In-Sanidade
15 Vinte e oito horas
Notas iniciais
Meu quarto – se eu pudesse chamar aquilo de quarto – era pequeno, devia ter uns três metros de comprimento por quatro de largura. As paredes e o teto eram cinzas, o piso fora coberto por um revestimento branco feito de cerâmica. Ao meu lado esquerdo, onde duas paredes se encontravam havia uma cama de solteiro e ao lado desta uma escrivaninha de três gavetas, sobre ela estavam um travesseiro, um lençol, uma fronha e um edredom – todos brancos. Notei a minha direita a existência de uma porta, imaginei que fosse o banheiro.
Fechei a porta e caminhei até a escrivaninha, onde peguei o lençol e o chacoalhei para desdobrá-lo. O estendi sobre o colchão, ajustando com as mãos as partes que não estavam alinhadas.
Peguei o travesseiro, o coloquei dentro da fronha e o joguei sobre a cama, seguido do edredom.
Após retirar meus sapatos e deixar a arma sobre o móvel, finalmente deitei sobre a cama e pela primeira vez nas últimas horas permiti que meu corpo relaxasse. Percebi que não sentia mais a dor agoniante no ombro, essa dor se tornará um leve incomodo.
Encarei o teto cinza claro e comecei a pensar nas minhas últimas ações. Eu sabia que tinha ultrapassado diversas “linhas” morais, principalmente na última hora, porém eu não podia deixar aquilo me abalar, pois eu ainda fazia parte do programa e o conceito era simples: “tudo era permitido”. Tudo era permitido, mas nem tudo era fácil de aceitar, começava a perceber que até minha frieza tinha um limite. Seria muito mais simples se eu pudesse deixar o velho Valt de lado, com suas fraquezas e medos, e existir apenas como um Mart frio e calculista, mas isso só era possível em filmes. Independentemente disso, eu não podia deixar que os outros vissem que matar aquelas quatro pessoas tinha me atingido.
Sendo sincero, o problema não foi matar os quatro, mas sim matar a minha mãe, já que com os outros três eu não senti nada — eles mereciam — foi como se eu estivesse atirando em zumbis no jogo “The Last of Us”. Admito que achei, e ainda acho, essa falta de sentimento com os três bizarro, mas era isso que o programa fazia com você, te transformava.
Eu estava tão focado em meus pensamentos que não percebi a porta se abrindo.
– What’s up, Mart! – uma voz masculina invadiu o local.
– Bom dia, menino prodígio – outra voz masculina.
– Além de insano ele é bonito – essa frase vinha dos lábios de uma mulher – com uma bela voz.
Os três estavam parados em frente a porta me olhando com sorrisos nos rostos, sorrisos amigáveis, aparentemente.
A mulher que estava entre os dois homens era bela, sua beleza superava a de Emily e de todas as garotas que eu havia conhecido. No entanto, era extremamente difícil justificar o motivo dessa beleza, pois seus traços eram comuns, o rosto possuía um formato de losango, sua pele era rosada, tinha olhos verdes claros e cabelos lisos castanhos escuros – nada de peculiar. Mas ainda assim, se ela estivesse sozinha, eu provavelmente levaria aquela conversa para outro nível — pela sua expressão ela sabia disso. Convenhamos, ela não se importava em chamar atenção, caso contrário não estaria vestida do jeito que estava – como todo membro do grupo suas roupas eram pretas, ela vestia uma calça bem apertada, que ressaltava suas coxas musculosas, uma bota com salto de poucos centímetros, uma regata larga que cobria seus seios e parte do seu abdômen liso e uma jaqueta de couro.
Admito que não prestei muita atenção nos homens — não consegui prestar atenção. Mas reparei que os dois eram altos, acima de um metro e oitenta, o da esquerda tinha cabelo loiro curto, olhos negros e era muito mais forte do que eu, fisicamente. Já o da direita era negro, a pele extremamente escura, seu cabelo era aparado como uma grama e era um pouco mais magro que seu colega.
Meu quarto que antes estava vazio e dominado pelo silêncio agora tornara-se barulhento e sufocante com todas aquelas pessoas.
– Quem são vocês? – perguntei.
– Meu nome é Kate – a bela mulher disse. – Esse é o Tim – apoiou a mão sobre o braço do negro. – E esse é o Drake. – apontou para o loiro.
– E o que vocês estão fazendo no meu quarto? – eu queria um tempo sozinho para organizar minhas ideias, precisava pensar nos meus próximos passos, e eles não estavam ajudando.
– Quanta hostilidade – a voz de Tim soava forte como um trovão.
– Nós viemos aqui para dar boas vindas ao mais novo membro dos Libertados. Estamos surpresos com seu desempenho na iniciação – comentou Drake.
– Eu não sei se acredito que vocês vieram apenas para isso.
– Você é inteligente mesmo – Kate aproximava-se de mim enquanto falava. – Nós viemos aqui para iniciar a próxima etapa do seu treinamento.
