Infindável
11 Capítulo 10 – Impotente
Notas iniciais
So I wither
And render myself helpless
I give in
And everything is clear
I breakdown
And let the story guide me
Dream Theater – Wither*
— Que tal uma corrida? – Essa devia ser a décima atividade que Enzo propunha para fazermos.
— Não. Outra coisa. – Respondi, deitando na grama com os braços debaixo da cabeça.
— Qual é Damon? Você tá muito chato.
— Só porque não quero fazer o que você escolheu? Dá um tempo, Enzo.
— Se fosse só uma coisa eu não reclamaria, mas você recusou tudo o que eu propus, tô sem ideia já cara.
Bom, nisso ele tinha seu ponto. Eu realmente tinha recusado tudo, mas estava me sentido meio letárgico. Meu corpo estava trabalhando em ritmo completamente lento e me sentia mole. A fraqueza tomando conta de mim e até pensar parecia cansativo. Falar então estava sendo uma luta. Para uma criança de onze anos, eu estava desprovido de energia.
Talvez eu devesse ter ficado em casa ao chegar da empresa do meu pai e não ter ligado para o Enzo para fazermos algo. Depois de ter dúzias de aulas em casa e logo após ir para empresa com meu pai, tinha me deixado extremamente cansado. Eu sabia muito bem que ter etiqueta e um ótimo linguajar era o adequado para alguém como eu. Que ter a melhor educação era necessário, ainda mais quando eu é que cuidaria das empresas, mas ainda sim era muito cansativo às vezes.
Com minha calça verde-musgo de suspensório e camisa branca de mangas, eu me sentia um mauricinho completo, sem contar o calor que estava me derretendo dentro das mesmas. Eu devia ter trocado de roupa antes de sair, mas a pressa era tanta que não me importei. Na verdade, só não queria ver o Stefan.
Meu irmão, que era um ano mais novo, já tinha plena convicção no que queria fazer quando estivesse maior. Ele queria cuidar de pessoas. Trata-las e salvá-las quando fosse o caso. Seu sonho desde novinho era esse. E eu podia vê-lo sendo um médico excepcional. Stefan tinha escolhido fazer algo que não fora influenciado por terceiros. E eu sentia inveja crua e viva dentro de mim crescendo sempre que eu ficava nesse estado lastimável. Stefan era mais centrado e muito mais sério do que eu. Ele sempre soube diferenciar o certo e o errado. Sempre soube o tempo para brincadeiras e o tempo para seriedade.
Eu já era o completo oposto. Ironia e sarcasmo corriam em minhas veias. Sempre amei uma boa briga e até entrei em algumas sem meus pais saberem. Sempre fui fascinado em qualquer esporte que indicasse uso de socos e chutes. Odiava ter que estudar, fosse em casa ou no colégio. E era nessas horas que eu pensava se estava no lugar certo ou se estava fazendo algo que eu poderia cuidar.
Amava meus pais e meu irmão mais do que qualquer outra coisa, mas às vezes me sentia deslocado. O dinheiro, a fama, as festa beneficentes, os repórteres de plantão a cada movimento nosso. Era irritante e na maioria das vezes só gostaria de mandar tudo para o inferno. Não me acostumava com nada disso — mesmo que toda minha vida tenha sido rodeada disso desde meu nascimento —, ao contrário dos meus pais e Stefan que viam aquilo como algo normal. E, talvez, realmente fosse, mas não para mim.
Acho que esse foi o principal motivo de ter me tornado tão amigo de Enzo. Éramos, ambos, desajustados em nossas famílias. Seu pai tinha sido preso por tráfico de drogas e por isso sua mãe e ele tinham se mudado para Fell’s Church. Em busca de um recomeço longe de toda merda que viviam.
Enzo era o garoto marcado como “O Garoto Problema” por onde passava. Não sei, talvez toda a marra de delinquente o caracterizava como um problema. Ele não tinha frescura como a maioria dos garotos que eu conhecia tinha. A maioria de suas frases longas continha um palavrão, não tinha filtro por ninguém.
