Inevitável
16 Madrugada de Inverno...
Notas iniciais
Terça-feira, 02 de dezembro – 19h08min
~Aomine Daiki~
– Dai-chan! – Uma voz infantil e feliz chegou ao ouvido do moreno assim que Kuroko abriu a porta de sua casa.
– Oi fedida! – Sorriu Aomine vendo a menina correr em sua direção. Com entusiasmo ergueu a pequena Hina no colo e jogou-a para cima, arrancando dela um grito alegre e escandaloso.
Os cabelos compridos com tom azul-claro idêntico ao de Kuroko esvoaçavam no ar, mas a expressão era a de Satsuki, não tinha como discordar. Hina era a mistura perfeita dos dois, nunca cansaria de pensar aquilo.
– Fedido é você! — Ela disse feliz, bagunçando seus cabelos com as mãos envoltas em uma luva cor-de-rosa.
– Tudo certo, Kuroko? – Disse, ao colocar a menina em sua garupa e olhar para o amigo com um grande sorriso.
– Tudo sim, e com você, Aomine-kun? – Ele saudou, olhando-os com sua habitual expressão vazia.
– Com frio, mas tudo ótimo na verdade! – Ele disse andando até o sofá com a menina nas costas, depositando-a no estofado.
– Dai-chan! – Momoi veio correndo da cozinha e pulou para abraça-lo, como sempre. – Que bom que chegou!
– Oi Satsuki! – Ele a abraçou. Sentia falta da amiga, ainda mais depois de ficar tanto tempo sem vê-la pessoalmente.
– Sua carinha está tão melhor agora! – Ela disse, olhando atentamente o rosto do moreno. – Aquela ruga horrível de sua testa quase sumiu.
– Isso se chama liberdade! – Ele sorriu, sentando-se ao lado de Hina, que instantaneamente começou a brincar com seus cabelos novamente. Ela estava tão quentinha.
– Você não cansa de dizer isso... — Satsuki sorriu, olhando-o enquanto sentava-se no sofá a sua frente.
– Como estão as coisas agora, Aomine-kun? — Perguntou Kuroko sentando-se ao lado de Satsuki e depositando carinhosamente a mão em sua perna. O moreno ainda não compreendia direito como aquele casal virou realmente um casal, mas de alguma forma combinavam, sempre combinaram.
Hina correu silenciosa para o lado dos pais e ajeitou-se comportada entre eles. Aomine achava incrível as repentinas mudanças de atitude da menina, hora ela ficava quieta e calma como Kuroko, hora escandalosa e barulhenta como Satsuki. Mistura perfeita!
– Ah, agora está tudo indo como eu esperei a vida toda... Sem aquela vaca! — Disse, colocando os braços atrás da cabeça e arrancando uma risada dos dois.
– Nunca gostei dela! — Satsuki fez uma careta. — Nojentinha demais para o meu gosto e não combinava com você!
– De fato Aomine-kun, não sei como vocês ficaram juntos tanto tempo. — Kuroko concordou, sorrindo.
– Conveniência ou burrice... Ou ambos, sei lá. — Deu de ombros Aomine. — Nunca fomos um casal, vocês sabem.
– Mas vamos falar das coisas boas! — Satsuki disse, passando a mão nos cabelos azuis da filha. — Como você está se virando?
– O apartamento que estou morando é pequeno, mas é mais do que o suficiente. — O moreno respondeu, coçando a nuca. — Achei que seria bem mais difícil morar sozinho, mas é perfeito, me sustento de boa. E no trabalho está tudo as mil maravilhas... O turno da madrugada é melhor mesmo, mais calmo, posso fazer minha ronda sem preocupações de trânsito e essas paradas todas...
– Você parece outra pessoa agora! — Kuroko sorriu satisfeito. — Fico realmente feliz que aquela tortura finalmente acabou.
– Sim! — Acenou com a cabeça, concordando duas, até três vezes com o amigo. — Era sufocante... E fazia tempo que eu não vinha mais aqui.
– Uns três ou quatro meses! — Kuroko ponderou, erguendo as sobrancelhas.
– Acho que última vez foi um pouco antes do divórcio, no meu aniversário mais ou menos... – Aomine verbalizou seus pensamentos, fazendo os cálculos.
– Mas agora é para vir mais vezes nos visitar! — A amiga falou com uma expressão severa. — Nada de ficar sozinho por muito tempo viu, sabe que já é da casa!
– Eu virei, não se preocupe! — O moreno sorriu ao ver Kuroko concordar com a cabeça.
– E seus pais? — Satsuki perguntou um pouco receosa após alguns instantes.
– Não tenho pais! — Aomine deu de ombros. Não os considerava nada, a atitude deles não tinha perdão, desejava que fossem para o inferno.– Mas e vocês, como estão?
– Eu estou atrasada com a janta! — Disse Satsuki levantando-se. — Conversem aí antes que eu queime alguma coisa lá na cozinha! Vem com a mamãe, Hina!
– Siiimmmm! — A menina levantou-se e a seguiu pulando e gritando como uma doidinha. Aomine sorriu e a acompanhou com o olhar. Adorava a menina, era a mescla de seus dois melhores amigos personificada em uma criança fofa. Impossível não gostar.
– Kuroko, agora você vai me ajudar! — O moreno levantou-se e sentou do lado do amigo com certa pressa. Estava aguardando o momento certo para conversar pessoalmente com ele.
– Já imaginei que você viria falar sobre isso. — O outro sorriu, encarando-o.
– Oe, eu nem falei nada... — Comentou erguendo as sobrancelhas, intrigado.
– Kagami-kun. — Simplificou, dando de ombros. — Estou enganado?
Aomine sorriu só com o fato de ouvir o nome dele. Quando ainda estava com Yuuri, o moreno recusava-se a tocar no assunto para não se machucar ou criar falsas esperanças, mas aquela curiosidade de perguntar se o ruivo estava bem, feliz ou se seguiu em frente sempre o acompanhava. Tinha medo da resposta, para ser sincero, mas precisava saber...
– Você conversa com ele ainda? — Perguntou como quem não queria nada, mas na verdade queria tudo.
– De vez em quando, mas faz bastante tempo que não tenho notícias dele, desde julho mais ou menos. — Kuroko respondeu calmamente, avaliando-o.
– E como ele está? — Lançou impaciente. Não conseguiu controlar seu tom de voz, saiu completamente tremido e urgente.
