Inevitável
15 Wish You Were Here...
Notas iniciais
"Não é difícil lutar por aquilo que se quer. Difícil mesmo é desistir daquilo que se ama.". – Bob Marley

7 anos depois...
02 de Agosto, 17:52 — Sábado
~Kagami Taiga~
O barulho das sirenes da polícia de L.A. preencheu o quarteirão já evacuado. Lá vinham eles novamente para atrapalhar... Taiga já estava acostumado com os gritos, com o choro, com a correria e com toda aquela movimentação, mas sempre odiava quando a polícia chegava para se meter onde não era chamada, já era a terceira vez naquele dia. Ali era lugar dos bombeiros!
– Pronto, chegaram os filhos da puta! — Reclamou Benjamin irritado olhando para o carro que estacionava ali perto. — Taiga, vai na frente, vou parar eles ali mesmo.
– Boa sorte aí, Benji! — Disse o ruivo, dando um soco no punho do parceiro coberto de fuligem e suor.
– Cuidado lá dentro! — Ele exclamou, se afastando.
Taiga olhou o rapaz aproximar-se da viatura antes de voltar-se novamente para a o pequeno prédio em sua frente. Naquela manhã a construção desabara, estavam trabalhando o dia todo na retirada do pessoal, mas muita gente ficara soterrada. Parte da estrutura ainda ruía aos poucos, felizmente a maioria dos ocupantes já havia sido evacuada e apenas duas pessoas morreram até então.
Estavam na última busca do dia, pois logo seriam substituídos por outro pelotão de bombeiros. O corpo de Taiga já estava bem cansado e sua cabeça doía um pouco. E além de tudo era seu aniversário de 24 anos, sua mãe o esperava em casa com um bolo de chocolate. Sorriu lembrando-se do gosto.
Engoliu em seco e entrou pela última vez no local, abaixando-se e saltando por entre as vigas, pedras de cimento e móveis quebrados. Muitos bombeiros ajudavam no resgate, precisavam ser rápidos antes que algo ruísse novamente.
– Aqui Taiga, aqui! — Gritou Zack, acenando com a lanterna em mãos do outro lado da construção. — Encontrei outro aqui!
Kagami foi o mais rápido possível para o local, movimentando-se por entre os entulhos. Com seu corpo grande era complicado ser ágil, preferia atender as ocorrências externas, mas em um caso como aqueles não havia muita escolha, toda a ajuda era pouca.
– Ele ainda respira! — Disse o outro ao vê-lo se aproximar.
Juntos, eles retiraram com esforço e cuidado uma pequena viga que caíra em cima do corpo do senhor de meia idade. Ele parecia desmaiado, mas tinha pulsação normal e ainda respirava.
– Zack encontrou mais um civil! — Kagami avisou pelo interfone que tinha preso em seu uniforme. — Sexo masculino, aparenta uns 40 anos. Sem documento nos bolsos. Braço direito quebrado em dois pontos, mas sem fraturas expostas. Escoriações leves na perna e no rosto. Prepare a ambulância para recebê-lo e tragam uma maca, por favor.
Não demorou muito para mais uma dupla de bombeiros aparecerem pela fenda que dava entrada ao prédio desabado.
– Aqui! — Acenou Zack, balançando novamente a lanterna para chamar a atenção de ambos.
Eles se aproximaram com dificuldade e depositaram a maca ao lado do corpo desacordado do homem. Com cuidado, o quarteto seguiu o procedimento padrão e colocaram-no imobilizado no objeto. O senhor abriu levemente os olhos, mas voltou a fechar.
– A polícia está criando caso de novo! — Murmurou um dos soldados que entrou por último. — Benji está com problemas.
– São uns filhos da puta! — Kagami balançou a cabeça.
Caminharam com cuidado por cima dos destroços e retiraram o homem com segurança de dentro da construção. Ele já estava sendo atendido por uma das ambulâncias e seria levado para o hospital em breve. Uma vítima a menos. Quando Kagami preparava-se para adentrar novamente o local seu interfone começou a chamar.
– Soldado, evacuação imediata. O outro pelotão de bombeiros chegou. — O aviso veio. — O caminhão sai em cinco minutos.
– Entendido, senhor! — Confirmou Kagami, desligando o aparelho.
Olhou ao redor. Seus outros parceiros já se retiravam de lá e corriam em direção ao caminhão, provavelmente já haviam recebido o aviso também. Olhou para as viaturas e lá estava Benji ainda gesticulando e se exaltando. Sorriu de canto, era um baixinho estressado mesmo. Dirigiu-se até lá, ele era teimoso e ficaria falando abobrinha até perder a carona.
– Precisamos interditar o prédio! — O policial mais alto e moreno falou com um tom insistente. — Muitos curiosos estão querendo se aproximar.
– Deveriam fechar as ruas ao redor, não o prédio! Cadê o sentido nisso? — Exclamou Benji, irritado. — Se eles se aproximarem pode ser perigoso, mas ainda tem gente lá dentro para ser retirada.
– Benjamin, vamos! — Taiga aproximou-se, olhando ameaçador para os policiais. — Eles não vão isolar o prédio, vão simplesmente evacuar as pessoas ao redor como deveriam ter feito durante o dia todo. Caso contrário eles vão falar com o tenente mais tarde.
O outro não disse mais nada, apenas assentiu com raiva antes de seguir o ruivo. Juntos seguiram em direção ao camburão que os aguardava no final da esquina. Ambos estavam cansados, cobertos de pó e extremamente suados. Aquele uniforme era grosso e resistente, isso ocasionava um calor desnecessário, sem falar na alta temperatura que fazia durante o dia todo.
Entraram em silêncio e sentaram-se nos lugares pré-escolhidos do compartimento traseiro do caminhão. Havia cerca de nove pessoas ali dentro, seus parceiros de trabalho, todos olhando para o nada sem uma palavra sequer. Era sempre assim quando saíam de uma ocorrência, aquele clima de enterro... Mas até chegarem ao Quartel já estariam novamente agindo igual umas putas, rindo e falando merda. Provavelmente teria uma cervejada depois ou algo do gênero em comemoração às vidas salvas. Ninguém levava o serviço para casa.
***
Devidamente limpos e banhados, com os uniformes trocados e já no escritório da Sede, o Batalhão 18 do Corpo de Bombeiros de Los Angeles estava reunido em um círculo fechado, apenas esperando o último ato que decidiria o destino da noite.
– Par! — Falou Kagami, encarando fulminantemente os olhos verdes do rapaz em sua frente.
– Ímpar! — Disse Benji com a mesma intensidade competitiva.
– Um, dois, três e já! — Os outros soldados exclamaram vendo-os gesticular.
– MERDA! — Exclamou Kagami ao perceber que perdera. Jogara dois dedos e Benji jogara um só.
– Você sempre tira dois, seu idiota! — Falou o louro triunfante, dando-lhe um tapa na testa. — Bom relatório e boa noite, soldado Kagami Taiga.