— E então, Damon? – Antes que eu pudesse pensar em responder, senti um chute não muito forte nas costelas.
— Merda, Enzo! – Gemi enquanto apertava minha mão onde tinha recebido o chute.
— Levanta a bunda daí e vamos fazer alguma coisa.
— Não to afim mais. Quase me quebrou uma ou duas costelas. – Mentira. Nem doeu tanto assim.
— Tá parecendo as patricinhas do colégio.
— Cala a boca, idiota.
Com uma gargalhada, ele se jogou do meu lado e se esparramou no gramado.
— E então? Fez o que na empresa do seu pai hoje?
— Como sabe que fui pra empresa hoje? – Não lembrava de ter falado algo por telefone, além de “Tô indo pra rua”.
— Te conheço, tá com aquela cara. – Ele deu de ombros como se fosse algo normal e não me incomodei de perguntar.
— Tive aula de piano e história. Depois fui para a equitação e então pra empresa e conheci o diretor de finanças. Um homem que me tratou como se eu fosse o rei do mundo. Odeio essas falsidades.
Ele não falou nada. Já me conhecia o suficiente pra saber como me sentia em relação a tudo. A verdade era que tanta gente se aproximava de mim por causa do meu sobrenome. Todos queriam ser amigo do garoto rico.
Isso só piorou quando me transferi para o colégio que o Enzo estudava. Saiu abutres de tudo quanto é lugar pra ser meu amigo. E foi nesse colégio que descobri a realidade. De como o mundo pode ser cruel mesmo se tratando de uma criança.
Eu estava indo para o lugar onde sempre lanchava com os garotos e Enzo estava comigo. E foi quando ouvi meu nome no meio da conversa e me escondi para saber o que diziam. Talvez eles estivessem querendo me pregar uma peça, sei lá, na época não pensei que fosse algo ruim. Quando ouvi a verdade foi que vi o quão dura e cruel era a realidade. Aparentemente, “meus amigos” só queriam se aproveitar dinheiro que meu pai e não eu tinha. Ouvi-los dizer que era divertido ir para minha casa e brincar com meus brinquedos era algo que valia a pena mesmo na minha companhia, destruiu a inocência que nos meus sete anos eu tinha.
Senti algo cair na minha barriga e quando olhei era um ipod. Olhei com cara de interrogação para Enzo.
— Escuta. Vai te animar. – Olhei desconfiado para o ipod. Enzo não era do tipo que andava com um. Hesitei um momento ante de pegar os fones e colocar no ouvido. Mal não ia fazer, foi o que pensei. Então apertei e o play. Quando a “música” começou a tocar, senti meus olhos se arregalando e engasguei com minha própria saliva. Tirei os fones e me contorci no gramado enquanto uma gargalhada explodia de mim. Meu corpo tremia e abracei minha barriga quando a mesma começou a doer devido às risadas. Meu rosto estava molhado e por um momento pensei que fosse morrer de tanto rir.
— Enzo... Jesus... – tentei falar após ofego por ofego e só continuei quando acesso de risos foram diminuindo. – Você é a safadeza em pessoa. Cara...
— Como se você não gostasse. – Disse com indiferença.
— Ver vídeos pornôs é muito diferente de ter gemidos de mulheres em um ipod. Idiota. – Outro motivo de às vezes não querer Stefan por perto era por causa desse cara. Enzo além de ser um garoto com boca suja era muito safado. E Stefan sempre foi um garotinho inocente. Enzo não era uma das companhias mais adequadas para meu irmão, na verdade, nem mesmo eu era.
— Eu disse que ia te animar, babaca. – Ele estava certo, me animou. De um jeito distorcido, mas me animou.
Enzo podia ser visto como o pior garoto, o delinquente, boca suja, safado e por ai vai os adjetivos, mas ele era amigo. Um amigo fiel. Ele sempre me ouvia, não importava quais queixas eu fizesse da minha vida, ele me ouvia e me animava ou me fazia voltar à razão. Essas entre muitas razões eram o que fazia do Enzo meu irmão. Irmão de coração, como se dizia.
