Infindável
2 Capítulo 01
Notas iniciais
Depois de toda aquela confusão pós-beijo, Damon pegou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Mesmo depois de tudo que ele me disse eu ainda me sentia envergonhada de fazer essas “coisas de casais”, na verdade, tudo que ele me disse só me fez sentir ainda mais envergonhada, mas de alguma forma eu estava feliz, como nunca estive. Só percebi que estava sorrindo como uma boba quando ouvi uma risadinha do Damon, que estava me olhando com um largo sorriso no rosto e imediatamente, como sempre, senti meu rosto esquentar. Seu sorriso foi de orelha a orelha com minha reação e decide que gostava de vê-lo sorrindo, mesmo que fosse a minha custa. Seus olhos brilhavam, mostrando sem grande dificuldade o quanto estava feliz e me peguei pensando em qual de seus olhares me deixava mais feliz, o azul oscilando entre o cinza de forma intensa ou o azul claro brilhando de alegria e doçura. Uma boa questão a se pensar, porém difícil de escolher.
Estava tão absorta em meus pensamentos sobre os olhos de Damon que não percebi que tínhamos parado de andar, até que ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada rica e gostosa de se ouvir. Sorri até perceber que na verdade ele estava rindo de mim. Tentei dar um empurrão nele com meus ombros, mas foi inútil já que ele não saiu sequer do lugar.
— Para de rir de mim, Damon! – tentei soar zangada, mas sua alegria me contagiou e acabei rindo com ele.
— Desculpe, desculpe – ele disse depois de alguns minutos rindo, nada arrependido, com um sorriso. – mas, você estava sorrindo como uma boba, de orelha a orelha. Não me leva a mal, foi bastante fofo.
— Você é um idiota. Não estava sorrindo como boba! – na verdade eu estava, mas não iria admitir.
— Se você diz... – sorriso novamente – No que estava pensando?
— Nada!
— Você estava me olhando intensamente... Talvez algo pervertido? – ele continuou como se eu não tivesse dito nada e demorei alguns segundos pra processar o que ele tinha dito. Calor rastejou pelo meu pescoço, rosto e orelhas.
Ele deve ter percebido que fiquei sem graça, porque se desculpou e disse que estava apenas brincando. No entanto, continuei envergonhada e sem graça. Eu sabia que o Damon era safado, e adorava ser amado e mimado pelas garotas, um verdadeiro mulherengo, mas ele nunca tinha feito qualquer insinuação para mim, nem mesmo uma brincadeira. O que me deixou sem graça, não foi apenas o que ele disse, mas o que ele deixou implícito. Eu já tinha ouvido todo tipo de coisa de meninas que ficavam com ele e não eram coisas agradáveis de ouvir. Damon tinha apenas 13 anos, mas já tinha ficado com metade das meninas do colégio, até as mais velhas que ele. A primeira e ultima vez que vi Damon com uma menina fazia poucos dias, eu tinha chegado mais cedo no colégio e quando estava subindo as escadas para minha classe me deparei com um Damon sentando na escada e prensando uma menina loira na parede enquanto a beija, na verdade, dizer “beijar” é um pouco fraco demais, eles estavam praticamente engolindo um ao outro. Eles estavam tão absortos um no outro que nem ao menos notaram minha presença, mas para mim que nunca feito algo como aquilo foi vergonhoso e evitei o Damon por três dias até conseguir encara-lo sem corar. E foi naquele momento que percebi o que sentia por Damon.
Agora eu não era mais uma espectadora, era a personagem principal. Eu estaria no lugar que muitas garotas estiveram, mas a questão é: Eu estava pronta pra ser como elas? Pra sentir e fazer o que elas sentiam e faziam? Eu sabia a resposta. Definitivamente não! Separei minha mão da sua e me afastei um pouco, Damon me olhou surpreso e abriu a boca pra falar, mas eu tomei frente.
— Damon e-eu não posso... Você... As garotas... – patético! Elena Gilbert não consegue nem dizer uma frase sem gaguejar. Patético.
— Elena, o que você não pode? – sua voz saiu estranha, quase fria e eu queria não ter dito aquilo.
Se acalmar, acalmar, acalmar e falar, pensei.
— Fazer o que você e as garotas do colégio fazem, não consigo Damon. – sussurrei olhando para o chão, mas pelo menos consegui dizer a frase toda.
— Elena, é diferente com você – olhei para ele quando disse isso e era impossível decifrar o que estava sentindo nesse momento. – Eu gosto de você a muito tempo, antes mesmo de eu perceber. Elas eram apenas diversão, com você não é assim, nunca vai ser.
