In-Sanidade
12 Trinta e uma horas
Notas iniciais
Emily não sabia dirigir? Aquilo era possível? Ela devia estar brincando comigo. Aquela história devia ser outra tentativa de me manipular para participar de outro jogo doentio, como o que acabamos de ter com o Silva.
– Você não acredita em mim, não é? — Emily perguntou.
– Tenho motivos para acreditar? — perguntei.
– Na verdade, tem sim. — ela respondeu, calmamente. — Eu salvei sua vida, não lembra?
– Se você não tivesse me utilizado de isca, não teria vida para salvar. — retruquei.
– Volte ao que interessa, Mart. Esclareça suas dúvidas.
Eu já tinha dezenas de perguntas quando conheci Emily e após horas com ela as perguntas somente aumentaram. Agora eu tinha centenas delas. Mas eu tinha que começar de algum lugar.
– Por que você não matou o Silva?
– Eu não podia matá-lo – ela respondeu. Era isso? Simples assim? Não era o suficiente, precisava de mais.
– Por que? — questionei.
– O grupo que eu faço parte deixou bem claro que eu não podia matá-lo. O motivo? Sinceramente eu não sei.
Era uma mentira. Ela sabia o motivo, mas não ia compartilhar naquele momento.
– Que grupo você faz parte? Quem faz parte desse grupo? E qual o objetivo de vocês?
– Não temos um nome, mas se você quiser nos chame de “Libertados”. Nosso objetivo claramente é destruir a Insanity e acredito que pelo nome você possa imaginar que os integrantes do grupo são participantes do programa que conseguiram escapar do controle da Insanity.
Mais participantes do programa? Eu começava a imaginar cópias masculinas da Emily, pessoas altas e baixas, negros e brancos, todos com aquele olhar doentio que ela possuía. Será que todos eram como ela?
– E nós vamos encontrar esse grupo nesse local? — apontei para o ponto vermelho no GPS.
– O grupo não, apenas parte dele.
– Entendi. — dei alguns minutos de intervalo para fazer minha próxima pergunta. Voltei meu foco para a estrada e acelerei o carro. Logo o sol iria iniciar seu desfile luminoso pelo céu. Um novo dia. Um sinal de que minhas horas estavam acabando. Alias...
– Sobre o bônus de horas... Como eu consigo? — perguntei, ansioso. Aquela resposta me interessava.
– Você precisa dar o que a Insanity quer: um show digno de altos níveis de audiência. — sua voz continuava com o tom monótono, como se aquele assunto não significasse nada para ela. — E eu, particularmente, acho que você já deve ter cumprido essa tarefa, porém, como você está conosco agora, não acredito que a Insanity será benevolente e estenderá seu período de liberdade.
Um questionamento pairava pela minha cabeça: será que eu estava do lado certo? Será que eu escolhi o lado vencedor dessa batalha?
– Não se preocupe, Mart. Como eu disse antes, essas horas não servem de nada quando se está do nosso lado. Você entenderá o que estou dizendo quando conhecer os membros do grupo.
– Me responde outra coisa. Qual o real objetivo do reality show? Por que escolher pessoas aleatórias pra participar de algo totalmente politicamente incorreto e além disso gastar dezenas de milhares de reais para garantir que essas pessoas façam o que a Insanity espera?
– Não são pessoas aleatórias, Mart. São pessoas escolhidas a dedo, sinta-se especial por isso. Mas, independentemente disso, o propósito é provar que o ser humano é violento por natureza e que o simples ato de colocá-lo em um ambiente onde o politicamente correto não existe irá mostrar sua natureza violenta. E a pior parte é que esse “teste” vende e vende muito. Outro motivo para o programa continuar e tornar-se mais forte a cada edição. — aquele assunto a incomodava um pouco, era perceptível a mudança no seu tom de voz.
– Ainda assim, qual o objetivo? — mesmo com a explicação não estava claro para mim qual era o objetivo daquele programa. Qual era o objetivo da Insanity.
