Inevitável

13 Deixe-o ir...


Notas iniciais
Oi pessoas lindas do meu coração... Voltei! E aí está mais um capítulo da história desses dois jovens apaixonados... Sabe aquela história de que tudo o que é bom dura pouco? =/ Sugiro que ouçam a playlist que eu ouvi quando escrevia... ~Não sou lá grande fã de Avril Lavigne, mas me ajudou a escrever e sentir! Sim, sentir... (Vai encontrara nas considerações finais, porque aqui não consigo colocar links '-') Se quiser escute suas próprias músicas... Ou não escute nada! Como for melhor para vocês, meus anjos... Só quero que leiam com muita calma, muita parcimônia, tentando entender cada linha, cada sentimento, cada atitude e cada palavra! ~Prestem atenção nos horários xD Foi um capítulo particularmente difícil de escrever, mas que se desenrolou automaticamente e resultou nesse calhamaço de 10000 palavras! Boa leitura! ~gomen.

***

Kagami queria dormir, mas alguém insistia em chama-lo. Estava um sono tão bom, quentinho, confortável, sentia-se abraçado... Mas a voz continuava... Sabia quem era, amava o dono daquela voz! Sorriu de leve, seria acordado assim para sempre...

– Bom dia Taiga! — Sussurrou Aomine olhando-o despertar calmamente, cutucando-o na bochecha com o nariz. — Hora de acordar, antes que venham nos chamar para tomar café e nos flagrem pelados.

– Hmm... — O ruivo abriu relutantemente os olhos, lembrando-se que estava dormindo em uma barraca no meio do paraíso com Aomine. — Bom dia...

Mas em que mundo o moreno acordava antes dele? Sorriu ao ser beijado com carinho nos lábios... Aomine parecia tão elétrico e animado naquela manhã, até já sentava e vestia sua cueca.

– Que horas são? — Perguntou Kagami enquanto se espreguiçava demoradamente. O gosto na boca indicava que precisava escovar os dentes, urgentemente.

– Deve ser umas 7h da manhã agora. — Sorriu Aomine, espalhando as madeixas vermelhas assim que pegou a camiseta em mãos.

Kagami resmungou alguma coisa antes de fechar novamente os olhos se perguntando o porquê de estarem acordando a essa hora. Puxou a coberta para cima do corpo e virou-se de bruços, queria dormir mais um pouquinho... Só mais um pouquinho!

– Não senhor, chega de dormir! — Murmurou o moreno bem humorado arrancando as cobertas do ruivo e jogando-se pesadamente por cima de seu corpo nu. — Hoje é dia de pescar, e depois tem banho de rio!

Kagami resmungou em protesto, ainda sonolento. O corpo dele era tão quente e confortável... Sentiu sua nuca ser beijada e sugada de leve, suspirou com o arrepio em sua pele. As mãos de Aomine começaram a percorrer a lateral de seu corpo despido de forma sensual, arrancando-lhe um gemido contido.

– Daiki... – Murmurou, ao ter a orelha mordida.

– Taiga, acorda! – Ele sussurrou eroticamente em seu ouvido. — Vem me dar bom dia...

– Minha putinha! – Taiga sorriu, sentindo o pênis de Aomine endurecer contra suas nádegas.

Parecia um sonho... Bem, talvez fosse, mas poderia viver nisso para sempre... Infelizmente foi obrigado a acordar, mas não de uma forma tão agradável assim...

***

~ Primeira semana pós-férias de verão, duas semanas após o retorno do sítio. ~

~Kagami Taiga~

Quinta-Feira, dia 25 de Agosto, 19h28min

O ruivo olhava desanimado para o celular em sua mão. Respirou fundo uma, duas vezes. Algo estava errado.

Era básico da natureza de Aomine se atrasar para suas partidas mano a mano, mas Kagami já estava há mais de uma hora na quadra do Maji Burguer esperando-o. Quando tentou telefonar para o moreno a ligação caiu automaticamente na caixa de mensagens, não precisou nem dois segundos para sua mente paranoica materializar todos os problemas possíveis.

Após a milésima tentativa de ligação simplesmente desistiu e guardou o celular na mochila. Levantou-se com calma e alongou os braços, fechando os olhos e respirando fundo mais uma vez.

– Relaxa Bakagami! — Murmurou para si mesmo balançando a cabeça ruiva e fazendo os cabelos se espelharem. – Não deve ser nada.

Sem pensar muito o ruivo simplesmente ajuntou a bola e foi até a cesta para continuar seus arremessos e dribles. Precisava melhorar o seu manuseio com a mão esquerda, já estava ficando lerdo novamente, ainda mais com o ritmo que seguiam os treinos da Seirin.

Isso era outra coisa que estava errada...

Devido ao vestibular e às provas finais os Senpais não poderiam mais participar das atividades dos clubes... Consequentemente tiveram que deixar o basquete. Kagami já sabia daquilo há algum tempo, mas tinha certeza que conseguiriam superar aquela dificuldade mantendo a união do time restante. Não fora nada além de uma falsa esperança...

Todos realmente se esforçavam muito, não era algo que podia negar. A cada treino davam o máximo de si executando tudo o que o pai de Riko pedia, treinavam duro, queriam continuar com a garra de sempre... Mas não importa de que ângulo você olhasse, Seirin não tinha chances de vencer a Winter Cup desse ano. Aquilo estava chateando o ruivo desde o retorno às aulas, no início da semana. Estava evitando pensar, era melhor dessa forma.

Kagami foi quicando a bola continuamente e com velocidade. Seu oponente invisível o esperava na borda do garrafão. Kagami o encarou ao se aproximar, blefou um drible pela esquerda, mas na última hora o enganou e girou para a direita. Ao deixa-lo para trás, o ruivo posicionou-se com destreza na linha do lance livre e arremessou. Acertara sem maiores dificuldades... Se seu oponente fosse real não acertaria e nem sequer conseguiria blefar... Onde estava Aomine? Por que ele demorava tanto?

Irritado, o ruivo pegou a bola que retornou aos seus pés e a jogou com tudo na tabela provocando um estouro que ecoou pelo pátio silencioso. A bola rebateu com força e percorreu a distância da quadra inteira, parando do outro lado ao tocar a grade. Sentou-se ali mesmo no chão com as pernas dobradas e apoiando-se em seus braços.

– Cadê você, Daiki? – Murmurou preocupado, olhado para o céu. Já estava escuro, mas não conseguia ver quase nenhuma estrela, as luzes dos postes as escondiam.

***

HORAS ANTES

Quinta-Feira, dia 25 de Agosto, 13h50min

~Aomine Seiko~

A tarde estava agradável, não muito quente e nem muito fresca, um dia perfeito para trabalhar com prazer. Seiko não tinha um emprego assalariado fora de casa, mas era artista surrealista e produzia obras de arte fantásticas em suas telas, caríssimas por sinal. Passara muito tempo de sua vida trabalhando com caligrafia artística e se prendendo a padrões, mas descobriu que preferia um pouco mais de liberdade em suas criações e agora era autônoma.

Assim que juntou todo o seu material e dirigiu-se ao pequeno estúdio nos fundos da casa o telefone começou a tocar. Com um suspiro aborrecido, ela deixou tudo o que tinha em mãos em cima da pequena mesa no jardim e correu de volta para a casa.

– Residência dos Aomine? — Atendeu um pouco ofegante ao chegar à cozinha. Pegou o telefone sem fio e voltou a caminhar de volta ao seu canto de trabalho.

– Senhora Aomine Seiko? — Uma voz feminina questionou de forma séria.

– Sim! — Respondeu surpresa. Não era comum receber ligações direcionadas a ela, geralmente eram para Ethan.

– Aqui é Mitsuko Futaba, diretora da escola onde seu filho Kento estuda.

– Ah sim, boa tarde diretora Mitsuko. — Respondeu Seiko com a voz simpática sentando-se em sua cadeira e olhando atentamente para a tela que começara a pintar no dia anterior. Tinha alguns detalhes para acertar na coloração, o fundo ficara roxo demais e aquele degrade não a agradou.

– Boa tarde. — Ela continuou de forma seca. — Poderia, por favor, vir até a escola buscar seu filho?

– Aconteceu alguma coisa? — Perguntou apreensiva perante o tom de voz da mulher, esquecendo-se completamente de seu quadro.

– Ele levou uma suspensão de duas semanas. — Explicou a diretora com um tom de voz ainda sério. — Venha até a escola, precisamos conversar pessoalmente sobre o ocorrido. É algo delicado.

– Obrigada por avisar! Estou indo imediatamente. — Engoliu em seco.