Chegava a doer em seu peito a saudade que sentia do ruivo, parecia que havia um buraco ali que só ele poderia preencher novamente. Nunca o esquecera, em nenhum momento... Até tentou, mas não era capaz. Aomine tentava disfarçar e desviar os pensamentos para qualquer outra coisa quando percebia que as lembranças voltavam, mas era difícil, o tempo que passaram juntos foi intenso e marcante demais. Ainda o amava muito, não conseguiu superar isso e seguir em frente... Falhara em sua promessa, apesar de ter tentado.
– Quer perguntar a ele? – Questionou o azulado, com um meio sorriso maroto no rosto.
– Como assim? — Engoliu em seco, arregalando os olhos. Aquilo o pegara de supetão.
– Vou ligar e você vai falar com ele! — Explicou de forma simples e direta, como sempre.
Aomine gelou com a ideia de ouvir a voz do ruivo. Novamente engoliu em seco, umedecendo os lábios com a língua. Fazia tanto tempo... Será que ele já não o havia esquecido? Ele com certeza deve ter seguido em frente, deve estar feliz com outra pessoa...
– Aomine-kun? — O amigo retirou o celular do bolso e o olhou, estendendo o aparelho para que pegasse.
– Eu... — Gaguejou não acreditando no que estava acontecendo, olhando para o celular como se fosse algo perigoso. — Eu não sei...
– Vou discar. — Sorriu Kuroko, já deslizando pacientemente o dedo na tela.
O coração de Daiki começou a bater muito forte, não sabia se estava preparado. Porra, foram sete anos afastados a força, sem uma troca de palavras ou e-mails, nunca o encontrou em redes sociais nem em lugar algum... Nada... E se ele nem lembrasse mais de sua existência? Queria tanto conversar, mas tinha medo do que ele teria a dizer.
– Eu não sei Kuroko...
– Já foi! — Disse o menor colocando o telefone na orelha, olhando-o com uma expressão inocente.
Aomine sentia suas mãos suarem e os lábios secarem a cada segundo. O coração batia tão descompassado que chegava a faltar ar. Estava realmente a poucos segundos de falar com Kagami depois de tantos anos?
Kuroko sorriu tristemente após alguns segundos, encerrando a chamada.
– Fora de área... — Comentou, olhando desanimado para Aomine. — Depois nós tentamos de novo, ok?
– OK! — Sorriu triste.
Frustração era pouco para o que sentiu, chegou a doer. Queria tanto falar com Taiga apesar de não ter plena certeza do que deveria dizer. Estava com tanta saudade, tanta... Aquilo o machucava demais. Queria estar com ele novamente, mas já não desejava mais voltar no tempo, queria seguir ao lado dele a partir daquele momento, com a maturidade que tinha e com a certeza de que nada mais os impediria de serem felizes... Isso se Kagami já não seguiu em frente com outra pessoa, lógico.
– Ele não tem ninguém, Aomine-kun. — Disse Kuroko, quase como se estivesse lendo seus pensamentos.
O moreno sentiu uma felicidade gigante ao ouvir aquelas palavras. A esperança e a euforia que o acometeram foram imensas, mal cabiam em seu sorriso enorme. Será que de uma hora para outra sua sorte virara tanto assim? Será que finalmente poderia ser feliz ao lado de Taiga? Foram tantos anos sofrendo, separados...
– Kuroko, será que a gente ainda tem chance de ficar junto? — Perguntou sentindo a mão suar novamente.
– Pergunta para ele depois! — O menor disse com um sorriso, um sorriso muito positivo na opinião de Daiki.
– Eu... Eu tinha em meus planos ir para L.A. nas férias do trabalho, mas o passaporte não vai ficar pronto. — Comentou Aomine roendo uma de suas unhas, estava inquieto, era empolgação demais. — Eu quero o telefone dele, eu vou fazer isso dar certo. Mas e se ele me esqueceu, ou seguiu...
– Kagami-kun pergunta sempre sobre você, Aomine-kun! — Disse Kuroko, olhando-o se exasperar. O menor parecia se divertir com a cena.
– Sério Kuroko? Sério mesmo? — O outro exclamou animado sentindo um formigamento percorrer sua barriga enquanto mudava de posição no sofá pela milésima vez. — Eu nem acredito nisso, eu... Eu devo ir atrás dele então, não é? Ou vou machucá-lo se o fizer? Acho que não... Sei que faz tempo, mas eu ainda... Eu quero tanto ter ele de volta do meu lado...
– Claro que você vai atrás dele, né Dai-chan? — Satsuki gritou indignada da cozinha. – Vocês se gostam e foram feitos um para o outro, nunca vou cansar de dizer isso. E daí que passou um tempão? Agora você está livre e ele também! Sinceramente não sei por que você não se separou antes daquela idiota... Poderia estar com ele faz tempo. Bicho burro.
– Ahhhh, meu caralho! — Exasperou-se de tanta animação, inquietando-se no assento. Precisava colocar a cabeça no lugar para não se atropelar.– Tá, calma... Deixa-me pensar antes de agir. Vou ligar para ele primeiro, não é? Sim... Isso é o certo. Passa-me o número dele, por favor.
Kuroko apenas riu ao alcançar o celular para Aomine copiar o número. O moreno tremia tanto que mal conseguia usar o touch screen sem misturar tudo o que havia na tela. Seu sorriso estava tão grande, sua alegria era sem tamanho... Claro, teria que conversar com o ruivo e ver se ainda havia um sentimento recíproco... Mas se ele não seguiu em frente e sempre perguntava dele então significava que ainda havia restado algo, não é? Ou era só a curiosidade em saber se Daiki estava bem mesmo? Ah, que agonia.
O coração de Aomine deu um salto apenas com a ideia de falar com o ruivo algum dia, quem sabe vê-lo, abraçá-lo... O abraço de despedida que nunca deram se tornaria um abraço de reencontro... Ou estava sonhando alto demais? Calma, pés no chão sem criar falsas esperanças... Mas era impossível, estava quase chorando de tanta euforia e impaciência.
Saudade Bakagami... Agora vai dar certo! Pensou ao anotar o número em sua própria lista de contatos. Uma lágrima silenciosa e discreta escapou sem querer de seus olhos, era o mais perto que chegara de Kagami em sete anos, tornava-se impossível não morrer de felicidade apenas com a ideia de poder falar com ele de novo, mesmo que fosse uma simples ligação... Faria de tudo para ficar ao lado de seu Bakagami, porque sim, ele seria seu para sempre... Nunca removera a fitinha vermelha da perna.
***
Terça-feira, 02 de dezembro – 22h08min
~Kagami Taiga~
O ruivo tinha aquela sensação desagradável de ver um filme de trás para frente, estava novamente no aeroporto, no Japão. Olhava ao redor e lembrava-se de cada detalhe da despedida que tivera, Kuroko estava lá com parte da Geração dos Milagres e alguns amigos da Seirin também. Lembrava-se de como dera as costas para tudo e todos sem olhar para trás. Egoísta... Esse era seu maior defeito.