— Eu também gosto de você, Damon. E por isso eu tenho medo, beijos como o que você já deu em praticamente todas as meninas do colégio eu não consigo. Eu fico com vergonha só de segurar em sua mão e você acha isso engraçado, mas pra mim que nunca teve qualquer contato assim é constrangedor, ainda mais quando você acha graça disso.
— Eu não estava fazendo graça com você, Elena. Eu te disse, acho isso fofo e acho você linda. Eu sei que já fiquei com muitas garotas, mas eu só preciso do que temos nada mais importa.
— E o que temos?
— Um ao outro. Eu sei que ainda somos crianças, mas você é minha Elena, sempre vai ser. – ele acabou com a distancia entre nos e me abraçou. Seus braços apertado ao meu redor. – Agora o que você acha de darmos uma volta no parque e depois eu te deixar em casa?
— Parque? – olhei para ele, só para ver seu sorriso triste na minha direção. Nós estávamos no parque o tempo todo e eu não tinha percebido. Damon se abaixou e deu um beijo na ponta do meu nariz antes de se afastar, segurar minha mão e me arrastar com ele pelo parque.
Caminhamos pelo parque na pista de pedestres de mãos dadas como um casal, mas um casal muito jovem. A verdade era que ainda éramos crianças e estávamos nessa discussão que ainda não estava na hora, não para nossa idade. Eu tinha largado minhas bonecas há pouco tempo, ainda que meu quarto estivesse cheio delas eu não brincava mais com nenhum dos meus brinquedos. Eu ainda me lembro das vezes que brinquei com Damon e Stefan de casinha, das vezes que ficávamos subindo em arvores, quando tentávamos construir coisas que nunca davam certo. E agora estava conversando sobre beijo. Uma mudança radial e precoce.
O parque estava barulhento e cheio como sempre: Crianças correndo, de bicicleta, skate e todo tipo de brinquedo, os adultos fazendo uma caminhada, outros com cachorro. Um lugar agradável, perfeito para se passar o dia, o lugar que eu sempre fui apaixonada e achava lindo. Eu queria sentar perto do lago e ver os peixes e tartarugas, sentir a brisa fresca com Damon do meu lado me abraçando.
Parecendo ler meus pensamentos, Damon me levou para perto do lago e sentamos um do lado do outro. Deitei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos, sentindo a brisa no meu rosto. Damon tinha dito que eu era dele e estava certo, mesmo aos doze anos eu não me imagina assim, feliz, com mais ninguém.
— Você acha que quando estivermos maiores, ainda vamos estar assim? – perguntei.
— É claro que sim. Você vai estudar arte e eu vou cuidar dos negócios do meu pai. Vou comprar uma casa enorme, pra você, eu e nossos filhos. Vamos ser felizes, Elena. Eu prometo...
E essa foi a ultima frase que o Damon do meu sonho disse.
Acordei ao som do despertador do meu celular, uma música padrão e irritante, não arriscaria colocar uma de uma minhas musicas e acabar odiando-as por ser meu despertador. Deslizei meu dedo pela tela e coloquei soneca, já que parecia bastante convidativo. Larguei o celular no criado-mudo, virei para o outro lado e puxei a coberta até tampar todo meu rosto. Meu casulo estava perfeito, mas eu tinha perdido meu sonho. Fechei meus olhos e tentei por meio da lembrança sentir seu cheiro, ouvir sua voz, sentir seu abraço, seus carinhos e novamente fui perdendo a consciência.
— Vamos ser felizes, Elena. Eu prometo...
Nem tudo é como queremos, mas eu ainda podia ouvir sua voz quando me disse isso, uma voz cheia de amor e carinho. Talvez fosse meu subconsciente mostrando algo que realmente aconteceu? Eu não poderia dizer, não podia afirmar que Damon realmente tinha dito aquilo. Minha memória sobre o dia que em Damon desapareceu estava danificada. A dor foi demais para eu conseguir suportar, disso eu sabia, pois ainda sentia. Damon desapareceu e tudo que me deixou foi à dor da perda.
Sonhos como esse aconteciam com frequência e sempre eram felizes. Um mundo onde Damon estava comigo era melhor e por isso sempre desmarcava qualquer compromisso com meus amigos para voltar pra casa e me refugiar no meu quarto até o sono vir. Todos os dias, sem nunca mudar nada na minha rotina. Colégio, casa e dormi/encontrar Damon.
