Infindável
10 Capítulo 09
O carro seguia em uma velocidade nem muito rápido e nem muito lento, normal. Pela janela eu via adolescentes da minha idade caminhando rumo ao mesmo colégio que eu, a diferença era que eles estavam com seus amigos conversando e rindo alto o suficiente para alguns pedestres os olharem. Eu, por outro lado, estava em um carro, sozinho. A diferença tão grande e palpável.
Alguns considerariam minha vida maravilhosa. Pais ricos que lhe dessem o que queriam. Dinheiro à vontade para gastar com o que quiser e a hora que quiser. A verdade era menos glamorosa do que pensavam.
Eu de fato tinha uma vida perfeita. Meus pais eram pessoas boas e carinhosas. E meu irmão, nossa, ele era o melhor irmão que alguém poderia ter e eu era esse sortudo. Na minha casa eram todos sorrisos. Então como podia uma vida perfeita se tornar um inferno do dia pra noite? Porque era isso que eu estava vivendo: Um inferno sem fim.
A paranoia do meu pai tinha chegado ao extremo em que eu não podia sair de casa sozinho. Andar de cima para baixo com um segurança na sua cola. Ter seguranças em sua casa. Tudo isso tinha se tornado desgastante. Faria um ano desde o ocorrido e aos treze anos, eu tinha estado completamente sozinho.
Damon Salvatore, meu melhor amigo e irmão mais velho, tinha desaparecido poucos dias antes de fazer quatorze anos. Por volta das 20h30min, Damon ainda não tinha aparecido em casa e foi isso que fez a preocupação de nossos pais se elevarem ao máximo. Ele estava trinta minutos atrasado para o jantar e isso nunca ocorria, era a única regra da casa que nunca poderíamos quebrar. Tanto papai quanto mamãe faziam vista grossa quanto ao jantar: sempre fazíamos pelo menos a refeição noturna juntos. E Damon sabia disso e nunca chegou atrasado. A primeira pessoa para quem meus pais ligaram foram para os Gilbert e os mesmo disseram que ele tinha aparecido ali por volta das 16h, mas não chegou a entrar. Até ai a preocupação, de ambas as famílias, já tinham se misturado ao desespero.
Enquanto meus pais e os Gilbert ligavam para as famílias que eles conheciam, eu por minha vez, corri batendo de porta em porta dos nossos amigos perguntando sobre o meu irmão. Em algum momento todos nossos amigos estavam ajudando a procura-lo e depois de horas sem resultado nenhum, meus pais me ligaram e pediram que eu voltasse para casa que eles iriam ligar para a polícia. E só nesse momento a ficha caiu: O caso tinha ficado tão sério que já era um caso para policias.
Depois de me despedir dos meus amigos e receber frases solidarias, eu corri para casa, que estava infestada de viaturas e o carro dos Gilbert também estava ali. Quando entrei em casa varias cabeças viraram na minha direção, em sua maioria de estranhos. Uma Elena chorosa estava em um canto com Jeremy ao seu lado, abraçando-a. Tia Miranda estava tentando fazer minha mãe se acalmar, o que era meio irônico, já que ela mesma estava bastante nervosa. E o tio Grayson, conversava com os policias junto do meu pai. Eu fiquei um tempo parado na porta sem saber o que fazer e depois de um momento corri até minha mãe, abraçando-a forte. Ela me abraçou igualmente forte e disse que tudo ficaria bem, que os policias achariam meu irmão e ele voltaria para casa. Palavras vazias e sem oferecer qualquer certeza, mas que encheram meu coração de esperanças.
Passava da meia-noite quando meus pais me mandaram para cama. Jeremy e Elena estavam também tinham sido mandados para cama e foram para o quarto de hospedes. Eu queria ficar e ao mesmo tempo só queria me refugiar em meu quarto. Estava confuso. As perguntas que os policiais faziam rondavam minha cabeça. Então subi obedientemente para meu quarto e deixei a escuridão me consumir. O Boletim de Ocorrência sobre o desaparecimento do meu irmão estava sendo feito.
No momento em que deitei minha cabeça no travesseiro as lagrimas, ainda presas, foram mais fortes e se puseram a sair e molhar todo meu rosto. O sono veio logo em seguida.