As coisas que pretendia ter esquecido vieram com força total em sua mente assim que pisou naquele local, até a dor parecia ter voltado em dobro. Estava tão perto de Daiki, mas tão longe também... Enfim, seria uma visita breve, estaria de volta em L.A. em uma semana. Não deveria procurá-lo, por mais que a vontade transbordasse por todos os poros de seu corpo.
Era inverno e estava muito frio, mas ainda não nevava. Suspirou fundo e continuou a andar até a saída do grande salão repleto de pessoas, barulhos e cheiros. Precisava pegar um taxi e ir para casa, provavelmente aquilo estaria virado numa bagunça e sujeira... Sabe-se lá há quanto tempo aquele apartamento estava fechado.
Kagami suspirou fundo olhando o movimento dos carros na entrada do aeroporto, notou que a decoração de Natal que já se espalhava pela cidade. Mesmo sendo uma época de alegria para todos, Kagami carregava consigo o peso do luto além de todo o resto. Já sabia que seu pai não conseguiria sobreviver e não pode fazer nada para ajuda-lo. Quase se sentia culpado por não poder estar ao lado dele nesses anos do hospital, mas ele também não fizera questão que estivesse... Nunca falou nada sobre a doença, nunca o procurara depois de se recolher ali, nada. Bem, era japonês, tinha aquela frieza... Kagami repreendeu-se, estava generalizando. Nem todos os japoneses eram assim, tinha diversos amigos para provar o contrário.
A tentação de visitar Kuroko e os outros era gigantesca, mas queria passar despercebido para evitar problemas. Se o fizesse não resistiria e procuraria Daiki também, estava se controlando ao máximo para evitar isso. Não era tão masoquista ao ponto de querer vê-lo com outra pessoa, ainda mais com a mulher que fazia parte da desgraça do relacionamento que tiveram.
O ruivo conversara com Kuroko pela última vez um pouco antes de seu aniversário, em julho, e na ocasião perguntara como andava o moreno, se estava bem, ainda casado... Sempre perguntava, mas a resposta nunca era a que esperava... Ele estava casado, não tão feliz, mas estava. Aquilo doía no coração de Kagami, mas a falsa esperança nunca morreria. Amava Daiki com todas as forças, como se nada tivesse mudado. Isso jamais passaria, o ruivo não queria que passasse. Masoquista e idiota ainda por cima.
***
Ao adentrar seu antigo prédio a sensação de nostalgia preencheu a mente de Kagami. Após conversar com o porteiro e descobrir que uma pessoa vinha limpar o apartamento a cada mês – o que era um alívio — o ruivo dirigiu-se ao fim do hall e encontrou o elevador em manutenção. Precisou então usar as escadas, mas não trouxe tanta bagagem para se preocupar com esse detalhe.
Novamente a nostalgia o invadiu assim que subiu os degraus. Não era algo necessariamente bom, na verdade era quase insuportável saber que Aomine já pisara ali. Naquele mesmo local eles já haviam se beijado em diversas situações, conversaram sobre o ciúme que ele sentiu da Alex e falaram sobre sexo pela primeira vez... Tudo vinha tão claro em suas lembranças que era melhor subir com os olhos fechados e prestando atenção na letra da música que escutava. A saudade machucava muito.
Oitavo andar, apartamento 34. Silenciosamente andou pelo corredor familiar até finalmente alcançar seu – agora propriamente seu - apartamento. Seu pai o deixara como herança, já havia até um testamento preparado e Kagami não tinha conhecimento até receber a ligação do contador dele. Tudo estava acontecendo muito rápido e aquilo não era bom, as coisas mudaram tão repentinamente que sua cabeça chegava a doer.
Sem muita emoção, Kagami apalpou o bolso em busca da chave que deixara escondida em uma gaveta qualquer do seu quarto em L.A. até aquela semana. Sorriu pesaroso ao pegá-la... A bolinha velha de basquete estava ali pendurada.
– Você não vai me largar, não é Aho? — Perguntou olhando com carinho para o objeto enquanto destrancava a porta.
O cheiro de casa fechada chegou imediatamente ao olfato de Kagami, mas havia um resquício de produto de limpeza ali também. Como sempre, acendeu a luz e colocou a chave sobre o aparador azul que ficava ao lado da porta. Nada mudara ali dentro.
– É, até que está limpo... – Sorriu fracamente ao entrar no local e fechar a porta em suas costas.
Encostou-se a madeira fria e observou tudo ao seu redor, estava praticamente do jeito que deixara... Inclusive as lembranças. Parecia que estava vivendo cada situação mais uma vez.
Conseguia rever o primeiro beijo deles na pia da cozinha. Se quisesse poderia até mesmo sentir o gosto dos lábios do moreno. Aquela textura macia e úmida que tanto amava nunca saiu de sua mente... Olhava para o sofá ainda manchado e se via sentado no colo dele fazendo amor. Mas ali eles também dormiram abraçados e foram flagrados mais tarde por Momoi e Kuroko. A revista rasgada permanecia largada na mesinha ao lado... Olhava para a bancada da cozinha e se via ao lado dele comendo qualquer coisa na pressa, rindo e fazendo guerra de comida... Kagami não queria nem chegar perto de seu antigo quarto pelo medo do que iria recordar, era lá que passavam a maior parte do tempo... Foram tantos momentos bons.
– Aho... – Suspirou pesaroso, fechando os olhos com força na tentativa de trancar as lágrimas dentro deles.
Precisava vê-lo, estar com ele por pelo menos uma hora para terem a conversa que nunca puderam ter. Não tinham necessariamente que ficar juntos no final, apesar de querer isso com todas as forças, mas apenas uma despedida seria o suficiente para deixar seu coração menos dolorido. Talvez até conseguisse seguir em frente com Benji se o fizesse...
A lágrima escapou... Sentia tanta saudade de Daiki. Talvez ele até estivesse bem com a esposa, provavelmente seguiu em frente como prometera na carta que já decorara. Isso alegrava Kagami, mas ao mesmo tempo o matava por dentro. Era egoísta... Mas ainda assim queria apenas a felicidade dele, mesmo que não fosse ao seu lado. O amava incondicionalmente...
Com força, bateu a cabeça na madeira às suas costas numa tentativa idiota de perder a memória.
– Ok, chega de ser menininha... – Disse o ruivo, enxugando a lágrima que escorria por sua bochecha.