— Damon. – Enzo estava sentado e sua voz soou séria. Então me sentei e prestei atenção. – Sei exatamente o motivo de você não querer contar para seu pai que todas essas coisas que ele faz você fazer te deixa muito cansado. Você não quer decepcionar seu velho, você quer que ele tenha orgulho de você e cara, eu realmente entendo. Mas você tá um lixo hoje e se você não tivesse me ligado assim que chegou em casa, seu pai teria percebido o quanto isso tá te desgastando. Você tem onze anos, mas tá vivendo como um adulto, não tá certo. Não é justo que você tenha que fazer essas coisas todas enquanto o Stefan fique se divertindo, aproveitando sua infância. Eu nem aguento ver a cara dele quando você tá assim. – Ele fez uma pausa, parecendo hesitante quanto o que diria. Eu não disse nada, esperando ele continuar. – Você sabe tudo sobre mim, Damon. Quando meu pai estava em casa era um inferno. Eu nunca o via sóbrio ou limpo e todas as vezes que ele me via, batia a merda pra fora de mim. E você tem sorte de ter nascido nessa família maravilhosa que é a sua. Eu não sei nem de longe como é a vida dos ricos. Minha mãe trabalha o inferno pra me dar a vida que tenho e tudo que quero é fazê-la se orgulhar de mim. Nós dois queremos a mesma coisa. Pode ser por meios diferentes, mas orgulho é orgulho. Minha mãe sempre diz que eu sou bom como eu sou, sem me esforçar pra ser outra coisa, sem ser uma pessoa que não é eu. E vou te dizer a mesma coisa. Você vai ser aquele que cuidará dos negócios da família? Foda-se. Você já é bom o suficiente, mesmo que você não ache a mesma coisa. Você não tem que se esforçar até ficar nesse estado só pra fazer seu pai orgulhoso. Sei que ele tem orgulho de você, exatamente do jeito que você é. Então quando você chegar em casa, você vai dizer tudo que tá sentindo pra ele, ouviu?
— Eu tenho que cuidar dos negócios do meu pai, Enzo. Não tenho nem metade do que é necessário para isso ainda. Não posso dispensar tudo agora.
— Mas você vai. Ou você diz tudo pra sua família ou vou te espancar e depois te levar pra falar com seus pais. – depois de um longo suspiro e parecendo mais calmo ele continuou e me fez voltar à razão – Eu to preocupado, Damon. Nunca te vi tão cansado. Você é como um irmão para mim e sempre vou te ajudar. Se você quiser, não precisa parar com tudo, mas chega de fazer tanta coisa ao ponto de tirar toda sua energia. – Então soando mais como ele mesmo, ele disse: – Afinal, precisamos de energia pra pegar umas meninas.
Não consegui me segurar e acabei dando uma risada alta. Enzo estava certo. Eu não estava me sentindo eu mesmo. Com todas as aulas e lições eu cheguei ao limite da exaustão. Se eu chegasse no meu pai e falasse que estava cansado de todas essas coisas, ele pararia na hora com tudo. Meu medo era decepcionar meu pai, mas no fundo eu sabia que ele não ficaria desapontado. Se tinha uma coisa que eu não duvidava era do amor do meu pai, da minha família por mim. O que eu tinha medo mesmo era de destruir o que meu pai lutou tanto para construir. A responsabilidade era grande demais para mim.
Mas ainda sim levantei minha mão em punho para Enzo tocar e assim ele soube que eu faria o que ele tinha “pedido”.
Ficamos ali conversando sobre todo tipo de porcaria. Até ele começar a falar das garotas. Esse era o assunto que mais falávamos. Com onze anos meu interesse por meninas estava no auge. Eu comecei a apreciar toca-las. A pele que de alguma forma era mais macia do que a de nós garotos, me deixava exultante.
Meu primeiro beijo de verdade tinha sido com nove anos e eu nem me lembrava mais do rosto da garota. Tinha sido estranho, mas bom. Tão bom, que a partir daquele beijo muitos outros vieram em seguida. Eu gostava e apreciava sentir o gosto da boca das meninas.