Todos riram da cara do ruivo e se levantaram satisfeitos. Era sempre ele, sempre ele! Mesmo no dia de seu aniversário teria que ficar fazendo aquele relatório sobre o incidente do dia, era uma merda de um azar mesmo. Alguns dos seus parceiros já se retiravam, dando-lhe tapas nas costas e muitas risadas debochadas.
– Quando terminar liga pra gente! — Falou Benji, levantando-se. — Vamos tomar um chopp por aí, é sábado mesmo.
– Sabe que não vou! — Disse o ruivo desgostoso já se dirigindo à mesa do computador no escritório do batalhão.
– É, você nunca vai! — Comentou o louro, olhando-o com um sorriso de canto. — A gente se fala! Bom final de semana e bom relatório.
– Vai se foder! — Disse Kagami mostrando o dedo do meio assim que ele saiu dando risada.
Sentou-se na cadeira escura e olhou desanimado para o relógio da sala bagunçada e mal iluminada. Já era quase 20h, sua mãe o estaria esperando em casa.
– Melhor ligar para ela... — Murmurou para si mesmo, discando o número de sua casa.
– Hey Teddybear! Como você está? — A voz de Annete soou pelo telefone. — Vi pelo noticiário, o prédio...
– Hey Mom! — Cumprimentou, olhando para as anotações na mesa, separando-as por horários. — Está tudo certo, não foi tão grave quanto aparentou. A imprensa exagera... Já te disse isso.
– Ah, que bom, sweet heart! Fico mais tranquila assim. — Ela aliviou-se. — Está vindo para casa já?
– Pois então... — Começou, olhando para a tela do computador e abrindo um novo ofício. — Perdi de novo e vou ficar por aqui fazendo o relatório. Perto das 21h devo chegar...
– Ah, tudo bem! — Ela suspirou, mas sorriu. — Estaremos aqui te esperando, você sabe! Boa sorte com seu trabalho, my love. Até daqui a pouquinho.
– Obrigado. Logo eu chego! — Sorriu. — See you mom.
Pacientemente colocou o celular no bolso e analisou os papéis sujos, rabiscados, com letras impossíveis de entender. As pranchetas das ambulâncias também estavam ali cheias de garranchos, com os nomes, medicamentos aplicados e toda aquela merda de sempre.
– Ok! Go go... — Disse, começando a digitar.
***
Espreguiçando-se, o ruivo foi até seu armário no corredor acinzentado, ironicamente era o número 31... Sorriu, balançando a cabeça. Todas as vezes que ia até ali se lembrava da data de aniversário dele... Repreendeu-se na hora. Nada de pensar em coisas que o deixariam triste, já estava começando a superar... Ou não.
Sua mochila estava amarrotada lá dentro, mas tudo bem, no caminho ela voltaria ao normal, novinha em folha. Colocou-a nas costas após guardar o celular, a carteira, a sacola com o uniforme sujo e duas pastas com impressões do relatório.
– Vamos para casa então... — Bocejou, dirigindo-se para a saída com uma terceira pasta em mãos. O corredor era comprido e no final dele ficava a sala da administração, seu destino antes de ir embora.
– Ah, não acredito que você perdeu de novo, Taiga? — Sorriu Jess, já estendendo a mão para receber a pasta assim que o viu entrar. — Está ficando cada vez melhor nisso, não é?
– Humpf! — Resmungou batendo o cartão no relógio-ponto. — Troço chato da porra. Não sei como você aguenta escrever isso o dia todo.
– Chato é você! — A moça morena com cabelos escuros sorriu gentilmente. — Ah, é seu aniversário hoje, não é?
– Oh! — Ele fez uma forçada expressão de surpresa. — Pelo menos uma pessoa lembrou.
– Só vi porque está no calendário do sistema! — Ela levantou-se dando de ombros. — Feliz aniversário Taiga!
Jess veio andando em sua direção e o abraçou. Um pouco desconfortável, o ruivo repetiu o gesto, afastando-se logo e encarando os olhos castanhos da moça.
– Valeu Uhura! — Sorriu sarcástico.
– Odeio quando você me chama assim! — Ela ergueu as sobrancelhas, já voltando para sua mesa.
– Eu sei! — Riu Kagami, não perdendo a chance de zoá-la. Ela realmente tinha a mesma feição da atriz que interpretou a Tenente Uhura no filme Star Trek, principalmente quando usava o cabelo amarrado.
– Engraçadinho... Está muito confiado! — Ela disse com um sorriso de canto sentando-se em sua confortável cadeira. — Só está conosco há dois anos, não fique muito espertinho, eu controlo o RH também! — Jess acenou com um grande sorriso. — Bom fim de semana, Taiga! Vaza logo!
– Bom fim de semana para você também, tenente Uhura! — Disse o ruivo irônico, acenando de volta enquanto retirava-se da sala.
Dirigiu-se para a saída com a maior velocidade possível. Recusava-se a comprar um carro, era muito caro... Preferia guardar aquele dinheiro no banco e correr para chegar logo em casa.
***
– Estranho... — Murmurou ao ver todas as luzes de sua residência apagadas, pelo menos a do corredor ou a da cozinha sempre ficava acesa.
Sua mãe disse que estaria lá o esperando, ainda era 21h18min, não era tarde. Será que aconteceu alguma coisa? Pegou o celular na mochila já aproveitando para pegar as chaves. Nenhuma ligação perdida...
Deu de ombros e andou silenciosamente até o portão de metal. Ao abri-lo, um rangido estridente soou, fazendo-o lembrar de que precisava comprar óleo para passar nas dobradiças. Anotou mentalmente. Sem muita pressa, Kagami dirigiu-se até a porta de madeira pintada e começou a destrancá-la, olhando para os lados em busca de algum vizinho capaz de informá-lo sobre alguma coisa... Ninguém.
Entrou e deixou a chave no aparador ao lado da porta, sua mania. Acendeu a luz em seguida.
– FELIZ ANIVERSÁRIO, TEDDYBEAR! — Gritos, apitos, assovios e confetes o fizeram assustar-se e abrir um enorme sorriso no rosto ao perceber o que estava acontecendo. Sua mãe, Nick, Alex, o pessoal do Batalhão e mais alguns amigos estavam esperando por ele.
– Teddybear vocês vão ver! — O ruivo sorriu, sendo abraçado pela mãe que correu em sua direção.
– Feliz aniversário, sweet heart! — A bela mulher ruiva de meia idade deu-lhe um carinhoso beijo na bochecha. Amava o cheiro dela, nunca se cansaria daquilo.
– Parabéns maninho! — Nick gritou, pulando em sua garupa e dando-lhe um abraço apertado com braços e pernas. — Agora sim ele está virando adultinho de verdade!
– Retardada! — Sorriu, dando-lhe uma apertada forte nas costelas antes de colocá-la no chão. Mesmo com quase 30 anos na cara ela ainda tinha aquele espírito de criança.
