Incoherence

6 Capítulo 05 - Metamorfose


– O que aconteceu com você? – Perguntou Kitty a Brad, quando ele e Laura entraram pela porta da cabana.

– Nada – Respondeu ele, sorrindo – Foi um mal-entendido.

– E por que a sua roupa está suja de sangue? – Perguntou Justin a Laura.

– Havia um animal morto na floresta – Respondeu ela.

– Mas você disse que não havia animais por aqui.

– Eu me enganei.

– Para onde vamos agora? – Perguntou Chloe.

– Vamos seguir essa trilha mais uma vez, talvez encontremos um desvio em algum lugar – Sugeriu Layla – Ou é isso ou ficamos aqui, esperando a ajuda cair do céu como um milagre.

– Então vamos logo – Disse Mark.

– É melhor alguém ficar, para o caso de o dono aparecer – Sugeriu Laura.

– Mas você disse que ninguém morava aqui, o que aconteceu, esqueceu do que falou ontem à noite? – Perguntou Mark, desconfiado.

– Eu não tinha visto ninguém, mas acho que aquele animal foi caçado por alguém, então possivelmente eu estava errada.

Ele não disse nada em seguida.

– Então você fica – Disse Layla – Nós voltaremos para te buscar.

– Tudo bem – Falou Laura, sentando no sofá.

Os seis saíram da cabana, mergulhando no ar da manhã. Layla estava na frente.

– Nós viemos por ali – Disse ela, apontando para a trilha do lado direito – Então vamos por lá – Concluiu caminhando para o lado contrário, onde havia a placa com “xxxx” escrito.

Quando entraram na trilha, logo viram o fim dela. Uma local com grande incidência de luz.

– Essa é mais curta do a outra – Disse Mark – Olhem! – E apontou para a grande luz no fim.

– Finalmente – Falou Chloe, com um sorriso no rosto.

Eles caminharam, esperançosos, mas à medida que se aproximavam e olhavam o outro lado, percebiam que era o mesmo local. Já conseguiam ver a cabana e o poço.

– Não é possível – Lamentou Justin.

– Ainda não sabemos se é a mesma, a trilha era mais curta, essa deve ser outra cabana.

***

Laura se levantou do sofá. Estava se contorcendo a algo rastejava embaixo de sua pele.

Ela não sentia dor, apenas sorria, esperando a transformação. Uma criatura recém-transformada tinha um tempo até apresentar os sinais da mutação, como a pele pálida, as unhas metálicas e os olhos brilhantes.

Ela olhou para suas mãos e viu que as unhas haviam caído, junto com sangue que saía de seus dedos. No lugar das antigas unhas, estavam crescendo pequenas garras metálicas.

Em seguida, sua pele começou a ficar pálida em uma rapidez impressionante e os olhos começaram a ficar maiores, como se estivessem saltando das órbitas.

.

Laura estalou os dedos, adaptando suas unhas novas. Os olhos continuavam ficando maiores, até que caíram no chão, dando lugar a um buraco oco que logo foi tomado por uma luz brilhante e azulada.

Ela pisou no par de olhos no chão, esmagando-os e fazendo um líquido incolor sair de dentro, junto com um pouco de sangue que havia no nervo óptico, e caminhou até o corredor depois da sala, abriu a janela, saiu e caminhou pelos fundos até a floresta.

***

Quando os seis chegaram à nova cabana, correram para a varanda e verificaram a janela. A sala era exatamente igual, mas Laura não estava lá.

– Não é a mesma cabana – Anunciou Layla, com um sorriso no rosto – Laura não está aqui.

Mark bateu na porta.

– Tem alguém em casa? – Perguntou ele. Ninguém respondeu então ele bateu novamente, sem que ninguém fosse atender novamente.

– Esperem – Disse Layla, olhando as manchas no chão da cabana. Sangue. O sangue de Mark. – Tem sangue no chão.

Mark foi até lá e concluiu. Era a mesma cabana.

– Não pode ser! – Ele bateu com força na parede de madeira ao lado da janela.

– O que foi? – Perguntou Kitty, se aproximando.