Sem esperar resposta, Seiko desligou o aparelho e já iniciou uma nova ligação enquanto corria para o seu quarto trocar de roupa. Não conseguia nem imaginar o que o menino aprontara, mas a aflição tomou conta de seus instintos maternos, boa coisa não era.

– Hospital... — A atendente começou a falar após chamar duas vezes.

– Boa tarde, preciso falar com o Doutor Ethan, é a esposa dele. — Interrompeu Seiko, já abrindo o closet e pegando as primeiras peças que viu sem se preocupar muito com a combinação de cores, o que era raro.

– Boa tarde! — A moça cumprimentou um pouco sem graça por ter sido cortada em sua frase padrão. — O Dr. Ethan está no meio de uma cirurgia nesse momento, mas posso anotar o recado?

– Ah, ok! — Suspirou Seiko tentando se acalmar. — Peça para ele retornar o mais breve possível no meu celular. Obrigada.

– Ok. — A secretária respondeu com um tom simpático. — Tenha uma ótima tarde.

– Igualmente! — Sorriu desligando o telefone e o jogando na cama.

Suspirou fundo e começou a retirar seu guarda-pó sujo de tinta. Deixaria seu trabalho para mais tarde se fosse capaz.

***

Mitsuko Futaba era uma mulher com um porte elegante, digno de uma diretora da melhor escola infantil do distrito. Um penteado impecável prendia os cabelos castanhos e longos em um belo coque, mas seus olhos escuros por trás dos óculos meia-lua davam ao seu rosto um ar arrogante... Ou aquilo seria apenas impressão de Seiko por ela estar dando uma suspensão ao seu filho?

– Sente-se! — Pediu a diretora, apontando para a cadeira em frente a sua grande mesa de madeira escura. — Gostaria de um chá?

– Não, obrigada! — Seiko respondeu em um tom simpático ao assentar-se e apoiar a bolsa no colo.

– Senhora Aomine, não sei nem por onde começar. — A diretora Mitsuko falou em tom sério e preocupado assim que sentou em sua cadeira verde escura, da mesma cor do uniforme. Voltou a encará-la enquanto retirava os óculos. – Prefiro ser direta.

Seiko apenas acenou uma vez com a cabeça, preparando-se para ouvir o que havia acontecido. Parecia ser algo realmente sério.

– Hoje no horário do almoço seu filho Aomine Kento beijou a boca de um colega de classe. — Disse a diretora de forma compassada, olhando-a nos olhos com um tom severo na voz. — Acredito que um ato desses não é normal, seja dentro ou fora dos limites de uma escola. A senhora pode me explicar o motivo de isso ter acontecido?

Seiko ficou sem chão. Apenas encarou incrédula a diretora enquanto sentia um gato descer por sua garganta. Estava horrorizada.

– Ah... — Balbuciou em busca de palavras, sua garganta ficara seca de repente. — A senhora está dizendo... Que meu filho beijou outro menino?

– Exatamente. — Disse a diretora inexpressiva, mas com um tom de voz firme. — Um de nossos funcionários presenciou o momento em que o tal aluno o empurrou e correu em direção à sala dos professores para contar sobre o ocorrido. Pelo que parece estavam em um círculo de amigos conversando e almoçando normalmente quando aconteceu. — A diretora repôs os óculos e continuou calmamente. — Seu filho foi chamado imediatamente até a diretoria. Quando questionado sobre o motivo de ter feito aquilo ele alegou que era normal entre colegas, já que viu seu irmão mais velho fazer isso com seu melhor amigo. O que a senhora pode me dizer a respeito?

Aomine Seiko gelou naquele instante e viu-se cada vez mais perdida em um buraco sem fundo... Do que ela estava falando? Como assim Kento viu seu irmão mais velho... Daiki... E um amigo... Taiga? Fechou os olhos tentando processar aquilo, mas sua intuição já apitava fazia algum tempo, sabia que não era normal aquela proximidade dos dois, sabia! Sua cabeça girou em um misto de incredulidade e desgosto, entendeu a situação inteira em questão de segundos.

– Eu preciso falar com Kento! — Foi o que conseguiu dizer ainda de olhos fechados, mas com um tom de voz tão firme e severo quanto o da diretora. — Pode chamá-lo aqui, por favor?

– Sim senhora. — Disse Mitsuko Futaba, fazendo uma rápida discagem no telefone em sua mesa.

Seiko ainda estava tentando engolir aquela informação junto com o refluxo que subia por seu esôfago. Mantinha os olhos fechados e nem prestava atenção no que a mulher em sua frente dizia ao telefone, sua cabeça virara uma massa negra com a mistura de indignação, raiva e vergonha. Começou a lacrimejar, mas não daria o braço a torcer, era uma Aomine e não demonstraria seu desgosto através de lágrimas, não ali.

Não demorou muito para a porta abrir-se e Kento aparecer por ela, chorando. Seiko abriu os olhos com parcimônia e encarou o menino.

– Mãe... — Ele choramingou, passando as costas das mãos nos olhos inchados.

– O que você fez? — Perguntou seca, mas sentindo o coração partir ao mesmo tempo. Sabia que a culpa não fora totalmente dele. Daiki pagaria caro.

– Eu cumprimentei um amigo... — Ele chorou com mais vontade.

– Responda direito, Aomine Kento! — Disse autoritária. — O que você fez?

– Eu beijei... Meu amigo. — Ele chorava mais e mais. — Não sabia que era errado... Eu só queria dar oi... Mãe...

– Por que achou que era certo? — Seiko foi incisiva, mas com medo da resposta que já sabia.

– Eu vi o onii-chan beijar o Taiga-onii-chan na casa da vovó! — Ele respondeu, choramingando.

– Quando? — Seiko perguntou com as sobrancelhas franzidas, sentindo-se romper por dentro de tanta raiva e humilhação.

– Quando fui chama-los para almoçar... — Ele disse receoso, olhando-a por baixo. — E quando eu fiquei espiando para assustá-los no rio... E...

– Acredito que vocês deveriam resolver esse assunto em casa. — Interrompeu a diretora, olhando os dois por cima dos óculos meia-lua.

– Concordo, diretora Mitsuko. — Falou Seiko em tom sério. — Desculpe o inconveniente. Não voltará a acontecer, vou resolver a situação imediatamente.

– Espero que sim! — Sorriu ela, olhando do menino para a mãe. — Nossa escola não tolera esse tipo de comportamento afetivo, e muito menos homossexual. Já recebemos algumas ligações e esperamos de coração que tudo se resolva o mais breve possível. Daqui a duas semanas ele deve retornar às aulas.

– Obrigada! — Disse Seiko retirando-se com o menino e sentindo-se humilhada com as palavras da diretora. Comportamento homossexual é? Daiki iria se arrepender como nunca em toda sua vida.

***

– Seiko, você me ligou? — Perguntou Ethan do outro lado da linha assim que a mulher procurava uma vaga no estacionamento da escola Touou Gakuen.

– Sim! — Ela respondeu, olhando de relance para o choroso Kento no banco de trás. — Você tem mais alguma cirurgia hoje, Ethan?

– Não, por hoje já terminei. — Ele respondeu preocupado. — Aconteceu alguma coisa?

– Aconteceu! — Respondeu a mulher sem demonstrar emoção alguma, mas sentindo-se destruída. — Aceite a proposta do doutor Toshiro antes de ir para casa. Aomine vai casar com a filha dele e faremos esse acordo entre nossas famílias o mais breve possível.

– Seiko, o que aconteceu? — Ele repetiu, com a voz alarmada. — Você estava tão relutante quanto a isso, nós brigamos tanto... Por que essa mudança repentina?

– Aceite e depois conversamos. — Ela foi direta e autoritária. — Estou levando Daiki para casa nesse exato momento. Ele mesmo vai dizer o que aconteceu.

***

Quinta-Feira, dia 25 de Agosto, 15h28min

~Aomine Daiki~

Faltava menos de dois minutos para a aula chata de matemática acabar. Aomine estava deitado em seus próprios braços olhando sem ânimo para o quadro... Até hoje não entendia como uma letra poderia virar um número e vice e versa.

Desviou o olhar para o celular em sua frente, relendo as últimas mensagens que trocara com Taiga marcando um jogo para as 18h, após o treino com a Touou. Permitiu-se sorrir. Era cada vez melhor passar o tempo com seu ruivo... Estavam tão próximos.

Involuntariamente moveu a perna direita, onde estava amarrada a fitinha vermelha, a sua aliança de compromisso. Sorriu novamente... Viram-se no dia anterior, mas já estava com saudade.

