Inominável
16 Auras Azuis

Juntos os quatro passaram os próximos dois dias mergulhados em todo o tipo de informações que a base dos Homens das Letras podia dar a eles. Às vezes ficavam horas em silêncio. Às vezes viravam a noite discutindo em ciclos infinitos.
Na manhã do terceiro dia Sam acordou a todos na casa batendo na porta dos quartos quando ainda era seis da manhã. Ele preferiu ignorar o som que vinha do quarto de Dean e acordar Kevin primeiro.
E assim, quando o casal de designou a fazer companhia a Kevin e Sam no café da manhã eles puderam perceber que em cima do sofá tinham malas arrumadas.
– Para onde vamos? – perguntou Dean pegando uma tira de bacon e levando a boca, para depois limpar os dedos no roupão de banho.
– Vamos encontrar com James. Eu liguei para ele ontem de noite. Encontramos com ele na hora do almoço. – explicou Sam enquanto Kevin comia com ares felizes de mais.
– Isso deveria fazer algum sentido? – perguntou Elle sentando-se na mesa ainda vestida com a camisa do ACDC que vinha usando como pijama. Ela não escondia mais sua pele dos rapazes o tempo todo e vivia andando pela casa de camiseta e shorts de dormir a segunda parte a pedido de Dean.
– James é um bruxo amigo nosso – explicou Dean que não sabia mais como terminar o assunto.
– Sam teve uma ideia. – começou Kevin quase quicando na cadeira, engolindo com pressa o pedaço de pão para continuar falando – Ele acredita que a trava pode estar ligada ao contato físico. Por isso, se eu for capaz de fazer a leitura em níveis astrais podemos burlar a trava.
– E você vai ser capaz de fazer a leitura em níveis atrais? – perguntou Dean desconfiado do plano – O que eu to dizendo é que quando você fazia a leitura das tabuas você as tocava e agora com Elle parece o mesmo processo. Você perde a trava, mas também não perde o acionador?
– Eu ainda não sei o que vou fazer – respondeu Kevin tentando continuar parecendo esperançoso.
– A gente acredita que em níveis astrais as possibilidades de leitura aumentem. Os limites serão distorcidos e talvez Kevin descubra uma nova maneira de ler. – explicou Sam jogando alguns sacos de biscoito na mala.
– Então vocês não sabem como fazer ainda? – perguntou Elle disfarçando o suspiro com um gole no café.
– Você tem uma ideia melhor? – desafiou Sam calmamente.
– Não estou reclamando dessa. Apenas me inteirando dela.
Em uma mistura de mal humor momento e felicidade duradora Elle saiu andando para o quarto com um torrada presa a boca e uma xícara de café cheia na mão.
Uma hora depois os quatro já estavam dentro do Impala.
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– Retomando – repetiu James agora já sentado no chão com Kevin ao seu lado. – Você precisa relaxar. Quando chegar ao nível astral quanto mais relaxado estiver mais eu conseguirei mantê-lo por lá. A realidade está distorcida. Você não poderá tocar nas coisas, mas suas sensações serão amplificadas. Tato, olfato, paladar, visão, audição e principalmente, o sexto sentido. Tudo isso se tornará um vulcão de estímulos.
– Parece uma viagem de lsd para um profeta – comentou Kevin com um riso débil. O garoto estalava os dedos, nervoso.
– Você já usou LSD? – Dean fez um cara de “okay, isso soou legal”. Sam lhe deu um tapa atrás da cabeça para deixar James continuar falando. Portia não fez questão de segurar o riso.
– Você precisa apenas se concentrar no estimulo que for do seu interesse. – James ignorou os outros três e continuou falando com Kevin de forma concentrada. Elle era a única que os acompanhava no mesmo ritmo aplicado. – Pode ser difícil encontrar já que...
– Eu não faço ideia do que estou procurando. – disse Kevin fechando os olhos. Suas mãos apertaram o joelho de James e o bruxo entendeu que ele estava pronto. O bruxo tocou o joelho do profeta e juntos, como em um estalar longo, eles reapareceram no mesmo quarto.
Portia estava ao lado de Dean e Sam, que em pé no canto do quarto observavam Elle sentada no chão, de frente para os corpos imóveis sentados na beirada da cama da própria dupla que os observava.
