Inquietude
17 A verdade
Clara saiu primeiro do estúdio. As pernas anteriormente bambas de tesão, agora estavam bambas de susto.
Marina se viu obrigada a seguir a amada. Não sabia para onde Clara iria, mas a fotógrafa precisava de um banho gelado.
Quando chegou ao quarto encontrou Clara sentada na cama de olhos fechados, coluna encostada à cabeceira e respiração lenta.
– O que seu pai está fazendo aqui? – perguntou Clara assim que sentiu o colchão afundar ao seu lado.
– Estou me fazendo a mesma pergunta. Ele nunca foi de fazer surpresas, muito menos para mim. E logo agora que eu estou louca pra descontar tudo o que você fez comigo – disse Marina deixando uma trilha de saliva no pescoço de Clara.
Clara arrepiou-se e abriu os olhos. Encarou as pupilas dilatadas da fotógrafa e se entregou ao que elas pediam.
Entre beijos e lambidas vorazes, Marina apertava o corpo de Clara com toda força que era permitida.
– Fica ai de castigo que preciso de um banho gelado e rápido – disse Marina fugindo contra a vontade de seu corpo.
Clara fez beicinho e foi para o banheiro junto com Marina.
Enquanto Marina sentia a água fria dar pancadas em sua pele, Clara aproveitava a água quente e aconchegante da banheira.
– Vou lá enfrentar a fera – disse Marina saindo do box com o corpo molhado todo à mostra.
Clara mordeu o lábio inferior, sentiu o corpo esquentar novamente e pode jurar que a água que a circundava começava a ferver.
– Não estou nem te vendo – disse Clara colocando a mão no rosto, mas com os dedos abertos.
Marina riu e saiu do banheiro.
Clara então encarou o teto reflexiva. Marina nunca tinha comentado sobre o pai ou a relação que tinha com ele. O calafrio que sentiu na espinha não era bom, e Clara não poderia supor o que viria a seguir. Tentou apenas manter o pensamento positivo.
Quando a fotógrafa voltou para o estúdio todos estavam em silêncio. Passou olhando a viga metálica se certificando de que não deixara nenhum rastro ali. Quando o pai a viu, levantou-se da poltrona vermelha e abraçou a filha.
– Cadê a moça que estava aqui? – perguntou ele olhando ao redor.
– Ela... E-ela está no banho – respondeu Marina receosa.
– Ela mora aqui com você?
As perguntas. Marina teve um dejavu ao ouvir aquilo. Parecia que tinha voltado no tempo, no momento em que o pai descobrira sua sexualidade e no momento em que ele forçou a filha a deixar de ser o que era.
FlashBackOn
– Eu não acredito que gastei meu tempo e meu dinheiro com você! Eu investi muito pra você conseguir o que queria e é assim que você me retribui? Que bela forma de agradecimento – dizia Diogo entre os dentes. Andando de um lado para outro feito um louco.
– Eu não pedi nada pra você – gritava Marina de volta – Nunca te pedi. Eu sei me virar sozinha.
Diogo riu sem emoção alguma.
– Decerto uma menina que não sabe nem lavar um garfo vai saber se virar sozinha, me poupe, Marina. Ou você muda esse seu jeito... Essa sua... Nem sei como nomear tal atrocidade.
– Homossexualidade – disse Marina imponente – É isso que eu sou. Homossexual. Gay. Lésbica. Chame como quiser e não há nada que eu possa fazer pra ser o que VOCÊ quer que eu seja. Eu sou assim. Sempre fui.
– Foi a Vanessa, não foi? – perguntou o pai mudando o foco da discussão – Ela que virou sua cabeça, te fez gostar de uma coisa tão grotesca como essa. Isso não pode ser saudável. Não pode ser normal.
– Não é a minha saúde que está em jogo aqui, é a sua saúde mental. E não, a Vanessa não tem nada a ver com isso, por que antes de ficarmos juntas eu já experimentei todo tipo de mulher, já dormi com várias. Ela não é a primeira e está longe de ser a última.
Horrorizado o pai estendeu a mão e desceu com força no rosto da filha. Fazendo a pele da face arder e concentrar todo o sangue no local que agora ardia.
Marina foi abaixando-se aos poucos. Sentou no chão com as mãos no lado atingido pelo tapa e respirou fundo engolindo a vontade de chorar e descontar o golpe.
Sentiu algo molhar seu dedo e quando passou os dedos, sentiu o filete de sangue que saia do seu nariz.
– Ainda bem que a sua mãe não está aqui pra ver essa coisa abominável que você está se tornando – disse Diogo abrindo e fechando a mão que assim como o rosto da filha ardia – Ela estaria envergonhada.
Aquilo foi a gota d’água. Ouvir qualquer menção à mãe fazia Marina perder toda a força, abalava toda sua estrutura emocional. Quando deu por si as lágrimas formavam desenhos irregulares no soalho de madeira em que estava sentada.