– O meu pequeno Taiga já é um homenzinho! — Alex aproximou-se em seguida, mordendo-lhe a bochecha. Trocara os beijos por aquilo.
– Homenzinho nada, um homenzão! — Sorriu Anette, dando-lhe uma carta e acariciando seu rosto. — Seu pai também mandou um presentinho para você!
Kagami olhou feliz para o envelope. O remetente na verdade era o hospital onde seu pai estava internado, com o qual mantinha contato constante. Abriu e sorriu mais ainda com o conteúdo, era um desenho realmente infantil dos dois com as mãos dadas, foi provavelmente copiado de alguma foto antiga que tirara com seu velho.
Ele estava com Alzheimer, hoje nos estágios mais avançados da doença. O ruivo descobrira assim que chegara em L.A., sua mãe contou detalhe por detalhe. Por isso ele não o visitava nos tempos que ainda morava no Japão e sequer dava satisfações... Ele tinha um contador próprio que cuidava dos assuntos burocráticos, por isso sempre pagava suas contas e sua matrícula na escola e mandava apenas e-mails frios como esclarecimento.
Ah, o tempo do Japão... Uma leve pontadinha de dor e saudade cruzou seu peito... Como previra aquilo nunca iria passar. Deixou-se sorrir, eram ótimas lembranças... Faria tudo para voltar naquele tempo e mudar as coisas.
– Achou que eu tinha esquecido, não é grandão? — Sorriu Benjamin aproximando-se para abraçá-lo, desviando-o de seus pensamentos. — Feliz aniversário!
– Vocês me fizeram de idiota! — Riu Kagami, devolvendo o abraço no rapaz que atingia seu queixo, era um baixinho mesmo. — Valeu Benji!
– Você é previsível demais! — Ele deu de ombros quando se afastaram com um sorriso.
Mais abraços e felicitações vieram em seguida. Todos do seu pelotão, os parceiros de surf, alguns colegas de shows e conhecidos da família estavam ali. Quase todo mundo... Quase.
Festa surpresa era uma coisa que nunca esperou na vida, realmente estava animado. Tinha bastante comida em uma mesa grande, um isopor com muita cerveja gelada dentro, músicas boas de algum CD de Nick tocando ao fundo... Tinha tudo para ser o segundo melhor aniversário que passara, porque o primeiro lugar jamais seria substituído. Aquele que passou no sítio jamais perderia o posto de melhor aniversário de sua vida.
Sem sequer avisar, Benji atirou uma latinha de cerveja em sua direção, viu apenas no reflexo e pegou no susto, saindo de seus devaneios. Chega de pensar... Ainda doía.
***
As risadas na sala eram contagiantes. Todos estavam se divertindo bastante e bebendo na mesma intensidade, mas a cerveja estava começando a ficar quente, o que não era bom depois de um dia tão turbulento.
– Eu pego mais gelo! — Sorriu Kagami, levantando-se do chão e começando a andar em direção à cozinha.
– Eu te ajudo! — Nick prontamente o acompanhou, pegando o isopor quase vazio que estava no chão. — Se divertindo, Teddybear?
– Lógico! — Respondeu sorrindo e sentindo-se um pouco alterado pelo álcool. — Vocês são muito foda! Não estava esperando mesmo!
O ruivo foi até a geladeira e tirou um pacote de gelo extra que fora comprado. Nick sentou-se na bancada ao lado assim que depositou o isopor perto de sua perna.
– Ei maninho, vem cá... — Ela cochichou, chamando-o para se aproximar com um gesto de mãos.
– Hm? — Perguntou Kagami com uma expressão suspeita, mas curioso.
– Quem é aquele delícia de olhos verdes que não tira o olho da sua bunda?
– O que tem na minha bunda? — O ruivo estranhou, olhando para trás tentando ver algo em suas próprias nádegas. Bateu no tecido da calça na intenção de tirar alguma sujeira.
– Não tem nada de errado com sua roupa, seu idiota. – Ela disse indignada, dando um tapa forte em seu braço. — O baixinho gostoso ali, ele fica te olhando!
– O Benji? — Perguntou confuso, olhando para o rapaz que conversava animado com o resto do pelotão.
– Ah, esse é o Benji... — Ela sorriu, lançando outro olhar ao rapaz. Voltou-se para Taiga. — Ele tá afim de você!
Kagami nada disse, apenas voltou o olhar inexpressivo para a geladeira segurando o pacote de gelo nas mãos. Ele já sabia, mas não ligava. Não queria se envolver, tinha medo de se machucar de novo... Mas principalmente medo de finalmente conseguir seguir em frente e esquecê-lo se o fizesse.
– E daí? — Perguntou, cortando o pacote com a tesoura que ficava em cima do eletrodoméstico.
– E daí que ele é um pedaço de mau caminho que vale a pena investir! — Ela o encarou incrédula, como se ele tivesse dito uma atrocidade.
– Nick... — Suspirou o ruivo, virando o pacote no isopor, enchendo a cozinha com o barulho das pedras congeladas se chocando. — Esquece isso!
– Pensa bem maninho! Olha ali pra ele... — Ela sussurrou, forçando-o a encarar o amigo. — Mesmo sendo louro ele é bem másculo, sorte que é um louro-escuro... E com aquele corte militar então? E os olhos verdes de tirar a concentração de qualquer um? Taiga, pega logo pra você, por favor! Olha aquela boquinha dele...
– Vou contar para a Alex que você fica cobiçando os meus amigos quando está bêbada! — Murmurou desinteressado, voltando-se para o gelo que ainda caía.
– Idiota, sabe que não gosto de bananas. — Ela sorriu, dando-lhe um soco leve na bochecha. — Só estou te mostrando o que você se recusa a ver, ele é lindo!
– Não vou me envolver! — Ele cantarolou baixinho, erguendo as sobrancelhas ainda agitando o pacote para que o último cubo caísse. Não ligava para aparências, nunca ligara.
– Pois deveria! — Ela cantarolou de volta. — Ele é legal, lindo e está louco pra te ver pelado.
– Ele é meu parceiro de trabalho e só! — Disse sério. Já estava cansando daquelas asneiras. — Estamos entendidos?
– Sei por que você está relutante! — Ela começou, acariciando os cabelos ruivos. — Mas está na hora de você encontrar outra pessoa maninho, já faz tanto tempo...
– Você não sabe de nada, vamos logo! — Disse, cortando o assunto antes que seu sorriso desaparecesse por completo. Deixou o pacote ali em cima da pia mesmo e a ajudou a levar o isopor para a sala.
Suspirou fundo, tentando novamente entrar no clima de antes. Com a cerveja e o ritmo de Metallica foi quase fácil, mas aquela merda de dor insistia em aparecer de vez em quando...
***
02 de Agosto, 22h02min — Sábado.
~Aomine Daiki~
O moreno olhava-se no espelho com um meio sorriso satisfeito, ficava muito bem de uniforme, nunca cansaria de repetir aquilo. O azul marinho quase preto combinava com seus cabelos e com seus olhos. O pensamento o divertiu antes de pegar a chave da viatura que ficava em cima de seu criado mudo.