Todas as garotas eram como minha válvula de escape. Ainda mais quando se dizia a respeito de uma só menina.
Elena.
Minha amiga desde sempre. A garota que sempre pensei que fosse como uma irmã. Eu acreditava tanto que todo aquele cuidado e carinho com ela fosse porque pensava nela como uma irmã que quando descobri meus verdadeiros sentimentos me senti atordoado.
Eu gostava dela. Muito.
Mas novamente o medo estava me empreitando. Elena ainda era uma menina inocente que não se preocupava com meninos. Ela gostava mesmo era de brincar com todos. De bonecas, casinha e principalmente de princesa. Vê-la arrastar Bonnie e Caroline para brincarem de princesa era normal.
As três ficavam bonitas com roupas de princesas, mas Elena fazia meu peito tremer. Pra mim ela era a mais bonita. Sempre.
Enzo me cutucou e aquilo já tava me irritando. Olhei para ele franzindo a testa.
— Não ouviu? – Ele perguntou com um sorriso deslavado na cara.
— Ouvi o que? – Enzo já tinha me irritado o suficiente hoje e minha voz saiu toda mal humorada.
— O amor da sua vida. – Quando olhei confuso pra ele o babaca jogou a cabeça pra trás e gargalhou. – Elena. Não tá ouvindo a vozinha irritante dela cantando?
— Ela não é irritante! – Minha voz saiu estridente só pra depois me fazer ficar sem graça. Ao invés de dar atenção ao Enzo, parei e prestei atenção na vozinha que estava longe.
Elena estava saltitando com um Stefan do seu lado. Ambos estavam vindo na nossa direção e ela estava realmente cantando, mas não só ela. Stefan também cantava a música e parecia superanimado.
Me levantei junto com Enzo do meu lado, para recebê-los. E só então vi que eles estavam de mãos dadas e fiquei emburrado imediatamente. Elena era minha!
— Oh, o irmãozinho vai te passar a perna. – Além de ser zoado ainda recebi um chute na perna.
— Cala a boca, Enzo!
Antes que o babaca dissesse alguma coisa, os dois pararam na nossa frente com sorrisos enormes na cara.
— Dam! Você chegou! – Com a mão livre ela segurou a minha e balançou de um lado pro outro, animada. – Vamos brincar?
— Sim! Brinca com a gente também Damon. Você e o Enzo! – Stefan disse animado e só pude ouvir a risada sarcástica do Enzo.
— O que vocês estavam cantando? – Mudei de assunto olhando diretamente para a mão deles grudadas!
— A Bela Adormecida. Eu vou ser a princesa Aurora e Stef o príncipe Felipe.
A resposta não me agradou nem um pouco, então soltei minha mão da dela e respondi ríspido.
— Não quero brincar com o casalzinho!
Ela olhou pra mim sem entender e logo vi seu rostinho ficar bravo.
— Você é um chato, Damon! – Só quando ele correu pra longe de mim que percebi que tinha sido um grosso com ela.
— Elena! – gritei e corri atrás dela. Mas demorei tanto a processar o que tinha feito que ela já estava longe e por mais que eu chamasse ela não olhou para trás. Se distanciando até sumir. – ELENA! – Eu grito mais uma vez, um som ensurdecedor. Meu pulmão queimando quando acordo no quarto escuro e fedido.
Um sonho. Nada passou de um sonho.
Coloco o rosto nas mãos e solto um barulho rasgado. Meu corpo tremendo e a respiração tão acelerada. Sinto meus olhos arderem com as lágrimas não derramadas.
— Porra! Porra! PORRA! – Até quando esse inferno vai continuar? Não aguento mais. Já fazia tanto tempo que não sonhava com ela. Sonhar com ela acabava comigo. Destruía toda barreira que tinha criado envolta dos meus sentimentos mais profundos. Sonhar com ela, com minha doce Elena, me destruía completamente.