– Andamos em círculos novamente.

Brad entrou na cabana e os outros o seguiram.

– Oh meu deus, o que é isso? – Perguntou olhando para uma massa gosmenta branca e vermelha.

Kitty colocou a mão sobre a boca e quase vomitou. Virou o rosto para não ver.

– É um olho! – Exclamou ela, com nojo.

– Oh meu deus – Disse Chloe, olhando de perto.

– Porra, porra, porra!!! – Falou Justin, com medo – Acha que são de algum animal?

Mark se aproximou e observou.

– Não, é humano – Concluiu ele.

Layla correu para os quartos e banheiros, procurando Laura.

– Laura? – Chamou ela, enquanto entrava em cada um dos cômodos. Até mesmo abriu o alçapão do porão e gritou por ela. Sem obter sucesso.

Segundos depois, quando voltou à sala. Kitty estava sentada no sofá, com as mãos no rosto. Chloe estava sentada ao seu lado.

– Nós estamos ferrados – Dizia ela, enquanto chorava.

– Ela não está aqui – Avisou Laura.

– Acha que algum animal a atacou? – Perguntou Mark, observando o movimento do lado de fora pela janela.

– Não sei, mas é melhor não sairmos daqui até ter certeza de que é seguro – Respondeu ela.

O céu estava mais escuro, e a lua já aparecia, dividindo espaço com um pequeno e fraco sol. Por isso ele estranhou. Pegou seu celular e olhou a hora. Eram dez e meia da manhã, mas já parecia fim de tarde.

– Venham ver isso – Avisou ele.

Os outros foram até a janela e ele apontou para o céu.

– Olhem.

– Como isso é possível? – Perguntou Chloe, surpresa – Ainda é de manhã.

– Eu não sei – Respondeu ele – Mas alguma está errada nesse lugar.

– Vai ver o céu está escuro por causa de alguma chuva – Falou Layla.

– E como você explica a lua?

– Por causa do ângulo – Respondeu ela – A lua e o sol não são opostos, então é possível que o planeta seja iluminado pelos dois ao mesmo tempo... Não é tão raro quanto vocês imaginam.

Eles ficaram olhando para o céu, até que ouviram um trovão e em poucos segundos, uma chuva começou a cair.

Mark olhou para Layla e deu um sorriso.

– Viu?

***

Algumas horas depois, Kitty, Chloe e Layla estavam sentadas no sofá maior, enquanto Brad estava deitado no menor e Mark, sentado no tapete. Estava bem escuro por conta do céu nublado e a chuva caía com força lá fora.

– Onde vocês acham que a Laura está? – Perguntou Layla.

– Eu não sei – Respondeu Mark – Mas eu não criaria muitas esperanças em achá-la viva.

– Como você pode falar isso? – Perguntou Chloe.

– Só estou sendo realista, você viu o que encontramos ao chegar.

– Essa chuva não vai parar nunca? – Perguntou Justin.

– Será que nossos pais estão preocupados? – Questionou Mark.

– Acho que não – Respondeu Kitty – Se eles ligam e não conseguem falar, provavelmente irão presumir que estejamos na cabana, porque sabem que é difícil de conseguir sinal.

– Se passarmos todo o fim de semana aqui e não voltarmos pra casa, eles se preocuparão – Falou Mark.

– Mas nós não vamos passar o fim de semana aqui, nós vamos conseguir achar um caminho pra casa quando essa chuva passar.

Enquanto eles conversavam, alguém caminhava pela lama, no meio da chuva, em direção à varanda da cabana onde estavam.

O dono dos dois pés pálidos e sujos subiram os dois degraus da escada e pararam em frente à porta.

Os seis amigos, dentro da cabana, só ouviram quando a pessoa bateu, desesperadamente.

Eles olharam para a porta e Mark se levantou.

– Não vá! – Disse Kitty, em voz baixa, segurando o braço dele.

– Por quê? – Perguntou ele.

– Se Laura realmente foi atacada por alguém, pode ser ele.

– Se ela foi atacada, foi por um animal.

– Quem é? – Perguntou ela, com medo.

