In-Sanidade
14 Vinte e nove horas
~ Alguns anos atrás.
– Por que você fez isso? – perguntei. Para mim, aquela situação não fazia sentido algum, não quando pensava nos últimos anos.
– Isso não pode ser uma surpresa para você – Letícia disse, com um tom triste. Não era apenas o tom da voz que era triste, a situação inteira era triste, ou deveria ser. Nós estávamos namorando há anos e tudo iria acabar naquele momento por uma traição. Era extremamente difícil acreditar que ela foi capaz de fazer aquilo.
Aquilo me fazia lembrar o dia em que a vi pela primeira vez no início das aulas do ensino médio. Eu estava começando o primeiro ano e ela também, os dois calouros naquela escola, ou “bixos” – a forma como os alunos do primeiro ano eram chamados.
Eu entrei na minha sala e meus olhos foram jogados diretamente para a garota dos cabelos loiros escuros, com óculos que cobriam sua face inteira e bochechas rosadas de vergonha quando percebeu que eu a estava encarando.
Naquele momento eu sabia que ela era a garota ideal para mim.
Aquela menina cresceu — agora com 1.70m — e seu corpo se desenvolveu, com vinte anos ela já tinha um corpo de mulher exuberante. A cor do cabelo mudara também, agora castanho, destacando seus grandes olhos cor de mel e dando um contraste a pele branca perfeita, sem marcas ou cicatrizes.
Ela era linda e eu era invejado e xingado. O que não me surpreendia. A beleza dela era única, a minha era ordinária. No ensino médio eu era um garoto magro, cabelos escuros e lisos, sempre curtos. Minha única qualidade que deveria chamar atenção eram meus olhos azuis escuros, o que não era lá chamativo, porque a cor azul era revelada apenas quando as pessoas estavam próximas. Mas isso não era uma preocupação, era exatamente o que eu queria, não chamar atenção. Tanto que eu permanecia aquele garoto até hoje, com algumas mudanças apenas, como a altura e o ganho de músculos, sendo o segundo resultado da minha jornada em academias.
– Isso é uma surpresa – e era, considerando que nós éramos o casal perfeito tanto para as pessoas fora do relacionamento quando para nós. Mas eu não podia esconder que já sabia que aquilo aconteceria um dia.
– Valt, eu te amo desde o ensino médio, desde o primeiro momento que te vi. Sou completamente louca por você – lágrimas escorriam pelo seu rosto, enquanto ela proferia aquelas palavras. – Mas eu percebi que esse sentimento não é reciproco, pelo menos não no mesmo nível.
Ela esperava que eu dissesse o contrário, mas ela estava certa.
Eu era “quebrado”.
Simplesmente não conseguia amar ninguém de verdade, pelo menos não como eles queriam. Alguns amigos diziam que o amor que eu sentia era o “gostar” das pessoas “normais”. Eles diziam que quando uma pessoa ama outra, aquela outra pessoa torna-se prioridade a ponto de planejar o futuro contando com a presença daquela pessoa.
Talvez as pessoas amassem demais, aquela ideia de total entrega era sem sentido para mim.
– Mas eu sinto o mesmo por você – menti. Eu não conseguia sentir o mesmo e sabia que ela não entenderia, mas eu precisava dela.
– Você é um péssimo mentiroso, V. – ela disse, forçando um sorriso. – Independentemente disso, não acho que esse problema justifique minha traição. Eu não estava feliz por esse motivo? Sim, mas nunca conversei com você para resolver, ao invés disso procurei salvação nos braços de outro. Me desculpe.
A traição. Se ela não tivesse trazido o assunto a tona novamente eu teria mantido o foco em meus defeitos.
Agora que eu me recordava da traição, não podia perdoá-la.
– Não tem problema – eu disse, sem emoção. – Pode pegar suas coisas e sair da minha casa.
Aquele não era o jeito que ela esperava que aqueles anos de namoro acabassem, mas eu não iria aceitar a traição.
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~ Dias atuais
– Quem eu preciso matar? – perguntei ao Hei que estava ao meu lado, mas mantive os olhos fixados na Letícia.
– Todos, talvez – respondeu Kevin.
Eu o ignorei.
– Então? – olhei para Hei.
– Quem você quiser e quantos você quiser – Hei respondeu, sem emoção.
– Antes, me responde uma coisa. Por que preciso fazer isso? – Aquilo não fazia sentido para mim. Não imaginava quem iria querer pessoas para um grupo que têm sangue frio para matar familiares ou pessoas próximas.