Se tinha sido horrível no momento em que cheguei em casa e vi aquele tanto de policiais, foi ainda pior no dia seguinte. Quando acordei a noticia sobre o desaparecimento de Damon Salvatore já tinha chegado ao auge. Repórteres rodeavam praticamente toda a mansão e os policiais tentavam mantê-los afastados. Eles pediam noticias sobre meu irmão, sobre como meus pais estavam reagindo ao desaparecimento, o que eu sentia em relação a tudo isso. E, mais que tudo, se aquilo poderia ser um provável sequestro. A ultima pergunta que ouvi fez minha respiração travar e meu peito doer. Damon Salvatore poderia ser encontrado com vida?
Peguei meus fones de ouvido e a primeira vez que sai de casa após o ocorrido foi uma semana depois. Os dias que se seguiram ao ocorrido foram horríveis da pior maneira possíveis.
Voltei para o presente quando ouvi a porta do meu lado sendo aberta. Já estávamos no colégio. Teria que colocar a mascara de Stefan, “o bonzinho”. Aquilo era ridículo. Toda a minha vida, na verdade, era ridícula.
— Sr. Stefan? – O motorista/segurança me olhava confuso enquanto segurava a porta.
Peguei minhas coisas e sai do carro sem responder nada. Eu nem sabia seu nome pra começo de conversa e nem fazia questão. Odiava toda essa situação.
Quando comecei a caminhar para o colégio, o bendito segurança estava atrás de mim, de uma força irritante, devo informar. Os outros alunos sempre me olhavam com receio e fora meus amigos de infância, ninguém mais vinha conversar comigo.
— Não precisa me seguir, sei ir para minha sala. Sozinho. – Respondi da forma mais rude o possível e ele me ignorou. Provavelmente acostumado com meu jeito, já que todo dia era a mesma coisa. E, também, o único que provavelmente conhecia o “eu” que não fingia todos os dias.
Quando cheguei em frente a classe o segurança me deu as costas e foi para outro lugar. Era sempre a mesma coisa: me levar ao colégio, me levar a sala de aula, ficar as escondidas caso eu precisasse dele e no fim me levar em segurança para casa.
Com um suspiro que saiu alto demais, entrei na sala.
— O que foi, Stefan? – Essa era uma voz que eu reconheceria a quilômetros de distancia. – Esse foi um grande suspiro.
— Caroline. – disse sorrindo. – Nada demais, na verdade, o de sempre.
— O segurando novamente? – Ela esperou uma resposta e quando não o fiz, suspirou longamente. – Porque apenas não aceita isso e pronto? Seu pai está preocupado com você.
— Ele perdeu essa capacidade à alguns meses atrás.
— Não é verdade e você sabe disso. Só não quer aceitar o fato de que seu pai se importa com você.
Caroline tinha se tornado uma boa amiga nesses últimos meses. Uma amiga que eu sabia que podia contar tudo. O primeiro dia em que fui para o colégio depois do ocorrido foi horrível. Todos me olhavam com pena e com tristeza. Eu não precisava daquilo, já estava sofrendo demais para receber olhares como aqueles. E, de repente, me vi isolado de todos meus amigos, de todo mundo a minha volta.
E foi Caroline que dia após dia, ia atrás de mim. Querendo me trazer de volta. Buscando com veemência o antigo Stefan que estava ali em mim, escondido no meio de tanta tristeza, no meio de tanta dar.
Dia após dia, ela vinha ao meu encontro e sentava do meu lado, sem dizer uma palavra. E ao poucos fui aprendendo que podia contar com ela. E aos poucos um sentimento maior que a tristeza que eu sentia, me enchia o peito. Eu estava vendo em Caroline mais do que uma amiga. Estava me apaixonando. E meses depois eu ainda tinha aqueles sentimentos comigo, mesmo sabendo que não era mutuo. Caroline me via como um amigo e eu não faria nada idiota quanto me declarar e acabar com a amizade que tínhamos.
E apesar de todo me seu sentimento por ela, me vi irritado quando começou a falar do meu pai. Sabia que se eu continuasse nesse assunto, iria explodir e toda a máscara iria por água abaixo. Então mudei de assunto na cara lavada mesmo.
— Cadê a Elena? – Caroline me olhou como se eu fosse o maior idiota do mundo e fingi que não percebi.
