o tempo todo e não me contou por que?
– Por que essa história não é minha, mãe. Eu estive aqui pra Clara todas as vezes que ela pediu. Ela estava assustada. Não sabia o que fazer...
– E onde que ela está agora?
– Foi pra casa da Marina, parece que vai ficar morando lá até o Cadu arranjar um lugar – explicou Helena.
– E o Ivan? Tadinho do meu neto no meio desse fogo cruzado.
– Está dormindo no quarto da Luiza. Está assustado, sem entender o que aconteceu, a Clara ainda não conversou com ele, e acho que ela deve fazer isso antes que o Cadu pinte a Clara como um monstro.
– O que é que eu, como mãe, devo fazer? Não sei como lidar com isso, Leninha – disse Chica com os olhos rasos d’água.
– Agora a Clara precisa da gente, apenas isso.