– Mart, nós lidamos com a Insanity. O nome não é simplesmente figurativo, quem está lá dentro é realmente insano. Aquele lugar é praticamente o berço da insanidade nesse planeta. Você realmente acha que conseguirá lidar com esse tipo de pessoa sem estar no nível de insanidade deles? – aquela resposta era retórica, continuei ouvindo suas palavras sem dizer nada. – Eu tenho provas que isso não é possível.
Em partes, aquela justificativa soava razoável.
– Isso – ele apontou para o local onde os quatro estavam – é uma das coisas que vai te deixar apto a enfrentar a Insanity.
– Mart, não faça isso! – Letícia gritou. Em seguida o cano de uma arma encostou em sua bochecha esquerda.
– Silêncio! – Kevin disse e sinalizou algo para o homem que segurava a arma, que logo a retirou da face da minha ex-namorada.
– Pai, mãe, tio Ben – me aproximei dos três. – Vocês estão bem? — Os três não disseram nada, eles estavam aterrorizados com a situação e provavelmente foram ameaçados de morte se falassem algo. – Deixe eles falaram, eu preciso ouvir cada um deles.
Hei apenas olhou para Kevin.
– Tudo bem, podem falar.
– Bem?! Olhe nossa situação! – esse era meu pai, cheio de ódio nos olhos. Ele me culpava por aquilo tudo. – Lógico que não estamos bem. Tire-nos daqui.
– Você está bem, meu filho? – minha mãe sempre fora a mais calma em casa, sua calma costumava vir acompanhada daquelas frases maternas.
– Estou bem, mãe. – respondi.
Meu tio Ben não disse nada. Seus olhos estavam parados na arma dos integrantes do grupo. Ele sabia o que iria acontecer.
– Me dê a arma Hei.
Hei estendeu a mão em minha direção. Olhei e encontrei uma arma preta, lembrando as armas da Insanity. Peguei o objeto com a minha mão direita e o observei por alguns segundos. Virei meu corpo em direção do líder dos Libertados e encostei a arma em sua testa. Ele não reagiu.
– Eu poderia te matar agora – eu disse, mantendo a frieza na minha voz.
– E você iria morrer logo depois – Hei falou em resposta.
– Ou eu convenceria seus seguidores que sou um melhor líder que você e nada aconteceria comigo.
– Isso até poderia acontecer, mas não pense que evitaria a situação atrás de você. Eles nunca aceitariam um líder que não passou pelo teste.
– Faz sentido – abaixei a arma. Eu nunca tive a intenção de atirar nele, só queria mostrar para todos que eu não era um garoto indefeso e medroso.
Vire novamente para os quatro e olhei para o meu pai.
– Pai, você tem orgulho do que você fez nesses 50 anos de vida? Tem orgulho da família que constituiu? Foi um bom pai e marido?
– Por que está perguntando isso, Valt? – “Valt”, nunca “filho”. – Lógico que tenho orgulho de tudo isso e com certeza fui um bom pai e ótimo marido, pergunte para sua mãe.
Minha mãe abaixou a cabeça e encarou o chão, ela sabia que aquelas palavras não eram verdadeiras. Nenhuma delas. Meu pai era um lixo com pernas.
– Não acho que precisamos da resposta – apontei a arma, mirando na cabeça daquele homem que dizia ser meu pai e pressionei o gatilho. Seu corpo caiu para trás, uma expressão de espanto em sue rosto. Que bela pose para morrer.
Pedaços de cérebro – ele tinha isso – e sangue serviam de cama para seu corpo sem vida.
As reações dos três foram óbvias. Gritos, choros, tentativas de se soltar e levantar. Minha mãe estava imóvel, olhando para a arma na minha mãe, com lagrimas escorrendo pelo seu rosto. Era tristeza, alívio, horror ou medo por imaginar que seria a próxima? Eu não sabia.
– VOCÊ É LOUCO?! – Letícia gritou. – Você matou seu próprio pai. Que tipo de monstro você se tornou, Valt?
– Valt não. Meu nome agora é Mart, Letícia – Valt estava morto há algum tempo. Valt sempre fora uma máscara utilizada por mim, que caíra quando consegui as 40 horas.
– Mart? – ela não entendia o que aquilo significava. – Você precisa de tratamento, isso não é normal.
Como ela estava irritante naquele momento.
Levantei a arma e apontei na direção de Letícia.
– Sem gritaria! – exclamei. – Por que eu preciso ser normal? Qual a vantagem de ser normal? – nesse momento minha voz estava baixa, quase como um cochicho. — Viver nesse mundo observando as regras não é autêntico, muito menos divertido. Você consegue dizer um motivo para eu matar aquele homem? Ele nunca fizera nada de bom para ninguém, ele merecia ter morrido antes.