***

– O técnico me pediu para elaborar uma sequência nova e pesada de treinamento! — Comentou Momoi, olhando atentamente para a prancheta que tinha em mãos assim que se dirigiam juntos ao ginásio nos fundos da escola. — Parece que vocês vão começar a testar isso hoje. Precisam estar em sua melhor forma na Winter Cup.

– Estou empolgado com essa bosta, que venha o treinamento mais pesado! — Sorriu Aomine fechando o punho com determinação. — Taiga e Akashi não me escapam dessa vez.

– Dai-chan. — Chamou Satsuki, que substituiu o sorriso por uma expressão intrigada. Ela indicou com o rosto a entrada lateral da escola. — Sua mãe!

O moreno olhou confuso para a mulher que vinha em sua direção com passos firmes e decididos. Alguma coisa acontecera, ela nunca viera até sua escola naquele horário e parecia mais séria do que o comum. Engoliu em seco, mas esperou antes de tirar conclusões precipitadas.

– Oi mãe! — Cumprimentou Daiki com um sorriso sem graça. — O que faz aqui?

– Imediatamente para casa, Aomine Daiki. — Ela disse sem sequer olhar para Satsuki. — Já!

– Aconteceu alguma coisa? — Perguntou preocupado, sentindo-se gelar por dentro. Ela apenas o encarou com os olhos estreitos, fazendo-o se arrepiar dos pés à cabeça. Aquilo era um péssimo sinal.

– Vamos! — Seiko começou a andar pelo pátio em direção à saída da escola sem olhar para trás.

– Vai lá, Dai-chan. — Comentou Satsuki apreensiva, tocando-o de leve no braço. — Eu falo com o trein...

– Você não sabe de nada sobre o Taiga, ok? — Ele sussurrou num impulso de adrenalina, olhando nos olhos rosados de Momoi com firmeza. — Se ela te perguntar algo você nunca suspeitou. Ok?

– Dai-chan! — A menina o olhava confusa. — Ela descobriu...?

– Não sei, só faça isso por mim se algum dia acontecer, ok? — Ele engoliu em seco, sentindo suas entranhas embrulharem com a ideia. — Te ligo depois.

– Você vai ficar bem? — Ela murmurou com os olhos lacrimejando.

– Aomine Daiki! — Seiko exclamou incisiva, fazendo frio percorrer a barriga do moreno. — Já!

– Tchau Satuski. — Ele esticou o punho para ela socar antes de se afastar.

Seguiu sua mãe de perto até chegarem no estacionamento, imaginando o motivo daquilo tudo. Ela com certeza havia descoberto algo sobre os dois, só podia... Não havia feito outra coisa de errado para ela estar agindo daquela forma! Suas notas melhoraram, parara de cismar com Kento fazia um bom tempo, não era mais tão preguiçoso e voltara a treinar basquete com afinco!

– Mãe... — Chamou, sentindo uma agonia instalar-se em seu peito.

– Cale a boca! — Ela disse entre dentes abrindo a porta do carro e ocupando o acento do motorista.

Sim, eles descobriram, não tinha outra explicação lógica. Aomine fechou os olhos com força enquanto dava a volta no veículo. Sentiu medo, muito medo. Fora precoce demais... Onde erraram? Precisava avisar Taiga...

– Me dê seu celular! — Ela pediu esticando a mão assim que ele sentou no banco ao seu lado com a mochila no colo.

– Por quê? — Perguntou apreensivo observando a mão trêmula da mulher.

– Me entregue a merda do celular! — Ela repetiu, palavra por palavra, de forma compassada e severa.

Aomine sentiu um embrulho no estômago, nunca ouvira sua mãe falar daquela forma. Queria sumir naquele momento, desaparecer, fugir... Queria estar com Taiga... Mas por que tinha a sensação horrível de que não o veria tão cedo?

Engolindo saliva, retirou o celular do bolso e o entregou para a mãe. Ela deu a partida no veículo e silenciosamente saíram do estacionamento, seguindo o caminho habitual até sua casa. Assim que passaram pela avenida principal ela atirou o celular janela afora, fazendo-o se quebrar em várias partes.

– Mãe... — Suspirou, perdendo as forças.

– Conversaremos em casa. — Ela finalizou fechando o vidro automático.

– Onii-chan... — A voz fraca de Kento surgiu do banco traseiro atraindo sua atenção. — Desculpa...

Aomine não havia percebido a presença do pequeno até então. Ele tinha os olhos inchados do choro... Mas por quê?

– Calado Kento. — Disse a mãe, olhando-o pelo retrovisor e novamente para a estrada. — Torça para que seu pai chegue depois de você me contar toda essa palhaçada, Aomine Daiki. Ele vai te comer vivo!

– Pode me dizer pelo menos o que está acontecendo? — Perguntou agoniado, como se diversas facas quentes cruzassem seu peito a cada segundo.

– Você sabe muito bem o que está acontecendo. — Ela estreitou os olhos, focada no trânsito. — Não se faça de vítima agora. Ou achou que conseguiria mentir para sempre?

– Mãe... — Gelou instantaneamente ao ouvir aquilo.

– Cale a boca! — Ela rebateu em alto e bom som, apertando o volante até suas juntas ficarem brancas. — Em casa conversamos...

Aomine sentia-se trêmulo, com calor e frio ao mesmo tempo... Estava com uma sensação horrível, com muito medo. Queria Taiga ao seu lado para livra-lo daquilo. Era um pesadelo, certo? Sempre protegia o ruivo dos sonhos ruins, o abraçava e acariciava sua nuca sussurrando alguma coisa em sua orelha, ele gostava assim e voltava a dormir calmamente. Kagami poderia abraçá-lo e fazer o mesmo agora... Não é?

***

Ethan não chegara ainda, a vaga da garagem que pertencia a ele estava desocupada. Aquilo de certa forma deixou Aomine um pouco menos apreensivo, não queria nem pensar no momento que ele descobrisse... Os dois irmãos entraram em silêncio na casa, seguidos de perto por uma inconformada e desgostosa Seiko.

– Você tem mais sorte que juízo. — Ela resmungou, assim que o portão automático da garagem fechou. — Não quero nem ver o que ele vai fazer com você.

Aomine apenas olhou de relance para trás com receio, sua mãe era outra pessoa naquele momento.

– Não me olhe assim! — Ela sorriu irônica, encarando-o. — Você nunca me deu um orgulho decente nessa vida, mas dessa vez você superou tudo Daiki. TUDO! Já para o sofá!

Ela rumou escada à cima com pressa, provavelmente indo até seu quarto. Decidiu segui-la ao invés de ir para a sala, tinha medo do que poderia acontecer lá em cima com suas coisas, mas Kento o segurou pela manga chorando como nunca.

– O que foi ranhento? — Perguntou com um sorriso fraco e forçado, agachando-se ao lado do menino e desistindo da missão suicida de seguir sua mãe. Sentia-se na obrigação de acalmá-lo naquele momento, Kento não tinha nada a ver com aquilo tudo.

– Desculpa... — Ele soluçava, abraçando-o com força repentinamente. — Eu vi você e o Taiga-onii-chan... Desculpa.

Aomine fechou os olhos com força após entender tudo em uma questão de segundos. Congelou por dentro e o abraçou usando todas as suas forças para não culpá-lo. Ele não entendia nada das coisas, era apenas uma criança... Insistia em repetir isso em sua mente, não era culpa de Kento.

– Quando? — Perguntou Aomine, sentindo um aperto enorme no peito ao encarar o menino desesperado em sua frente.

– Na casa vovó, no rio... Eu estava espiando. — Ele chorava mais e mais. — Não achei que era ruim... Você e Taiga-onii-chan eram tão amigos... Achei que era normal beijar um amigo... Eu achei...

A vontade de vomitar se fez presente, junto com a falta de ar e novamente o medo. Estava tudo perdido! Fora pior do que imaginara. Mas precisava manter-se firme e forte na frente do pequeno. Engoliu em seco e acariciou o cabelo do menino, olhando-o nos olhos idênticos aos seus.

– Está tudo bem, Kento! — Mentiu, sentindo uma lágrima quase escorrer por seus olhos. Segurou à tempo. — Pode ficar tranquilo, vai ficar tudo bem.

– Mesmo? — Perguntou o menino secando as próprias lágrimas ao olhar esperançoso para Aomine em sua frente.

– Sim! — Mentiu, quase se deixando levar pelo choro quando abraçou novamente o menino, era o único consolo que tinha no momento.

Um barulho de alguma coisa quebrando no andar de cima chamou a atenção de Aomine. Tinha certeza que era seu notebook. Estava na merda... Estava morto.