Claro que nem sempre eu conseguia ter meus momentos com Damon e o que me atrapalhava na minha rotina tinha olhos verdes de nome Salvatore. Stefan era o único que sabia meu real motivo de dispensar qualquer saída de casa e tentava sempre atrapalhar meus planos e com sucesso. Meu celular tocou novamente e dessa vez não era o despertador e sem olhar eu sabia que era Stefan com seu irritante modo “de acordar Elena”.
Levantei com sorriso nos lábios e fui para o banheiro. Precisava de uma água fria pra me impedir de voltar para cama. Entrei no banheiro, liguei o chuveiro no máximo e deixei a água gelada fazer seu trabalho lavando todo meu cansaço. Devo ter ficado um bom tempo no banheiro, pois ouvi uma pancada nada delicada na porta. Irritante.
— Elena! Vai ficar mais quanto tempo nesse banheiro? Até derreter? Sai logo garota!
Como eu disse: Irritante. Stefan Salvatore sabia realmente como ser irritante. Sai do chuveiro e sem paciência pra colocar o roupão só me enrolei na toalha e abri a porta com raiva.
— O que diabos está fazendo no meu quarto, Stefan? – tentei soar brava, mas duvido que consegui.
— O que parece que vim fazer? Vim te acordar e fazê-la ir pra escola – ele respondeu sem se afetar pelo meu chilique. Irritante. – Agora vista logo a roupa que está na cama e saia do quarto se não entro aqui e visto-a eu mesmo.
Ele se levantou e saiu sem me deixar responder. Garoto irritante. Olhei para cama e ele tinha separado minha roupa, novamente. Ele vinha fazendo isso há muito tempo. Cuidando quando eu precisava de cuidados e até quando não precisava. Por mais irritante que fosse Stefan era o melhor garoto que tinha aparecido na minha vida após o ocorrido.
Então quando peguei a roupa que ele separou não era novidade que apesar dos meus ataques eu faria o que ele me pedia. A roupa que ele escolheu não era grande coisa, apenas um short jeans desfiado e uma camisa larga. Vesti a roupa e peguei meu par de all-star branco cano pequeno e calcei. Puxei meu cabelo em um rabo-de-cavalo e sai do meu quarto, dando de cara com um Stefan sorridente. Ele sabia que eu faria o que ele tinha pedido. Idiota!
Passei esbarrando em seu ombro e desci a escadas pisando forte. Fui para cozinha comer algo antes de sair e me deparei com a mesa de café pronta. Olhei para escada e vi Stefan me olhando com um sorriso largo. O garoto é realmente lindo. Estava com uma calça jeans escura e camisa de botão azul. Ele percebeu que eu o estava encarando e me lançou um sorriso sacana. Corei e tentando não demonstrar o quanto fiquei sem graça de ter sido pega perguntei quem tinha preparado o café da manhã.
— Cheguei aqui quando sua mãe estava preparando e a ajudei, já que certa pessoa estava morta na cama. – ele disse ainda sorrindo.
O ignorei e puxei uma cadeira pra sentar e ele veio logo depois. A mesa estava realmente farta, às vezes acho que minha mãe que me engordar. Na mesa estava tudo que eu gosto. Suco, torradas, frutas, fatias de queijo, leite e o principal: meu cereal. Peguei uma tigela enchi de cereal e virei o recipiente de leite até transbordar. Stefan me olhou de esguelha e fez cara de nojo. Idiota, não sabe o que está perdendo. Depois de algumas colheradas eu já tinha terminado e fui escovar os dentes enquanto Stefan terminava o café.
Ainda tínhamos meia hora pra chegar ao colégio e para uma cidade pequena como Fell's Church rapidamente chegaríamos. Stefan preguiçoso como era preferia ir de carro e como eu ainda não podia tirar a carteira ia com ele todos os dias. Seu carro, uma Ferrari California azul foi um presente de aniversario de seu pai e desde então vinha sendo seu mimo, já que foi um presente.
Entrei no carro pensando numa forma boa de iniciar uma conversa que eu sabia que ele não gostaria. Mas para mim era necessário e insistiria no assunto até que ele aceitasse.
— Então, Stefan... – minha voz saiu mais dengosa do que o planejado e ele me olhou com desconfiança antes de voltar os olhos para estrada novamente. – É quase dia 18 sabe...
Suas mãos apertaram com força o volante até seus dedos ficarem branco e sua mandíbula se contraiu. Eu não disse nada, sabia que sua reação seria essa. Esperei, esperei e esperei. Depois de longos minutos em silencio ele visivelmente mais relaxado, falou:
— Não, Elena. – sua voz saiu fria e isso me fez hesitar. Por meio segundo.