Já era tarde, estava cansado e teria um dia longo pela frente, cheio de pepinos para resolver. Compareceria também ao velório do pai, que seria realizado numa pequena sala no próprio hospital, posteriormente seria sua cremação. Odiava aquilo tudo... Mal lembrava do rosto de seu velho.
Naquele momento o ruivo queria apenas tomar um banho e dormir, mas não tinha sabonete ou shampoo ali na casa. Precisaria passar em uma Conveniência para comprar algumas coisas, inclusive um chip novo para o celular, pois prometera ligar para a mãe assim que chegasse. Um chip de L.A. jamais funcionaria ali no Japão, tinha esquecido esse detalhe...
Kagami simplesmente largou a bolsa no chão e saiu do apartamento fazendo uma lista mental do que teria de comprar para sobreviver uma semana ali. Pelo menos assim se distrairia um pouco...
***
Quarta-feira, 03 de dezembro – 05h38min
~Aomine Daiki~
O moreno estava completamente agitado naquela madrugada, parecia ter tomado mais café do que o habitual, mas na realidade não tinha nada a ver com a bebida, e sim com Kagami Taiga e a possibilidade de ficarem juntos novamente. Não tivera tantas ocorrências sérias ou complicadas de resolver e isso dava espaço para que pensasse em tudo o que conversara com Kuroko.
Estava esperançoso, tinha certeza que poderia dar certo, faria dar certo. Na verdade só dependia de Taiga agora...
Olhou pela milésima vez em seu celular, até já decorara o número de telefone dele com os códigos internacionais e tudo. Estava impaciente, queria ligar de novo, mas após ter caído na caixa postal diversas vezes o moreno desistiu. Até escrevera uma mensagem que estava guardada na pasta de rascunhos, simplesmente ficou sem coragem de manda-la.
“Bakagami... Sete anos passaram e eu ainda te incomodo no meio da madrugada. Eu quero muito saber como você está... Saudade. Seu Aho!”.
A dor da saudade realmente estava lá, sentia naquele exato momento cruzando seu peito. Aomine conseguia lembrar claramente cada olhar que recebera dele... Ainda tinha gravada a imagem dos caninos saindo pelo canto dos lábios naquele sorriso lindo... Recordava-se de cada detalhe em seu corpo, cada perfeição e imperfeição... As pequenas sardas do sol quase imperceptíveis em seu nariz e em seus ombros, precisava olhar pelo menos alguns segundos para notá-las... A sobrancelha torta e desproporcional que dava a ele um ar agressivo, mas que na realidade apenas camuflava a pessoa mais doce e perfeita do mundo... O queixo pontiagudo e forte, mas que na verdade era seu ponto fraco... Os cabelos macios e vermelhos que caiam sobre seu rosto... Tudo. Lembrava-se de tudo. A saudade apertou mais ainda seu peito, precisava vê-lo de novo ou morreria.
– Que se dane! — Disse, pegando novamente o celular e enviando a mensagem. Pelo menos teria certeza de que ele veria aquilo. Se responderia, bem, aí era outra história.– Por favor, Taiga, não desiste de mim... Me responde...
***
Sexta-feira, 05 de dezembro – 01h04min
~Kagami Taiga~
– Saco! — Reclamou, sentando-se na cama com raiva e jogando as cobertas para longe.
Já era o quarto dia que estava no Japão e nem sequer conseguia dormir direito. Sua cabeça estava cheia de problemas, por isso pensava mais do que deveria e ficava sem pregar o olho. Curiosamente não sentia-se cansado, apenas saturado de ficar remoendo a mesma coisa sem conseguir achar uma solução. Deveria ou não procurar Daiki? Sua estadia ali já estava acabando...
– Saco, saco, saco! — Resmungou, enterrando o rosto nas mãos por alguns segundos e finalizando com tapas fortes em suas duas bochechas.
Olhou para o relógio no celular e cogitou sair para comprar alguma coisa para comer, estava com muita fome, mas com muita preguiça de cozinhar também.
– E daí que é uma hora da manhã e está frio pra caralho? — Murmurou irônico para si mesmo fazendo um gesto de indiferença enquanto tirava a calça do pijama, mas permaneceria com a camisa quentinha. — Todo mundo sai para dar uma volta a essa hora no inverno, lógico! Todos são idiotas que não tem o que fazer...
Ainda havia bastante lugares abertos onde poderia comer, o Japão não dormia, principalmente se tradando de uma sexta-feira na véspera de Natal. Após vestir uma calça, o ruivo pegou uma grossa jaqueta preta e vestiu por cima de tudo, pelo menos tinha capuz e se nevasse estaria protegido. Olhou ao redor para ver se não esquecera nada...
– Carteira, dinheiro... — Murmurou apalpando os bolsos. Avistou então o emaranhado fino de fios escuros na lateral de sua bolsa. Claro, jamais poderia deixar seu precioso fone de ouvido em casa.
Saiu apressado do quarto com uma vaga ideia de onde iria comer. Sentia falta do Maji Burguer... Desde que chegara no Japão estava apenas adiando sua ida até lá, seria agora que comeria como um morto de fome novamente.
Ao chegar na sala viu sua bola de basquete jogada entre as almofadas. Uma pequena saudade bateu, nunca mais jogara direito. De vez em quando brincava nas quadras de rua em L.A., mas o trabalho tomava seu tempo, sem falar que estava horrível no esporte. Ponderou por alguns segundos e riu consigo mesmo.
– Claro, todo mundo sai de casa para jogar basquete em uma madrugada de inverno! — Disse irônico, pegando a bola levemente murcha nas mãos e saindo do apartamento. — Só posso estar ficando louco mesmo...
***
– Frio... — Reclamou consigo mesmo ao sair do Maji Burguer já com a barriga cheia. Mascava um chiclete, assim aguentaria até a hora de voltar para casa sem escovar os dentes...
Seus antigos 20 lanches não entravam mais com tanta facilidade, fora guloso ao pedir tudo aquilo, dinheiro gasto a toa. No tempo que jogava basquete ainda era plausível comer daquele tanto, mas hoje já não conseguia mais, apesar de se esforçar nos treinos de resistência física do Quartel e fazer musculação sempre que possível.
Seguiu seu caminho até a quadra do outro lado da rua... Cada passo que dava trazia uma pontada de dor e saudade. Deveria simplesmente ir embora, mas o masoquismo era mais forte. Sem muita cerimônia voltou a colocar os fones de ouvido, agora escutaria algo não tão deprimente para conseguir jogar com calma.