– Vamos tomar um copo d’água? – Sorriu forçado, ignorando os outros barulhos no segundo andar. O pequeno ainda fungava um pouco, mas assentiu com um movimento de cabeça.

Aomine sentiu as pernas fraquejarem quando se dirigiu à cozinha, acompanhado pelo menor. Estava quase vomitando, mas continuou firme em seu trajeto. Suas mãos tremiam um pouco quando encheu o copo de água e colocou uma colher de açúcar. Entregou para o menino e fez um para ele próprio, tomando tudo em um só gole. Aquilo apenas aumentou seu embrulho, nada poderia acalmá-lo no momento...

Sua cabeça estava nublada, impedindo-o de pensar claramente nas coisas. Olhou para o suporte do telefone no balcão, mas o aparelho não estava lá... Precisava falar com Taiga, ou pelo menos avisar que não iria até o Maji Burguer hoje, sabia que ele ficaria esperando sua chegada e depois a paranoia tiraria seu sono... Essa seria a primeira vez que faria sentido se preocupar.

– Taiga... – Sussurrou olhando desesperado para o açúcar decantado no fundo do copo. – E agora?

– Kento, já para o quarto! – Seiko surgiu às suas costas, fazendo-o sobressaltar-se e largar o copo. – Daiki, para a sala.

***

– Você deve pensar que nós somos idiotas, não é? – Perguntou Seiko, sentando-se no sofá a sua frente, tamborilando os dedos de forma impaciente em seus joelhos. – Mentindo como se fosse uma brincadeira, uma coisa banal... Meu Deus, isso só pode ser uma doença, precisa ter um tratamento. Desde quando vocês dois estão nessa palhaçada?

– Começo de maio. – Murmurou Aomine hesitante, olhando para o chão. Sua voz mal saía.

– Maio! – Repetiu ela com um sorriso nervoso. – E o que seu irmão viu?

– Como assim? – Perguntou o moreno com a voz fraca, levantando o olhar para a mãe.

– O que vocês dois fizeram naquele maldito rio? – Ela perguntou impaciente, enterrando o dedo nos próprios cabelos azulados em um sinal de desespero. – O que ele viu?

– Eu não sei... – Murmurou Aomine, sem reação. Tudo parecia desmoronar a sua volta. Não fizeram nada de mais, provavelmente ele viu apenas um beijo... Não fez nada além disso fora da barraca. Não sabia... Não sabia de mais nada...

– Meu Deus! Meu Deus... Eu acolhi aquele... Aquele bastardo como um filho. — Ela levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, com a mão na frente da boca. – Permiti que ele entrasse nessa casa, comesse em nossa mesa, dormisse no seu quarto... Argh... Não quero nem imaginar o que vocês fizeram... Meu Deus, eu senti dó daquele maldito! DÓ! Ah, coitadinho, fica tão sozinho naquele apartamento, vamos acolhê-lo como um membro da família então... Isso só pode ser o inferno! Como fui burra! BURRA! Quantas mentiras nós ouvimos? – Ela parou e o encarou de repente. — Falando em mentiras... Não existe nenhuma Rin, não é?

Aomine não conseguiu olhar para a mãe, ficou destruído ao ouvir aquelas palavras. Entendia o motivo de Taiga odiar mentiras, eram como facas de dois gumes... Crimes perfeitos não existiam.

– Não é, Daiki? – Repetiu Seiko em voz alta, aproximando-se e segurando seu rosto com força, obrigando-o a encará-la. — Não existe nenhuma Rin?

– Não! – Admitiu em tom de voz baixo, olhando-a nos olhos.

Demorou alguns segundos para o moreno entender que acabara de levar um tapa forte no rosto. Fechou os olhos sentindo a queimação em sua bochecha esquerda.

– Vocês nunca iriam aceitar nosso relacionamento! – Disse por fim, ainda de olhos fechados.

– Lógico que não! – Ela bradou horrorizada, encarando-o perplexa, apertando mais ainda sua pele do rosto. – Você é um homem, UM HOMEM DAIKI, UM HOMEM! Que vergonha para a nossa família, meu Deus! UMA VERGONHA!

– Eu o amo! – Exclamou por fim. Estava na hora de ser sincero, tinha que lutar por ele, não iria desistir tão fácil.

Levou outro tapa, e mais um... Fechou os olhos novamente e apenas esperou, fazendo de tudo para ignorar a dor... Esse era o preço que pagava por amar outra pessoa? Ouvia os baques estalados da mão atingindo-lhe a face, mas o som do choro de Seiko era o que havia de mais alto na sala.

– Você é só uma criança! – Ela dizia perdendo as forças, agachando-se em sua frente e apoiando a cabeça em suas pernas enquanto apertava com força sua calça de uniforme. – Uma criança... Não sabe nada sobre a vida... NADA! Daiki, eu não acredito... Não... Não pode ser... Eu tinha tantos planos para você... Estragou tudo... Tudo... Você acabou com tudo... Acabou com a nossa família, com o orgulho dos Aomine, com tudo... Você estragou tudo...

Aomine começou a chorar, já não conseguia conter as lágrimas, não conseguia mais ser forte. Não chorava pela dor física, mas pelo enorme rombo que estava aberto em seu peito. Sem saber o que fazer, apoiou a mão na cabeça da mãe, não queria magoá-la nunca, jamais imaginou vê-la naquele estado... Mas era sua escolha, por que simplesmente não podiam aceitar? Seria mais fácil para todo mundo...

– Daiki... – Ela murmurou raivosa, desviando-se do afago e o encarando com os olhos em fendas. –Você nunca mais verá aquele maldito na sua vida, entendeu bem? NUNCA MAIS!

– Você não pode fazer isso! – Exclamou repentinamente, gelando por dentro e sentindo o coração quase parar. Só a ideia de nunca mais estar com Taiga lhe causava uma angústia enorme, quase vomitou... Isso não iria acontecer jamais, fugiria de casa se fosse necessário.

– Você tem 16 anos de idade e me deve obediência. – Ela levantou-se firme, como se não tivesse se desesperado minutos atrás. – Essa infantilidade passageira de vocês acabou com sua vida nesse exato momento! Seu pai vai chegar e te provar que estou certa... Você acabou de se matar como pessoa livre.

– Vocês não podem me obrigar a ficar longe de Taiga! – Exclamou em voz alta, ignorando praticamente tudo o que ela dissera. Aquilo ainda ecoava em sua cabeça, não deixaria acontecer... Não deixaria...Não se afastaria de Taiga, jamais... Não é?

– Não fale mais o nome dele dentro dessa casa! – Gritou a mulher, dando-lhe outro tapa, muito mais forte, o gosto de sangue chegou a sua boca. – Ou você está pensando em fugir daqui? Ah, claro que está, vai viver de amor pelo mundo... Lógico, vocês dois vão sobreviver com brisa no apartamento do pai dele, não é? Porque dinheiro cai do céu, as contas são pagas automaticamente, não existem responsabilidades... Por Kami, Daiki! Como você é ingênuo e burro! – Ela riu irônica, enterrando o dedo nos próprios cabelos azulados. — Ah, já sei, vocês dois provavelmente até já cogitaram isso... Você vai fazer um passaporte, viajar com ele para L.A. e estabelecer cidadania lá sem autorização de um responsável para viver feliz para sempre? E sem falar inglês, claro! Porque a vida é fácil, simples... É só encher a bolsa de roupas e levar uma bola de basquete que está tudo bem! Se enxerguem, vocês dois! Duas crianças no segundo ano do ensino médio que não tem onde caírem mortas! Ainda mais dois rapazes... Cresça Daiki, cresça e aprenda alguma coisa nessa vida.

Aquele soco de verdades o atingiu com toda a força e doeu muito mais do que qualquer agressão física. Seus planos realmente eram assim tão infantis e sem fundamento? Colocando daquela forma sentiu vergonha de si mesmo, ingênuo... Tudo estava ruindo a sua volta, assim como as lágrimas que escorriam por seu rosto e pingavam no tecido de sua calça.

Como aquilo fora acontecer? Estava tudo tão bem... Estavam namorando, provavelmente no melhor momento de sua vida, se amavam, riam juntos, jogavam basquete, tinham um compromisso um com o outro, até mesmo uma música eles tinham... E agora isso de repente... Após as férias tudo acabou desmoronando... Cada vez a saída para ambos ficava mais distante... O que deveria fazer agora? Estava sentindo-se entre duas paredes que se fechavam e o impediam de seguir em frente.