– Treinamento? Desculpa, mas eu... – a sola do pé de Kate na minha boca impediu que eu terminasse a frase. Ela era rápida, conseguiu girar seu corpo e desferir um chute em mim antes mesmo que eu pudesse pensar em fazer algo.
Felizmente o golpe foi fraco e teve efeito apenas de me despertar. Ainda assim, senti um pouco de dor.
Eu não estava gostando daquelas boas vindas, afinal, eles provavelmente sabiam lutar e a desvantagem numérica era outro fator que dificultava aquela situação.
Eu precisava dialogar.
– Ei! – gritei. – Que porra é essa? – eu precisava agir com raiva e amenizar aos poucos para que eles não percebessem a tentativa de manipulação. – Nós realmente precisamos fazer isso aqui e agora? – os três olhavam para mim como se eu fosse um objeto que eles iriam destruir. – Eu posso me arrumar e fazemos isso lá fora, na frente de todos – eles tinham que engolir aquela ideia.
– Vamos deixar ele descansar um pouco. O cara acabou de matar quatro pessoas – não esperava aquele tipo de reação de Tim. Aquele gigante tinha um lado sensível no final das contas.
– É uma boa ideia, Kate – Drake disse e colocou a mão no ombro de Kate para acalmá-la.
– Não – naquele momento eu percebi que ela queria me destruir. Aquilo causaria um prazer imenso naquela mulher.
Os dois se olharam com expressões preocupadas. Eles eram claramente abaixo de Kate na cadeia alimentar dos Libertados.
Os três vieram em minha direção com os punhos fechados, preparados para uma luta que só acabaria quando um de nós estivesse desacordado. E provavelmente esse alguém seria eu.
Naquele momento eu podia resistir ou lutar, e como último opção atirar nos três. Nas duas hipóteses eu apanharia bastante e em ambas eu tinha chances de morrer, e morrer não era parte do plano, na terceira com certeza eu morreria se não conseguisse matar os três.
Eu decidi lutar.
Defendi o segundo chute da Kate e desviei do soco de Tim que vinha em direção do meu queixo. O punho daquele homem era praticamente do tamanho da minha cabeça, eu não podia arriscar levar um daqueles. O terceiro soco, autoria de Drake, veio diretamente na minha costela e meu corpo foi empurrado pelo impacto batendo na parede com força.
Os dois impactos me deixaram zonzo e tive que me esforçar para não cair. Eu não podia abaixar a guarda, eles não iriam esperar para me atacar novamente. E foi exatamente o que aconteceu, quando olhei para frente fui surpreendido por dois punhos, um de Tim e outro de Drake. Por reflexo, dobrei meus joelhos e consegui escapar do ataque. Aproveitei a guarda aberta deles e lancei um soco no estomago de Tim e outro na costela de Drake. Os dois deram alguns passos para trás.
Kate percebeu que eu estava despreparado e me deu uma joelhada na costela. Dessa vez eu ouvi um suave estalo.
Droga.
Era impossível lutar com aqueles três, eles eram profissionais e eu... bem, eu era eu. Minha agilidade era minha melhor qualidade e não estava ajudando muito contra aquele trio.
Nesse meio tempo recebi diversos socos, chutes e joelhadas. Consegui me defender de alguns, mas a maioria dos golpes foi certeiro. Os locais eram diversos, boca, nuca, queixo, boca novamente, estômago, costelas, entre outros. Eu não conseguia ver quem desferia os golpes, eram seis mãos e seis pernas me atacando. O gosto de sangue aumentava na minha boca a cada segundo.
Eu estava no chão encolhido, com as mãos sobre o meu rosto, quando a onda de ataques cessou.
Todo meu corpo doía, mas não conseguia identificar nenhum dano grave. Eles estavam pegando leve.
– Você é fraco – senti a decepção na voz de Kate.
Era verdade.
Eu apoiei meus punhos fracos no chão e me levantei com dificuldade.
– Não acho que três contra um me defina como fraco – retruquei.
– Você acha que as lutas contra a Insanity serão um contra um? – Kate questionou, com um sorriso no rosto.
– Não importa... – comecei.
– É claro que importa! – ela gritou. – Você só estará pronto para enfrenta-los quando conseguir lidar com nós três sem acabar no chão se defendendo como um moleque.
Ela estava parcialmente certa. Digo isso, pois nunca pensei em enfrentar a Insanity com as mãos limpas. Minha preocupação não era lutar. Mas talvez fosse necessário seguir a onda dos Libertados, afinal, eles eram guerreiros e esperavam que eu fosse um. Além disso, poderia ser útil em algum momento desenvolver essas habilidades.
– Vamos voltar mais tarde – Kate disse para os dois homens.
– Prepare-se – não havia emoção na voz de Tim ao falar, ele não estava feliz com a situação.
Desviei meu olhar de Tim para encarar Kate antes que ela saísse do quarto. Fui surpreendido novamente por um ataque, dessa vez não identifiquei se foi um soco, chute ou outra coisa, muito menos quem fora o autor daquele golpe. Não identifiquei mais nada, apenas fui engolido pela escuridão.
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