— Por favor, Stefan...
— Já disse que não Elena! Não vou, não insiste! – ele freou de uma vez antes que batesse na traseira do carro a nossa frente. Já estávamos no estacionamento, como eu disse: muito rápido.
— Fizemos isso por dois anos, por que não quer fazer dessa vez?
— Exatamente, já faz três anos, três anos Elena! Não sabemos nem se ele ainda está vivo. Até os policiais já pararam com a busca. Não vou ficar comprando presente de aniversario pra alguém que não vai voltar. Vou acabar ficando maluco com essa historia, não posso mais Elena! – ele praticamente berrou e foi como um tapa na minha cara. Lagrimas começaram a queimar para escorrer pelo meu rosto, mas eu não choraria não na frente dele.
Tirei o cinto de segurança, sai do carro e gritei sem me importar com quem ouvisse:
— ELE NÃO TÁ MORTO! – corri esbarrando em quem estivesse perto sem nem me desculpar.
Ouvi vozes conhecidas me chamando, mas não parei de correr. Minhas lagrimas desciam livremente enquanto entrava no banheiro. Entrei no cubículo laminado, me tranquei e sentei no vaso sanitário. Puxei minhas pernas até o peito e as abracei. E o choro silencioso ao qual me acostumei se fez presente.
Tudo estava doendo. A dor que o Damon me deixou era grande demais pra somente eu suportar. Eu tinha que superar, mas não conseguia agora e não me via conseguindo no futuro. Três anos, três anos haviam se passado e ao invés de diminuir a dor, só aumentava. Quando uma pessoa querida morre, de um jeito ou de outro temos que acostumar com o vazio que ela deixou, pois sabemos que ela não vai voltar. Mas isso é completamente diferente quando se trata de alguém que desaparece. Não sabemos se ela está viva, se ela pode ou não voltar. Viver na expectativa e na esperança. Não aguento mais. Só queria meu Damon de volta!
Deitei minha cabeça em meus joelhos e fechei os olhos. Minha cabeça estava latejando de tantas lagrimas. Pensei no Damon de onze anos me ajudando a andar de patins. Suas mãos segurando firmemente a minha para não me deixar cair. E, quando achou que eu estava pronta soltou minha mão, me esborrachei no chão e o Damon estava lá se assegurando que eu estava inteira antes mesmo de eu sentir alguma dor.
Seus olhos azul acinzentado brilhando de carinho sempre que estavam na minha direção. O sorriso irônico que sempre se puxava em seus lábios.
— Vamos ser felizes, Elena. Eu prometo...
Foi a ultima coisa que passou pela minha cabeça antes de eu adormecer.
Acordei com o som do sinal, só não sabia de que aula. Meus olhos estavam ardendo do choro de mais cedo, mas minha cabeça não doía mais. Peguei meu celular para ver as horas e fiquei surpresa. Já era 11h30min. Perdi toda a aula da parte da manhã. Sai do cubículo e graças a Deus estava vazio. Lavei meu rosto e sai do banheiro. Estava tudo silencioso já que os alunos ainda estavam em classes. Esgueirei-me pelos corredores pra não ser vista por ninguém e fui até o pátio inferior. Sentei-me e escorei as costas na arvore.
Será que o Damon voltaria a ver esse lugar? Será que eu ainda veria o Damon sorrir? Será que eu ainda veria seus olhos azuis acinzentados? Será que eu ainda seria abraçada por ele? E de tantos “será” eu temia pensar o pior: Será que ele ainda estaria vivo?
Foi quando reparei em três pessoas vindo em minha direção. Stefan, Caroline e Bonnie. Pararam ofegantes na minha frente e Stefan foi o primeiro a falar.
— Onde se meteu Elena? Estávamos te procurando.
— Não te interessa! – ele grita comigo e agora acha que devo satisfação para ele.
— Elena, me desculpa, de verdade mesmo. – sua voz saiu rasgada e ele se ajoelhou na minha frente. Passou a mão em meu rosto, alisando minha bochecha com o polegar. – Você estava certa. Sempre esteve Elena.
— O que quer dizer Stefan? – estava confusa e olhei em seus olhos. Seus olhos se encheram de lagrimas e rolaram livremente, ele nem tentou impedir. Quando falou sua voz estava embargada e o que disse me deixou sem reação, mas me encheu de alegria.
— O Damon, Elena. Ele está em casa.
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