Inominável
15 Desejo de Duas Partes

Eles e principalmente ela, demoraram pouco mais de vinte minutos até entender que não iria chegar a algum lugar só com essa informação. Que o ponto de partida existia, mas a porta para o resto do caminho não.
A garota então se levantou do lugarzinho no chão onde tinha escolhido sentar durante a conversa. Com certa pressa tirou as luvas quando ficou de pé. E depois a jaqueta, a camiseta e por fim a calça.
Kevin arregalou os olhos, um tanto chocado com a visão de uma garota de lingerie na sua frente. A julgar pela maneira que ele procurou se encolher chocado era apenas um dos sintomas.
Sam se viu contagiado pela visão chocante das cicatrizes desenhadas. Tinha visto o braço, mas não fazia ideia da forma como todo o corpo era tomado pela grandiosidade daquela arte.
Já Dean foi o único que fez um som. Apertou as sobrancelhas contra o rosto irritado e preferiu ficar quieto, cruzando os braços.
Elle parou na frente de Kevin com os braços abertos. Muito lentamente ela girou sobre os pés. Deixando que o profeta observasse cada pedaço do corpo dela. Ele até que tentou prestar atenção nas curvas do corpo dela. Elle era bonita de mais para ser ignorada. Mas mesmo assim não foi capaz. Os desenhos em sua pele chamavam atenção demais. Era como se gritassem que para que ele os tocasse.
Era difícil prestar atenção nos desenhos e mesmo quando ele tentava por míseros segundos seus olhos bambeavam como se estivesse lendo em árabe e sendo sacudido dentro de uma lava-louças velha em cima de um carro andando por uma rua de paralelepípedos.
– Eu... Eu não consigo traduzir só olhando. – ele engasgou com o que diria a seguir — Eu preciso tocar e quando eu toco...
– Não acho que essa seja uma boa ideia. – e ali estava Dean, com o braço esticado na direção de Elle e a saia da garota presa na mão. Elle rolou os olhos, mas aceitou a saia e se vestiu.
– Eu nem poderia – anunciou Kevin tentado se livrar de qualquer acusação que Dean pudesse estar fazendo com ele em sua cabeça.
– Ele vai apagar. – Sam tentou ajudar.
Elle era realmente bonita, tinha um ar primitivo e rustico que ganhava detalhes poderosos quando vista assim, apenas vestida de pele. Porém, mesmo que a constatação de sua beleza fosse inegável não sentia nada além de curiosidade. Já Kevin, a julgar pela história que conheciam, o nerd que vira profeta, devia ter visto poucas mulheres com aquela daquele jeito. Para ele descobrir o que era a garota se tornava mais interessante.
– Então temos que descobrir como desligar a trava do Kevin. – sugeriu Sam olhando a cena de fim de noite. Kevin ainda parado no mesmo lugar do sofá. Dean encostado no canto da porta com uma garrafa de cerveja na mão. Sam sentado na poltrona com outra e Elle sentada no chão entre os três.
– Como? – começou Dean tomando um grande gole da cerveja – Nós não sabemos o que ela é, porque ela é, como ele foi travado, porque ele foi travado.
– Posso sugerir uma coisa? – Kevin foi quem tentou organizar as coisas. Aparentemente todos os outros estavam presos de mais na história e ele bem sabia que quando olhamos muito para um lugar a informação se embaralha e só piora — Vocês chegaram agora. Já comeram? São quase três da manhã. Durmam um pouco e amanhã começamos a pesquisar por todos esses livros, os quatro juntos e calmos.
– Parece uma boa ideia. – Sam concordou enquanto se levantava com certo esforço da poltrona, os ombros sendo levados para trás do corpo era o sinal de que ele se alongava por sono, as noites em claro em Saint Andrea ainda não tinham sido descontadas – Elle precisa de um quarto.
– Ela fica comigo. – respondeu Dean com um sorriso que cheirava a cerveja. Ele deu as costas caminhando para o quarto e fazendo o tipo que fala e não se importa. Com elas as coisas não eram tão fáceis assim.
– Isso foi uma decisão ou um convite? – ela perguntou ficando de pé, um tom sério e um olhar ameaçador. Não parecia ter gostado da cantada. Ou talvez só não tivesse entendido.
– Foi um desejo – Dean explicou sem se virar para trás, pegando outra cerveja na geladeira.