Senti uma mão acariciar meus cabelos e sabia que ela tinha me ouvido chamar outra. E mesmo assim estava ela ali, me consolando.
— Sonhou com ela de novo, Dam? – Sua voz não tinha nenhuma acusação, só a preocupação de sempre e me senti ainda pior. Sem confiar na minha voz, apenas assenti. – Tudo bem? – Balancei a cabeça negando.
Sem aguentar mais, abracei sua cintura e enterrei a cabeça em seu estômago. Suas mãos acariciado meus cabelos enquanto meu corpo tremia e as lágrimas contidas molhavam sua barriga. Eu era lamentável. Chorando no colo de uma garota.
— D-Desculpe Kath... Sinto muito... – sussurrei com a voz abafada em sua pele. – Eu sinto muito, Katherine.
— Shh, eu não me importo, Damon. Você a ama e eu entendo isso. – balancei a cabeça, negando suas palavras.
— Eu amo você.
— Eu sei que ama Dam. Mas é diferente do amor que você sente por ela. Você é apaixonado por ela desde pequeno e por mais que negue isso agora, você sabe que é verdade. Já para nós é completamente diferente. Nós compartilhamos a mesma dor, sabemos o inferno que é viver aqui e ainda tivemos relações sexuais desde o começo. Por saber e entender a dor um do outro acabamos criando um carinho um pelo outro, mas é diferente de amor. – não consegui dizer nada, porque ela estava certa e era forte o bastante pra assumir isso, mas eu não era. – Eu sou apaixonada por você, Damon. E essa paixão aumentou ainda mais depois que o Archer apareceu, mas eu nunca deixei de me perguntar se eu me apaixonaria por você se estivéssemos fora daqui. Eu não sei como é a vida lá fora, não sei como são os outros garotos. Não consigo nem imaginar. Você é única coisa que eu tenho do mundo que eu não conheço, então seria mais estranho se eu não me apaixonasse por você. Mas eu queria me apaixonar normalmente, como acontece com a maioria das pessoas.
Eu não disse nada. Porque não tinha nada que eu pudesse dizer. A verdade era que eu amava a Elena, amava demais e pensar que eu não poderia nem vê-la mais era doloroso demais e por essa razão eu escolhi esconder meus sentimentos por ela, era mais fácil suportar. Eu evitava a qualquer custo pensar nela e quando eu tinha sonhos com ela me quebrava completamente.
Escolher me confessar para ela foi a melhor decisão que tomei em toda minha vida. E a imagem daquele momento nunca saiu da minha cabeça, só estava escondida. Seu rosto todo corado, seu embaraço, seu sorriso tímido, tudo. Tudo estava pregado em minha mente. E acima de tudo, eu ainda podia sentir o gosto de sua boca. O gosto adocicado que me fez querer mais, muito mais.
Lembro com exatidão o quanto os beijos demos me excitou. Eu queria tanto provar mais de sua boca. Não, não apenas sua boca. Eu queria toca-la intimamente, queria provar cada pedacinho de seu corpo, com mãos e boca. E por toda a excitação de adolescência eu tinha feito a maior burrada da minha vida quando deixei Elena em casa.
Com um suspiro e mais calmo, sai dos braços de Katherine para encontra-la com um olhar perdido. Ela muitas vezes saia do ar por alguns minutos e sempre sabia o que ela estava pensando: Archer. Ser mantido longe do pequeno Archer era desesperador, mas para Katherine era ainda pior. Não poder vê-lo quando quiséssemos, não estar junto quando ele chorasse, não poder mima-lo. Deus, eu só queria poder tira-los daquele lugar, nem que eu ficasse ali o resto da minha vida.
— Katherine... – levei minha mão até seu rosto e passei o polegar em sua bochecha pálida. Ela demorou um pouco até voltar a si e me olhar e no momento que fez soube que tinha algo muito errado. – O que não tá me contando, Kath?
Depois de um momento em silêncio ela falou e senti tudo em mim se despedaçar ainda mais.