– Amon Amarth? Não... Maiden também não... Aerosmith não... Skid Row não... Imagine Dragons decididamente não... — Resmungava sozinho enquanto passava as pastas de música que tinha em seu celular. Algo o chamou atenção, despertando a indignação logo em seguida. — Ah, claro, morra ouvindo Pink Floyd, seu idiota! Claro que não... Vai Metallica mesmo...
Clicou na seleção de músicas e adentrou a quadra, lutando contra a sensação fria que apoderava-se de seu corpo. Instantaneamente os deja-vu vinham em sua mente... Quantas milhões de partidas mano a mano tivera ali com Aomine? Balançou a cabeça para afastar os pensamentos e tentou quicar a bola no chão, estava murcha mas voltava bem se batesse com mais força que o normal.
Kagami aproximou-se da linha do garrafão e arriscou um arremesso. Para sua própria indignação errara feio, precisava calcular melhor a força. E será que ainda conseguia pular para enterrar? Colocou o celular com cuidado no bolso e fechou o zíper, deixando espaço apenas para que o fino cabo do fone de ouvido saísse dali, passando por dentro ta jaqueta até o seu ouvido. Sem pestanejar, correu e tentou alcançar a tabela com as mãos, batendo na madeira com mais força que o planejado.
– Pelo menos ainda alcanço... — Riu agitando a mão dolorida assim que pisou com um impacto forte na quadra. A baixa temperatura aumentava três vezes a sensação da dor, sua mão queimava com o impacto na madeira.
Estava bem frio e seu corpo ainda estava duro, era capaz de se machucar naquela brincadeira se não se aquecesse. Agora entendia o motivo de Riko quase massacrá-los nos antigos treinos da Seirin... Um sorriso triste cruzou seus lábios assim que começou a correr na quadra quicando a bola com força no chão. Ouvia a música "Whiskey in the Jar" e dava as passadas na velocidade da bateria, era relaxante fazer aquilo... Todos os pensamentos complicados iam embora instantaneamente.
Momentos depois, já aquecido, o ruivo olhou para a tabela e tentou enterrar, tomando uma boa distância antes de correr. Acertou sem muita dificuldade, pelo menos isso sabia fazer ainda... Foi meio desengonçado, mas deu certo.
– É, você é um retardado por ter parado de jogar... — Riu para si mesmo, percebendo o quanto estava se divertindo ali, em plena madrugada de inverno na quadra que costumava frequentar há anos.
Continuou a correr, enterrar e arremessar por um longo tempo, costumava contar por músicas... Já estava jogando há seis músicas, aproximadamente uns 30 minutos então. Sentia a respiração gelada entrar em seus pulmões quentes, causando uma leve dor em seu tórax. A chance de pegar um resfriado era enorme.
Parou na entrada do garrafão com a bola em mãos e fechou os olhos para respirar com mais calma. Kagami sentiu um leve pingo de neve em seu nariz segundos depois, por isso colocou o capuz, com certeza iria se resfriar. Ignorando aquilo, o ruivo olhou para a tabela e arriscou um novo arremesso daquela distância. Para seu novo desapontamento a bola rebateu na tabela e rolou para longe... Admirou Midorima secretamente, tinha que ser muito bom para acertar de longe.
– Chega... — Murmurou para si mesmo olhando com preguiça a bola passar por seu lado e sumir por suas costas.
Sentou-se ali mesmo no chão para descansar antes de ir para casa. A música continuava tocando, agora era "The Unforgiven". Metallica era ótimo, mas aquele ritmo triste novamente o levou para os lugares que estava empacado há sete anos... Aomine Daiki!
A letra da música nem tinha nada a ver...
"O velho homem então se prepara para morrer cheio de arrependimentos... Este velho homem aqui sou eu".
Se arrependeria se não fosse atrás dele, não é? Claro que sim, quem queria enganar?
Kagami suspirou fundo olhando para os poucos flocos de neve que caíam do céu ajeitando melhor o capuz. Estava tão perto dele, não poderia perder a chance... Mesmo que Daiki ainda estivesse casado precisaria falar com ele... Talvez demorasse anos para voltar ao Japão, ou talvez nem voltasse. Queria vê-lo uma última vez, conversar e resolver aquele assunto pendente para conseguir seguir com sua vida.
– Ok, eu vou! — Murmurou dando-se por vencido ao apoiar o rosto nos joelhos dobrados.
Kagami só estava procurando uma desculpa para isso, mas já havia decidido no momento em que pisara no aeroporto. No dia seguinte ligaria para Kuroko.
***
Sexta-feira, 05 de dezembro – 01h42min
~Aomine Daiki~
– Entendido, estou indo ao local verificar! — Disse Daiki no interfone da viatura assim que recebeu um aviso da central. Reposicionou o fone em seu suporte e ligou o veículo, franzindo a testa um pouco inconformado.
Teve que revirar os olhos ao receber aquela ocorrência no mínimo ridícula. Estava frio pra caralho, começava a nevar, era quase 2h da madrugada e ainda assim havia gente idiota fazendo barulho desnecessário na quadra de basquete? Quatro pessoas ligaram para reclamar... Criançada sem noção. Sem muita pressa o moreno cobriu a pequena distância entre o local que estava e o Maji Burguer.
– Pelo menos vou poder comprar um café... — Resmungou ao volante.
Sem muita emoção, Aomine estacionou na parte de trás da quadra. Lançou um olhar para o local – no mínimo nostálgico - e viu uma pessoa sentada e encolhida no garrafão virada de costas para a entrada. Usava um capuz e parecia estar passando frio na neve, mas não estava fazendo barulho nenhum. Logo provavelmente iria para casa e seria uma viagem perdida.
Desceu do carro e foi até o Maji Burguer. Precisava de pelo menos três copos de café para aguentar o turno inteiro, mas não se preocupava com isso, gostava do sabor amargo. Pagou os habituais yenes pelo copo médio de expresso sem açúcar e saiu silenciosamente do estabelecimento. Retornou até a viatura e apoiou-se na lataria sem muito entusiasmo, apenas observando a pessoa ainda encolhida. Mais uns 15 minutos e mandaria a pessoa embora, estava frio demais.
As lembranças voltaram com tudo em sua mente. Quantas vezes jogara com Taiga ali naquela quadra? Estava tão esperançoso que ainda teriam uma chance de voltar a ficar juntos, mas a falta de resposta do ruivo o frustrara bastante... Ele seguiu em frente então? Mas Kuroko disse que ele não tinha ninguém...
– Por que você não me retornou, Taiga? — Perguntou baixinho para si mesmo após tomar um demorado gole de café que desceu queimando por sua garganta.
