Inquietude

15 É Amor


Notas iniciais
Enquanto a Clara na novela não se resolve, aqui na fic ela já está pra lá de resolvida.

Era bem cedinho para aqueles que haviam dormido pouco ou passado a noite acordado quando a campainha do apartamento de Helena soou.
Rosa foi abrir a porta e se deparou com Chica aparentemente aflita. Mãos que não paravam e manchas amarronzadas ao redor dos olhos
– O Ivan já acordou? – perguntou a mãe de Helena à Rosa.
– Ele deve estar pra acordar, isso se ele conseguiu dormir – disse Rosa – Vi o bichinho se remexendo todo na cama quando passei no quarto da Luiza essa madrugada.
– Vou acordá-lo, ele vai sair comigo – explicou Chica indo para o quarto da neta.
Chica entrou no quarto de Luiza e contemplou a imagem por alguns segundos. Ivan dormia nos braços da prima que lentamente acordava.
– Vó? Que horas são? Aconteceu mais alguma coisa? – perguntou a neta se mexendo pouco para não acordar Ivan.
– Eu vim buscar o Ivan – disse Chica entrando – Vou levá-lo pra passear comigo.
– Ah! Que bom, ele vai adorar. Ele acordou várias vezes a noite assustado, chamou o Cadu, a Clara... – disse Luiza mexendo no cabelo do primo – Mas não é muito cedo?
– É menos cedo do que a senhorita pensa, pode ir pro seu banho que eu vou acordar o mocinho aqui.

Clara acordou com a boca seca e os olhos pesados. Marina dormiu sobre seu braço esquerdo deixando-o adormecido. Olhou no relógio de cabeceira e assustou-se quando se deu conta de que passava das nove horas da manhã. Com pressa, mas sem querer acordar Marina, Clara levantou-se da cama e foi para o banheiro. Olhou-se no espelho e não se reconheceu. Estava abatida e com olheiras profundas.
Fechou os olhos apoiando as mãos na beirada da pia e respirou fundo desejando que tudo aquilo tivesse sido um sonho, mas os gritos de Cadu ecoavam em sua mente.
Clara abriu os olhos quando sentiu os braços de Marina ao redor de sua cintura e a boca da fotógrafa tocando seu pescoço.
– Acordou faz tempo? – perguntou Marina beijando Clara no pescoço mais uma vez antes de pegar sua escova de dente.
– Não – respondeu Clara dando dois passos para o lado, liberando a pia para Marina – Não deveria ter dormido tanto. Era pra eu ir cedo lá na casa da minha irmã pegar o Ivan pra conversar e acabei dormindo mais do que esperava.
– Está com medo do Cadu, como dizem, fazer sua caveira com o Ivan?
– Depois de ontem acho que nada mais me surpreende vindo do Cadu – respondeu Clara bufando entristecida.
– Se você quiser pode pegar o carro, não vou poder te acompanhar por que lá pelas 11h chegam as modelos para o ensaio.
– Você já fez muito por mim, Marina. Não quero te atrapalhar – disse Clara parando atrás de Marina e beijando seu ombro.
A fotógrafa arrepiou-se.
Clara acariciou as costas de Marina, afastando o cabelo da fotógrafa e apoiando seu queixo no ombro nu. Esboçou um sorriso e Marina sorriu de volta enquanto se olhavam através do espelho.
As duas voltaram para o quarto e em vez de se trocarem para começarem as tarefas do dia, deitaram mais um pouco.
Marina tinha Clara sobre seu peito. Acarinhava-a nos braços e cabelos e ainda achava que aquilo era insuficiente. Sentia-se inútil por não fazer algo realmente palpável, mas sabia que só por estar ali, ao lado dela como na noite anterior, já era o suficiente.

Ricardo deixou Chica e Ivan na porta da casa de Marina e se ofereceu para acompanhá-la, mas Chica disse que não precisava, aquilo era um assunto que ela deveria resolver apenas com a filha mais nova. Garantiu a Ricardo que não cometeria nenhuma loucura que colocasse em risco a vida da prima dele.
Chica ficou admirada com a grandeza e beleza do lugar. Ivan que ainda estava meio sonolento abriu bem os olhos quando se deparou com a piscina gigantesca e cheia. As árvores de um verde vivo chamavam a atenção tanto quanto os cantos dos passarinhos que ali estavam.
Vanessa descia as escadas munida de seus óculos escuros e sua cara amarrada.
– No que posso ajudar? – perguntou aproximando-se de Chica e Ivan.
– Eu vim falar com a minha filha, a Clara – respondeu Chica – Você pode chamá-la pra mim?
Vanessa estremeceu. Não sabia se Marina já descobrira quem era o autor, ou no caso, autora, das fotos reveladas. Não havia visto que horas ela tinha chegado e nem poderia imaginar que Clara estava com ela. Estremeceu um pouco mais quando se deu conta de que o tiro havia saído pela culatra.
– Pode me acompanhar – disse Vanessa virando-se de costas e entrando na casa.
A ruiva pediu um minuto. Foi ao quarto de Marina e viu que ela e Clara estavam acordadas e pareciam muito bem. Na ponta dos pés voltou para a sala de jantar e disse que Chica e Ivan poderiam subir as escadas, virar a direita e logo encontrariam o quarto.
– Você pode ficar com o meu neto? Preciso conversar com a Clara sozinha – disse Chica.
– Claro! – respondeu Vanessa sorrindo amarelo – Ah! Olha quem chegou, a Flavia adora criança, não é?

