Incoherence

5 Capítulo 04 - O Homem Duplicado


Mais tarde, a noite já havia chegado e todos os sete estavam sentados nos sofás da sala, incluindo a mulher do porão. Ela contava, com lágrimas nos olhos, como havia parado ali.

– Eu estava na estrada dirigindo em direção à Verona, eu e minha filha – Dizia ela, com o olhar focado na lareira, enquanto lembrava da noite terrível – Já era noite e eu estava cansada... Emily já estava dormindo no banco de trás. O acidente aconteceu quando eu os vi na estrada, as criaturas da floresta.

– Do que você se lembra? – Perguntou Justin.

– Eu bati contra uma árvore e apaguei, quando acordamos, eu e minha filha, estávamos nesta cabana – Ela respondeu – Eu fiquei desesperada e tentei buscar ajuda, mas parecia que eu estava andando em círculos.

– A mesma coisa aconteceu com a gente – Disse Chloe.

– Eu sei.

– Como assim, sabe? – Perguntou Mark, curioso com a resposta da mulher.

– Aconteceu com os outros, acontecem com todos que vem parar aqui, ninguém pode sair desse lugar.

– Todos? Existem mais pessoas?

Ela deu uma risada nervosa, uma mistura de medo e loucura.

– É claro que existem, mas elas já foram eliminadas há muito tempo – Disse Laura, desfazendo o sorriso e adotando uma expressão de horror e tristeza – Inclusive a minha filha – Ela abaixou a cabeça, esfregando as mãos suadas na calça jeans.

– Eliminadas, tipo... Mortas? – Perguntou Kitty, temendo a resposta.

– Sim.

– Como saímos desse lugar? – Perguntou Justin.

– Como eu disse antes, é impossível sair daqui se eles não quiserem.

– Eu não acredito! – Exclamou Mark, levantando do sofá – Vocês estão acreditando?! Ela obviamente é louca!

– Sou? – Perguntou Laura – Então saia, procure uma saída e espere anoitecer, você vai encontrá-los lá.

– Mark, calma – Falou Chloe.

– Então estamos presos aqui? – Perguntou Layla.

– A não ser que eles queiram, é improvável.

– Há quanto tempo você está aqui? – Questionou Kitty.

– Eu não lembro direito, talvez há alguns dias.

– E os donos da casa? Não apareceram?

– Ninguém mora aqui, não há nada nesse lugar.

– Você sabe onde podemos achar um telefone? – Perguntou Chloe.

– Não adianta, não há sinal, sem telefone, sem internet, nada.

– Então nós vamos passar a noite aqui? – Perguntou Justin.

– É o único jeito – Respondeu Layla, lamentando – Afinal, já é noite e nós não temos nem ideia de como ir pra casa.

– Não se preocupem – Falou Brad – Amanhã teremos mais tempo para sair daqui e não ficaremos andando em círculos.

– Você sabe que não andaram em círculos – Disse Laura, dando um sorriso macabro – Sabem que era impossível, não importa para onde você vá, sempre irá parar aqui nessa cabana, não tem saída.

Ele a olhou com desconfiança e se levantou do sofá.

– Eu vou pegar o colchão do quarto – Avisou.

– Tem certeza de que quer dormir nele? Está imundo – Disse Layla.

– Eu não me importo.

***

Algumas horas depois, tarde da noite. Todos estavam dormindo, Chloe e Layla nos sofás, Kitty e Brad no tapete e Mark havia escolhido dormir no chão mesmo, por estava atrás de um dos sofás. Tinha tirado a camisa e a usava como um travesseiro. Seu casaco ainda permanecia enrolado no braço.

Apenas o fogo da lareira acesa iluminava a sala da cabana. Laura, ao contrário dos outros, estava acordada, em pé, olhando pela janela para a floresta levemente iluminada pela lua cheia. Lembrava de sua filha, do sorriso dela ao saber que estavam indo visitar sua avó. De repente se flagrou sorrindo, olhando para a lua. Lembrou também dos gritos de sua filha quando perdeu o controle do carro. Mas essa não era a última lembrança que tinha dela, pois a havia visto ser levada pelas criaturas. Uma criança tão pequena, vítimas de seres tão cruéis.

Uma lágrima desceu pelo seu rosto sujo e ela passou o dedo.

Laura decidiu que precisava de ar fresco, então abriu a porta da cabana e saiu para a varanda, sentando na sacada de madeira, sem se preocupar com anda. Poderia ser atacada a qualquer instante ali, mas já não temia a morte. Eles havia tirado tudo o que ela amava, só restava-lhe a vida. Uma vida miserável.

Fechou os olhos e respirou o ar frio da noite, mas os abriu novamente quando ouviu um barulho estranho. De folhas se mexendo. Era na floresta.

Olhou para a imensidão à sua frente e apertou os olhos. Um punhado de plantas altas estavam se mexendo. As folhas das árvores mais altas também. Então ela percebeu várias silhuetas de criaturas descendo as árvores com rapidez. Juntaram-se às que já estavam no chão e ficaram observando sua presa de longe. Laura sabia que eram eles, por isso ficou com medo, imóvel no seu lugar. Não sabia se corria para se proteger ou se deixaria que eles a matassem, dando o golpe de misericórdia.

Ela estranharia o fato dos olhos deles não brilharem, pois todos tinham intensas fontes de luz brilhantes no lugar de olhos, mas já havia visto alguns assim, totalmente normais, como humanos. Além disso, podia ouvir o som que eles emitiam, como longos e altos sussurros. No entanto, não sussurravam palavras, era apenas como o ar saindo de duas bocas. Eram eles, não havia dúvida.