Olhou novamente para a pessoa na quadra sem realmente prestar atenção. Estava apenas tentando evitar pensar em coisas que o causariam dor e para isso precisava de concentração. Tinha que agir como um adulto agora e não criar falsas esperanças, sabia que seus planos poderiam dar muito errado e provavelmente era isso que estava acontecendo...
O rapaz de capuz estava inclinando a cabeça para trás, o que chamou sua atenção por um instante. Teve que rir ao perceber o que ele estava fazendo.
– Já não basta incomodar todo mundo no meio da madrugada e me fazer ficar aqui observando no frio, ainda tem que sentir a neve bater no rosto como uma menininha? — Reclamou tomando mais um gole, deixando que o líquido esquentasse sua boca antes de engoli-lo.
O capuz dele caiu e seu coração parou instantaneamente.
Aomine afogou-se e expeliu todo o café que tinha na boca assim que pôde ver os cabelos vermelhos e parte do rosto. Era sua imaginação o enganado, não é? Só podia ser... Era só porque estava pensando nele momentos atrás...
Sem perceber deixou o copo cair, mas pouco se importou com o café quente escorrendo por sua perna. Estava boquiaberto, tremendo como nunca em sua vida. Sua respiração dificultou na hora e seus pulmões de repente ficaram ligeiramente menores que o necessário. Não estava acreditando, não era possível...
Sentiu o coração pulsar com toda a força, cada vez mais rápido e descompassado... Parecia querer sair por sua boca e voar na direção dele, de volta para sua outra metade, a metade que fora arrancada à força.
– Taiga... Não pode ser você... — Sussurrou incrédulo, abrindo mais os olhos para ter certeza do que estava vendo. Estava sem reação... Sua mão suava e a temperatura de seu corpo parecia subir. Iria explodir por dentro de tanta euforia.
Sentiu um aperto na garganta e as lágrimas quentes imediatamente encherem seus olhos... Era ele... Reconheceria Taiga a quilômetros de distância, não era imaginação. Seu coração batia mais forte e urgente a cada segundo, queria chegar logo do outro lado da grade para encontrar o pedaço que estava faltando.
Aomine iria explodir de felicidade. Sem pensar duas vezes cruzou a rua e aproximou-se apressado da entrada da quadra, mal conseguindo conter o estado de choque que se apoderou de seu corpo... Era ele! ERA ELE!
Seu corpo tremia tanto, suas pernas estavam moles, bambas, fracas... Mas sentia-se tão feliz, tão surpreso, tão assustado... Tão aliviado. Nem sabia direito o que estava acontecendo dentro de si, era uma coisa inédita em sua vida... Inédita e maravilhosa.
Conforme se aproximava ficava mais evidente... Ninguém tinha aquele cabelo, ou aqueles contornos do pescoço, ou aquela orelha... Era ele! Fechou os olhos com força e abriu novamente torcendo para não ser uma miragem, um sonho, um delírio, devaneio, vertigem...
Não... Não era uma loucura de sua mente, era realmente ele! Seu corpo se arrepiava com a emoção que sentia... Era ele, seu Bakagami...
As lágrimas começaram a rolar por sua bochecha assim que o sorriso enorme e trêmulo cruzou seu rosto. Parou e o admirou por alguns instantes, mal conseguindo se conter. Sete anos sem vê-lo era um longo tempo, como pode um sentimento não mudar em nada? O amava imensamente, isso nunca passou, nunca superou...
Seu corpo tremia tanto que mal conseguia se mover. O amor de sua vida se encontrava a poucos passos de si... 8 metros no máximo... Mas ele estava com os fones de ouvido, os malditos fones de ouvido, e não percebera sua aproximação.
PORRA, ERA ELE, SEU TAIGA! A vontade de gritar o preencheu, mas faria diferente...
Secou as diversas e incessantes lágrimas com a manga de sua jaqueta de uniforme e ajuntou em silêncio a bola de basquete que estava largada perto de seus pés. Não conseguia conter o sorriso e nem as lágrimas, quem dirá sua felicidade.
***
~Kagami Taiga~
Hora de ir para casa... Pensou assim que a melodia de "All Nightmare Long" chegou ao fim. Com calma ajeitou novamente o capuz, estava muito frio... Já sentiu o suficiente da neve gelada para afastar os pensamentos de sua mente. Estava decidido, no outro dia procuraria Aomine Daiki sem mais desculpas.
Estava prestes a se levantar quando uma pancada repentina, seca e familiar atingiu suas costas. Congelou naquele instante, sabia do que se tratava...
Seu olhar se perdeu em algum ponto em sua frente enquanto seu corpo começava a tremer. A música em seu ouvido virara secundária, a única coisa que ouvia era o coração bater com força, acelerando a cada instante... Esqueceu-se de respirar por alguns instantes, puxando e soltando todo o ar de uma vez só quando ele lhe faltou...
Relutante retirou os fones de seu ouvido e os largou por cima da jaqueta, esperando algum sinal de vida. O ruivo estava com medo de virar o rosto e não ser o que estava esperando, poderia ser qualquer pessoa... Mas tinha que ser... Ele já fizera a mesma coisa antes, naquele mesmo lugar... Sabia que era... Sentia... Sentia que era ele... Era sim...
As lágrimas cortarem seu rosto, assim como o sorriso esperançoso.
– Aho? — Perguntou com a voz fraca, sem conseguir se mexer. Mordeu os lábios tentando conter o choro, esperando... Estava paralisado.
– Acho que eu estou atrasado... Alguns anos... — A voz grave, familiar e chorosa soou às suas costas. Amava o dono daquela voz com todas as forças.
Kagami desabou ali mesmo, fechando os olhos com força enquanto as lágrimas cortaram-lhe a face copiosamente, fazendo-o soluçar. Sentia seu coração bater com urgência, estava a poucos metros de sua metade arrancada... Do amor de sua vida. Era um sonho... Só podia ser um sonho...
– Aho... — Repetiu, fazendo um esforço enorme para se levantar, lutando contra seu próprio estado de choque.
Seu corpo parecia não queria obedecer, estava paralisado... Tremia tanto que mal conseguiu limpar as lágrimas, sentia-se mole e cambaleante. Num último esforço virou-se, mas manteve as pálpebras cerradas. Se abrisse os olhos realmente veria Aomine Daiki em sua frente?
– Bakagami... — A voz o chamou mais próxima. Abriu os olhos naquele instante, tentando conter as lágrimas.
