Infernum
3 Dignum
Notas iniciais
Lena
Tudo isso é loucura. Sinceramente? Eu preferia estar com aquele garoto de maquiagem porque, de longe, ele foi o melhor entre os cinco. Okay, sete. Agora que eu estou mais sóbria, percebo como eu não posso confiar em assassinos psicopatas.
Minha vida nunca foi a mesma depois que a minha casa pegou fogo com Lily dentro, mas eu já sei que não foi minha culpa. Foi Deus, que me puniu por todas as bebidas e garotos que já passaram pela minha mísera vida. Então, por motivos de orgulho ou não, aumentei o número de “coisas ruins”. Pior do que já é não fica. Pelo menos eu pensava. Como já dizia minha avó, não há nada tão tuim que não possa piorar. E hoje percebo que é verdade.
Primeiro Henri, agora Charlie, minha melhor amiga. O que ela fez por Henri foi um gesto “nobre”, mas, francamente, que tipo de pessoa é tão estúpida a ponto de jogar contra as regras em um jogo que quer te matar.
Agora, essa vela está nos falando que o vencedor será seu “herdeiro”. Em minha defesa, eu só estou jogando esse jogo porque a Charlie me obrigou. Vejo Henri indo até ela, eles conversam por um tempo, até ela ir em direção à mesma caixa d’água que ele estava cinco minutos atrás.
– Charlie, — Murmura Ginny – não vá até lá.
Charlie dá de ombros, percebo seu rosto brilhando com lágrimas.
– Eu mereço, não?
Ela entra na caixa, e seus olhos se tornam brancos assim que entra em contato com o vidro, como Henri. Seu corpo é puxado para dentro e, um segundo depois, começa a surgir uma água verde, com elementos suspeitos dentro.
Marco trinta minutos no um relógio, com meu coração batendo cada vez mais forte.
Cinco minutos se passam. Ela tenta quebrar o vidro com as mãos.
Quinze minutos. Ela tenta parar a água tampando o buraco. Isso só faz sair mais água.
Vinte minutos. Ela está esmurrando o vidro. A água está em seus ombros.
– Ela não vai aguentar. – Choraminga Ginny.
– Ela consegue. A Charlie é esperta, ela vai conseguir sair. – Diz Henri, parecendo não acreditar em suas palavras.
Ela começa a afundar, já não consegue mais tocar os pés no chão, até que...
Charlie abaixa e vai até o chão, e começa a tomar a água. Ela toma vários goles, até que, finalmente, ouço um bip vindo do meu relógio.
Os trinta minutos acabaram. A água verde começa a abaixar, e Charlie consegue respirar. O teto se abre e Charlie sai da caixa, parecendo que iria vomitar a qualquer momento. Corremos todos até ela.
Como com Henri, Garth começa a fazer algum tipo de massagem cardíaca e respiração boca-a-boca (ele nos proibiu de falar com Henri sobre isso). A cor de Charlie começa a voltar e, quando ela volta a respirar por si mesma, um líquido verde começa a sair por sua boca.
Desesperado, Henri a vira para baixo, deixando todo o líquido sair. Acredite quando eu digo que a visão de sua melhor amiga quase morrendo não é nada agradável.
– Acho que não podemos fazer nada, — fala Russel, entre soluços. – apenas esperar.
Cada um vai para um canto da sala, exceto Henri, que fica olhando Charlie. Vou sentar em cima de uma colcha junto com Garth. Ficamos um minuto em silêncio, até eu declarar:
– Ela vai morrer. – Vejo o olhar espantado de Garth, e complemento: — Você sabe que é verdade. Todos nós vamos. Não adianta negar.
Ele fica um momento sem falar nada, apenas me encarando.
– Se não fizermos nada, realmente vamos morrer. Podemos tentar.
– Tentar para quê? Estamos aqui porque merecemos. Entenda.
– Lena, fizemos sim coisas que não podemos nos orgulhar. E sim, essas coisas me devoram por dentro, mas não vou simplesmente desistir da minha vida assim.
– Por quê? Seria tão mais simples.
– Porque não vale a pena.
Abro a boca para retrucar, porém antes de conseguir falar qualquer coisa, surgem novas palavras no chão.
Gartho Lopez, como diversos outros tolos, você se deixou levar e causou a morte de alguém importante para você.
Não seja uma criança mal educada.
Você ficará dez minutos pendurado num cano a vinte metros de altura.
Eu ficaria triste por você.
Porém no meu reino não sentimos ternura.
Aprendam isso se desejam se mostrar vencedores dignos de Infernum.
– Gartho? – Ri Russel, num horário extremamente apropriado.
Ficamos todos em silêncio enquanto vemos o teto da sala subir até o encanamento aparecer. De cano em cano, todos vão desaparecendo até apenas um restar. Olho para Garth, e não consigo identificar nenhuma emoção em seu rosto.
– Eu não vou.
– Garth... – Sussurro, com a voz falhando.
– Eu não vou.
– Garth, bro, isso não é mais uma brincadeira. – Diz Russel, que começa a ir até ele, hesita, e volta. – Charlie e Henri estão quase morrendo. Estamos mexendo com uma coisa que pode nos matar. Estamos mexendo com o diabo.
Aquilo realmente causou algum efeito em Garth, que pareceu envelhecer dez anos. Vou até ele.
– Você consegue. – Dou um beijo nele. – Nos tire daqui. Faça valer a pena.
A vela volta a derramar cera que, como antes, pega fogo, formando as palavras:
Ouça sua namorada, Lopez.
Se não ouvir, sinto em informa-lo que todos os seus amigos irão morrer.
Você tem dois minutos para subir até o cano.
Sem dizer mais nada, Garth sobe e se segura no cano. E assim começam os vinte minutos mais agoniantes de nossas vidas.
Ver Garth, o garoto mais divertido de nosso grupo, sofrendo daquele jeito, machuca de um jeito inexplicável. Ele fica cada vez mais vermelho, os nós de seus dedos parecem estar cor de papel.
Eu desabo.
Eu desabo por alguém que nunca pensei que eu poderia sentir algo.
Eu desabo pelo garoto de sete anos que tinha medo do Rex de Toy Story.
Eu desabo pela única pessoa que me apoiou quando minha casa pegou fogo.
Eu desabo por Garth, e tudo fica escuro.
+ + +
Ouço gritos. Abrindo meus olhos, reconheço os cabelos loiros de Ginny pulando. É ela que está gritando. O que ela está falando? Algo sobre eu ter que me segurar. Não, eu não, Garth.
– GARTH! ACABARAM OS VINTE MINUTOS! ACABOU!
Começo a me levantar, sentindo meu sangue subir para minha cabeça.
Consigo ver algo caindo em minha direção.
É Garth.
Ele cai, e números aparecem no chão.
Um já foi.
Faltam três.
Parabéns Ginny, Lena, Henri, Charlie e Russel,
Vocês estão cada vez mais perto de vencer Infernum e se mostrarem dignos de herdarem meu reino.
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