A pessoa não respondeu, apenas voltou a bater mais forte na porta. Mark caminhava em direção a janela para tentar enxergar quem era.

– Quem é? – Repetiu Kitty.

Desta vez a pessoa respondeu. Era uma mulher. Estava desesperada e chorando.

– Por favor, eu preciso de ajuda! – Exclamou ela.

Os amigos se entreolharam e Mark foi até a janela. Viu uma mulher totalmente encharcada e suja de lama com um vestido branco e os pés descalços.

Ele correu para abrir a porta e a mulher entrou, fechando e trancando a porta logo em seguida.

– Quem é você? – Perguntou Mark.

– Eu não lembro – Respondeu ela – Por favor, deixem-me ficar aqui!

– É claro, claro – Disse Layla, se levantando e caminhado até ela. Tirou seu casaco e envolveu a mulher, que estava tremendo em uma mistura de medo e frio – Sente-se.

A mulher se sentou no chão, perto da lareira e respirou fundo em silêncio. Os outros estavam esperando ela falar.

– De onde você veio? – Perguntou Chloe.

– Eu estava lá embaixo – Respondeu ela, ainda muito assustada.

– Como assim lá embaixo – Mark não entendeu.

– No laboratório.

– Laboratório? – Perguntou Justin.

– Vocês não fazem ideia do que há lá embaixo... Eles estão por toda parte.

– Eles quem? – Questionou Mark.

– Eu não sei o que são, eles tem olhos brilhantes e pele muito pálida, são horríveis.

– Talvez eles tenham atacado Laura – Disse Layla – Eles podem tê-la levado para esse laboratório.

– Se eles fizeram isso, não tenham esperanças, ela já deve estar morta.

– E como você conseguiu sair? – Perguntou ela.

– Eles não me viram, eu também não sei como consegui, quando achei o poço, eu comecei a subir em desespero e eles não vieram atrás de mim.

– O poço? Aquele lá na frente? – Mark ficou curioso.

– Sim, é a entrada.

– Quantas entradas possuem?

– Apenas uma.

– Se só existe somente um poço para entrar, então existe somente uma cabana – Disse ela – Então nós realmente estivemos andando em círculos – Concluiu Chloe.

– Não tem saída – Disse ela – Eu havia tentado de tudo, mas não tem como sair desse lugar, você anda, anda e anda, mas sempre acaba no mesmo lugar, aqui... Vocês já deveriam ter percebido isso.

Na verdade, eles já tinham percebido há muito tempo, mas não queriam acreditar.

***

Horas depois, quando já estava anoitecendo, eles permaneciam presos ali, com a mulher que se autodenominou Susan.

– Tem um jeito de sair – Disse Justin.

– Como? – Perguntou Kitty.

– Se entrarmos no poço, podemos...

– Entrar no poço?! – Interrompeu Chloe – Você está louco? Se essas coisas estão lá embaixo, seria suicídio descer.

– Chloe, você não está entendendo que nós já fizemos de tudo para sair daqui, não tem como!

– Descer no poço não vai ajudar nada.

– Eu acho que ele tem razão – Disse Mark.

– O que?! Vocês estão loucos.

– Eu não sei – Disse Layla.

– Você prefere ficar aqui? – Perguntou Justin.

– É muito perigoso.

– Nossos pais vão entrar em contato com a polícia e eles irão nos procurar.

– É, Chloe, mas quando isso acontecer já estaremos mortos – Disse ela.

– Então... – Falou Justin – Quem vai entrar?

– Eu vou – Disse Mark.

Brad, que estava calado o tempo todo, apenas observando, percebeu que uma unha de seu dedo havia caído. A transformação estava chegando.

– Eu vou ao banheiro – Disse ele, enquanto suas unhas foram sendo deixadas pelo caminho, mas ninguém percebeu.

Quando chegou ao banheiro, ele trancou a porta e ficou parado, observando suas unhas metálicas saírem de seus dedos. A pele rapidamente ficou pálida e, poucos segundos depois, os dois olhos caíram dentro da pia e sujando a porcelana branca de sangue, dando lugar a dois buracos de uma forte e hipnotizante luz azul.