Felicidade era uma palavra extremamente vaga para descrever o que sentiu ao ver novamente o rosto da pessoa que mais amava nesse mundo. Kagami sorriu como nunca, e chorou na mesma intensidade. Ele estava ali, parado a dois passos de distância, sorrindo e chorando também. Estava tão lindo... Não mudara praticamente nada... E realmente virara policial. Seu sorriso se ampliou duas vezes, era o amor de sua vida. Tão perto... Tão perfeito...
Sem pensar muito o ruivo, simplesmente andou na direção do moreno e no impulso o abraçou com toda a força que conseguiu, como que para dizimar completamente a saudade gigantesca que sentia. O gesto foi devolvido na mesma intensidade, Kagami conseguia perceber o mesmo sentimento naquele aperto... Ele não o esquecera...
– Bakagami... — Ele chorava contra seu ombro, apertando-o com toda a força, como que para fundirem-se depois de tanto tempo afastados. — Que saudade, Bakagami...
O ruivo chorou mais ainda ao ouvir aquilo, apoiando o rosto na curva de seu pescoço, sentindo novamente o cheiro que tanto amava e que nunca saiu de sua mente. Estava querendo recuperar todo o tempo perdido naquele único abraço... Nem se importava com o fato de ele estar casado, não ligava... O amava do fundo de seu coração, sentia-se completo ali e ele correspondia, sabia que sim.
– Aho... — Murmurou com dificuldade, depositando um suave beijo em seu pescoço, apertando-o mais e mais contra si. — Não acredito que é você... Senti tanto sua falta... Aho.
Ambos tremiam e choravam, estavam em um estado próximo ao febril. Esqueceram-se completamente do que havia a sua volta, só eles importavam agora. Todas as coisas ruins, as dores, as mágoas, tudo parecia voar para longe naquele instante... Seus corações batiam descompassados, estavam próximos e juntos novamente...
Kagami subiu a mão pelas costas de Aomine, tocando com carinho sua nuca e seus cabelos azuis, trazendo-o para mais perto com uma suave pressão na pele morena. O amava, queria gritar aquilo para o mundo... Queria ficar ali para sempre, abraçá-lo eternamente. Queria beijá-lo e passar o resto da vida assim, bem perto... Se pudesse jamais o deixaria sair dali, de seus braços.
– Deixa eu olhar para você... — Soluçou o ruivo, aproximando as mãos trêmulas das bochechas molhadas de Aomine.
Afastaram-se um pouco e se encararam, ambos sorrindo. Kagami passou os dedos com suavidade nas trilhas de lágrimas que cruzavam o rosto perfeito de Aomine, sentiu ele fazer o mesmo em sua face e sorriu mais ainda. O toque da mão em seu rosto restaurava cada segundo de dor que tivera na vida, queria dar a mesma sensação a ele.
Kagami não conseguia conter o choro, a felicidade, o alívio, a satisfação de olhar para o rosto da pessoa que amava depois de tanto tempo afastados. Sete anos longe dele, não soube como suportou... Se odiou por cogitar ir embora do Japão sem vê-lo... O amava muito.
Estavam tão próximos, Kagami podia ver cada detalhe em seu rosto perfeito mais uma vez, aqueles detalhes que na verdade nunca fora capaz de esquecer. Seus olhos azuis brilhavam com tanta intensidade... Ele estava tão lindo, com aquele sorriso tão perfeito... Aquele cheiro delicioso que só ele tinha estava misturado com o aroma de café que escapava por sua boca... Sentia saudade do gosto daqueles lábios, mas esses não poderia ter de volta... Aquilo doeu um pouco, mas apenas abraçá-lo já era quase o suficiente.
– Taiga... — Aomine murmurou, acariciando sua face com a mão trêmula, olhando-o profundamente enquanto lutava contra as próprias lágrimas. — Eu quebrei nossa promessa... Não consigo seguir sem você.
O ruivo não estava esperando ouvir aquilo, a felicidade não cabia mais em seu coração, que pulsava tão rápido que parecia estar prestes a explodir. Sentia novas lágrimas quentes cruzarem sua bochecha, mas foram suavemente afastadas pelos dedos do moreno.
– Eu te amo Daiki... — Sussurrou olhando-o nos olhos, sem pensar nas consequências. Ele ainda era casado, mas não conseguia mais segurar. — Te amo tanto... Tanto. Eu não consigo ficar sem você... Não consigo...
– Eu também te amo, Taiga! — Ele respondeu com a voz embargada pelo choro, mas sorrindo mais ainda ao ouvir aquelas palavras. — A vida é uma merda sem você, Bakagami... Quero estar do seu lado pra sempre...
Aomine suavemente acariciou o rosto de Kagami e puxou em sua direção, depositando um leve beijo em seus lábios... O ruivo ficou incrédulo por meio segundo, mas não se conteve e correspondeu ao gesto com todo o amor que tinha, esquecendo-se de todos os outros detalhes. Só a felicidade de Aomine importava agora... Seu toque era macio, quente e único, exatamente como em seus sonhos e lembranças... O amava tanto, sentiu tanta falta de seu Aho...
As lágrimas de ambos se misturavam enquanto moviam os lábios suavemente num beijo carinhoso e inocente, exatamente como na primeira vez. Aomine acariciava seu rosto com leveza, com sua mão grande e quente... Kagami fazia o mesmo, passando os dedos em suas bochechas, orelhas, cabelos... Queria sentir todos os contornos dele, relembrar cada pequeno detalhe... Desejava do fundo da alma ter tudo aquilo para si novamente, apenas para si... Queria ficar com ele para sempre, da forma que ele dissera, mas ele estava casado...
Afastaram-se para respirar e se olharam com ternura. Aomine é tão perfeito...
~Aomine Daiki~
– Eu te amo tanto Taiga... — O moreno disse respirando com dificuldade devido ao choro e às emoções. Estavam tão perto, testa com testa, nariz com nariz.... Como da primeira vez. — Senti tanta saudade de você, do seu cheiro... Do seu beijo... Não vou deixar você ir nunca mais... Nunca mais. Eu prometo.
– Doeu tanto te perder Daiki... — O ruivo disse, fechando os olhos para que novas lágrimas caíssem. Aomine as secou rapidamente com os dedos, queria vê-lo sorrir. — Eu não quero te deixar... Quero você do meu lado para sempre... Mas...
– Mas... — Aomine o olhou levemente aflito, sentindo uma pontada de dor onde só havia o alívio e felicidade. Ainda existia algo que os impedia de ficarem juntos? Iria atropelar seja lá o que fosse... Estava finalmente completo e sentia o mesmo em Kagami, não permitiria que nada os atrapalhasse mais.
– Você... — Ele disse, encarando-o com um olhar lacrimejante e triste. — Você está casado... Não é?