Clara abria as cortinas e as janelas dando bom dia ao Sol que brilhava altivo e intenso.
– Clara?
Ouviu a voz familiar lhe chamando e virou o rosto em direção ao som. Parou o que estava fazendo e foi direto ao encontro de Chica.
A mãe emocionada abraçou a filha caçula, cobrindo-a de beijos.
Marina levantou-se da cama e caminhou até elas. Ficou um pouco afastada esperando o momento certo para cumprimentar a sogra. Riu quando tal pensamento surgiu.
– Eu posso... Conversar com você... A sós? – perguntou Chica olhando para Marina.
Clara olhou Marina com serenidade. A fotógrafa passou por elas dando um beijo no rosto de Clara e tentando esboçar um sorriso para Chica, mas o máximo que conseguiu foi erguer fracamente um canto dos lábios. Ficou temerosa do que aconteceria depois daquela conversa que não participaria, nada mais poderia dar errado. Nada mais poderia afastar aquelas almas que haviam se encontrado. Mas a verdade que Marina não queria encarar é que sim, as almas poderiam se separar.
Clara direcionou a mãe para o sofá que ficava em frente à cama de Marina. Sentaram-se sem desgrudar os olhos.
– O que é isso na sua boca? Foi o Cadu que fez, não foi? – perguntou Chica tocando levemente os dois pontos na boca de Clara.
– Não é nada demais – garantiu Clara – Você já está sabendo de tudo, né? – perguntou.
Chica confirmou com um menear de cabeça quase imperceptível.
– Mas eu quero saber de você, preciso ouvir da sua boca – disse Chica em seguida – É verdade que... Você e a prima do Ricardo...
– Fala mãe, não precisa ter medo, pergunta o que você quer saber – Clara estava tranquila e tentava passar essa tranquilidade para a mãe enquanto segurava suas mãos.
– Você largou o seu marido pra ficar com outra mulher? A Marina e você estão tendo um caso?
– Não é um caso mãe, é um relacionamento como qualquer outro – respondeu Clara – E eu terminei sim com o Cadu, por que... Eu não conseguia mais esconder essa coisa poderosa que me arrastava pra cada vez mais perto da Marina. Eu a amo mãe.
Chica ficou visivelmente chocada com a confissão da filha mais nova. Não conseguia assimilar todas as informações que ouvira na noite anterior com as novas que surgiam no momento.
– Como assim ama? Me desculpa, filha... É muita coisa pra minha cabeça... E o Ivan? Você já sabe como vai contar isso pra ele? Como você pode ter certeza disso que está sentindo? Não é só uma curiosidade por que a Marina é... Bonita, sedutora... Você tem certeza?
– Calma. Uma pergunta de cada vez – Clara levantou-se andando de um lado para outro, captando todas as cores presente no quarto, respirando fundo para descarregar todas as informações que a mãe queria.
Clara sentou-se na cama de Marina com os olhos marejados.
– Eu vou contar a verdade para o meu filho, dizer que eu estou apaixonada por uma mulher maravilhosa que só consegue me arrancar sorrisos, que me faz feliz só por existir.
– Ele é muito pequeno... – interrompeu Chica.
– Não pequeno o suficiente para entender que eu e o pai dele já não nos entendemos mais e que a mãe dele pode ser feliz com qualquer pessoa, sendo ela mulher ou homem. Eu sei que ele vai entender que a mãe dele quer ser feliz com outra mulher e que isso não vai mudar o amor que eu sinto por ele. E eu tenho certeza do que eu sinto, mãe. Mais do que me completar, a Marina me transborda, sabe?
– Eu só quero que você me responda uma coisa: Você está feliz? – perguntou a mãe ajoelhando-se em frente à filha.
– Sim – respondeu Clara sorrindo.
– Então é isso que importa pra mim – Chica sentou ao lado da filha e a abraçou forte – Meu bebê... Meu bebê... – repetiu Chica embalando a filha – Eu estou aqui, tá? Ainda não sei como lidar com isso, não consigo entender, mas te respeito e meu amor por você não vai mudar. Só me dá um tempo pra processar tudo isso.
Chica respirou fundo e olhou Clara nos olhos.
– Eu só queria ter tido a coragem que você teve agora, abandonar seu pai e, mesmo que sozinha, buscar minha felicidade – confessou a mãe – Te trouxe uma surpresa, deve estar correndo por ai.
– O Ivan veio com você? – perguntou Clara já indo atrás do filho.
Clara ouviu risadas vindo do estúdio de Marina e quando entrou se deparou com a fotógrafa e o filho rolando no tapete, trocando cócegas e risadas.
– Chega! Você me venceu – disse Marina com lágrimas nos olhos.
– Você é fraca – disse o menino partindo pra cima pra mais uma onda de cócegas.
– Quero brincar também – disse Clara pulando em cima dos dois.
– Mãe! – gritou Ivan saindo de cima de Marina e pulando em Clara, abraçando-a com os braços e pernas.
Marina levantou-se e caminhou até Chica. Pelo clima que sentia no estúdio, concluiu que a conversa havia sido melhor do que esperava e que, pelo menos por enquanto, não havia mais nada a temer.
– Se eu souber que você magoou, ou fez qualquer coisa que machucou a minha filha eu te procuro até o fim do mundo pra acabar com você – disse Chica olhando mãe e filho brincarem.
Marina engoliu em seco e garantiu:
– Eu não faria nada que pudesse magoar a Clarinha, ela é a minha vida agora.