— Ela não vai vir. – Quando abri a boca pra falar, ela continuou: – Exatamente, ela de novo vai faltar aula. Parece que seus pais vão leva-la ao psicólogo novamente.
Enquanto íamos para nossos lugares, pensei em Elena. Se eu estava um lixo quando o Damon sumiu, ela estava no fundo do poço. As crises de choro em horário de aula, as crises de choro sempre que alguém tocava no nome do meu irmão. Ela nem mesmo se esforçava para ficar bem ou pelo menos fingir que estava. Sua tristeza era tão profunda que em um momento eu não soube mais como me aproximar da garota que um dia tinha sido minha amiga.
O resto do dia foi normalmente chato. E eu não sabia se preferia ir para casa ou ficar no colégio.
No fim, quando já estava no carro indo para casa, fiz o motorista dar a volta e me levar para o McDonald’s mais próximo. Não faria diferença nenhuma chegar em casa cedo.
Pedi um hambúrguer enorme e grande copo de refrigerante. Uma comida gordurosa da qual eu era privado antes de tudo virar um inferno. Eles nem se importavam mais.
Meu pai tinha se tornado um homem amargurado e frio. Vivia mais em suas empresas do que em casa. Tinha se tornado obcecado por crianças desaparecidas. Qualquer noticia que ele via, recortava e colocava em um de seus vários álbuns e quando não tinha no jornal ia atrás de uma na internet. Não importava o que, ele sempre tinha que ter pelo menos uma noticia sobre crianças desaparecidas no dia.
Um dia cheguei em casa mais cedo e o encontrei com todos os seus álbuns de noticias no chão de seu escritório. Ele estava separando os que tinham mais em comum com o desaparecimento do Damon e fazendo anotações. Seus olhos verdes estavam vidrados em uma noticia e outra, se movendo loucamente de uma a outra. As bolsas escuras embaixo dos olhos davam pra ser vista claramente, o terno sempre bem alinhado e passado, estava todo amassado e parecia ter visto dias melhores. Os cabelos despenteados. E um só então reparei nas garrafas de whisky espalhadas ao seu redor. O cheiro de álcool no cômodo era tão forte, que percebi que aquela não a primeira vez que ele fazia aquilo, só era a primeira vez que eu estava presenciando. Meu pai estava beirando a loucura.
Minha mãe não estava diferente. Na verdade, estava igualmente louca. Tinha se enfurnado em seu quarto, que agora era separado do meu pai. Quando não estava em seu quarto, estava no do Damon. Ela ficava ali no meio do cômodo, parada e apenas olhando suas coisas. Não ousava tocar em nada e nem deixava que mais ninguém entrasse ali. Aquele cômodo era terminantemente proibido. Apenas ela era permitida.
Uma vez, quando a saudade do meu irmão era insuportável, resolvi entrar em seu quarto e ver suas coisas. Sem pensar muito, peguei um de seus vários livros e aquele foi meu pior erro. Minha mãe entrou pouco depois e me pegou deitado na cama dele. Em poucos minutos ela começou a chorar e gritar dizendo que eu não devia estar ali e quando me levantei e peguei o livro seus olhos se esbugalharam. Em poucos passos, ela estava próxima de mim e sua mão queimou em meu rosto. Aquela foi a primeira vez em todos meus anos de vida que minha mãe me bateu. Mas suas palavras doeram muito mais do que o tapa.
— Qual parte do não entre e não mexa nas coisas do meu filho você não entendeu? Agora ele vai ficar com raiva quando voltar para casa e ver que seu livro não está como ele deixou. Saia daqui agora, Stefan! Não ouse entrar nesse quarto nunca mais!
Fui em direção à porta sem dizer uma palavra e quando estava quase fechando a porta pude ouvir sua voz:
— Pronto, meu amor. Mamãe arrumou sua cama e colocou seu livro no lugar, do jeitinho que você gosta. Depois a mamãe vai fazer seu lanche preferido.
Não ouvi mais nada, bati a porta com força e fui para meu quarto. Já seguro em meu quarto, perdi as forças e cai no chão. Sem conseguir segurar mais, as lagrimas vieram como uma enxurrada. Minha bochecha estava quente onde tinha recebi o tapa, mas meu peito doía muito mais. Para meus pais eles não tinham mais filho. O que eles tinham, tinha desaparecido há poucas semanas.
