Incoherence

7 Capítulo 06 - Tremor


A chuva já havia passado, a terra no chão do exterior da cabana havia virado lama misturada às pedras. Susan e os cinco amigos – com exceção de Brad – estavam ao redor do poço, olhando para a escuridão lá embaixo.

Justin pegou uma pedra no chão e jogou lá dentro. Eles escutaram, segundos depois, ela cair na água.

– Tem água lá embaixo? – Perguntou Layla.

– Somente durante o dia – Respondeu Susan – É quando eles ficam lá embaixo, mas quando a noite cai, a água seca e é aí que eles vêm para a superfície.

– Então não dá pra descer certo? – Questionou Kitty.

– Dá, mas terão que nadar para entrar em algum lugar.

– Não dá – Concluiu Mark – O poço é muito fundo para descer sem equipamentos, Chloe tem razão, é muito perigoso.

– Eu desço, então – Disse Justin, colocando uma perna para dentro e sentando na beira do poço.

– Não, Justin, você vai se machucar feio – Falou Chloe – E como vai subir depois?

Ele respondeu nada, apenas olhou para a escuridão e respirou fundo. Ficou parado, até sair e voltar para o chão.

– Não consigo – Falou ele – Não sei onde estava com a cabeça quando pensei nessa ideia, não dá pra descer lá, você estava certa, Chloe.

Neste momento, sentiram um odor de carne podre no ar.

– O que é isso? – Perguntou Kitty, tapando o nariz.

– Que nojo – Disse Chloe, fazendo o mesmo.

– Possivelmente algum animal morto na floresta – Respondeu Layla.

Mark caminhou até a entrada da floresta, onde o odor era mais forte e ficou parado.

– Mark, o que está fazendo? – Perguntou Kitty.

– O vento – Ele disse sozinho, com um leve sorriso no rosto – Eu já sei para onde vamos – Concluiu ele, virando-se.

– O que? Como assim? – Layla questionou.

– Nós iríamos tentar descer no poço, mas podemos continuar andando – Disse ele – É só seguir o vento.

– O vento?

– Sim, geralmente a corrente de ar vem de alguma área aberta.

– É verdade – Disse Kitty.

– Esse fedor foi trazido pelo vento, e veio de lá – Falou ele, apontando para a floresta atrás de si.

Susan começou a rir.

– Qualquer direção que você siga, vai parar sempre aqui, ainda não percebeu isso?

– Não temos mais muita esperança, então vamos tentar novamente.

– Eu vou ficar aqui, esperando por vocês – Disse ela.

– Ela tem razão, Mark – Disse Justin – Não adianta andar, já fizemos isso e você lembra onde paramos? Aqui.

– Pode ser diferente agora, não tentamos por aqui.

– Eu vou ficar – Concluiu ele, caminhando até a varanda.

– Então fique – Falou Mark, entrando na floresta.

– Justin, vamos – Disse Layla.

– Não, eu vou esperar, vocês voltarão.

Ela suspirou e também entrou na floresta, acompanhada de Chloe e Kitty.

Susan foi até a varanda e os dois entraram na cabana.

***

O cheiro ficava mais forte a cada passo que davam, fazendo Chloe e Layla taparem os narizes. As plantas pareciam ficar mais altas também, às vezes enrolando em seus pés.

– Esse fedor é insuportável – Disse Chloe, com uma voz anasalada.

Neste momento, Mark parou e olhou algo a alguns metros dele. Kitty, Chloe e Layla também.

– É a trilha? – Perguntou Kitty.

– Eu acho que sim – Respondeu ele, sorrindo.

– Mas pela lógica deste lugar, sairíamos na cabana – Falou Chloe.

– Pois é, acho que conseguimos – Disse ele.

– Eu não sei sobre isso, acho que é a mesma trilha que leva à cabana, olhem – Lamentou Layla, apontando para uma área de grande luz ao nordeste, vários metros depois da trilha.