— Eles trouxeram o Archer para eu ver, Damon. – abri a boca pra perguntar quando, mas então lembrei que ela não estava naquele quarto o tempo todo. – Antes deles me jogarem aqui. Quando eu estava no meu “quarto”. Ele cresceu tanto desde a última vez que o vi. No momento em que eles deixaram ele ali eu corri e o abracei. Chorei de saudade do meu pequeno. Ele agarrou suas mãozinhas no meu cabelo como sempre faz e eu pensei que estava tudo bem. – lágrimas começaram a molhar todo seu rosto. A dor profundamente enraizada em seus olhos e soube que nunca mais esqueceria aquela expressão. – Quando o coloquei em seus pezinhos descalços ele gritou de dor. Ele gritou! Eu não entendi nada hora e o agarrei para em meus braços até se acalmar e ele só parou de chorar quando dormiu. Seus pés, Damon! Os pezinhos dele estavam com queimaduras de cigarro! Quando nós o ensinamos a andar, ele ficou tão feliz e não queria parar mais e agora não consegue nem ficar em pé!
— Não... Não... Não... Eles... Eles disseram que não iam machuca-lo – Comecei a balançar minha cabeça. Negado a realidade. – Não é possível... Eu... Eu não sei, Kath...
— É possível sim. Eles estão machucando nosso menino. Nosso menino, Damon! – Com isso ela começou a chorar dolorosamente. Seu corpo tremendo enquanto ela abraçava as pernas. Os soluços me despedaçando.
Eu queria abraça-la e dizer que tudo ficaria bem, que daríamos um jeito, mas não pude. Ao invés disso, levantei da cama e comecei a andar de um lado para o outro. Não podia ficar parado. Não podia pensar. Não podia... Não podia...
Eles tinham dado a palavra deles que não iam machuca-lo se fizéssemos tudo certo, tudo que pedissem. Estávamos fazendo tudo corretamente. Não gozar dentro, morder, chupar, tocar, fazer gozar... O que mais? Porque eu não me lembrava do resto? Não, não, não. Eu tinha feito tudo. Tudo certinho. Bati quando mandaram, prendi quando mandaram prender, disse exatamente as coisas que eles queriam ouvir. Eu tinha feito tudo, certo? Não, não lembro. Sim eu fiz, fiz tudo, tudo certinho. Sim, sim, sim! Ela gemeu meu nome quando gozou. Hunter. Sim, ela me chamou. Certo? Sim. Não. Eu não sei... Porque não me lembro?
Os soluços não paravam. Deus, porque não paravam? Tinha que parar. Parar, parar, parar! Porque a Elena estava chorando? Não gosto quando ela chora. Vou matar que fez a chorar. Sim. Matar, matar, matar! Mas... Porque a Elena estava aqui? Quando eles a trouxeram? Não, estava tudo errado. Tudo errado. Katherine tinha que parar de chorar. Não podia vê-la chorando. Tudo em mim dói. Porque não consigo pensar? Porque não consigo ficar parado? Porque tinha chamado a Katherine de Elena? O que- O que estava acontecendo?
— Mon... Damon! – Meus olhos se arregalaram ao ouvir meu nome. Olhei assustado para Katherine na minha frente. Levei alguns minutos para raciocinar e me senti desnorteado. Ela colocou as duas mãos em meu rosto, me forçando a olha-la. – Damon... Querido, você ficou fora de si novamente. Preciso que você olhe para mim e esqueça tudo por enquanto, tudo bem? Você consegue? – Ainda me sinto fora do ar, mas assinto. Olhar pra ela, sim, posso fazer isso.
Acho que demoro alguns minutos até voltar a mim novamente. Mas quando faço sinto a dor me rasgar e tenho medo de perguntar, mas ainda sim faço.
— Archer? – Sussurro, rezando pra que tudo não tenha passado de uma coisa da minha cabeça. Mas quando vejo as lágrimas em seu rosto sei que tudo é real.