– VOCÊ MATOU MEU IRMÃO! – agora a gritaria vinha do lado do meu Tio Ben.
– Parece que foi isso que aconteceu, tio – minha frase elevou seu ódio de tal modo que fez com que ele conseguisse levantar do chão e vir na minha direção. Suas forças estavam escassas, tornando seu andar lento e desajeitado. Quando estava a um metro de distância eu direcionei a arma para ele e o parei com o cano da arma.
Ele juntou seus olhos para olhar o cano da arma que agora pressionava sua testa. Em seguida, me encarou. Não sei exatamente o que ele viu quando olhou nos meus olhos, mas ele ficou aterrorizado. Eu atirei. Dessa vez o sangue jorrou em diversos lugares, no chão, na minha mãe, em Letícia e nos pés de algumas pessoas que estavam próximas.
Antes mesmo que o corpo do tio Ben caísse no chão eu voltei a olhar para Letícia.
– Voltando a nossa conversa – disse.
– Seu monstro! Você matou seu tio com um sorriso no rosto – ela evitava que seus olhos encontrassem o meu.
Eu realmente estava sorrindo. Não sabia quando começara a sorrir, mas o sorriso estava lá. Eu estava aceitando minha insanidade.
– Ele merecia – tentei justificar.
– Quem é você para dizer quem merece ou não? – Letícia queria gritar aquelas palavras, mas também estava sem forças. – VOCÊ merece morrer!
Ajoelhei na frente da mulher que um dia fora minha namorada, a namorada que me traiu com outro homem. Coloquei minha mão esquerda no queixo dela e a forcei a olhar nos meus olhos.
– Eu mereço? – perguntei. – Eu acredito que você merece, Letícia. Lembra-se da sua traição? Não é algo “correto”, não acha? – eu não queria respostas para nenhuma daquelas perguntas.
– Eu errei e admiti que errei. Você faz isso e acha que tem razão.
– Talvez – levantei a arma e posicionei o cano na parte abaixo do queixo, ela congelou.
– Não faz isso – o choro era tanto e tão infantil que me lembrava uma criança. – Você não é assim, Valt.
– Será? – apertei o gatilho e senti gotas de sangue espirrando na minha cabeça e em parte da minha roupa. Soltei seu queixo e deixei o corpo despencar no chão.
– Mart, você não precisa continuar – Hei disse. Eu o ignorei.
– Mãe.
– Quem é você? – eu sentia pena de ver minha mãe naquele estado, ela estava pálida, seus lábios rachados, os cabelos sem cor. Era deprimente.
– Sou seu filho, oras – eu não podia ceder a nenhum sentimento de compaixão. Sabia que se deixasse um sentimento bom aparecer naquele momento eu iria quebrar e o Valt voltaria.
– Não, você não é – eu sentia o ódio em suas palavras.
– Talvez eu não seja mesmo – posicionei o cano da arma na região do coração daquela mulher que um dia fora minha mãe e apertei o gatilho. Seu corpo desabou e eu não tentei segurá-lo. Ela caiu no chão. Sua vida escorria vagarosamente, impedindo que ela deixasse aquela realidade cruel.
Eu poderia atirar novamente e acabar com aqueles últimos momentos de sofrimento, mas não fiz. Apenas joguei a arma no chão e andei na direção de Emily.
– Onde eu posso me trocar? – perguntei.
– Ajuda ele, Drake – ela disse para um de seus colegas. Eu consegui sentir o desprezo na voz dela, mas não entendia o motivo, afinal, ela deveria ter feito o teste antes de entrar no grupo.
– Obrigado – decidi guardar aquela informação e questioná-la sobre em outro momento.
– Mart – Hei me chamava.
– Eu realmente preciso de um banho – comecei.
– Não tem problema. Eu só gostaria de te parabenizar, você é perfeito para o nosso grupo. Bem vindo à família – sua frase foi seguida de gritos animados vindo de todas as pessoas que estavam no local. Exceto de Emily.
Será que ela desaprovava a minha atitude de matar os quatro? Mas qual era a diferença entre matar quatro pessoas próximas de você e quatro pessoas desconhecidas? São vidas de igual valor.
Esse era um problema das pessoas, aceitar facilmente a morte de criminosos ou pessoas da má índole, como se a vida desses valesse menos do que das pessoas “corretas”. E quem nesse mundo podia dizer que era correto? Eu não.
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