– Já está indo, Daiki? — A voz de Yuuri soou vinda da cozinha, onde ela preparava as marmitas que levaria ao trabalho no outro dia.
– Sim! – Murmurou sem emoção, pegando o cap e novamente olhando seu reflexo. Aquilo estragava tudo, o chapeuzinho era muito feio.
– Você não deveria ter aceitado o turno da noite! — A esposa aproximava-se devagar e com a voz baixa.
– De novo com isso? – Perguntou incrédulo, olhando-a colocar os cabelos curtos e negros atrás da orelha, esse gesto sempre indicava impaciência.
– Está tudo muito corrido agora. — Ela comentou, sentando-se na beira da cama com uma expressão cansada.
– É, eu sei! Faço o almoço e cuido de tudo por aqui. — Aomine afirmou confuso. — Porque está reclamando de novo? Você nem para em casa!
– Você nem sequer me perguntou antes de tomar essa decisão! — Ela resmungou.
– Ah não? — Ele perguntou estreitando os olhos. — Te falei mil vezes que mudaria para o turno da noite, se você não presta atenção no que digo eu não posso fazer nada.
– Você foi impulsivo! — Ela franziu as sobrancelhas, ainda se achando na razão.
– Você só não quer admitir que sou útil! Acha que não te conheço?
Ela apenas o encarou com um olhar ameaçador, mas nada respondeu. Aomine não aceitaria mais desaforo de ninguém, muito menos de sua mulher que só sabia sumir nas horas convenientes para fazer seus "plantões" no hospital. Achava que Daiki era burro, mas muito pelo contrário.
– Vou me atrasar, começo às 22h30min. — Disse o moreno, fechando os olhos em um impulso para não se irritar mais ainda. — Não estou bom hoje, ok?
– Você nunca está bom! — Ela revirou os olhos.
– É, é... Bem eu! – Suspirou sem olhá-la direito. — Até amanhã!
– Bom trabalho! — Ela disse sem entusiasmo ao vê-lo se afastar.
Com passos silenciosos o moreno seguiu pelo corredor, destrancou a porta da entrada e saiu sem olhar para a mulher que provavelmente já vinha reclamar de mais alguma coisa. Estava em seu limite com a esposa, os planos do divórcio saltitavam em sua mente cada vez com mais frequência e que se danasse a família de ambos.
Suspirou fundo, agora era seu momento de relaxar... Mesmo que ainda fosse o bendito dia 2 de agosto. Aquele dia sempre o deixava melancólico, era aniversário dele. Sorriu com as lembranças enquanto saía pelo portão de casa, mas balançou a cabeça para afastar os pensamentos.
Com um sorriso de satisfação, Aomine entrou na viatura que agora ficava sob sua responsabilidade. Depois de três anos dentro daquela delegacia o moreno fora promovido e muito bem promovido por sinal, isso o animava demais. Daiki deu a partida no carro e ligou toda a aparelhagem típica, era seu ritual diário para iniciar o trabalho. Sem pensar duas vezes colocou a primeira marcha, soltou a embreagem e seguiu em direção à delegacia onde pegaria as ocorrências e o itinerário de ronda.
O sinaleiro mudou de verde para vermelho, fazendo-o parar o carro com suavidade, tinha que estar dentro das normas de trânsito e dar o exemplo. Aomine cantarolava pacientemente a música que tocava na rádio, tamborilando os dedos no volante e olhando para o movimento na rua. Sábado a noite era sempre cheio de gente e consequentemente cheio de pequenas ocorrências.
Amou ter o ímpeto de enfrentar os pais pelo menos nessa decisão, hoje ser policial era sua vida! Deveria ter começado a se impor antes, as coisas poderiam ter sido totalmente diferentes naquela época. Foi um verdadeiro banana e perdeu a pessoa mais importante de sua vida por medo de sabe-se lá o quê. Hoje se arrependia amargamente, poderia ter sido mil vezes mais feliz ao lado dele.
No começo de seu relacionamento forçado com Toshiro Yuuri, Aomine achou que jamais conseguiria ser feliz de novo, mas prometera que seguiria em frente e assim o fez. Apesar de tudo o que aconteceu naquele tempo, o moreno conseguiu ver que talvez aquilo pudesse funcionar algum dia... Nunca a amaria, lógico, mas ela era legal, bem bonita e inteligente... Cursava medicina e era dois anos mais velha. Dava para se acostumar se realmente tentasse.
Funcionou muito bem por um tempo, ela era gentil e conseguiu de alguma forma prender sua atenção, se é que aquilo era possível. Ele não a odiara conforme pensou que seria, mas a dor da separação sempre estava lá. Ganharam a casa de seu sogro e assim começou, não era tão ruim quanto Aomine imaginara, aprendeu a fazer um monte de coisas na marra e amadureceu bastante. Para alguma coisa serviu.
Depois de mais ou menos dois anos de convivência as coisas ficaram complicadas. Yuuri mostrou seu verdadeiro jeito de ser, muito parecido com o de Seiko. Pensava apenas em trabalho e dinheiro, tentava diminuir Daiki o máximo possível e quase chegaram a se divorciar milhões de vezes com as inúmeras brigas. Como aquilo sempre fora um casamento de fachada eles mantiveram o acordo pelo bem de ambas as famílias, mas ultimamente estava sendo impossível conviver.
Não suportava mais Yuuri, precisava de mil esforços para conseguir sequer olhá-la por mais de vinte segundos. Um beijo frio era raro, e sempre quando havia uma reunião de família... Sexo nem pensar! Nas poucas vezes que fizeram Aomine precisava lembrar-se de situações antigas de sua vida, quando realmente sentia prazer... Pensava nele, só assim conseguia alguma coisa. Mas nos últimos anos nem se esforçava tanto... Era melhor nem fazerem, não sentia vontade alguma.
O moreno mudara o expediente de propósito apenas para ficar longe da mulher. Enquanto ela trabalhava ele ficava em casa e vice e versa. Agora sim sua vida estava começando a ficar perfeita, sentia melhor o gosto da liberdade, visitava Tetsu e Momoi com mais frequência e até podia jogar basquete nas horas vagas.
Faceiro com sua própria astúcia, Daiki guiou o veículo até chegar em seu local de trabalho. Estacionou com maestria e desligou o motor, amava dirigir. Quando retirou a chave da ignição olhou com carinho o chaveiro que pendurara ali, a bolinha de basquete que ganhara exatamente há sete anos de uma pessoa especial que estava fazendo aniversário naquele dia.
– I wish you were here, Bakagami... — Murmurou com um sorriso triste, colocando o objeto no bolso e dirigindo-se à porta de entrada da delegacia.
***
03 de Agosto, 04h12min — Domingo
~Kagami Taiga~
O ruivo acordou de repente com uma imensa vontade de fazer xixi, sua bexiga reclamava tanto que tinha medo de não conseguir chegar ao banheiro. Estava deitado no sofá de sua casa e sua boca tinha gosto de cerveja. Aquilo o desagradou, precisaria escovar os dentes naquele exato momento.