– Não fala da minha mãe, seu otário. Você é a pessoa que menos tem direito de falar ou pensar nela – disse Marina se levantando.
– Me respeita, menina! Eu sou seu pai. Com muito desgosto digo isso agora, depois de saber... – Diogo sentia a pressão abaixar e afrouxava o nó da gravata.
– Eu não sou mais uma menina. Sou adulta suficiente pra saber o que eu quero, ou quem eu quero. E não vai ser você – Marina apontava o dedo para o pai bem próximo ao nariz – Que vai fazer com que eu “mude” – sinalizou aspas na palavra com os dedos – O que eu sou. Sinto lhe informar Diogo Meirelles, mas não há como mudar.
– Então diga adeus a tudo isso – Diogo girava o corpo com as mãos abertas apontando para toda extensão da grande casa – Diga adeus também a minha ajuda para montar seu estúdio em Nova Iorque. Não conte mais comigo pra nada. Estamos rompidos.
Sem dar chance de Marina responder à ameaça Diogo saiu batendo com força a porta da sala. E pela primeira vez na vida, Marina soube como era difícil tomar uma decisão.
FlashBackOff
Como se tivesse sentido um fantasma transpassar seu corpo Marina voltou ao momento presente. Agora que havia se passado anos desde o primeiro rompimento com o pai e que tinha amadurecido tanto quanto imaginava, não se deixaria abalar tão fácil. Agora era ela quem daria as cartas.
– Meninas, vocês podem nos deixar a sós, por favor? – pediu Marina prevendo a pesada neblina que se alojaria no estúdio.
Giselle e Vanessa saíram sem contestar. Encontraram Flávia no meio do caminho e pediu que ela desse meia volta, pois o tempo havia fechado lá dentro.
Clara havia saído do banho e estava sentada numa espreguiçadeira, tentando pela milésima vez falar com Cadu. Ivan havia pedido para passar de sexta a domingo com a mãe e a Marina já que no final de semana anterior ele havia passado apenas o domingo, pois o pai havia proibido o sábado com Clara e Marina.
Para a infelicidade de Cadu, Ivan estava adorando saber que a mãe estava namorando outra pessoa e que essa pessoa era a Marina. Alguém que estava conquistando o garoto a cada dia.
Lá dentro Marina e o pai se encaravam estáticos.
Diogo não queria acreditar na hipótese que surgiu em sua mente desde o momento em que viu Clara no estúdio da filha.
– Eu e a Clara estamos morando juntas a quase um mês – disse Marina por fim, sanando a curiosidade do pai.
Diogo riu e passou a mão nos cabelos grisalhos. Sentou no banco prateado que estava as suas costas e cruzou as mãos sobre o colo.
– Era por isso que você quis voltar para o Brasil, né? Pra viver essa vida imunda sem que eu pudesse acompanhar – disse o pai olhando a filha.
– A Clara não tem nada a ver com a minha volta para o Brasil, mas tem tudo a ver com o fato de eu querer permanecer aqui pra sempre.
– E a Vanessa? Como está lidando com tudo isso? Ou agora você tem as duas na sua cama?
– Não seja ridículo! A Vanessa se tornou uma grande amiga e é muito competente no que faz. O amor da minha vida é a Clara. É com ela que eu vou viver até o fim da minha vida.
– Nossa! Que coisa mais bonita de se ouvir, Marina – ironizou Diogo cruzando a perna direita sobre a esquerda.
– O que você quer? – perguntou Marina já sem um pingo de paciência – Fala logo, vamos abreviar essa conversa.
Clara deixou a décima mensagem de voz para Cadu e voltou para dentro da casa. Uma hora ele teria que responder, caso contrário Clara iria até o Leblon buscar o filho.
Quando subia as escadas para ir para o quarto, Clara trombou com Vanessa.
– Em que pé está a conversa? – perguntou Clara.
– E eu vou lá saber? – respondeu Vanessa ácida como sempre.
– Nossa, Vanessa! Fico me perguntando quando é que você vai começar a colocar açúcar nessa sua vida. Caraca, será que não dá pra vivermos em paz? Minha bandeira branca já está levantada há tempos.
– Por que você não vai pro inferno, Clara? Sério. Some da minha vida e tenho certeza de que açúcar não vai faltar – Vanessa esqueceu-se do que ia fazer e foi pra cozinha.
Clara deu meia volta e foi para o estúdio ver onde a conversa havia chegado ou para onde estava indo. Quando seus pés marcavam cinco passos de distância da porta, seu corpo retesou. Poderia sentir as portas tremerem com os gritos que ouvia.
– Eu vim falar que a venda da casa de Angra dos Reis foi muito bem sucedida e o comprador adorou as fotos, disse que você é muito competente, o que não é nenhuma inverdade – disse Diogo.
Marina estava de braços cruzados, apoiando o peso do corpo na perna direita.