– Por que vocês não aceitam? – Questionou Aomine desesperado em voz alta, sentindo as lágrimas quentes cortarem seu rosto febril. — Não percebem que eu estou feliz assim! Eu nunca fui tão feliz em minha vida toda!

– Cale essa boca! — Exclamou a mãe, olhando-o com desgosto. — Tão infantil que não entende nada! E como fica sua família? E seu futuro? Você é um pirralho que mal sabe como andar por conta própria, falando em “vida toda”, mal saiu das fraldas! Esqueça isso, jamais aceitaremos essa vergonha! – Ela balançava negativamente a cabeça enquanto recomeçava a chorar. — Daiki, o que aconteceu com você? Ou melhor, o que ele fez com você? Cadê o seu orgulho como homem? Juro que jamais esperei isso de você, um rapaz alto, bonito, sério... Virar essa nojeira! Essa vergonha...

– Seiko? – Ethan entrou repentinamente pela porta, preocupado. Seu olhar ia e vinha entre ambos. – O que está acontecendo aqui?

– Ah, Ethan, que bom que chegou! – Disse Seiko arrasada abrindo espaço e enxugando as lágrimas. – Conte para ele, Daiki! Conte como é ser o orgulho da família!

Um nó formou-se na garganta do moreno. Não ouvira o carro de seu pai entrar na garagem, não conseguia ouvir mais nada além de seu próprio coração desesperado e machucado. O mais velho se aproximava, encarando-os intrigado e evidentemente preocupado.

– Contar o quê? — Perguntou Ethan, mirando o rapaz e passando os braços ao redor dos ombros de Seiko para consolá-la.

– Pai... — Murmurou, sem realmente conseguir ouvir a própria voz. O quê deveria dizer agora? O que tinha que fazer? Não sabia mais como agir, precisava de ajuda... Não conseguiria sozinho.

– Seiko? — O homem questionou, olhando para o rosto da mulher após ver que o filho apenas balbuciava.

– Seu filho e aquele bastardo... — Ela chorava copiosamente com a mão na frente da boca. — Meu Deus Ethan, case-os logo e nos tire desse pesadelo.

Case-os logo? Como assim... Daiki olhou confuso e arrasado para ambos.

– Seiko, respira! Me conte direito o que aconteceu! — Ethan perguntou olhando alarmado para a mulher ao segurá-la pelos ombros.

– Seu filho e aquele... Aquele Taiga! — Ela resmungou, como se o nome fosse realmente um tabu. — Kento os viu se... Se beijando... Se beijando, Ethan! E repetiu na escola achando que era normal entre amigos. Está suspenso por duas semanas... Meu Deus Ethan! Daiki é... É um...

O médico cambaleou e esperou alguns instantes, provavelmente processando a informação e como sempre analisando friamente para evitar esforços desnecessários. A aflição de Aomine apenas aumentou, precisava de Taiga para protegê-lo daquele pesadelo. Onde ele estava? Por que ele não estava aqui agora? Seu pai o mataria em instantes, os olhos dele diziam isso.

– Inaceitável... – Ethan sibilou, em voz baixa. – Impossível... Não, me recuso a acreditar... De onde tirou isso Seiko... E Rin?

– Rin é uma mentira para ele ficar lá naquele apartamento! Eles ensaiaram e cuspiram em nossa cara! – Ela exclamou enterrando o dedo nos cabelos, aquele gesto repetitivo estava dando náuseas em Aomine, nunca vira sua mãe assim. – Não existe Rin nenhuma, eles nos fizeram de palhaços!

– Não... Isso é inaceitável! — Ethan murmurou de uma forma calma, quase psicótica. Olhava para um ponto fixo no sofá. — Meu filho não é um veadinho, se fosse já estaria fora de casa. Ele está noivo e vai casar... Ah, vai casar... Aomine Daiki, você vai casar!

Seus olhares se encontraram e o moreno sentiu um calafrio enorme percorrer todas as células de seu corpo. Sentiu medo, muito medo, como nunca em toda sua vida... Estava acabado, as paredes se fecharam, não via mais a saída.

– Pai... — Murmurou desesperado em busca de palavras, mas não as encontrou.

– Cale-se antes que eu parta essa sua cara! — Ele disse calmamente fechando os punhos e olhando-o com puro desprezo. — Não quero saber o que aconteceu entre vocês, tampouco me importa agora, porque esse assunto morreu aqui! Você não o verá nunca mais. – Ele foi incisivo na última frase. — Sua mãe já foi bem clara, tenho certeza. Ela já deve ter jogado algumas boas verdades nessa sua cara infantil e inconsequente! Acredito que não preciso dizer mais nada... Apenas que você vai casar e fazer uma única coisa útil na vida.

– Não... Não podem fazer isso... — Daiki chorava copiosamente, assim como sua mãe. Como assim casar? O que era aquilo tudo assim tão de repente... O que tinha de errado em amar Taiga? Qual era o problema...? Por que eles estavam arrancando sua metade dessa forma? Por que doía tanto?

Ethan abriu a maleta e de lá tirou uma prancheta com alguns papéis. Sem cerimônia atirou o objeto em Aomine. Aquilo atingiu em cheio seu estômago embrulhado, trazendo à tona toda aquela ânsia, a água com açúcar e os dez tipos de refluxo que sentira anteriormente.

– Assine, Aomine Daiki! — Ethan exclamou, retirando uma caneta de seu bolso e jogando-a com força na direção do moreno, que se encolheu no sofá para não ser atingido no rosto já inchado.

– Não era para ser assim... Eu não queria isso para você! — Seiko chorava enterrando o rosto nas mãos e abafando a voz. — Viu o que você fez consigo mesmo, Daiki? Viu o que fez conosco? A culpa é sua... Assine de uma vez e passe uma borracha nisso tudo!

O moreno olhou de relance para os papéis, finalmente entendendo a situação. Era um casamento arranjado... Um contrato entre famílias influentes em troca de dinheiro e benefícios... Uma prostituição... Um gesto arcaico... Era isso mesmo? Queriam forçá-lo a isso para afastar-se de Taiga? Ou já haviam planejado antes mesmo de descobrirem sobre os dois?

– Aomine Daiki, você sabe muito bem do que sou capaz! — O homem começou, tremendo da cabeça aos pés, mas mantendo o tom de voz natural. — Vou até o inferno atrás de Kagami Taiga se você não assinar esse documento.

Chantagem ou ameaça? Ameaça... Realmente sabia do que seu pai era capaz, ele era influente, rico e tinha o sangue quente australiano. Aomine ficou com mais medo ainda e sentiu novas lágrimas escorrerem por seu rosto. Por que chegaram a esse ponto?

– Você não faria... — Encarou-o incrédulo, enxugando o rosto com os dedos trêmulos.

– Ah não? — Ele rebateu ameaçador, mas calmo ao mesmo tempo. — Acha que já não fiz isso antes por bem menos? Dá para ver que você é apenas uma criança e que não entende nada. Você é ingênuo e bonzinho demais, ainda vai apanhar muito da vida até aprender como as coisas funcionam.

– Isso é mentira... — Murmurou amedrontado, mal reconhecendo sua própria família. Sabia apenas que aquilo realmente não era um blefe, tremeu com a ideia. Não se perdoaria jamais se algo de ruim acontecesse com Taiga. Apenas o pensamento fez seu coração descompassar, doloroso.

– Não brinque com minha paciência. — O mais alto estava ficando furioso, nunca o vira assim.

Estava feito, eles conseguiram... Sua vida estava acabada... Queria sumir... Já sentira tanta dor que agora o simples vazio o consumiu, o vazio da incredulidade. Sentiu-se completamente sem saída, com as mãos atadas, com medo e raiva, muita raiva. Eles não eram sua família, não podia ser... Eram monstros.

– Não era para ser assim, Daiki. — Seiko chorava. — Você nos traiu. Mentiu...

– Amar é tão errado assim...? — Murmurou inexpressivo, olhando para os papéis em sua frente enquanto segurava a caneta entre os dedos. — É tão errado encontrar a felicidade ao lado de alguém que realmente te faz sentir vivo?

– Ethan, NÃO! — Gritou Seiko, atraindo o olhar de Aomine novamente. Ela fazia um esforço enorme para segurar Ethan pelo tórax... Iria levar uma surra, seria quebrado em pedaços. Seu pai parecia um touro prestes a arremessa-lo longe. Mas não se importava, seria até melhor se morresse de uma vez!

Olhou sem emoção para o pai antes de assinar, ele estava fora de si e isso apenas amedrontava Aomine mais ainda, o que ele poderia vir a fazer com Taiga... Não queria nem pensar. Vendo aquilo em sua frente imaginou do que ele seria capaz. Protegeria Taiga com sua dor...