– Não pode ser, aquilo ali é longe, a trilha está bem aqui – Disse Mark – Acho que finalmente encontramos.

Quando estavam quase entrando na trilha, foram pegos de surpresa por um forte tremor.

Chloe tropeçou e caiu no chão, sobre as plantas. Os outros se seguraram nas árvores e se abaixaram. Havia folhas e galhos caindo. O tremor era realmente forte.

– Vocês estão ouvindo isso? – Perguntou Layla, prestando atenção em algo. Era como duas coisas metálicas entrando em atrito vários metros abaixo da superfície, produzindo um som estridente.

– Parece o rangido de uma porta pesada de metal – Disse Mark – Mas está longe.

***

Na cabana, Justin e Susan estavam sentados no sofá, enquanto sentiam e escutavam o tremor.

– O que é isso? – Perguntou ele, assustado.

– Eu não sei, nunca aconteceu antes – Respondeu ela, igualmente aterrorizada.

As janelas explodiram em cacos de vidro e um relógio parado que havia na parede caiu no chão. A lâmpada incandescente também quebrou-se, fazendo cair vários pedaços de vidro no sofá, perto de onde Justin estava.

– Droga! – Disse ele, se afastando.

– Se cortou? – Perguntou ela.

– Não.

***

Quando o tremor parou, Kitty, Layla, Chloe e Mark continuaram a andar, sem perceber que do outro lado da grossa árvore por onde passaram estava o motivo do odor de carne podre. Os corpos de Laura e Brad, os verdadeiros.

***

Na cabana, Justin e Susan ficaram em silêncio por algum tempo, se recuperando do susto.

– Onde está o seu amigo? Ele foi ao banheiro há muito tempo.

Justin se levantou e foi até o banheiro com pressa.

Ele bateu na porta e chamou pelo amigo.

– Brad?

Bateu novamente e tornou a perguntar por ele.

– Brad, você está aí?

Com medo de que ele estivesse desacordado, Justin abriu a porta devagar e deparou-se com o banheiro vazio.

Quando encontrou o par de olhos na pia, levou a mão à boca.

– Oh meu deus.

Se aproximou deles e olhou o sangue ao redor da pia branca. Não tinha certeza se era de Brad.

Quando ouviu a porta do banheiro batendo, ele olhou pelo espelho e viu Brad, que antes estava escondido atrás dela. Estava extremamente pálido. Tinha as aterrorizantes luzes luminosos no lugar de olhos e estava sorrindo de forma macabra.

– Oh meu deus – Disse ele, assustado.

Justin estava totalmente aterrorizado. Não sabia o que pensar e nem mesmo se moveu.

Quando a coisa começou a se aproximar, ele correu para a porta, mas ela o parou, cortando sua garganta com as garras.

Justin segurou o pescoço com as mãos, enquanto ele sangrava sem parar. Tossiu sangue e se ajoelhou, com uma expressão de dor no rosto. Não conseguia gritar, pois quando abria sua boca, só saía sangue. Olhou para a Brad, lágrimas caíam de seu rosto, mas aquela coisa – que não era seu amigo, ele sabia – não parecia se sentir incomodado com o sofrimento.

Justin fechou os olhos, esperando pelo pior, encostado à porta. Brad levantou o pé e chutou o rosto dele com toda a força, fazendo o cair para o lado, em cima do sangue que havia cuspido com o golpe.

A coisa segurou os pés dele e puxou para o centro do banheiro. Em seguida se sentou sobre sua barriga e segurou o pescoço do garoto. Apertou com mais força, fazendo as unhas metálicas entrarem fundo na garganta dele, rasgando sua carne.

Quando Justin finalmente fechou os olhos, ele se levantou. O sangue fluía dos cortes no pescoço do garoto, espalhando-se pela cerâmica branca do chão do banheiro.

Ele caminhou até a pia e lavou suas mãos, deixando o sangue de Justin descer pelo ralo da pia, junto com alguns pedaços de carne presos em suas unhas.