– Kevin, você está bem? – perguntou James olhando o espectro ao seu lado. A alma de Kevin tinha um brilho diferente das que o bruxo já tinha visto. Mesmo seres místicos como monstros e familiares não tinham o mesmo brilho que Kevin. Uma luz azulada e fria. Estar de frente para aquela alma era tão bonito que chegava a ser reconfortante.
James era capaz de sentir vibrações ritmadas ressoando pelo aposento. Uma espécie de onda energética que tocava os corpos e rebeverava pelo local. Ele tentou não assustar Kevin, mas quando olhou para seu companheiro de viagem percebeu que ele estava perdido na visão de Elle.
Como Kevin ela emitia uma luz diferente, mas a intensidade dela era assustadora. Elle apenas não iluminava quilômetros com sua luz própria, pois a luz, ao contrário do que era comum a qualquer ser humano, era emitida para dentro e não para fora. Como um reator nuclear.
Kevin olhou para James a procura de respostas, mas a expressão de igual susto do bruxo não foi capaz de acalmar o profeta. Kevin fechou os olhos por alguns segundo e sem respostas desabafou.
– São mesmo muitos estímulos.
James queria ter coragem de dizer que aquela não era uma situação normal. Que a maneira como Elle distorcia o nível astrofísico era inovadora, e como qualquer coisa sem explicações, assustadora. Tudo o que sobrou a James foi o próprio conselho, se concentrar no que estavam procurando.
O espirito de Kevin se ajoelhou perto de Elle e com as mãos começou a contornar a energia que ela emitia. Ele não tocava seu corpo, apenas movia as mãos a uma distância segura, mas capaz de formar uma ligação. Seus movimentos lembravam o passe espiritual que os kardecistas transmitiam uns aos outros. Kevin já tinha passado por aquela experiência, mas sentia que o passista não devia receber energia.
Ele podia sentir seu corpo se energizando, suas mãos estavam canalizando a energia vibrante de Elle para ele mesmo. Ele não era capaz de explicar se aquilo acontecia porque ela fornecia a sensação ou porque ele era um catalizador natural do sobrenatural.
Conforme percorria o corpo dela com as mãos na distancia segura, Kevin percebia que áreas diferentes do corpo de Elle lhe traziam sensações diferentes. Ele ainda não era capaz de traduzi-las, mas cada vez mais se sentia drogado pela sensação de consumir o que quer que Elle estava lhe oferecendo.
E então, sem aviso Kevin perdeu o controle de si mesmo. Seu corpo e sua projeção começaram a balançar. De uma maneira tonta e lenta as cabeças giravam em cima dos ombros e os olhos rolavam sem foco. Como um zumbi Kevin estendeu as mãos na direção de Elle e a abraçou. Assustado James fez a primeira coisa que lhe passou pela cabeça.
O som de um mantra invadiu o quarto onde Sam, Dean e Portia se entre olharam assustados. Elle também ouviu, mas permaneceu parada com a grande força de vontade que sempre demonstrava. A voz era de James, mas sua boca não se mexia. O plano astral e o material estavam se misturando de uma maneira esquisita.
Com o pensamento preso em uma projeção James não tinha muito o que fazer. Se levasse Kevin de volta ao plano físico enquanto nem sabia o que podia se passar com o rapaz poderia mata-lo. E matar um profeta não era o tipo de carma que ele queria para a vida. Se salvasse a vida daquele cara provavelmente estaria na próxima bíblia e isso sim parecia o tipo de coisa com a qual ele poderia lidar.
O cântico mantinha Kevin sobre o controle do bruxo. Uma espécie de marionete. Em termos praticamente científicos James estava dividindo o fardo de Kevin dentro do próprio corpo. A ideia em base parecia ser algo esperto, mas não funcionou exatamente como se esperava. Kevin tinha um fardo grande para lidar, assim como James agora que somava dois feitiços poderosos a sua linha de magias ativas.
O resultado foi confuso. James pode sentir Kevin em transe e perceber que o corpo dele estava recebendo uma série de energias estranhas, porém reconfortantes vindas de Elle. Como James não era um profeta ele não as entendia e por isso não ficava drogado. Foi o suficiente para conseguir afastar Kevin de Elle sem que a ligação que os outros dois estavam vivendo fosse quebrada bruscamente.
Por sorte, por alguns segundos, Kevin fez ligação visual. A intenção era um óbvio pedido de ajuda, prontamente atendido. James aproveitou o curto segundo em que a ligação se fortificou entre os dois para leva-los de volta.