Soltou um último suspiro de derrota, estava acabado. Aomine sentiu a minúscula esfera da caneta roçar a textura do papel timbrado. Estava trêmulo, mas seu nome até ficava legível... As lágrimas escorriam conforme o branco do papel era substituído pela tinta azul.

Não perdoaria Kento por tê-los espionado no rio e por ter agido como um idiota. E ainda por cima contado para sua mãe... Não o perdoaria jamais, mesmo que ele fosse uma criança inocente e não entendesse nada!

Aomine virou a primeira página e assinou novamente.

JAMAIS perdoaria seus pais por simplesmente não conseguirem aceitá-lo do jeito que era! Eles não o amavam, não sabiam o que era amar alguém de verdade. Aomine sempre soube que o materialismo e o nome da família era o que mais pesava naquela casa, mas não ao ponto de prostituí-lo daquela forma, vendê-lo como objeto, ameaçar uma pessoa tão doce como Taiga... Pouco se importavam com seus sentimentos, eram verdadeiros monstros que de alguma forma injusta conseguiram colocá-lo em uma jaula com mais de mil chaves.

Foi para a terceira página, rabiscando novamente seu nome na linha.

Nem sequer sabia quem era sua futura esposa, tinha medo de ler o nome na linha ao lado... Aquele pensamento o enojou... Não a perdoaria por ter nascido e estragado com sua vida daquela forma! Talvez ela também estivesse sendo forçada a casar e entrassem em algum acordo... Ou quem sabe ela fosse tão materialista quanto o povinho que ainda realizava esse típico contrato, criado para manipular vidas em benefício próprio.

Quarta e última página. Hesitou antes de assinar...

Mas acima de tudo, acima de qualquer um, Aomine jamais perdoaria a si mesmo... Era fraco e ingênuo, um legítimo perdedor, uma criança impotente e incapaz! Por que teve que ser desse jeito? Por que não poderia ficar com a pessoa que amava? Era um inútil... Se tivesse sido mais cauteloso quando esteve com o ruivo jamais sofreriam daquela forma... Ou quem sabe errara desde o começo... Talvez se tivesse contado aos seus pais desde o início não se apegariam tanto um ao outro e a separação fosse mais fácil... Ou ainda se tivesse se esforçado de verdade talvez nunca tivesse perdido na Winter Cup e provavelmente nunca iria reparar em Kagami Taiga... Ele seria apenas mais um perdedor que passaria invisível em sua vida...

Assinou a última folha, fechando os olhos, derrotado.

Inevitável... Simplesmente fora inevitável se apaixonar por ele, por seu rival, por um homem... Seu homem... O ruivo que do nada se tornou seu companheiro de quadra, que comia tanto quanto ele, que ouvia rock meloso, que tinha medo de filmes de terror, que nunca beijara uma garota, que cozinhava o melhor Curry do mundo, que tinha o beijo mais perfeito, que tinha ciúmes exagerados, que era extremamente paranoico com tudo, que era um amante quente e o fazia delirar, que tinha medo de cachorros, que tinha a mania de escovar os dentes, que não sabia subir em árvores sozinho, que tirava os caninos para fora quando sorria... Que o fazia feliz pelo simples fato de existir... Que se tornara o amor de sua vida... E hoje, a partir daquelas assinaturas sem sentido, significava que ele seria apenas parte de seu passado?

A dor no peito de Aomine aumentou, muito. Isso significava que não o veria mais? Nunca mais? As lágrimas escorriam como nunca, molhando os papéis em seu colo. Já não conseguia mais se segurar, apenas deixava o choro vir, soluçava na esperança de que tudo não passasse de uma brincadeira de mau gosto... Nunca sentiu-se tão sozinho, impotente e infeliz em toda sua vida. Aomine queria pegar aquelas folhas, rasgá-las, engoli-las, enfiá-las no cú... Sair correndo porta afora e encontrá-lo para fugirem, morarem em baixo da ponte ou onde quer que seja... Mas não tinha saída. Não tinha, onde quer que o moreno olhasse estava bloqueado, estava preso... Enjaulado.

Olhou nos olhos de seus pais com desprezo, tentando controlas as lágrimas. Estava feito... Preferia ter morrido, mas estava feito. Era irônico pensar que fez isso para proteger Taiga? Era tão doloroso... Precisava vomitar, precisava sumir... Precisava dele! Mas acabou...

– Desculpe se eu causei algum transtorno durante os meus quase 17 anos. — Disse, atirando com raiva a prancheta no estofado ao lado. — Agora que vocês estragaram minha vida já podem começar a brincar de marionete pra conseguir dinheiro.

– Vá para o seu quarto! — Ethan disse calmamente, afastando as mãos de Seiko que ainda o seguravam.

– Eu amo Kagami Taiga! — Disse em um último e inconsequente ato, levantando-se. — O amo com todas as minhas forças e assim vai ser até o final da minha vida... Casado, solteiro, vivo ou morto, eu vou amá-lo para sempre! E quanto a isso vocês dois não podem fazer absolutamente nada! E um dia eu ainda vou ter a minha própria vida de novo, a minha liberdade, e então vocês não vão me imped...

Sentiu uma forte dor, então veio o escuro.

***

Quinta-Feira, dia 25 de Agosto, 20h29min

~Kagami Taiga~

Ele não vem!

Esse foi pensamento de Kagami quando finalmente desistiu de esperar. Estava triste e com saudade... Alguma coisa aconteceu e isso fazia seu peito queimar de angústia.

O ruivo levantou-se calmamente e pegou a mochila. A bola ainda estava encostada na grade do lado oposto da quadra. Caminhou até lá e a recolheu, olhando para os lados na esperança de encontrá-lo correndo e se desculpando com aquele sorriso idiota... Nada.

– Vamos para casa... — Murmurou desanimado olhando para o chaveiro velho que estava pendurado em sua bolsa.

Não pode deixar de perceber uma sensação ruim enquanto caminhava, aquilo não estava sendo como suas habituais paranoias, era algo intenso, pior... Estava com muito mais medo do que o normal. Precisava ver Daiki para acalmar-se.

Kagami pensou em passar na casa dele e até mudou de direção, mas abortou a ideia no meio do caminho, sua visita não teria nenhum pretexto que convencesse Seiko e Ethan, já era bem tarde... Iria para casa e no dia seguinte mataria o treino para buscá-lo em Touou. Seirin estava em segundo plano agora, infelizmente.

***

Já era quase 21h quando o ruivo chegou ao prédio. Passara antes em uma loja de conveniência e comprou alguns pães doces para comer no caminho, mas por algum motivo aquilo não estava descendo. Havia um nó inexplicável em sua garganta, estava quase passando mal. Pela primeira vez em sua vida teve que jogar comida fora.

– Boa noite, senhor Kagami! – Sorriu o porteiro alto que cuidava do turno da noite, ao vê-lo entrar.

– Boa noite, Toshime-san. – Cumprimentou o ruivo em um tom desanimado erguendo a mão.

– Ah, parece que o senhor tem visita! – Ele disse, ajeitando alguns papéis em sua mesa sem real entusiasmo. – E está te esperando no corredor desde mais ou menos umas 20h30min, não quis ficar aqui na portaria.

– Ah, obrigado! – O ruivo sorriu esperançoso, apressou o passo sem sequer olhar para trás.

Só podia ser Aomine! Aquele idiota estava tirando com sua cara e iria morrer por causa daquilo, pensou o ruivo de forma divertida. Ficara paranoiando à toa, ele tinha o dom de fazer aquilo consigo.

Demorou uma eternidade para chegar no 8ª andar. O elevador apitou e porta abriu em um leve estrondo, provavelmente estava precisando de manutenção. Kagami saiu e olhou esperançoso pelo corredor... Seu coração deu um salto, mas não ficou muito contente com o que viu, ficou apenas mais apreensivo ainda. Então alguma coisa realmente acontecera...

– Boa noite, como vai? – Sorriu com a habitual reverência educada.

– Taiga! – Aomine Seiko cumprimentou com um simples aceno de cabeça.

– Aconteceu alguma coisa com Daiki? Ele não foi ao basquete hoje... – Perguntou como quem não quer nada, aproximando-se da porta e retirando a chave do bolso.

Ela nada disse, nem sequer o olhava. Péssimo sinal. Suas mãos começaram a tremer e a angústia retornou com o triplo de força quando reparou que os olhos dela estavam inchados de choro.