Vagarosamente levantou-se sentindo a cabeça pesar, não queria nem imaginar a ressaca que teria no outro dia quando realmente acordasse "recuperado" da bebedeira. Sorte que era domingo. Olhou ao redor com dificuldade, a luz da cozinha estava acessa e iluminava a sala, deixando visível a zona no local. Zack e Benjamin dormiam de qualquer jeito jogados pelo chão e sua irmã e Alex estavam no sofá oposto abraçadas de conchinha. Sorriu ao lembrar que tivera uma festa de aniversário ali.
Não podia esperar mais, simplesmente correu em silêncio para o banheiro já abaixando a calça de seu uniforme na metade do percurso, quase caíndo com o tecido embolando-se em suas pernas. Mal teve tempo de levantar a tampa do vaso... Apenas relaxou e sentiu o alívio tomar conta de seu ser. O barulho do líquido caindo na água era alto, alguém iria acordar.
– Que se foda... — Murmurou fechando os olhos.
Assim que terminou foi imediatamente escovar os dentes, a sensação mais prazerosa... Mais libertadora que o próprio esvaziamento da bexiga.
Saiu silenciosamente do banheiro e olhou a situação da sala. Com um careta, deixou aquilo tudo para lá e foi em direção ao seu quarto, para sua quentinha e confortável cama. Tirou o uniforme limpo do trabalho e jogou-se nela apenas de cueca, cobrindo-se com as cobertas aconchegantes que pareceram abraçar seu corpo cansado.
O maldito sono não veio. Revirou-se de um lado para o outro e nada. Sua cabeça estava quase explodindo, seus músculos doíam pelo esforço do dia e a preguiça era enorme. Odiava quando isso acontecia, era a abertura para que começasse a pensar nas coisas, naquelas coisas... Lembranças... Perdia-se nelas facilmente.
Há exatamente sete anos ele estava deitado em uma barraca, no meio de um sítio enorme com a pessoa que mais amou na vida. Provavelmente estava murmurando alguma coisa sobre espíritos e se escondendo em baixo das cobertas, mas como consolo recebera um afago gostoso na nuca e voltara a dormir tranquilamente, sendo abraçado com carinho e proteção.
O ruivo pensava sempre a mesma coisa ano após ano. Sentia falta daquela praga... Inconscientemente abraçou o travesseiro, era sua defesa inútil contra a saudade. O cheiro que havia no objeto era seu, mas conseguia lembrar-se perfeitamente do aroma da pele morena de Aomine Daiki, é como se tivesse sentido no dia anterior e não há sete anos.
Balançou a cabeça, tentando não pensar naquilo... Mas era masoquista... Parecia gostar de sofrer, lembrar, chorar, reler a carta, ouvir aquela música. Recusava-se a deixá-lo ir embora apesar de ter insistido tanto que ele continuasse com a própria vida. Kagami quebrara a promessa, simplesmente não conseguia seguir em frente.
Reviu em sua mente a conversa com Nick mais cedo... Ela sabia que o ruivo ainda pensava em Aomine, qualquer um sabia, até o Papa sabia. Chegava a ser ridícula essa dependência com o passado, mas por algum motivo Kagami não queria continuar. Poderia facilmente se envolver com Benji, ele era realmente muito bonito e um cara de bom caráter, mas não queria sequer pensar em outra pessoa...
– Você ainda tem uma falsa esperança, não é Bakagami? – Murmurou para si mesmo, largando o travesseiro e virando-se de barriga para cima com os braços abertos. — Idiota!
A merda era a carência. Sentia falta de um afago que não fosse de sua mãe ou de Nick. Não se envolvera seriamente com mais ninguém, até fora em alguma festa ou outra com sua irmã e Alex, mas não gostava da sensação de beijar um desconhecido. Decidira focar em sua carreira como bombeiro e deixar aquilo de lado por um tempo. Porém era homem, tinha um hormônio conhecido como testosterona e não se saciava apenas com punhetas. Precisava de sexo!
Poderia levantar naquele momento e chamar Benji para transar, o rapaz viria como um cachorrinho! Mas era seu amigo e ainda por cima tinha sentimentos. A chance de magoá-lo era grande... Apesar de que estavam bêbados e aquela poderia ser uma ótima desculpa para esquecerem tudo no outro dia. Considerou, sentando-se na cama...
E se realmente pudesse tentar algo com ele e seguir em frente de uma vez por todas? A essa altura do campeonato já deveria ter dado um passo pelo menos... Kagami imaginou-se ao lado de Benji como parceiro, andando de mãos dadas, sendo zoado pelo pessoal do batalhão, indo ao cinema nos finais de semana, escovando os dentes juntos, transando no sofá... A imagem dele não encaixava ali, não conseguia visualizar a cena, aquele lugar pertencia à outra pessoa.
– Mas posso tentar, não é? – Resmungou, sentindo a cabeça girar novamente.
Não. Estava bêbado e procurando uma desculpa para transar, era só. Voltou a cair na cama pesadamente, era melhor ficar quietinho em seu quarto para não fazer merda. Um desconhecido era uma coisa, Benji era outra...
– Quer saber, que se foda! – Disse levantando-se num ímpeto e saindo silenciosamente do quarto. Andou pelo corredor determinado a seguir em frente. Que se dane o passado.
Ao chegar à divisa com a sala deu de cara com o próprio Benjamin andando em direção ao banheiro. Teve um mini ataque cardíaco, mas disfarçou na hora. Ainda tinha medo de escuro e fantasmas...
– Oi! – O louro cumprimentou como se aquilo fosse um encontro casual, e não no escuro no meio de madrugada. Estava bêbado também.
– Oi! – Falou Taiga engolindo em seco.
Bosta, toda a coragem sumiu naquele momento. Não teria como fazer aquilo com Benji sendo que em sua cabeça só existia Aomine Daiki.
– Quer mijar primeiro? – Ele perguntou, apontando para o banheiro.
– Pode ir! – Gesticulou Kagami, dando-lhe passagem.
Virou-se para voltar ao seu quarto antes que desse merda.
– Estou muito bêbado ou você está só de cueca? – Benji perguntou curioso, colocando a cabeça para fora do banheiro após alguns segundos.
– Está bêbado! – Sorriu Kagami entrando no quarto.
– Que pena... – Ouviu o outro resmungar enquanto fechava a porta.
E mais uma tentativa falha de seguir em frente foi adicionada à lista, Kagami pensou ironicamente ao deitar-se de bruços na cama. Por mais que tentasse não conseguia... Algo o puxava de volta na última hora.
– Aho... – Sussurrou sentindo o sono chegar, finalmente. — I wish you were here...
***
18 de Setembro, 17:52 – Quinta-feira.
~Aomine Daiki~
O barulho da chave destrancando a porta fez a atenção de Aomine ser desviada do filme em sua frente. Yuuri entrava com uma sutilidade fora do habitual, parecia feliz com alguma coisa. Medo.