– E só a venda da casa ajudou no pagamento das dívidas que eu tinha, incluindo as suas. E eu vim falar também, Marina – Diogo agora caminhava a passos curtos e precisos – Que se você quisesse continuar só com as fotografias que está acostumada, que poderia. Poderia também voltar pra casa e continuar levando sua vida luxuosa de futilidade.
– Eu falei pra abreviar a conversa – lembrou Marina – O que é que você quer?
– Já falei o quanto sofri por causa dessa sua escolha? Por você ter escolhido usar isso pra me afrontar numa rebeldia tardia e sem sentido? – Diogo estava sentindo o rosto esquentar – Achei que voltar para o Brasil seria apenas pra matar a saudade e mudar a paisagem de suas fotos. Mas você não aguenta ver um rabo de saia, né?
Clara parou no batente da porta e agachou-se, com o coração na mão ouviu tudo o que vinha lá de dentro.
– Você está me ofendendo – disse Marina.
– E você não pensa no quanto fiquei ofendido com as notícias que rodaram o mundo da minha filha saindo de boates com várias mulheres? Andando de mãos dadas na rua?
– O que eu faço ou deixo de fazer não interfere na sua vida, pai! Caramba! Olha quanto tempo já se passou. Eu paguei um preço muito caro por esconder quem eu sou. Você fala do seu sofrimento, mas não pensa nem um pouco no meu. – Marina sentia as lágrimas querendo sair, mas não queria chorar, não queria deixar brecha para o jogo virar contra – Os namorados que arrumei de fachada pra não perder o que eu tinha, pra não perder o seu amor que já era tão pouco... Se você sofreu com essa história eu sofri o dobro.
As palavras de Marina não alteraram uma célula emocional de Diogo que permanecia muito firme na decisão.
– Eu achei que você tivesse mudado, mas pelo jeito... Vou ter que ser radical – constatou o pai depois de um longo suspiro – Ou você põe fim a esse “relacionamento” com essa moça ou esqueça cada centavo que eu mando pra você. A menina que não sabe lavar um garfo vai ter que aprender a se virar – sentenciou categórico, olhando profundamente nos olhos de Marina.
Clara sentiu a boca formar um O que só se fechou quando a mão foi à boca para impedir a emissão de qualquer som que pudesse interromper aquela discussão.
Embora sentisse mais do que soubesse a segurança que Marina lhe passava sobre o futuro das duas, foi impossível Clara não ficar assustada e receosa. Afinal de contas havia enfrentado um pedaço do inferno para chegar ao paraíso e não queria pensar como seria se os seus dias no céu estivessem contados. Clara tinha certeza do amor que sentia por Marina, sentia tão forte que poderia materializá-lo diante de seus olhos. Mas agora estava em dúvida se o sentimento e a intensidade eram os recíprocos.
Os olhos de Marina transbordaram e ela engoliu em seco.
Como dissera outrora o amor do pai era muito pouco, mas ainda assim era amor. E pelo jeito ficaria sem o dinheiro, ficaria sem esse pouco de amor. Sem a presença ausente do homem que de certa forma só queria o seu bem.
Marina odiava desmoronar na frente do pai. Desde que a mãe havia falecido o pai proibira-lhe de ser uma menina “chorona”, e mesmo depois de tantos anos Marina se continha o máximo que podia para não ser aquela menina chorona.
Mas agora era sua felicidade que estava em jogo.
Do outro lado da porta Clara chorava baixinho, pedindo na forma de uma prece pra que não estivesse enganada e que não perdesse o amor que sempre procurou e que havia encontrado no lugar mais inusitado que poderia pensar.
– Tudo que eu sempre busquei na vida foi um amor pra chamar, com todas as letras, de meu. DEIXA EU FALAR – exaltou-se Marina quando o pai fez menção de cortar seu raciocínio – E eu procurei muito, nos lugares mais sujos e perdidos desse mundo. Nunca desisti dessa busca. E nessas andanças atrai muita gente errada, me machuquei muito e machuquei pessoas que não tinham nada a ver com isso. Eu só estava seguindo meu coração.
As lágrimas agora escorriam face abaixo e Marina pouco se importava em enxugá-las.
– Não sabia pra onde o meu coração ia me levar, mas tinha certeza que quando eu encontrasse eu saberia no minuto seguinte que ELA seria a pessoa com quem eu ficaria até meus últimos minutos de vida. E foi assim que me senti quando vi a Clarinha pela primeira vez. Senti aqui dentro – Marina bateu no peito que protegia o coração acelerado – Que era por ela que o meu coração ia bater. E eu não ia deixar de fazê-la feliz, e nem de me fazer feliz, por que você, o vizinho, o padeiro, ou quem quer que seja acha errado. A Clara é o amor da minha vida. A pessoa que me mostrou que não preciso de muito pra viver, que isso tudo é tão efêmero que só importa o que você leva com você e não o que você tem. Então, Diogo, se você quiser tirar tudo isso aqui, tire. Só não me peça pra me afastar da mulher que amo.
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