O resto dos dias foram iguais aos outros. Meu pai raras vezes aparecia em casa e minha mãe só tinha piorado com o tempo. Chegar em casa e vê-la na sala de jantar, jantando sozinha, mas ainda sim com dois pratos na mesa em que um deles era para o Damon, já tinha se tornado uma visão comum. Toda tarde ela fazia o lanche preferido do Damon e levava para o quarto dele.
Então chegou um dia que eu cansei de tudo e percebi que viver uma vida fingindo que não tinha pais era mais fácil.
Percebi que meu lanche já estava pronto e corri até a balconista e me desculpei a falta de atenção. Minha cabeça estava presa no passado e isso estava me incomodando. Qualquer silencio fazia minha cabeça voltar naqueles dias horríveis. Algo estava estranho. Sentia uma voz no fundo da minha cabeça dizendo que algo estava errado.
Comi meu lanche o mais rápido que pude e rumei para casa. Já estava escuro e eu não tinha percebido. Passava das 20h30min quando cheguei em casa. Tudo estava escuro e silencioso, talvez as empregadas já tivessem ido dormir. O segurança também já tinha ido para seu quarto no fundo da casa e resolvi ir para o quarto também.
No caminho, parei em frente ao quarto que meus pais compartilhavam e resolvi entrar e estranhamente me senti decepcionado quando entrei e vi que estava vazio. Meu pai quase não aparecia em casa, porque ainda tinha esperanças? Balançando a cabeça, sai do quarto e novamente aquela sensação estranha me consumiu.
Lembrando que dia era, corri para o quarto do Damon e senti minhas mãos tremerem ao tocar na maçaneta. A sensação veio novamente, só que ainda mais forte e por um momento hesitei em abrir a porta.
Depois de alguns minutos decidindo o que fazer, abri a porta e senti meu mundo se despedaçar e as lembranças me vieram como enxurrada.
Damon e eu estávamos deitados na cama dos nossos pais, esperando eles começarem a contar a historia para dormimos.
— O que esses rapazinhos querem ouvir hoje? – mamãe com sua voz sempre doce perguntou.
— E afinal, porque os dois garotinhos estão aqui? Sempre lemos pra vocês em seus quartos. – Papai reclamou, mas já estava se aconchegando ao lado do Damon.
— A gente quer dormir aqui hoje, papai. – Respondi sorrindo.
— E porque isso?
— Vamos lá, Giu. Você faz o que eles querem e eles sabem que você vai deixa-los dormir aqui, não tente bancar a pai mau. – Minha mãe disse com um sorriso.
— Mãe, quero chocolate quente. – Damon pediu, segurando um livro.
— Claro, meu amor. Vou fazer para você e para o Stefan, só um minuto.
— Você fala de mim e faz as mesmas coisas, Mel. – Meu pai não perdia uma e minha mãe saiu do quarto rindo alto.
Depois que tomamos o chocolate quente a discussão foi sobre que livro ler. O Damon queria A Ilha do Tesouro e eu achava a historia superchata.
— Não quero esse livro, é chato demais! – Disse com um bico enorme.
— The Lorax é historia pra menininha Stefan. E a mamãe já leu esse livro.
— Não é não! E eu quero ouvir ela de novo.
— Vamos lá Damon o Stefan ainda não entende a historia que você quer. – Meu pai disse tentando acabar com a discussão e eu fiquei feliz, eles iriam ler a historia que eu queria!
— Não é justo, ele sempre escolhe os livros.
— Ele é mais novo, Damon. E não consegue acompanhar o que você gosta.
— Então não quero ouvir historia nenhuma, vou pro meu quarto! – Damon desceu da cama e foi para porta, batendo-a com força depois de sair.
— Eu vou falar com ele. Pode começar a historia, querida. – Meu pai levantou e me deu um beijo na testa antes de ir atrás do Damon.
Fiquei triste, não gostava de ouvir historias sem o Damon. Ele sempre fazia imitações dos personagens para mim e só dormia depois que eu já tinha dormido. Ouvir historinhas com o Damon era o que as tornava tão interessante.
— Mamãe, vamos lá no Dam. Você e o papai podem ler a historia que ele quer.
Minha mãe sorrio e beijou minha testa.
— Esse é meu menino.
Acabamos juntando minha cama e do Damon e lemos a historia que ele queria. Às vezes eu interrompia em busca de explicação e meu irmão as fazia com toda paciência do mundo. No fim, dormimos os quatros nas camas juntas.