Susan entrou no banheiro e deparou-se com a cena grotesca. Ficou em choque.

Pelo espelho, Brad a observava.

– Estávamos procurando por você – Disse ele, sorrindo.

Ela olhou mais uma vez o cadáver de Justin, de cuja boca saíam vermes grandes e grossos, como lesmas, e correu.

Atravessou o corredor e depois a sala, saindo pela porta da frente e correndo para a floresta, com medo. Quando olhou para trás, viu Brad e Justin em pé na varanda. Os dois a observavam, Brad com as luzes azuis no lugar de olhos e Justin com olhos normais, foi então que ela percebeu. Brad já deveria estar morto quando ela encontrou o grupo. Por todo o tempo, nunca havia sido realmente ele.

***

Chloe, Mark, Kitty e Layla haviam finalmente saído da floresta. Estavam na trilha, mas o que viam os deixou confusos. A trilha terminava na própria floresta. O caminho de terra se estendia por alguns metros e em seguida havia a floresta novamente. De ambos os lados.

Aquela não era nada mais que uma faixa de terra no meio da floresta.

– Não é a trilha – Concluiu Layla.

– Mas que merda! – Exclamou Justin.

– Para onde vamos agora? – Perguntou Kitty.

– É melhor voltarmos à cabana – Respondeu Chloe.

– Vamos – Disse Layla.

Quando eles davam meia volta para seguir o mesmo caminho, ouviram alguém gritando por socorro.

Olharam para trás e viram uma mulher correndo na floresta do outro lado.

– É a Susan – Disse Mark.

Eles voltaram à “trilha” e ela saiu da floresta, chorando, assustada. Tropeçou e quase caiu, mas Mark a segurou.

– O que houve? – Perguntou ele.

– Seu amigo está morto – Respondeu ela, extremamente aterrorizada.

– O que? – Perguntou Kitty.

– Justin, está morto, o outro o matou.

Chloe levou a mão à boca, em choque, e segundos depois, as lágrimas começaram a cair do seu rosto.

Todos ficaram em silêncio. Mark e Layla se olharam, perguntando-se se era verdade.

– Não pode ser verdade – Disse Kitty, confusa e assustada – Você tem certeza?

– Eu os vi, Brad estava com luzes azuis nos olhos... Não era ele.

– Luzes azuis? – Perguntou Layla.

– As criaturas estão copiando as vítimas – Disse ela, ignorando a pergunta.

– Do que você está falando? – Perguntou Mark.

– Elas matam as pessoas e depois se transformam nela, por isso os olhos azuis – Susan respondeu, parecendo uma louca.

– É melhor voltarmos à cabana – Disse Layla.

– Não podemos voltar – Falou ela – Eles estão lá nos esperando.

Mark ignorou e caminhou até a floresta. As garotas o seguiram.

– Eu não vou – Disse Susan, caminhando para a direção contrário – Eu não vou voltar para lá... E se vocês, forem, vão morrer.

Ela saiu correndo pela trilha até sumir na floresta ao lado direito deles.

– Esperem – Disse Kitty – Se ela estava na cabana, como pôde vir dali? – E apontou para a floresta à sua frente – Nós viemos pelo outro lado.

– Talvez ela não estivesse lá – Falou Mark – Talvez ela saiba de alguma coisa e que está nos testando.

– Não, não – Disse Chloe – Talvez sairemos na cabana se formos por aqui também... É o que sempre acontece, esqueceram? Saímos por um lado e voltamos pelo outro, mas sempre no mesmo lugar.

– Então o que é esse caminho? – Perguntou Layla – Ele não estava aqui da última vez.

– Talvez tenhamos passado por outro lado, sei lá, mas tenho quase certeza de que chegaremos à cabana, não importa qual lado seguirmos.

– Então vamos por aqui – Concluiu Mark, entrando na floresta.