– Aparentemente de apenas uma das partes – com uma postura de diplomata Elle se virou para Kevin e para Sam – Eu gostaria um quarto, posso dormir aqui na sala mesmo qualquer coisa. Não tenho problemas com essas coisas de conforto.
– Não, não. Nós temos muitos quartos – Kevin parecia um bom anfitrião, pelo menos até se lembrar dos detalhes – Eles só não estão limpos – o asiático torceu a boca e Elle riu. Era mesmo uma casa de garotos solteiros.
– Só preciso de alguns lençóis.– vento húmido da chuva invadia a janela fazendo com que seus poros acordassem com o frio, como se a tempestade de Saint Andrea os tivesse seguido até ali
– Lençóis limpos nós temos – disse Kevin animado em poder ajudar. Não recebiam visita com frequência. Não recebiam visita nunca.
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O sol já estava quase nascendo quando Dean percebeu a figura de alguém atravessando a porta e caminhando em direção a sua cama. O sono que ainda era a maior parte do seu cérebro e a falta de luz do pré-amanhecer não permitiam que ele a reconhecesse. E ele também não estava muito interessado em descobrir antes de atacar.
Com um movimento rápido pegou a arma que deixava debaixo do travesseiro e apontou para o corpo que nesse exato momento girava sobre os pés para fugir da mira dele.
O rosto encontrou o feixe de luz que vinha da janela e Dean teve tempo de não disparar quando percebeu que era apenas Elle e seu olhar inebriante.
Com a delicadeza e a velocidade que lhe cabia a garota segurou seu pulso e abaixou sua mão até o criado mudo, obrigando Dean a soltar.
– Achei que o desejo fosse apenas de uma das partes – o tom de desdém dele tentava enganar a respiração que começava a ofegar, afinal tinha uma garota se arrastando em cima dele.
Ela não respondeu, apenas encaixou os lábios no pescoço dele mais uma vez. Ele podia gostar daquilo. De uma garota que tinha como marca beijos no pescoço. E mais tarde nas orelhas. E mais tarde em qualquer lugar.
O cheiro do cabelo de uma mulher em seu travesseiro. Um corpo ao qual pudesse se encaixar de todas as maneiras que quisesse. Pernas para entrelaçar as suas. Seios para aquecer as mãos e um pescoço para beijar quando sentisse vontade.
Dean não sabia explicar o porquê. Não se esperava gostar de alguém. Não achava seguro gostar de alguém. Por isso tinha escolhido por tantos anos apenas a diversão do corpo. Mas de alguma maneira Elle acalmava também sua alma. Ele tentou fechar os olhos imaginando que enquanto aquele corpo estivesse por ali estaria bom. Não mais que isso. Gostar de alguém sempre significaria perigo e com o que se preocupar.
Mas não seria tão conveniente não ter que se preocupar com alguém imortal? Que não se fere?
Ao acordarem na manhã seguinte encontraram apenas Sam sentado na mesa de estudos. Uma grande garrafa de café ao seu lado. Depois de preguiçosos desejos de bom dia o casal se sentou. Dean serviu mais duas xícaras do café e pegou um dos livros que Sam já tinha separado para ler. Elle esticou a mão para um dicionário de runas.
Ficaram ali em silêncio, cada um lendo sua parte, até Kevin sair do próprio quarto vinte minutos depois. Ele parecia com bem mais energia do que o resto dos pesquisadores.
– Tive uma ideia. – e quando ele se anunciou todas as cabeças foram na sua direção ansiosas pela continuação. Mas Kevin apenas começou a mexer em algumas caixas trancadas e empoeiradas. Liberando pó de antiguidade por todo o local.
– Se você nos disser o que está procurando podemos ajuda-lo – sugeriu Sam com um tom irônico, mas simpatico.
– Isso sim é um bom plano – todo o corpo de Dean já estava virado na cadeira, na tentativa de observar o que Kevin procurava.
De dentro de uma caixa de veludo preto ele tirou um saquinho de juta velho, e por sua vez, de dentro do saquinho, um colar com um pingente rústico feito com uma pedra preta manchada de marrom e completamente arranhada, presa ao cordão de tira de couro com fios de cobre enrolados.
– E isso é? – perguntou Elle interessada, ficando de joelhos na cadeira.