– O objetivo é libertar pessoas dos laços da moral. Através do programa, a Insanity consegue construir os soldados mais calculistas e frios, que não dão valor a vida ou muito menos estão ligados as definições de bom e ruim padrões, ou de certo e errado.
– Eles estão fazendo tudo isso para construir um exército? — perguntei, pasmo.
– Segundo nossas fontes, sim.
– Então quem foge do programa eles matam, certo? — aquela era a dedução óbvia.
– Sim. Ou quem termina o programa mas não atinge as expectativas da empresa.
– Então eu estou morto? — escolhi o lado errado pelo jeito.
– Não. Porque iremos destruir a Insanity antes que eles cheguem em você.
– E se nós não conseguirmos? E se eles chegaram em mim e você não estiver lá? — eu ia morrer?
– Nós vamos te treinar, Mart. Você precisa aprender a reconhecer os funcionários deles e a se defender deles.
Minha atenção voltou para a estrada quando notei a aproximação de luzes pela minha visão periférica. O carro estava em alta velocidade, eu precisava conter meus ânimos, independente do que eu ouvisse durante aquela conversa, ou nós dois sofreríamos outro acidente.
– Uma confissão, Mart. O Silva não é o funcionário mais perigoso da Insanity.
Se a intenção era controlar meus ânimos, ela não estava ajudando. Respirei fundo e apertei minhas mãos no volante do carro. Se aquele monstro não era o funcionário mais perigoso eu estava fudido quando encontrasse os outros.
– E você me diz isso agora apenas?! — minha voz emanava irritação naquele momento.
– Você sabe que eu gosto de deixar sempre um mistério nas coisas. Esse era um deles. — ela disse, sorrindo.
– Você é impossível.
– Faz outra pergunta. Estou esperando uma desde quando entramos no carro e até agora nada. Acho que você não é tão ligeiro quanto eu imaginava.
Desde quando entramos no carro? Será que era sobre o local que iríamos? Só podia ser. Ou talvez...
– Você não tirou os rastreadores desse carro, correto? — perguntei. Será que eu acertara.
– Muito bem, Mart. Respondendo sua pergunta, eu não tirei. Faz parte do plano deixá-los até o ponto de encontro.
– E como você sabe de tantas informações sobre a Insanity. Imagino que durante suas horas não foi possível invadir onde quer que eles estejam e roubar informações.
– Não, não foi e olha que eu tentei. — ela disse, sorrindo.
– Então, como...? — perguntei novamente.
– Simples, temos alguém lá dentro.
– Um ex-participante?!
– Isso já é informação demais, Mart. E te dar informação demais poderia colocar esse contato em risco.
Eu ia deixar aquela passar.
– E sua mãe? Aquilo tudo que o Silva disse era verdade? — era hora dos assuntos delicados.
– Ela era uma prostituta que não cuidava da própria filha, eu. Mas ele forçou a barra, Mart, porque eu não tinha um relacionamento tão bom com a minha mãe para ficar irritada com aqueles xingamentos.
– Então o motivo do tiro foi... — prolonguei a última palavra para que ela terminasse.
– Porque eu nunca gostei dele e, como eu não podia matá-lo, achei divertido tirar a coisa que um homem mais preserva.
Então arrancar o pênis de um cara era divertido na visão daquela garota. Muito bom. Eu realmente precisava aprender a me defender, mas não apenas da Insanity.
– Estamos chegando, Mart. Atenção na estrada.
Minha atenção estava totalmente na estrada, eu parara de fazer perguntas. Fiquei atento ao meu lado direito procurando entradas, mas nada.
– Ah, só avisando, não tem estrada a direita, você vai precisar dirigir pelo mato e depois pela floresta para chegarmos aos nossos amigos.
– Ok – disse, respirando fundo. E foi naquele momento que senti a pontada no meu ombro. Eu estava tão ansioso com as perguntas que por alguns minutos fui capaz de esquecer a dor do tiro. Aquilo era normal? Eu não sabia, mas agora a dor estava de volta e disposta a compensar o período de férias.
– Seu braço ainda dói? — ela deve ter visto minha expressão de dor.
