In my place

14 If you go, if you go


Era uma van preta e estava parada na rua atrás da casa de Maria. Dentro do carro, quatro homens totalmente vestidos de preto com capuzes esperavam as luzes da casa da família da tia dela se apagarem para poder entrar. O que fariam? Ninguém além deles poderia sequer cogitar.

Já havia se passado mais de mês da conversa de Alexandra com Maria e desde então as duas não se falavam mais. Alexandra a considerava uma ingrata, afinal, aparentemente só queria o bem da sobrinha. Aparentemente. Maria estava com raiva da tia por estar usando seu complexo de culpa na morte de Ana Karenina para tentar chantageá-la. No fundo, o silêncio foi a proteção de Maria contra a dor de lembrar-se da morte de Ana.

A família de Natasha dormia cedo. Assim, no momento que a luz do quarto de Natasha se apaga os quatro homens esperam por quase uma hora antes de 3 deles saírem da van em direção a casa. Saíam em silêncio, entravam rapidamente na casa sem fazer um mísero ruído. Não acendiam nenhuma luz, mas mexiam nos interruptores, nos móveis... Colocavam escutas em diversos pontos, assim como instalavam mini câmeras e grampearam o telefone.

As escutas e as mini câmeras eram postas em praticamente todos os cômodos da casa e estranharam o fato de saberem ter duas adolescentes na casa, mas apenas uma delas ocupava um quarto no segundo andar. E o quarto de hóspedes no térreo estava desocupado. Haviam visto Maria entrar um pouco mais tarde com vários livros nas mãos, mas onde ela estava? Qual comodo ela dormia? Por causa disso, resolvem instalar também escutas e câmeras no sótão e porão.

E é quando entram no sótão que descobrem as mudanças feitas lá por Maria. A loira havia continuado a obra do sótão e o havia transformado numa espécie de mini apartamento: havia uma sala de estar, um quarto e um pequeno banheiro, assim como uma saleta de entrada. Começam silenciosamente a espalhar as mini câmeras e escutas por ali também. Mas estavam demorando muito para isso e, quando o último homem termina de colocar a última escuta e ia saindo do quarto de Maria, o despertador toca. Eram 4:30 da manhã.

O homem de preto sai apressado, murmurando pelo rádio que era hora de se retirarem, que uma das pessoas da casa tinha acordado. Diabos, a garota acordava cedo daquele jeito todos os dias?

Maria levanta-se e troca de roupa, colocando uma calça de moletom, um top e uma blusa. Calça os tênis e prende o cabelo numa trança longa. Encaminha-se até o lavabo e escova os dentes, lava o rosto e passa um creme clarinho na pele sardenta. Passa um batom clarinho nos lábios.

Arruma a cama rapidamente esticando o lençol e ajeitando as cobertas e o edredom por cima. O edredom tinha uma delicada estampa de flores de cerejeira em um tom claro de rosa. Coloca algumas almofadas com a mesma estampa em cima, põe o relógio de pulso e desce para a cozinha. Na van, os homens de preto acompanhavam a rotina da loira. Ela batia um suco com verdura verde escura, limão, gengibre, água e açúcar. Toma-o e sai pela porta da cozinha caminhando até a frente da casa, onde alonga o corpo, faz alguns polichinelos para aquecer o corpo e começa a correr na calçada, começando seu treino do dia. Volta para a casa aproximadamente uma hora e meia depois, bastante suada. Para em frente à casa novamente e alonga o corpo, entrando em seguida e seguindo diretamente para o banheiro, onde toma um banho. Se veste e seca o cabelo, voltando para a cozinha, onde prepara o café da manhã: leite de soja com cereal matinal e morangos picados. Come animada, cantarolando alguma coisa. Quando termina, os demais membros da casa chegam na cozinha enquanto ela lavava uma maçã e uma pera para levar de lanche no colégio.