– Um Filtro de Energia. – disse Kevin com um sorriso. Pelos olhares apenas Sam tinha entendido o plano. Kevin fez o favor de explicar no alto do seu entusiasmo. – Eles são como os Filtros de Pesadelos, mas filtram qualquer coisa que possa fazer mal ao seu dono. Tudo o que preciso fazer é – enquanto falava Kevin mexia em outra prateleira de onde tirou uma adaga – Banhar isso com meu sangue – com um corte na palma da mão o profeta deixou o líquido pingar sobre o pingente e o que aconteceu foi, que ao invés de escorrer o sangue penetrou a pedra, lhe dando novas manchas marrons.
– Bruxos viveram séculos apenas usando Evill Catchers. Eles têm uma amplitude de defesas muito grande. – disse Sam empolgado com uma ideia tão simples.
– Na verdade – começou Kevin enquanto colocava o colar e o arrumava no centro do peito – Eles tem uma configuração muito básica. Se faz mal ao dono, ele recebe para si.
– De qualquer maneira – continuou Sam – Vamos esperar que o Filtro resista ao que quer que seja que Elle tem.
A garota riu de leve.
– Até porque – Dean voltou a sua posição normal na cadeira, esticando as pernas e tomando um gole do seu café antes de continuar. Ele estava certo que seria uma observação inteligente e queria a atenção necessária — Até porque ela também tem algo que a protege de qualquer coisa – com um sorriso piscou para a morena.
Ela revirou os olhos, pedindo que ele parasse de ser ridículo daquele jeito rápido.
– Bem. O que de mal pode acontecer? Eu desmaiar de novo – Kevin riu com um leve toque de desespero. Ele estendeu a mão a Elle e os dois caminharam na direção da sala. Dean e Sam os seguiram logo atrás.
Elle e Kevin estavam sentados no tapete da sala. Na posição de lótus se olhavam um de frente para o outro. Atrás de Kevin que apertava esperançoso o medalhão em seu peito várias almofadas para o caso dele apagar mais uma vez. Elle apenas respirava fundo, com as mãos estendidas sobre os joelhos, as palmas para cima esperando pelo toque.
– Ele não devia comer alguma coisa antes?
– Cala a boca, Dean. –sussurrou Sam para que os outros dois não perdessem a concentração.
Kevin respirou fundo, assim como ela, antes de estender as próprias com as palmas para baixo. As mãos dele já estavam sobre as dela, faltavam alguns poucos centímetros para que se tocassem. Kevin moveu as dele um pouco mais para frente e por fim as abaixou, os dois assim se seguraram pelos pulsos.
Elle fechou os olhos. Kevin abriu os dele de uma maneira que parecia humanamente impossível. Para Sam e Dean se passaram oito minutos de uma cena congelada para os dois. Para Elle a sensação era de um sono que apenas retira a energia ao invés de repô-la.
Kevin não soube dizer o que sentia.
Quando o oitavo minuto chegou a pedra no peito de Kevin começou a balançar com força. O corpo dele também tremia como alguém que tem um ataque paraplégico. Antes que o nono minuto chegasse a pedra em seu peito explodiu na direção do rosto de Elle.
A dor e o susto fizeram com que ela se soltasse de Kevin e levasse a mão até o rosto, onde pedaços quentes de pedra cortante lhe acertava a pele e um deles o olho direito.
Quando solto Kevin caiu para trás. Apagado como antes.
– Droga! O Filtro não aguentou a potencia. – Sam correu para ajudar Kevin, coloca-lo em uma posição mais confortável. Dean correu para olhar o rosto de Elle que a berros estridentes tentava tirar os pedaços de vidro.
– Ah! Está queimando! – de perto Dean podia ver que alguns deles tinham literalmente entrado pela pele, as pontas não eram mais puxáveis.
Com um salto ele correu para procurar uma pinça ou qualquer coisa que funcionasse para puxar o vidro no rosto dela. Sam tentava acordar Kevin.
– Você precisa tentar não se mexer – gritou Dean energicamente para a garota que se debatia deitada no chão. Ele sentou em cima dela, segurando o tronco com os joelhos. Com Kevin acordado, ainda que fraco, Sam correu para ajudar Dean a segurar Elle. O rosto dela começava a ganhar o desenho de veias negras. Aquilo devia estar além de vidro quente na pele. O amuleto estourado estava a envenenando magicamente. – Calma, gatinha. Me ajuda.