Quando abriram os olhos a primeira coisa que viram foi Elle ainda sentada no chão dura e com a cabeça erguida. Ela não abriu os olhos por algum tempo.
– E então? – perguntou Sam indo na direção de Kevin que parecia tonto. Portia foi ajudar James a se recompor e Dean se jogou de joelhos no chão para checar como Elle estava.
– Eu não pude ler. De novo não pude ler. – começou Kevin tremendo e prendendo a mão na própria calça, irritado – Por que tem que ser tão difícil? A ligação foi feita, mas era muito difícil. Demorei meses para decifrar as tábuas... Poderia demorar anos para decifrar Elle com toda essa situação de plano astral e falta de texto lógico e apenas sensações e... – Kevin falava tão rápido que a frustação de sua voz era compreensível.
– Que merda. Nada vai dar em lugar nenhum nunca nessa merda toda. – sussurrou Elle desanimada deixando o corpo cair deitado no chão com os braços abertos e uma lufada de ar mal humorada.
– Espera. Eu tive uma certeza. – James se meteu na conversa quando recobrou o ar – É divino. O que você tem dentro de você tem a ver com o céu. Kevin tem a mesma energia. Já lidei com alguns demônios... Eles não são minha especialidade é claro. Mas demônios tem um tipo de energia exata.
Todos os olhos do quarto se viraram na direção do bruxo sentado na cama.
– Alguns bruxos são capazes de enxergar a aura das pessoas e a cor da aura das pessoas conforme o humor ou mesmo a personalidade dessas pessoas. Não é muito meu caso, mas em plano astral isso fica mais óbvio. Eu não costumo ser capaz nem mesmo de enxergar a aura de humanos em plano astral, mas Kevin e Elle tinham um tipo de energia muito particular e claramente com a mesma raiz. Se Kevin é um profeta de Deus... Elle só pode ser uma criatura divina também.
– Isso a gente meio que já sabia não é? – Dean tentava encontrar respostas, mas no final das contas as pontas nunca se encaixavam. O seu tom era quase grosseiro ao favor que James lhes prestavam.
Cada vez mais as pessoas que se envolviam naquela história giravam em círculos. Ninguém os levava a lugar nenhum, mais e mais especialistas com mais e mais ideias próprias, mas nada que levasse até a resposta.
– Existe uma diferença muito especial entre os dois. Elle vibra para dentro – continuou James deixando a revolta de Dean para lá. Quando os olhos do bruxo percorreu o quarto para continuar falando com todos percebeu que Portia sabia que Dean estava levado de uma maneira muito pessoal pela história.
– Qualquer alma está constantemente explodindo energia, dividindo energia, oferecendo energia. A energia de Elle está implodindo. A energia dela vibra para dentro. É forte o suficiente para que não caiba dentro do corpo dela e por isso sou capaz de vê-la, mas definitivamente não está indo para fora, está se guardando.
– Quer dizer que tem algo dentro de mim? – perguntou Elle, a voz dividida entre se permitir ou não ter esperanças. O corpo já de pé. Quantas vezes ela já tinha pensado que tinha algo e no fim, era só mais uma falta de respostas e pistas que apenas atrapalham as outras pistas.
– É provável. – sugeriu James esperançoso.
– E como descobrimos o que é? Digo... Eu já testei feitiços de purificação. Exorcismos de todos os tipos... Mesmo os que não são para demônios. Já tentei objetos e magias de revelação... Não me olhem assim.
Ela disse logo quando percebeu pela cara dos outros que a intenção era passa-la por uma bateria de exames e não confiavam nas investidas pessoais da garota. Um aperto lhe subiu pela garganta. Tinha chorado poucas vezes e detestava aquela sensação. Fez força para que a voz não demonstrasse o que os olhos estavam conseguindo esconder.
– Eu estou tentando descobrir o que eu sou há anos. Primeiro, se eu digo que eu já tentei é porque eu já tentei e segundo se eu estou dizendo que isso é perda de tempo é porque é perda de tempo. Eu não abriria mão disso se eu não tivesse certeza. Não sei se vocês perceberam, mas eu estou me agarrando a qualquer pista idiota que eu recebo e eu tenho recebido algumas bem idiotas pela minha vida.
Elle encostou a cabeça no ombro de Dean e apertou os olhos. Ainda assim respiração e a lágrima que escapou por entre as pálpebras apertadas a entregaram. Dean a abraçou pelos ombros e beijou o topo de sua cabeça.
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