– Já em casa? – O moreno perguntou com uma das sobrancelhas levantadas, estranhando.
– Oi Daiki! – Ela disse cantarolando e aproximando-se com uma expressão diferente do habitual, algo mais leve. – A gente pode conversar um pouquinho?
– Ah... Claro! – Virou-se no sofá, estranhando a reação amigável demais. Ela nunca chegava mais cedo e muito menos com um sorriso no rosto, era sempre pé na porta e soco na cara até o momento que Daiki saía de casa para trabalhar.
– Estou tão feliz! – Ela falou, largando-se no sofá em sua frente. — Fui promovida, serei Supervisora Geral de Cirurgias Cardíacas! Não é fantástico?
– Ah, você sempre falou que queria isso, não é? Que bom Yuuri! – Disse com um sorriso forçado. Agora estava explicado o motivo de tanta alegria, ela iria ganhar mais dinheiro. Todo mundo era ambiçioso nessa área da medicina...
– Mas serei transferida para outro hospital, na província de Hokkaido. – Ela continuou com um grande sorriso.
– Você está falando sério? – O moreno perguntou incrédulo.
– Sim, achei incrível, você sabe que sempre quis ir para lá! – Ela falava animada, mas sua expressão foi ficando um pouco mais fechada. – Daiki, só tem um detalhe... Eu quero ir sozinha.
O moreno precisou de cinco segundos para processar a informação. Se ela fosse sozinha isso significava que Yuuri finalmente queria se separar de uma vez por todas? Só podia significar aquilo, esperava que fosse, a euforia em seu interior já começava a se manifestar. A palavra "divórcio" era muito bem recebida pelo moreno, mas não ouvira apenas uma ou duas vezes, foram diversas, e todas as vezes que ameaçavam se separar havia algo que os impedia, poderia dar crédito à sua própria sorte dessa vez?
– Repete a última parte, por favor! — Pediu, tentando não se exaltar e não cantar vitória antes do tempo. Algumas vezes já se decepcionara por isso.
– É isso mesmo que sua cabeça processou, Daiki. — Ela disse, olhando-o receosa. — Agora eu realmente quero o divórcio, sem mais desculpas de família ou qualquer coisa do tipo.
– Sempre tem alguma coisa... — Ele começou, tentando não se animar ainda.
– Não dessa vez, juro! — Ela foi direta e incisiva, dando-lhe um sorriso. — Já está tudo encaminhado lá em Hokkaido, já tenho inclusive um apartamento. Estou lidando com essa promoção ha algum tempo em segredo, só esperando.
– Yuuri, seria cruel dizer que estou feliz? – Ele perguntou, não conseguindo mais controlar o sorriso, que abriu-se de orelha a orelha. Já conseguia praticamente sentir o gosto da liberdade.
– Não é cruel! – Ela sorriu com a mesma intensidade. – Sabíamos desde o começo que essas porcarias arranjadas nunca funcionam, sempre foi tudo de fachada mesmo! E esses seis anos de casado foi um bom tempo perdido para ser sincera. Já deu o que tinha que dar, até me admiro que chegou a dar tudo isso...
– E seus pais? — Ele perguntou, erguendo as sobrancelhas. Sempre que fazia essa pergunta ela desistia na hora, tinha dez tipos de receio que fosse a mesma coisa dessa vez, apesar de que ela dissera "sem desculpas". Apenas esperou...
– Entre a profissão e você, o que será que é melhor para mim? — Deu de ombro a mulher em sua frente. — Eles querem status, Daiki.
– Perfeito! — Concordou Aomine. Estava tão feliz que nem se importava com as alfinetadas da esposa, ou futura ex esposa. Como aquilo o animou.– Onde eu assino? Agora vou fazer isso de bom grado!
– Isso foi cruel! — Ela sorriu, levantando-se.
– Só quero minha vida de volta! — Ele deu de ombros. — E ironicamente conseguirei isso com uma caneta!
– Digo o mesmo! — Ela acenou com a cabeça. — Temos que ir até a prefeitura para assinar os papéis. Tem aquela burocracia básica.
– Amanhã assim que eu chegar do trabalho, bem cedo, pode ser? — O moreno perguntou esperançoso, levantando-se também. — Fico até sem dormir quando voltar, não ligo!
– Negócio fechado! — Ela disse satisfeita, estendendo-lhe a mão.
O moreno apertou com vontade, afinal aquilo nunca passara de nada além de um negócio. Uma porcaria de contrato que rendeu lucros para ambas as famílias, mas apenas prejuízos para Aomine e para Yuuri também. Estavam ali de forma forçada, conviviam em pé de guerra e estavam saturados dessa merda toda. Eram como duas pessoas aleatórias vivendo na mesma casa, o que era extremamente cruel e sem sentido. Mas iria acabar em pouco tempo, era bom demais para ser verdade.
– Precisamos comemorar! — O moreno mal se continha de tão feliz. — Sério!
– Lasanha! — Ela sorriu, pegando uma sacola que estava jogada no chão e erguendo para que Aomine a visse.
– Perfeito! — Ele sorria tão feliz que poderia dizer que aquele era o melhor dia de sua vida. — Vou arrumar um apartamento para mim o quanto antes!
– Vou para Hokkaido dentro de duas semanas. — Ela disse, dirigindo-se à cozinha. — Enquanto isso estarei de férias e poderei agilizar algumas coisas aqui com você em agradecimento aos almoços ruins que você faz.
– Ruins mas que você sempre morreu de comer! — O moreno disse, pegando a sacola da mão dela e dirigindo-se para a cozinha.
– Acho que é a primeira vez que tivemos um diálogo sem brigar nos últimos três anos. — Ela comentou, vendo-o se afastar com um sorriso no rosto.
– Posso ser bem sincero com você? — Ele olhou para trás com uma expressão quase culpada pelo que iria dizer em seguida. — Não é nada pessoal, mas é a primeira vez que realmente fico feliz nesses seis anos.
Não estava exagerando, estava quase chorando de tanta alegria e satisfação, era como se uma montanha estivesse saindo de suas costas. Aquele estorvo carregado de mentiras, dor, sofrimento e mágoas estava finalmente sumindo de seu corpo... Só ele próprio sabia o que havia passado durante esses torturantes anos, era sufocante. Felizmente aprendera muita coisa, não tinha mais medo de nada, não devia mais satisfações a ninguém... Crescera e tornara-se um homem de verdade.
Aomine finalmente teria sua vida de volta e agora estava preparado para viver da própria maneira, ao lado de quem quisesse, fazendo o que gostava e sem se preocupar com Ethan, Seiko ou o caralho! Seu sorriso abriu mais ainda enquanto ligava o forno para esquentar a lasanha... Poderia demorar mais alguns meses até tudo realmente ficar do jeito que queria, mas correria atrás do tempo perdido e de sua felicidade, que provavelmente estava em L.A. nesse exato momento...