– Não. Apenas incomoda um pouco. — menti.
Ela pegou minha mentira, porém não discutiu.
Rodei o volante para o lado direito e sai da estrada diretamente para o campo verde logo após o anúncio do GPS. Permaneci dirigindo por alguns minutos em linha reta até que o aparelho ordenou que eu virasse a esquerda. Algumas centenas de metros a frente e foi sugerido outra mudança de direção, agora para a direita.
– Ali na frente, naquela casinha — Emily apontou para um vulto preto em formato de pedra alguns metros a frente.
Dirigi até o local indicado e parei o carro. Emily logo que paramos liberou o cinto e saiu pela porta, sem se preocupar em me levar junto. Eu a acompanhei.
Ao chegar na pequena casa feita de uma madeira suja e mofada, nos deparamos com uma porta de metal que não combinava em nada com aquela casa. A garota deu um passo a minha frente a bateu uma vez na porta.
– Josh! Carlos! — Emily gritou.
– Fala, criança. — uma voz masculina e grossa respondeu.
– Abre aí.
– O moleque está junto? — outra voz masculina perguntou.
– Yep. Nunca falho em missões, diferente de vocês.
A porta se abriu, revelando dois homens. Um tão branco que parecia um vampiro daqueles romances chatos e o outro moreno. O branco pálido tinha olhos escuros como o céu de noite, cabelos castanhos claros, rosto forte que combinava com seus músculos nada exagerados. O homem branco era mais baixo que o moreno, porém, pelo menos para mim, impunha muito mais medo. O homem moreno era enorme, media mais de 1,90m, disso eu tinha certeza. Seus olhos verdes eram um destaque naquela pele cor de chocolate. Era magro e parecia ser frágil e incapaz de ganhar uma luta. Ambos vestiam vestes escuras desde o moletom até a bota escura. Admito que brigaria com ele sem pensar duas vezes. Na verdade, eu brigaria com os dois, nenhum deles tinha aquela olhar assassino como a Emily tinha, e como eu começava a ter. Eles não pareciam ex-participantes do reality. Porém, aparências enganavam, eu tinha que lembrar disso.
– Mart, esse é o Josh – ela apontou para o moreno dos olhos claros. — e esse é o Carlos.
– Nomes do programa? — perguntei.
– Isso você vai precisar descobrir sozinho. — o moreno disse, sorrindo.
– Vamos? — Carlos disse, enquanto caminhava em direção ao carro.
– Vai hackear o código dos rastreadores e simular que o carro está se movimentando para outro lugar? — Emily perguntou ao homem pálido.
– Com certeza. — ele respondeu. — Só espero que eles ainda sejam burros o suficiente pra cair nesse golpe.
– Então vamos na frente, o Mart tem poucas horas. — Emily disse.
– Quantas horas exatamente campeão? — Josh perguntou.
– Trinta e uma horas, aproximadamente.
– Que exagero, Alice. O garoto tem muito tempo ainda, relaxa. — disse, enquanto esfregava o mão na cabeça de Emily.
Eles a tratavam como se ela fosse família, talvez uma espécie de irmã mais nova. Ela não parecia mais tão insana.
– Vamos, Mart. — ela ordenou.
– Podem ir com meu carro. — gritou Carlos. — E acompanhe eles Josh por segurança, nenhum deles está em condições de lutar.
– Ah eu estou. — Emily respondeu, claramente aquela frase feriu seus sentimentos.
– Não se faça de durona e aceite a ajuda. — e essa frase encerrou o assunto.
Nós três deixamos Carlos para trás e fomos em direção à garagem da pequena casa, lá estava um carro popular cinza. O objetivo era evidente, chamar o mínimo de atenção possível.
– Entrem e se acomodem, pois o caminho é longo.
Eu obedeci e sentei no banco de trás do carro, enquanto a Emily dirigiu-se ao banco do passageiro e lá ficou. Aproveitei essa deixa e me esparramei no banco.
Eu precisava descansar. O problema era que eu não podia, eu ainda tinha perguntas.
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