Me afasto dela brutamente. Não quero machuca-la. Ela sabe o que vem e vai para a cama ficando o mais longe de mim possível. Seu soluço baixinho acende a raiva dentro de mim. Aperto os punhos ao lado do meu corpo, respirando e tentando me acalmar, mas a vontade de socar algo me consome. Meus braços tremem ao tentar me manter controlado. Querer quebrar tudo. Tudo que me cause tanta dor.
Dói tanto me manter controlado quando tudo que quero é destruir que não aguento mais e meu punho voa na parede. Uma vez, duas vezes e a imagem deles queimando os pés de Archer vão além da imaginação e soco com mais força. Ouço o grito de Katherine, mas não consigo parar. Esmurro ainda mais forte a parede, deixando uma marca vermelha onde meus punhos tocam. Não consigo pensar, nada além de Archer sendo machucado, ferido. Mais um soco e manchas vermelhas começam a escorrer pela parede. Foda-se! Quero matar, matar, matar!
Archer.
Meu filho.
— PORRA! – berro toda minha dor em uma palavra.
Mais socos, mais sangue.
Eu estava disposto a tudo para mantê-lo seguro. As marcas em minhas costas era a prova disso. Apesar da dor que senti no momento, fiquei feliz porque estavam fazendo em mim e não nele. Eu receberia todos os tratamentos que quisessem me dar, desde que ele fosse mantido intacto. Porra! Eu daria a minha vida por ele.
Mais socos e eu estava exausto.
Cai no chão sem energia alguma.
Archer era meu filho. Um bebê inocente que apareceu no momento errado, mas era meu filho. Eu o amava mais do que qualquer coisa e só a imagem dele sendo ferido me deixava com raiva, me fazia perder a cabeça e me destruía.
Um pai de verdade seria capaz de proteger seu filho, mas nem isso eu era capaz. Eu não passava de um lixo inútil. Incapaz de proteger as pessoas que amava.
Com as costas apoiada na parede e com as mãos ensanguentadas ao lado corpo, eu vi ouvi quando a porta foi aberta, mas sequer levantei a cabeça para olhar. Já sabia que eram eles.
Ouvi quando Katherine me chamou entre soluços, mas não fiz nada e nem a olhei. Eu não podia fazer nada e escolhi os deixar leva-la. Não era como se eu pudesse impedi-los de qualquer forma.
Quando eles me arrastaram até a cadeira que tinham trazido, eu ainda não lutei. Deixei que me colocassem sentado nela. Sabia o que eles fariam e já estava acostumado.
Com um puxão eles levaram meus braços para trás da cadeira e os amarrou com força. Fizeram o mesmo com meus pés, amarrando-os nas pernas da cadeira. Um deles puxou meus cabelos para me fazer olhar para cima e encontrei os mesmo olhos frios que já estava acostumado. A baioneta estava em suas mãos e sem dizer nada ele se aproximou de mim, rasgando minha camiseta surrada.
Os cortes em minha barriga vieram em seguida. Não chorei, não gemi, não fiz qualquer som. Eu simplesmente não sentia qualquer dor com o que estavam fazendo comigo. O líquido quente escorria pelo meu estômago, mas tudo que eu conseguia pensar e sentir era a impotência.
A impotência de fazer algo para proteger meu filho e a mãe dele.
Quando eles me deixaram ali amarrado e foram embora, eu ainda não sentia dor alguma. O sangue escorria pelo chão, mas eu só conseguia olhar e não sentir mais nada. Eu estava completamente quebrado. Um brinquedo quebrado e sem conserto.
Archer, meu filho que tinha nascido nesse inferno e apesar de ser um bebê sofria por ser nosso filho.
Katherine, a garota que nunca teve uma vida fora desse lugar e que era obrigada a fazer as coisas doentias para satisfazer os doentes.
Ambos precisavam de mim mais do que tudo.
Acontece que eu era só um garoto que nem sabia mais sua idade. Eu não podia me salvar de mim mesmo, quem dirá salvá-los. Eu não queria, mas encarei a realidade: Morreríamos os três ali. Não tinha salvação pra ninguém. Então desisti.
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