Seu sorriso ampliou duas vezes, se é que aquilo era possível.
***
29 de Novembro, 20:52 – Quinta-feira.
~Kagami Taiga~
– E nós sobramos de novo! — Resmungou Benji, fechando seu armário com força após guardar os pertences.
– Puta que pariu, sempre perco nessa merda! Devem fazer alguma espécie de complô contra mim. — Reclamou o ruivo, deixando a carteira cair enquanto guardava o resto das roupas no armário. — Tá vendo!
– Relaxa, só temos que ficar mais três míseras horas esperando algo acontecer. — O louro riu e agachou-se para pegar as coisas espalhadas de Taiga.
– Deixa que eu ajunto isso, Benji. — Falou Kagami, abaixando-se também. As coisas estavam jogadas para todos os lados, pois a carteira rasgara ao chocar-se com o chão. — Até essa porcaria estragou. Mau dia...
– Bakagami? — Benji perguntou curioso enquanto se levantava com algo nas mãos. — O que significa?
Um arrepio cruzou a espinha do ruivo, que se apressou em pegar tudo o que havia no chão e olhou alarmado para Benjamin. Ergueu-se o mais rápido que pode, atirou seus documentos, moedas e cartões dentro no armário e fez menção de recuperar a foto que o louro tinha em mãos.
– Nops! — Ele desviou, olhando atentamente para a imagem, avaliando-a com cuidado e lendo novamente a parte de trás, apesar de que apenas “Bakagami” não estava escrito em kanji . Ele não entenderia bosta nenhuma.
– Devolve! — Kagami irritou-se, mas manteve a voz contida.
– Quem é? — Perguntou interessado mostrando de longe a foto onde ele e Aomine estavam lado a lado de uniforme escolar.
– Não te interessa! — Suspirou, esticando a mão para que ele a devolvesse por bem. — Sério Benjamin, dá aqui!
– Quando você me chama de Benjamin... — Ele repetiu entregando a foto para o ruivo. — É algo sério.
Kagami nada respondeu, apenas olhou por alguns segundos para a imagem antes de depositá-la com carinho junto aos outros documentos que depois arrumaria. Fechou a porta de metal com força e a trancou, seguindo direto para o escritório sem sequer olhar para o parceiro de trabalho.
– Hey, Taiga! — Ele chamou, acompanhando-o apressado. — Foi mal... Eu não sabia que...
– É, você não sabe de nada! — Interrompeu Kagami olhando para baixo e encarando os olhos verdes dele.
– Desculpa! — Ele disse levantando as sobrancelhas em uma expressão culpada. — Não fiz por mal. Sério!
– Deixa pra lá... — Sorriu Kagami, dando-lhe um tapa nos ombros assim que sentou-se na poltrona maior do escritório.
Suspirou fundo e relaxou, teria que fazer hora extra até meia-noite, perdera nos palitinhos pela milésima vez naquele mês. Nunca tinha nada a fazer naquele horário, apenas se acontecesse uma emergência estrondosa teriam que auxiliar, mas isso era raro. Já não estava sendo o melhor dia, mas agora Benji conseguiu estragar um pouquinho mais...
– Posso saber quem é? — Perguntou o outro curioso, sentando-se ao seu lado.
– Por...? — Questionou o ruivo, olhando-o com as sobrancelhas erguidas.
– Seu namorado? — Ele insistiu, fazendo o interior de Kagami gelar.
– Não mais... — Suspirou. Que se danasse tudo.
– Pelo jeito você não superou muito b...
– Não! — Interrompeu Kagami, olhando-o sério. — Ele teve que casar a força e eu voltei para a L.A.! Satisfeito?
– Credo Taiga, só te fiz uma pergunta. — Benji defendeu-se. — Mas...
– Sério que você ainda quer falar sobre isso? — Perguntou Kagami, olhando diretamente nos olhos verdes e curiosos. Cara chato!
– Você não o esqueceu, não é?
Kagami desviou o olhar, focando no relógio pendurado na parede a sua frente. Parecia uma conversa de casal e não estava agradando o ruivo, não devia satisfações a ele e estava começando a ficar impaciente.
– É por isso que você não me dá uma chance? — Ele perguntou com a voz baixa.
Aquilo com certeza pegara Kagami de surpresa. Gelou no ato e voltou a encará-lo sem saber o que dizer. A resposta variava entre o "sim" e o "talvez". Apesar de estar carente não queria se envolver com ninguém de forma séria e também não queria esquecer Aomine... Ficou em silêncio.
– Quem cala consente, não é? — Ele sorriu, ajeitando-se melhor na poltrona. — Finja que eu não disse nada.
– Benji... — Murmurou, sentindo-se culpado por algum motivo que não sabia exatamente qual era. — Não veja dessa maneira.
– Devo ver como? — Ele o olhou curioso.
– Eu... — Gaguejou o ruivo. — Eu não sei.
– Quer ajuda?
– Ajuda? — Perguntou, olhando-o com uma careta confusa.
– Para esquecê-lo... Ou superar, pelo menos.
Não soube o que responder, estava sendo prensado contra a parede e não gostava da sensação. Quase deveria responder que sim, precisava seguir em frente... Mas algo o dizia para não fazer isso. No quê confiar?
– Quem cala consente! — Ele sorriu, olhando-o profundamente. – Eu gosto de você, Taiga...
Ele estava muito perto agora, mas era estranho. Eles iriam se beijar? Sim, iriam... Fechou os olhos e permitiu que ele se aproximasse um pouco, se fosse se arrepender que fosse depois. Sentiu a mão de Benji tocar-lhe a nuca com uma suavidade quase exagerada, a mão dele era pequena.
Estava pensando demais, iria parar aquilo na metade do caminho se não relaxasse... “Você precisa seguir com sua vida lá na América", isso estava escrito na carta dele, era isso que estava fazendo, não é? Estava tentando seguir de verdade dessa vez... Mas aquela não era a mesma sensação de estar em uma festa, encontrar um desconhecido, transar e desaparecer. Se permitisse aquele beijo iria selar algo que não seria capaz de corresponder... Iria se arrepender, acabaria magoando Benji e a sensação de trair Aomine o perseguiria pelo resto da vida, apesar de não estarem mais juntos.
Sentiu a respiração do louro bater em seu rosto e engoliu em seco. Foda-se... Agora era tarde, já estavam a menos de dois centímetros de distância...
Por algum milagre o celular de Taiga começou a vibrar em seu bolso e a melodia da música The Trooper encheu a sala com os acordes da guitarra, trazendo-os a realidade de volta. "Salvo pelo Maiden, Up the Irons*", pensou aliviado e irônico assim que abriu os olhos e encarou o louro em sua frente, afastando-se rápido. Aquilo não iria dar certo jamais.
– Desculpa... Não quero esquecê-lo, Benji... — Foi o que conseguiu dizer assim que pegou o celular na mão. O magoara muito com aquilo, mas era melhor cortar pela raiz antes de dar uma merda maior depois.