Elle mordeu a própria boca tentando ficar em silêncio. Sentiu tocar na língua um dos pedaços do vidro. Mordeu o próprio lábio ao ponto de mastigar um terço dele. Com grito cuspiu fora o fragmento que tinha entrado por ali. Dean tentou não se assustar com a cena dela automutilando a boca e focou no olho direito. O mais feio de todos os ferimentos.
Enquanto ela gritava ele tentou manter a pálpebra dela aberta. Antes de enfiar a agulha, único objeto que tinha encontrado, mirou bem onde estava o intruso. O pedaço de vidro ponta justamente na linha que separa a íris do globo ocular.
– Respira fundo – e quando ela se concentrou em fazer aquilo e não gritar ele enfiou a agulha sem esperar que ela terminasse o ato. Mexeu com a ponta da agulha dentro do olho dela quatro vezes antes de encontrar a ponta interna do vidro e empurrá-lo para fora, onde com a outra mão o puxou de dentro de um mar de sangue.
– Eu to cega! Eu não enxergo! – Elle gritava e apertava os olhos e a boca. Dean não se deixou levar pelo desespero dela mesmo que ficasse constantemente levando joelhadas nas costas.
Sam chegou para ajudar, apertou os pulsos dela a imobilizando e Dean se concentrou para que os solavancos não o atrapalhassem.
Kevin fraco apenas observava a cirurgia de emergência. Dean tirando cada pequeno fragmento de vidro que tinha entrado no rosto da garota. Alguns minutos depois Sam tinha visão o suficiente para ver alguns fragmentos menores e menos profundo pulando para fora da pele sozinhos.
O fim foi a parte mais fácil. Ela já não gritava. E apesar da quantidade de sangue que lavava o rosto dela Dean já estava mais acostumado a encontrar e tirar o pedaço de vidro com facilidade. As veias negras ajudavam a indicar onde estavam, irradiavam do ponto central.
No último ele saiu de cima dela, permitindo a si mesmo se jogar no chão e respirar. Elle ainda gemia de dor. Kevin lhe trouxe um pano úmido para limpar o rosto, mas entregou para Sam, que delicadamente passou a limpar as áreas menos feridas.
Recompostos a visão do rosto de Elle era desastrosa. O olho direito estava inchado e com partes dilaceradas, parecia ter sido mastigado e ainda escorria sangue. O resto era buracos e mais buracos de carne viva. Isso sem falar no lábio inferior que tinha sido decepado pelos próprios dentes.
Quando se colocou sentado no chão Dean olhou para ela e passou a mão pelo rosto deixando a boca se abrir e o queixo cair. Ele torceu a boca, levantou uma das sobrancelhas e pensou antes de falar.
– Você vai melhorar?
Elle fez que sim na cabeça. Esgotada não era capaz de levantar do chão. Os dedos apenas acariciavam o tapete velho em um gesto de inocência.
– Desculpa. – sussurrou um Kevin também cansado.
– Você tentou cara. – com um tapinha no braço dele Sam tentou consolá-lo – Mas... Vocês tiveram ligação por algum tempo. O que viu? – Kevin fechou os olhos no primeiro segundo, como se quisesse se lembrar direito do que tinha lhe acontecido.
– Elle é diferente. Ela não é uma mensagem. As pedras com a palavra de Deus eram como uma carta. Elle é como uma poesia... – ele franziu a testa como se não gostasse da escolha de palavras – Na verdade ela é como uma obra de arte. Um desenho onde existe uma lógica que oferece uma sensação e não uma informação. Entendem?
– Não. – Elle se obrigou a levantar e com o único olho bom focou em Kevin esperançosa.
– Você não é um recado. É isso que eu quero dizer. – ele deixou a cabeça cair de lado e suspirou decepcionado.
– Então o que eu sou? – a voz dela saiu fraca.
– Eu não sei. – a voz de Kevin saiu mais baixa o rosto indo na mesma direção — Eu não consigo ver. Quando eu chego perto de sentir o que você transmite eu apago. – ele levantou os olhos sem levantar a cabeça — Desculpa.
– Precisamos de um novo plano. – informou Sam indo em direção a biblioteca.
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