– Não! — Aomine chorou aliviado, balançando a cabeça para reforçar sua negação. — Não estou Taiga, não estou... Eu não estou mais... Nada vai nos separar mais! Nunca mais Taiga. Nunca mais!
Kagami apenas sorriu, deixando a mostra os caninos pela lateral dos lábios. Aomine nunca cansaria de pensar o quanto amava aquele sorriso, o quanto sentiu falta daquilo para o iluminar.
– Ah Taiga! — Exclamou, abraçando-o com força, para que ele nunca mais fosse embora. — Eu te amo, EU TE AMO KAGAMI TAIGA!
Kagami riu contra seu pescoço ao ouví-lo gritar aquilo para o ar e o abraçou com mais força. Não se importava com mais nada, gritaria quantas vezes fosse necessário, seja de noite, de dia, na chuva, na neve, no sol, no céu, no inferno ou na casa do caralho... Amaria Kagami Taiga até o fim de sua vida... Estava tão feliz que não conseguia se conter!
– Eu não acredito que isso é real... — O ruivo soluçava e ria contra sua pele, apertando-o com mais e mais força. — Eu estou tão feliz... Tão feliz... Eu vou explodir Daiki, vou explodir. Eu te amo tanto, tanto... EU TE AMO AOMINE DAIKI.
Kagami ria ao gritar aquilo com vontade, arrancando um sorriso gigante do moreno também. Aquele sim, com toda a certeza do mundo era o dia mais feliz de sua vida. Aomine jamais imaginou que conseguiria sentir-se tão bem assim depois de tudo o que passou, nunca imaginou que se reencontrariam casualmente e que voltariam a ficar juntos tão facilmente... Era tão bom... Sentia-se tão pleno, realizado... Livre! Como sentiu falta do amor de sua vida.
Beijaram-se novamente, mas com o sorriso ali presente em seus lábios. O apertou com carinho, acariciando sua nuca e enterrando o dedo em suas madeixas ruivas e macias. Suas bocas se encaixavam tão perfeitamente... Sentiu a língua dele ir de encontro com a sua em um gesto de puro carinho e inocência... Amava aquela sensação... Como sentiu falta do gosto dele... Era impossível descrever a emoção que sentia naquele momento.
Teve que rir ao perceber que havia um chiclete na boca de Taiga, era impossível controlar a alegria em seu coração. Qualquer coisa virava motivo para sorrir, e com o ruivo era a mesma coisa. Ambos tremiam de emoção... Não queria sair dali nunca mais.
Um chiado repentino e alto fez ambos sobressaltarem-se.
– Responsável pela viatura 478, patrulheiro Aomine Daiki, responda por favor! — O interfone em sua cintura chiou novamente assim que a voz masculina com interferência o chamou.
Encarou o ruivo com um sorriso de orelha a orelha antes de pegar o objeto com uma das mãos, a outra segurava Taiga pela cintura. Precisou respirar fundo e fungar antes de conseguir dizer alguma coisa. Seu coração batia tão forte... Até esquecera que estava em horário de serviço.
– Central, Aomine Daiki na escuta. — Disse com o tom mais sério que conseguiu, apertando o botão assim que o objeto estava perto de sua boca.
Kagami sorriu ao ouvir aquilo, abraçando-o ternamente enquanto ele falava no interfone. Aomine acariciou seus cabelos e apoiou sua cabeça na dele, odiando do fundo da alma o horário de trabalho. Queria estar integralmente com seu, SEU Bakagami... Queria recuperar o tempo perdido, ficar exclusivamente com ele.
– Está tudo em ordem no perímetro 36? Não recebi retorno no interfone da viatura.
– Sim, estou conversando pessoalmente com o sujeito, ele já está indo para casa. — Disse Daiki, contendo o sorriso ao acariciar o cabelo do ruivo, que apoiava-se em seu ombro e o olhava com carinho ainda o abraçando.
– Ótimo. — A voz tremida de seu superior chiou no interfone. — Temos uma nova ocorrência no perímetro 62, favor se dirigir até lá. Parece que ouve um pequeno furto em uma Conveniência entre a rua 48 e a 47. Verificar e me dar retorno dentro de 20 minutos.
– Sim senhor! — Confirmou entre uma fungada, odiando-se por dizer aquelas palavras. Isso significava ter que afastar-se dele mais uma vez.
Devolveu o objeto ao cinto e encarou novamente Kagami. Ele ainda sorria com os caninos a mostra, amava aquilo, amava ele inteiro.
– Vou deixar você trabalhar... — Ele sussurrou acariciando seu rosto com a ponta dos dedos gelados. — Contanto que você vá lá para casa assim que terminar seu expediente.
– Saio as 6:30 da manhã. — Aomine disse eufórico, olhando para o relógio no pulso. Ainda era 2h22min, demoraria uma era para aquele tempo passar. — Eu não quero mais ficar longe de você...
– Não vou deixar você ficar longe de mim nunca mais! — O ruivo sorriu, beijando-o com carinho nos lábios. — Você é meu, Aomine Daiki.
– Você é meu, Kagami Taiga. — O moreno sorriu com a lembrança, acariciando seu rosto e seus cabelos. — Vai me esperar, não é?
– Te esperei por sete anos... Algumas horas não vão me matar tanto assim. — Deu de ombros, sorrindo como nunca. Ele é tão lindo... Perfeito.
– Eu te amo muito, Bakagami! Muito mesmo! — Aomine sorriu e o abraçou, beijando com carinho seu pescoço. — Nada mais vai nos separar, eu te prometo.
– Nem distância e nem tempo nos separaram, tenho certeza que nada mais vai ser capaz disso! — Kagami fungou contra seu pescoço, também beijando sua pele morena. — Eu te amo para sempre, Aho. Para sempre!
Aomine afastou-se e o olhou, pesaroso.
– Não quero ir! — Disse, acariciando seu rosto. Era melhor ele ir para casa se aquecer também, estava congelando.
– Eu não quero que você vá... — Kagami admitiu, segurando a mão de Aomine, apertando-a contra sua face enquanto acariciava seus cabelos azuis com a outra mão. — Mas a gente já vai se ver de novo.
– Bakagami... — Sorriu, puxando-o para mais um abraço forte. — Eu te amo!
– Também te amo, Aho! — O ruivo disse, apertando-o com toda a força e carinho que tinha.
– Agora sim, estamos juntos e livres... Não é? — Aomine perguntou, lembrando-se do que disseram naquele dia na casa de sua avó, dentro da barraca.
– Sim, juntos e livres! — Kagami repetiu com a voz chorosa e feliz.
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