Olhou para o identificador, era sua mãe... Falara com ela cerca de 20 minutos atrás, achou estranho ela estar ligando novamente.
– Mom?
– Sweet heart, você pode vir para casa? — Ela falou em um tom meio aflito.
– Aconteceu alguma coisa?
– Seu pai... — Ela comentou, mas não continuou a frase. Kagami fechou os olhos com força, tinha medo do que viria em seguida.
– Ele está bem? — Arriscou.
– My angel... — Ela suspirou. — Seu pai teve um AVC agora a pouco...
– Holy shit! — Exclamou, sentindo uma pontada cruzar o peito. Estudara o suficiente para saber o que acontece quando as pessoas têm um acidente vascular cerebral. – Isquêmico ou hemorrágico?
– Eu... Eu não sei... Mas ele ainda está vivo... — Ela o tranquilizou. Claro que ela não iria saber, Kagami ficou nervoso com a ideia e perguntou no impulso.
– Tudo bem, menos mal... — Aliviou-se, mas não muito. Sabia que em casos de AVC precisava esperar três dias passarem para fazer um diagnóstico completo. Se fosse hemorrágico não chegaria a isso, torcia para ser isquêmico.
– Venha para casa, por favor, você precisa ligar para o hospital. — Ela pediu, um pouco nervosa. — Sei que você entende mais sobre isso...
– Tenho que ver se consigo sair daqui. — Olhou para Benji pedindo ajuda silenciosamente.
O louro não era nenhum babaca vingativo, ouviu o que estava acontecendo e prontamente pegou o celular para avisar alguém. Já discava um número, provavelmente o de Zack, era o segundo parceiro mais próximo deles. Benji era esperto, iria convencê-lo a ficar no lugar de Taiga naquela noite. Ele era um ótimo amigo...
Precisava ir para casa... Só deixou sua mãe mais nervosa falando aquelas coisas sobre AVC's. Isso sem falar em sua própria aflição. Não que o pai fosse muito próximo, mas ainda assim era seu pai. Já tinha uma idade bastante avançada e estava ha alguns anos internado em um hospital especializado no tratamento de Alzheimer. Sua vida era triste, quem sabe fosse melhor que partisse... Até porque ficariam sequelas do AVC, independente do tipo...
E achou que seu dia não podia piorar.
***
– Como assim querem tirá-lo daí? — Kagami irritou-se no telefone socando o estofado do sofá.
– Desculpe senhor, são normas do hospital! — O homem de meia-idade, médico e cuidador de seu pai, explicou calmamente. — Não temos o que fazer em casos como esse. Preciso que compareça para assinar a papelada de retirada.
– E se eu não comparecer?
– Ele será colocado na ala geriátrica.
– Ele tem Alzheimer e sofreu um AVC, vocês realmente vão fazer isso com ele? — Kagami perguntou incrédulo.
– Senhor, ele não tem chances de sobreviver, eu lamento muito. Foi hemorrágico, o senhor entende?
– Até quando eu preciso assinar essa merda? — Kagami perguntou colocando a mão no rosto.
– Ele tem mais quatro dias para ficar na ala que está agora.
– Vocês são frios demais, dá até nojo! — Disse Kagami socando novamente o estofado. — Eu irei.
– Obrigado pela compreensão senhor, tenha uma ótima noite.
Kagami colocou com raiva o telefone no gancho. Estava estupefato com a frieza daquele povo maldito. Até tinha sangue japonês, mas jamais faria uma monstruosidade dessas.
– Calma maninho... — Nick disse, acariciando seus cabelos.
– Caralho, que filhos da puta! — Murmurou, tentando conter a raiva e a tristeza ao enterrar o rosto nas mãos.
– O que aconteceu, sweet heart? — Perguntou Annete, agachando-se em sua frente, acariciando seus joelhos.
– Ele teve um AVC do tipo hemorrágico, é o mais raro. Dois casos em dez. — Respondeu Kagami, tentando manter a calma conforme sempre fazia em seu trabalho. — Ele não vai sobreviver mother, unfortunately. Tenho que retirá-lo do hospital em até oito dias, assinar umas merdas... O que me deixa mais indignado é a frieza desse povo, não sei o que tanto cismam com assinaturas e coisas do tipo.
– Eles são práticos. — Ela disse, pesarosa. — Seu pai não traz mais lucros. É assim que eles pensam.
– Não tem ninguém lá para assinar isso, não é? — Perguntou Kagami indignado, olhando para a mãe.
– Não... — Anette balançou a cabeça. — Acho que o seu nome está cadastrado como responsável principal.
– E ainda tem toda a burocracia caso aconteça algo com ele. — Ele praguejou, sentindo uma dor no peito. — E infelizmente vai acontecer... Talvez em bem menos tempo.
– My angel, ele já tem uma boa idade. — Sua mãe o consolou, acariciando seu braço. — Não é algo que não estávamos esperando, não é?
– Eu sei, mas é complicado... — O ruivo suspirou, tentando manter a calma. — É meu pai.
– Quer que eu vá com você, Teddybear? — Nick perguntou, abraçando sua cintura com carinho.
– Não precisa Nick! — Ele sorriu olhando para a irmã. — Não deve ser tão complicado lidar com isso tudo.
– Sinto muito! — Ela suspirou, apoiando a cabeça no braço de Taiga. — Não gostava dele, mas já perdi meu pai e conheço a sensação.
– My little angels! — Annete ajoelhou-se e abraçou os dois. — Ainda temos uns aos outros.
– Yes! — Taiga e Nick responderam ao mesmo tempo, abraçando-a de volta.
***
O ruivo estava deitado na cama há horas olhando para o teto escuro. Não conseguira dormir, por mais que tentasse, aquele fora um dia cheio de acontecimentos inesperados.
Kagami estava triste, preocupado e indignado. Não era realmente próximo ao seu pai e não tiveram lá uma grande convivência, mas mesmo assim doía de alguma forma, não ao ponto de chorar, mas era uma sensação horrível perder alguém assim.
Não dormira tanto nas aulas de enfermagem e primeiros socorros, prestara bastante atenção nessas explicações sobre AVC's, tratamentos de emergência e tudo o mais... O hemorrágico era complicado de lidar, e seu pai realmente tinha uma idade avançada. Sabia que não iria conseguir, ainda mais considerando que estão querendo chutá-lo do hospital, não vão cuidar com muito apreço.
Voltar para o Japão decididamente não estava em seus planos, muito menos para cuidar de assuntos como aquele. Teria que se virar em menos de dois dias para conseguir férias milagrosas no quartel, nem que fosse uma semana. Pelo menos nesse ponto as milhões de horas extras que tinha poderiam vir a calhar... Jess o ajudaria, estava contando com isso.
Sobre Benji não queria nem pensar.
E sobre o Japão... Não avisaria Kuroko e nem ninguém sobre sua breve visita, iria apenas para resolver aquilo e tchau. Seria melhor assim... Tinha medo de encontrá-lo.
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