Os homens acompanhavam a rotina da casa através das transmissões das mini câmeras e das escutas e observando pela casa que alugaram do outro lado da rua. Era uma questão de tempo até se aproximarem daquela família e desmascararem todos... e assim que provassem que eram espiões, deportariam todos de volta para a Rússia. Esse era o trabalho deles. E estavam sedentos para pegar o próximo espião russo que estivesse em solo americano.

E começam a ouvir as primeiras conversas duvidosas e que incriminavam Alexandra e Alexei quase um mês após começarem a se aproximar. Já era março e era entra Alexandra, o marido Alexei e Maria, que havia chegado mais cedo da aula em casa depois que a professora faltou por ter passado mal.

— Nos evitar não vai impedir que aconteça, Maria. — fala Alexei

— Qual a parte do "não" vocês estão com dificuldade em assimilar? É sério, eu realmente gostaria de entender qual a dificuldade de entender esse "não". São apenas 3 letras, até uma criança com retardo mental conseguiria entender. — fala Maria

— Nós já escolhemos você. Quer que falemos com a Central? — fala Alexandra

— Acha que, se me recrutarem, meu pai não vai descobrir? Eu não vou participar disso. Se virem, recrutem outra pessoa. Não estou inclinada a aceitar o convite. — fala Maria

A loira virava as costas para a tia, mas Alexei a puxa pelo braço.

— Me solta! Eu já falei, meu negócio aqui é viver pacificamente. Eles não são meus inimigos. — fala Maria

— Eles são inimigos da mãe Rússia. São inimigos do comunismo! — fala Alexei

— Problema do comunismo, ele já é grandinho o suficiente para resolver seus problemas sozinho. Vim pra cá para estudar, fazer minha faculdade, talvez casa e tornar as casas das pessoas mais bonitas e funcionais. Comunismo e capitalismo não entram nos meus interesses. — fala Maria

— Não aceitamos um não. Somos responsáveis por você. — fala Alexandra

— O meu responsável é meu pai, não vocês. A minha guarda é dele. — fala a Maria conseguindo soltar o braço

— Acidentes acontecem. — fala Alexandra

— Ele é seu irmão. — fala Maria

— Posso ignorar esse detalhe. — fala Alexandra

Maria pega um vaso com flores que estava em cima de um aparador e arremessa em cheio na cara da tia. Alexei tenta segurá-la, mas a loira estava transtornada.

— Traidora do próprio sangue! Nenhuma pessoa que se preze, que tenha um mínimo de dignidade na cara, planeja matar o próprio irmão. Tenho vergonha de ter o mesmo sangue que você! Você envergonha nossos antepassados! — grita Maria

O vaso havia aberto um corte profundo na sobrancelha de Alexandra. Maria dá um pisão no pé de Alexei para tentar se soltar, mas o homem torce o braço dela.

— Quebre meu braço e a escola mandará a polícia aqui para averiguar. Querem o conselho tutelar acampado aqui na sala de vocês? — pergunta a loira tentando se soltar

Alexei acaba por soltá-la.

— Não quero ouvir uma palavra saindo da boca de vocês. Vocês não são minha família, são uma vergonha. — fala Maria pegando a mochila e subindo para o sótão

Na van, há poucos metros dali, quatro homens de preto observavam as gravações boquiabertos.

— Eles estão tentando recrutá-la, mas ela resiste. — fala um deles, de cabelo castanho e traços fortes

— Precisamos pesquisar o histórico dela. Talvez algo que impeça esse recrutamento. Temos o suficiente para incriminar Alexandra? — pergunta um loiro

— Não. Eles são espiões, isso pode ser ceninha para nos despistar. Vamos observar mais um pouco. Quero que interroguem os vizinhos a respeito deles. — fala o de cabelo castanho

— A sobrinha fez o sótão de um dos vizinhos. Reforma completa, o transformou um salão de 4 ambientes... por 15 mil. Talvez possamos nos aproximar dela colocando-a para reformar algo na casa alugada. — fala o loiro

— Faça isso. Aproxime-se dela amanhã pedindo para reformar um dos cômodos. — fala o de cabelo castanho

Os outros dois permanecem em silêncio.