Essa lembrança entre todas as outras foi a que passou em mente quando entrei no quarto do Damon. Era uma lembrança de quando éramos verdadeiramente uma família feliz.
O quarto estava completamente escuro e antes dos meus olhos se adaptarem a escuridão, o cheiro de ferrugem se fez presente. O cheiro era forte e entorpecente, enchendo todo o lugar. Eu conhecia aquele cheiro metálico, aquele cheiro forte. Com os pés descalços senti algo morno molha-los. Eu sabia o que estava me esperando, mas mesmo assim a dor de quando apertei o interruptor foi horrível.
Minha doce mãe. Minha mãe que antes de tudo acontecer foi a melhor mãe do mundo. Minha mãe, aquela que eu ainda amava, mesmo com tudo acontecendo. Ela estava ali deitada de bruços em uma poça do próprio sangue. Frascos de remédios em pílulas vazios no chão e uma navalha ensanguentada.
Andei até ela, sentindo o sangue em meus pés, me sentindo entorpecido. Havia muito sangue ali, o cheiro queimando minhas narinas e mesmo assim eu continuava andando até seu corpo caído no chão. Um passo e depois outro, um passo e depois outro, um passo e depois outro. Fui nesse ritmo, de passo em passo, como se alguém estivesse sobcontrole do meu corpo.
— Mamãe? – Sem resposta. – Mamãe, você vai ficar doente se continuar deitada ai. – Nada. – Mamãe, levanta!
Quando alcancei seu corpo, me ajoelhei e virei seu corpo e só então a realidade me bateu. Seus pulsos estavam cortados em uma grande linha vertical. Grandes cortes fundos. Sua boca estava com uma grande quantidade de saliva. Seu corpo já não tinha mais vida.
— M-Mamãe... Por favor... – Sussurrei para seu corpo em meus braços. Lagrimas já tinham embaçado minha visão.
— Acorda! Acorda! ACORDA! – balançava seu corpo sem vida de um lado para o outro.
— Não me deixa mamãe!
E:
— EU TE ODEIO!
Logo depois:
— Desculpa, mamãe. Eu não odeio você.
— Eu te amo muito, então abra os olhos, por favor.
Quando as palavras já não faziam mais efeitos, eu realmente percebi que estava com o corpo sem vida da minha mãe em meus braços. Larguei seu corpo com o baque e olhei para minhas mãos manchadas de sangue. Aquele sangue era da minha mãe. Da minha mãe morta que estava em meus braços.
— SOCORRO! SOCORRO! POR FAVOR, ALGUÉM ME AJUDA!
Cai sentando enquanto chorava tão alto, tão dolorosamente alto. Meu corpo tremendo, soluçando. A respiração difícil de manter controlada. Aquilo estava doendo demais, sentia que meu coração poderia parar a qualquer momento. O cheiro forte de ferrugem finalmente fez efeito em mim e vomitei todo o meu lanche no chão e em mim mesmo.
Em um momento abracei minhas pernas e comecei a me balançar de um lado para o outro.
— Mamãe. Mamãe. Mamãe. – Sussurrava enquanto me balançava pra lá e pra cá.
Olhei para frente e vi uma mulher deitada, parecia adormecida. Então parei de me balançar e olhei para ela.
— Moça, quem é você? – Ela não me respondeu, então passei a mão em seu rosto, tirando os cabelos dali e a reconheci. – MAMÃE!
E começou tudo novamente: eu chorava, dizia que amava, que a odiava. E quando me encontraram eu estava deitado ao seu lado, abraçando seu corpo. Lembro que falavam comigo, mas era como se estivesse muito longe. Meu corpo estava completamente anestesiado.
Para todos eu tinha entrado em estado de choque ao encontrar minha mãe morta, mas a verdade era que estava encoberto pela escuridão. A dor daquela lembrança estaria para sempre comigo, me despedaçando o máximo que conseguisse. Se uma parte de mim tinha morrido naquela noite? Não só a metade. Eu estava completamente morto por dentro.
Depois de três semana beirando a loucura, eu recebi alta do hospital. E a partir daquele momento, encontrei um conforto nas bebidas alcoólicas. E de garrafa em garrafa, eu me tornei um alcoólatra aos trezes anos.
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