Laura respirou fundo e se levantou da sacada e se preparou para correr. Ao mesmo tempo, as criaturas começavam a sair de trás das árvores. Todas elas vestindo um manto preto, preparadas para atacar a vítima.

***

Em poucas horas, o sol finalmente apareceu, iluminando o interior da cabana. Todos ainda estavam dormindo, com exceção de Brad. Ele estava deitado no chão e olhando para o teto. Quando conseguiu forças, se levantou e vestiu sua camisa.

Olhou ao redor, viu que todos ainda estavam dormindo, com exceção de Laura, que não estava lá.

Brad abriu a porta e saiu da cabana. O clima estava agradável, um pouco frio, como ele gostava.

Desceu os dois degraus da escada da varanda e caminhou pelo chão de terra e folhas até o poço de pedra. Ao chegar lá, olhou para baixo e não viu nada. Pegou uma pedra no chão e jogou lá dentro. Ficou parado, esperando ouvir o barulho de água, mas não foi isso o que escutou. A pedra havia batido no cimento do fundo poço. Estava vazio.

Ele colocou as mãos no bolso da calça e seus olhos correram desde a cabana até a trilha do outro lado. Não conseguia achar um jeito de sair. Ambas as trilhas levavam ao mesmo lugar, como era possível? Ele não sabia.

À sua frente, não muito longe, algo lhe chamou atenção. Um sapato jogado no chão, um pouco escondido em algumas plantas.

Brad se aproximou e notou que havia sangue neles, assim como nas plantas ali perto. Ficou assustado.

Ele abriu caminho entre as plantas altas e começou a caminhar em linha reta, com medo do que poderia encontrar. A alguns metros, viu dois pés ensanguentados no chão, um deles com um sapato. O resto do corpo estava escondido atrás da árvore.

Brad caminhou lentamente, com seu coração batendo forte. Quando olhou atrás da árvore, sentiu náusea. A cena era grotesca. Havia uma mulher de cabelos castanhos deitada no chão, com a barriga virada para baixo. As costas estavam dilaceradas, vários cortes profundos feitos por algum tipo de animal, além de muito sangue. Em uma das partes da costas dava para enxergar algo branco. Ossos. A coluna vertebral. Não conseguia ver o rosto, pois a mulher estava com ele virado para o chão, mas pelos cabelos e as roupas, ele identificou. Era Laura.

Ele virou o rosto e cuspiu no chão, mas não vomitou.

Brad saiu correndo de volta, precisava avisar aos outros que eles não estavam seguros naquela floresta. A imagem do cadáver brutalmente cortado não saía de sua cabeça.

Quando saiu da floresta, correu até a varanda e se preparou para gritar o que havia ocorrido, mas ficou sem palavras quando viu Laura sentada no sofá, com um sorriso no rosto. Chloe, Kitty, Justin e Layla estavam lá também.

– Brad, o que aconteceu? – Perguntou Layla, vendo o quão suado e assustado ele estava.

– O que? N-não – Disse ele confuso.

– É, o que aconteceu? – Questionou Laura, ainda com um calmo sorriso.

– Não pode ser.

Ele caminhou rapidamente de volta para a floresta a fim de verificar o corpo da mulher. Se não era Laura, quem era?

Brad quase tropeçou em uma raiz exposta de uma árvore, mas continuou andando.

Ao chegar lá, o corpo ainda permanecia jogado no chão. Relutando, ele segurou o braço da mulher, que já estava frio, e a puxou. Quando virou-a, a surpresa foi ainda maior. Ele se afastou, confuso. Não conseguia acreditar. Realmente era Laura. Estava com os olhos abertos, encarando o nada. Sua pele pálida e cheia de sangue. Era ela.

Como aquela poderia ser ela se Laura estava na cabana neste exato momento.

Brad se virou, preparando-se para ir embora, mas encontrou Laura parada, olhando para ele com um sorriso desta vez macabro.

Ele não teve tempo de dizer nada, só de ver o machado na mão direita dela. Antes que pudesse reagir, ela o golpeou na cabeça com o machado, que segurava com sua mão ensanguentada e cheia de garras metálicas, partindo seu crânio e matando-o instantaneamente. Depois que o corpo de Brad caiu no chão, Laura começou a bater no rosto dele com o lado contrário do machado, fazendo sangue espirrar a cada golpe. Quebrou os ossos, dentes, esmagou os olhos e no fim, o rosto de Brad era apenas uma massa irreconhecível de ossos, músculos e sangue.

Laura jogou o machado no chão.

De dentro do orifício que parecia ser a boca, saíram vários grandes vermes. Pretos, grossos e gosmentos.

Os vermes rastejaram para fora do corpo e se fundiram em uma massa só, a qual começou a tomar a forma de um corpo humano se expandindo e formando uma silhueta de pele, ossos e carne. Os cabelos cresceram, o crânio tomou a forma de um crânio humano e os olhos logo apareceram. Quando a boca foi aberta, Laura pôde ver os dentes e a língua já formados. As unhas se formaram nos dedos, os pelos cresceram em todo o corpo, até mesmo o órgão genital se desenvolveu em menos de cinco segundos. Quando terminou, a coisa estava exatamente igual a Brad, uma cópia perfeita. No entanto, ainda totalmente sem roupas.

Em poucos segundos, a camisa preta e a calça jeans se formaram como mágica, brotando dos poros da pele e cobrindo o corpo. Calça, camisa, cueca e sapato.

Laura abriu um sorriso ao vê-lo pronto. Estava exatamente igual a Brad.

– Vamos voltar, eles devem estar preocupados – Disse ela, sorrindo maliciosamente.

A coisa olhou para o verdadeiro Brad jogado no chão, um cadáver desfigurado, e sorriu.

– Devem mesmo.