Kagami engoliu em seco e abriu a porta, dando passagem para ela assim que acendeu as luzes. Um mau pressentimento cruzou intensamente sua espinha quando fechou a porta novamente, decidiu deixar destrancada. Colocou a chave no aparador azul tentando manter a calma e evitar pensar no pior. Hora de ser adulto...

– Gostaria de sentar? – Ele perguntou simpático, colocando a mochila em cima do sofá. – Posso fazer um chá, se quiser.

– Kagami Taiga, eu não vim aqui para tomar chá! – Ela começou, encarando-o de uma forma tão severa que o fez tremer mais ainda, parecia outra mulher. – Minha real vontade era tirar a sua vida com minhas próprias mãos, principalmente vendo o seu cinismo nesse exato momento.

O ruivo gelou. Um estado de choque tomou conta de seu corpo, não conseguiu se mover, apenas a encarava boquiaberto ainda segurando a alça da mochila. Eles descobriram!

– Mas como sou uma pessoa civilizada é óbvio que não farei isso. – Ela disse com um sorriso falso, colocando uma mecha dos cabelos atrás da orelha. – Porque você fará o favor de sumir por conta própria, não é?

– Ah, desculpe? – Balbuciou Kagami ainda paralisado.

Pânico era a palavra certa para definir o que sentia no momento. Aomine... Só conseguia pensar em Aomine. Como ele estava? O que aconteceu com ele? Ele precisava de Taiga, tinha certeza disso... Não estava lá com ele na pior hora e culpou-se por isso!

– Serei mais clara! – Ela disse suspirando de forma displicente. – Você vai sumir das nossas vidas de uma vez por todas, esquecer meu filho e voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

O ruivo começara a suar frio. Sua garganta começou a fechar. Abriu a boca para falar, mas nada saiu dali, não havia voz.

– Ainda não consigo acreditar nisso... Parece uma piada! – Ela continuou, olhando-o com aquele mesmo sorriso e com a voz calma. – Eu te acolhi como um filho sabia? Lógico que você não significava tanto assim para mim, muito menos agora, mas eu realmente gostava de você. Todo educado, pomposo, prendado, maduro... Uma graça de ser humano. O melhor amigo que meu filho poderia ter!

– Eu... – Começou Kagami, mal acreditando que aquilo estava acontecendo. Ainda estava em choque.

– Não terminei! – Ela o interrompeu com um movimento gracioso de mão. – E do nada eu descubro certas coisas da pior forma possível, através de terceiros. Enfim, você desgraçou minha família, Kagami Taiga... E de brinde acabou com a vida do meu filho. Vou te mostrar...

Ela abriu a bolsa e tirou de dentro dela uma prancheta com alguns papéis timbrados, pareciam documentos.

– Você sabe o que é isso, Kagami Taiga? – Seiko perguntou, aguardando a resposta.

O ruivo não conseguia se mover direito, apenas balançou a cabeça em sinal de negação, olhando fixamente para os papéis. Seu coração batia tão forte que mal conseguia respirar.

– Isso, Taiga, é um acordo legal de união entre famílias. – Ela disse folhando as poucas páginas sem emoção. – Daiki está noivo e a culpa é toda sua.

– O que vocês fizeram? – Perguntou estupefato, sentindo algo romper dentro de seu corpo, seu coração talvez.

– Ele mesmo assinou. – Ela deu de ombros, mostrando os papéis para o ruivo. – Ele aceitou assim, concordou que seria o melhor para todo mundo. Se arrependeu do que fez e resolveu corrigir-se.

– Mentirosa... – Murmurou Taiga, olhando incrédulo para os pedaços de papel na mão da mulher. Não podia ser verdade... Daiki não assinaria aquilo... Mas porque a caligrafia dele estava ali então? Eles prometeram que ficariam juntos para sempre, não é?

– Não me faça rir, Kagami Taiga. – Ela irritou-se de uma forma que assustou o ruivo. – Mais mentirosos do que vocês dois? Quem você pensa que é para entrar na minha casa, mentir olhando nos meus olhos, dizimar o orgulho de nossa família e de quebra estragar o futuro do meu filho?

Kagami não conseguiu dizer nada. Parte daquilo era a simples e dura verdade, acabou sentindo-se destruído, rompido... Estava com medo do que iria acontecer, ou do que já aconteceu!

– Mas uma coisa eu posso te garantir... Você nunca mais verá Aomine Daiki na vida! – Ela estreitou os olhos, sublinhando a última frase. — Ele vai casar muito em breve e você vai embora daqui! Volte para sua mãe... Você mesmo me disse que sente falta dela, então se mande de volta para a América. Suma da vida do meu filho, não existe mais nada aqui para você.

– Não vou desistir dele. – Kagami rebateu com suas últimas forças. Prometera que ficaria com ele para o resto de sua vida, que não o deixaria ir embora tão fácil, iria lutar! – Eu o amo...

– Isso é um problema seu, Taiga, exclusivamente seu! – Ela disse dando um passo a frente. – Esqueça-o! Ele está noivo, ele próprio escolheu isso e assinou sem hesitar quando percebeu a burrada que fez! – Ela sorriu perigosamente e o olhou com o rosto inclinado. – Você me diz que vai lutar pelo meu filho? Que romântico... Adianto-te que é perda de tempo! Não pense que a vida é como um filme ou uma historinha qualquer que você vai lá e simplesmente impede um casamento porque o amor é tudo! Balela Taiga, uma criancice digna de sua idade... Principalmente quando se trata de dois homens! Que vergonha... Não preciso nem te contar sobre a rigorosidade desse país, não é? Aqui não é um puteiro como a América, onde tudo pode, tudo deve e tudo acontece! Aqui a tradição e a família ficam em primeiro lugar, e você sozinho conseguiu destruir ambos em nossa casa.

– Não... – Kagami franziu a testa, confuso. Fizera aquilo? Provavelmente, já não sabia mais... Mas desde quando era errado amar uma pessoa?

– Vocês são apenas duas crianças que não têm idade para decidir nada, são ingênuos! Ouviu bem? – Ela continuou. — Querem fugir para a América? Meu querido, Daiki não pisa fora de casa sem nossa autorização, acha mesmo que vai conseguir tirar passaporte, viajar e estabelecer residência? – Ela sorriu, encarando-o. — Crianças burras! Vão sobreviver de amor? Comer vento? Morar na quadra de basquete? Se você foi abandonado pelo seu pai o problema é todo seu, mas meu filho ainda tem uma família, a qual você desgraçou.

– Não... — O ruivo balançou negativamente a cabeça, confuso, sentindo-se sem chão. — Eu não fiz isso... Eu apenas amo seu filho, e ele me ama... Não podem simplesmente aceitar isso e tornar mais fácil?

– Fácil para quem? — Perguntou Seiko, horrorizada. — Para vocês dois? Doce engano, meu bem! Olhe ao seu redor, repare no lugar onde você vive. Japão, Taiga, Japão. Tradição, família, respeito... E não essa pouca vergonha sem tamanho que vocês iniciaram, e que você implantou em minha família. Se você trouxe isso da sua laia americana pouco me importa, mas isso não tem espaço aqui! Preservamos acima de tudo a família e o respeito, e pelo jeito você nunca teve nenhum dos dois.

– Vocês não se enxergam? — Irritou-se Kagami, perdendo o chão com tudo o que ouvia, não fazia sentido. — Que tipo de família decide as coisas por um filho? Que tipos de pais obrigam um filho a estudar até a exaustão para satisfazer o ego próprio? E casamento arranjado? Que repugnante! Isso não é família, isso é egoísmo puro. Vocês não podem simplesmente deixá-lo viver? Acham que estão fazendo bem a Daiki com essa atitude? Ele estava muito bem comigo, melhorou em tudo e você sabe disso! Ele estava feliz!

O estalo agudo ecoou na sala de sua casa. Acabara de levar um tapa? Olhou boquiaberto para a mulher em sua frente apoiando a mão no próprio rosto dolorido.

– Cuidado com essa língua, seu bastardo! — Gritou Seiko, começando a chorar. — Não ouse jamais em sua vida chegar perto do meu filho novamente, fui clara? Torne as coisas mais fáceis e volte para o seu lugar do outro lado desse planeta. Você nunca mais verá Daiki na vida, nunca mais! Aceite isso e suma! Agora ele tem uma noiva, uma mulher, uma esposa com a qual ele terá herdeiros e manterá a nossa tradição! E você? O que você tem? Um timinho de basquete de escola? Amiguinhos que vão se afastar no próximo ano? O que mais te prende aqui?

Apenas Daiki... Pensou Kagami, sentindo o coração explodir em dor. Não podia fazer nada mesmo? Como iria seguir em frente agora, como poderia viver sua eternidade com o moreno... O ar lhe faltava, assim como os argumentos e as soluções.

– Você não entende, não é? — Ela perguntou deixando as lágrimas simplesmente fluírem. — Continuar aqui só vai piorar as coisas para ele... Daiki está noivo e de alguma forma ou outra aceitou esse destino, você só vai machucá-lo mais se ficar correndo atrás, insistindo em uma coisa que já foi... E sim Taiga, acabou!

– Não... — Murmurou tentando ignorar a verdade que lhe era atirada na cara.

– Acha que já não vi o suficiente hoje? Acha que é fácil ver um filho chorar? E sinceramente você acha mesmo que eu não queria que Daiki fosse livre? — Ela perguntou, empurrando-o contra o sofá, fazendo-o cambalear. — Mas vocês dois não mediram as atitudes e agora estão sofrendo as consequências, vocês simplesmente deixaram acontecer algo imperdoável! Vou odiá-lo até o fim da vida por tornar as coisas desse jeito, Kagami Taiga... Agora eu te peço como mãe, deixe meu filho em paz, o esqueça, deixe-o viver da maneira que ele mesmo escolheu. Ele decidiu passar uma borracha em você no momento que começou a assinar esse documento, entendeu? Passe uma borracha nele também e volte para sua casa! Não o faça sofrer mais...

– NÃO! — Gritou Kagami, sentindo as lágrimas cortarem-lhe a face, não era verdade, não podia ser... — EU O AMO!

– SE VOCÊ AMA MEU FILHO ENTÃO DEIXE-O IR! — Ela rebateu com o mesmo tom de voz. — DEIXE-O LIVRE PARA SEGUIR EM FRENTE SEM MAIS DOR. VÁ EMBORA! TORNE AS COISAS MAIS FÁCEIS PARA ELE!

– Suma daqui! — Foi o que Kagami conseguiu dizer ao sentar-se no sofá, derrotado. Colocou o rosto entre as mãos, sentindo as lágrimas molharem sua pele. O que tinha que fazer agora?

– Antes você vai me dizer que não irá atrás do meu filho novamente! — Ela exclamou, recomposta. – Que vai libertá-lo desse inferno que você colocou em nossa vida.

– Suma... — Ele disse, sentindo a voz falhar em meio aos soluços.

Mesmo estando errada, Kagami sabia que ela estava de alguma forma certa... Daiki desistira! Por algum motivo Daiki desistira, simplesmente assinara aquilo e o deixara para trás... Tinha que ter um motivo para ele ter assinado! O conhecia tão bem, ele não ia abrir mão assim dos dois! Ele disse e provou mais de mil vezes que o amava... Tinham uma aliança! Mas por que então?

Nunca mais o veria? Nunca mais mesmo? Impossível... Tinha o basquete, eles ainda jogariam juntos na Winter Cup, com certeza se encontrariam pela rua, ou até mesmo na internet, tinham amigos em comum... Eles não o prenderiam em casa para sempre! Não podia ser verdade... Não conseguia mais imaginar um mundo sem Aomine Daiki ao seu lado!

– Diga, Kagami Taiga! — Ela insistiu. — Diga que você vai embora daqui e que vai deixar meu filho seguir em frente... Ele já sofreu demais... Você sabe o que é certo agora, não sabe? Deixe-o ir...

Kagami não conseguia, simplesmente não conseguia. Balançou negativamente a cabeça, mesmo sabendo que a decisão “certa” já fora tomada pela parte racional de si, estava preso apenas na emoção e fazia força para não larga-la, não queria deixar ir... Não conseguia...

Mas não podia negar que não tinha saída, e aquilo o matava por dentro! Seiko estava certa, não tinha mais o que fazer em sua posição de simples estudante de ensino médio. Eram jovens, crianças que não tinham autonomia para se sustentar, que não tinham como carregar tantas responsabilidades nas costas, que acabariam quebradas uma hora ou outra... A parte racional falava mais alto e praticamente esmagava suas resistências. E aquilo doía tanto, tanto...

Kagami lembrou-se de sua conversa com Nick em seu quarto ha algum tempo e era exatamente o que estava acontecendo, exatamente o que temia... Chegaram naquele ponto em que ele não conseguia ver adiante. Para ficarem juntos eles precisavam abrir mãos de algumas coisas, mas teria que ser na hora certa... Infelizmente agora não era a hora certa, Kagami sabia disso e Daiki também. Odiava admitir, mas perdera...

Como Seiko disse, a vida não é um filme onde as coisas simplesmente se resolvem com um passe de mágica, passaram por dificuldades até chegarem àquele ponto... O ponto final. Por algum motivo o sonho acabou. Os melhores dias de sua vida escorriam por entre seus dedos assim como suas copiosas e incessáveis lágrimas de pura dor.

Não conseguia aceitar a verdade que fora atirada em sua cara sem mais nem menos, como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira entre os dois. Sabia desde o começo que seria difícil manter aquele relacionamento, mas não cogitava que realmente estavam vivendo uma utopia... Tinha tanta certeza que daria certo no final, prometeram isso um ao outro, lutariam juntos. Com Alex e Nick funcionou tão bem... Porque tudo teve que acabar desse jeito com eles? Não era justo! Simplesmente não era justo!

– Por favor... — Ela praticamente implorou, tocando seus cabelos. Aquele era um pedido de mãe, e não de um monstro. — Deixe-o ir se o ama tanto... Por favor...

Sabia que se fosse atrás do moreno acabaria por machucá-lo mais... Insistir seria pior... O ruivo não queria vê-lo sofrer nunca, preferia morrer de dor ao fazê-lo continuar preso no passado sem conseguir superar...

Ficaram juntos por quatro meses, não foi um período consideravelmente longo, mas foi intenso e forte, os melhores dias de sua vida! Kagami levaria aquilo consigo para onde quer que fosse, assim como levaria o inconformismo! Terminou tão de repente, sem ele esperar... Estava tudo certo pela manhã... E agora isso... O deixaria ir, seria melhor para ele. Não queria, não queria ficar longe, mas sabia que era o certo! Era o melhor para Aomine Daiki, seu eterno Aomine Daiki.

O amor de sua vida fora arrancado de si para sempre! Só restava aceitar!

***

Sexta-Feira, dia 26 de Agosto, 01h17min

~Nick~

A batida da música “Du Hast” preencheu o silêncio da noite.

Sentiu Alex se mover na cama e virar para o lado oposto resmungando, como sempre. Ela odiava ser acordada com suas músicas pesadas, apesar de que Du Hast era agradável... De qualquer forma, seu celular estava tocando continuamente e aquilo era irritante... Ouvir as músicas da banda Rammstein era ótimo, mas não de repente, numa madrugada quando você estava dormindo tranquilamente e teria que acordar no outro dia para trabalhar.

– Saco! Quem é? — Atendeu sonolenta e mal-humorada, fechando os olhos ao ver a iluminação da tela.

– Nick... — Uma voz chorosa o fez despertar na hora e sentar alarmada na cama, chamando a atenção de Alex ao seu lado.

– Quem é? – Perguntou, olhando para a tela tentando identificar o número contra aquela luz forte.

– Acabou... — A voz foi sumindo, substituída pelos soluços contínuos. – Acabou Nick!

– Taiga... Meu anjo... — A ruiva enterrou os dedos nos cabelos ao perceber quem era, conseguiu sentir desespero do irmão. Sabia exatamente do que ele estava falando. Sentiu sua dor.

– Eu vou para casa... — Ele soluçava sem parar. — Avisa a mamãe... Vou voltar...

Notas finais
eu anjos... ♥ A playlist: https://www.youtube.com/watch?v=P2TGrVO4xPE E agora? Gostaria muito que vocês comentassem, uma linha que seja, sobre o que vocês sentiram desse capítulo! Sabe, serei sincera agora... Eu até já tinha percebido antes, mas com toda certeza eu afirmo que sinto os personagens quando escrevo! Eu chorei MUITO enquanto escrevia, inclusive escrevendo essa consideração final... É quase humilhante, mas doeu em mim! Os personagens não são de minha criação, mas eu os amo muito e escrever isso se tornou meu estilo de vida desde quando comecei! Juro que não é dramatismo, mas é MUITO gratificante saber que alguém lê e aprecia e consegue sentir... OBRIGADA MESMO PELO APOIO, para quem comenta, visualiza, favorita... OBRIGADA! Um grande beijo no coração de todo mundo que chegou até aqui! Logo logo sai a continuação ♥ Beijão da Lana-Chan ;***