In-Sanidade
4 Trinta e sete horas
Notas iniciais
O carro era fantástico. Atingia a velocidade de cem quilômetros por hora em menos de oito segundos. Era muito rápido, principalmente para alguém acostumado a uns quinze ou vinte segundos para atingir essa velocidade em um carro.
E a melhor parte. Cem quilômetros não era esforço algum para o Mustang.
Virei à esquerda e entrei na via expressa. Era hora de ir além dos cem quilômetros, muito além. Engatei a próxima marcha e acelerei. Cento e cinquenta quilômetros por hora. Troquei para a quinta marcha. Cento e oitenta quilômetros. Finalmente a sexta. Eu estava a exatos duzentos quilômetros. Forçava meus braços em direção ao volante para não perder o controle do carro. Eu nunca havia experimentado essa velocidade, qualquer erro poderia ser fatal.
Enquanto passava pela via sentia flashes de luzes. Eram os radares, aquele lugar possuía vários. Mas eu simplesmente não me importava, eu era Mart Khelagar. E Mart Khelagar não tinha preocupações com multas de trânsito.
Notei que estava quase no final da via expressa, quase chegando à rodovia – não fazia ideia de qual rodovia, simplesmente nunca fora até lá. Diminui a velocidade e liguei o GPS. Eu estava à uma hora de casa (dirigindo a sessenta quilômetros por hora), não era muito longe.
Obedeci ao GPS e peguei a entrada para realizar o retorno.
Quando fiz a curva vi uma pessoa caída no chão, com uma moto um pouco mais a frente, os dois ocupavam a pista inteira, então fui obrigado a frear de forma brusca, deixando pedaços do pneu na pista.
Algo não estava correto, eu sentia aquilo. Antes de descer do carro, abri o bolso da frente da mochila, peguei uma das armas e coloquei no bolso inteiro do paletó.
Desci do carro e fui em direção à pessoa caída. Eu não estava distante do local do acidente, então após alguns passos pude notar uma poça de sangue ao lado do corpo. Corri e ajoelhei próximo ao corpo. Era uma mulher. Ela possuía diversos ferimentos no rosto e sua roupa estava rasgada em vários pontos, provavelmente ocasionada pela queda.
Apoiei minha mão sobre suas costas e senti um leve movimento. Ela estava respirando.
Puxei o Samsumg A5 do bolso e disquei o número da polícia. No entanto, fui interrompido pela mão da mulher que agora estava acordada. Acordada e nada acidentada. Uma de suas mãos estava no meu pescoço, enquanto a outra retirava agilmente o celular da minha mão.
– O que você... – tentei falar, enquanto ela apertava seus dedos em volta do meu pescoço.
A mulher era forte. Via músculos em seus braços finos. Daquele ângulo percebi que o machucado, os rasgos na roupa, eram todos falsos. Criados com cuidado para enganar um idiota. Eu.
Movi meus braços rapidamente e consegui arrancar seus dedos do meu pescoço. Quando finalmente consegui me soltar, dei um impulso com os pés e pulei alguns metros para trás.
– O que você quer? – perguntei ofegante.
– Simples, lindo – ela disse, calma transparecia em sua voz. – Seu belo Mustang e dinheiro. Imagino que você tenha um pouco.
Aquela não era uma mulher desesperada por dinheiro. Era uma pessoa educada, com formação acadêmica, cultura e criação rica. Percebia aquilo a cada segundo que passava. Essas características eram evidenciadas pela sua forma de andar, sua fala, seu olhar e seus traços finos. Eu tinha que admitir, ela era linda.
– E eu devo entregar tudo isso tranquilamente? – caçoei.
– Não – retrucou. – Você vai entregar, porque não há outra opção. Rapazes.
Dois homens gigantes saíram das sombras. Um do lado esquerdo da avenida e um do lado direito. Naquele momento senti a .50 esquentar no meu peito, era como se estivesse me tentando a utilizá-la naquele momento.
Reagi dando alguns passos para trás em direção ao carro. Violência naquele momento não era minha única opção. Dei mais alguns passos para trás. A única coisa que eu precisava era pegar a mochila, o carro podia ficar com eles.
– Tudo bem colegas – eu disse. – Vamos fazer assim: vocês levam o carro e eu fico com a minha mochila. Só isso, ok?
A mulher soltou uma risada alta de deboche.
– Contraproposta – ela disse, enquanto mantinha um sorriso cruel no rosto. – Nós levamos tudo, inclusive a sua bolsinha, e eu prometo que meus amigos não vão te socar até a morte.
– Eu fico surpreso com a sua delicadeza – respondi.
Os dois gigantes reagiram ao meu comentário fechando os punhos e dando alguns passos em minha direção. Retribui da mesma forma, dei três passos para trás e me preparei para lutar.
– Sem brigas! – exclamou a mulher. Os dois gigantes pararam. – Sim, eu sou um exemplo de delicadeza e você é um exemplo de idiota. Estou te dando uma chance de sair vivo dessa. Não desperdice.
– Acho que irei desperdiçar – disse, antes de virar em direção ao carro e começar a correr. Em menos de dez segundos eu já estava dentro do carro, com as portas travadas.
Coloquei a chave no contato, mas desisti de ligar o carro. Pulei para o banco de trás e peguei minha mochila. Os vidros do carro eram escuros, impossibilitando que os três me vissem. Eu podia utilizar aquilo a meu favor.
– Garoto, pare de resistência – a mulher sugeriu. Eu não respondi.
Os três não estavam tentando quebrar o vidro ou forçar a maçaneta do carro. Eles estavam parados, observando. Foi então que ela agiu. Andou até a moto e pegou um objeto escuro. Era uma arma.
“Droga!”
– É. Sua chance de ser um bom garoto acabou – um dos gigantes disse.
“Olha só. Eles sabem falar.”
Eu já estava com todas as minhas coisas (exceto o Samsumg A5, infelizmente), não precisava ficar no carro mais. Puxei o banco traseiro e entrei no porta-malas. Abri lentamente a porta e sai correndo. Eu era rápido, seria impossível deles me alcançarem, mas apenas para ter certeza, olhei para trás e vi que eles não tentaram ir atrás de mim. Os três apenas entraram no carro e dirigiram.
E eu corri como nunca corri antes, com um sorriso no rosto.
Minha próxima parada era a delegacia que ficava a menos de dez minutos dali. Ainda restavam trinta sete horas e alguns poucos minutos.
Cheguei à delegacia e expliquei para um dos policiais o que acontecera. Aproveitei para informa-lo sobre as características dos três. Aquilo o alarmou e fez com que a delegacia inteira se mobilizasse para ir atrás do trio.
Aquela movimentação fez ainda mais sentido quando eu descobri que os três eram um grupo de criminosos procurado pela polícia por praticarem diversos roubos de carros de luxo.
Eu realmente podia matar os três enquanto estava no carro, mas quando vi a oportunidade de coloca-los atrás das grades, tive que aproveitá-la. Não existe nada pior do que ter sua liberdade e regalias limitadas.
Para ajudar a equipe, forneci o código de rastreio do carro. Eles encontrariam os três em poucos minutos.
Não fiquei mais do que dez minutos na delegacia e sai antes de finalizar o boletim de ocorrência. Eu não queria o carro de volta, a prisão dos três já era o suficiente. Talvez eu visitasse aquela mulher algum dia na prisão, para mostrar quem fora o responsável por sua queda.
Peguei um dos smartphones e digitei o número do meu amigo Carlos, o Hipócrita.
– Preciso de um novo carro – eu disse. – A loja ainda está aberta?
– O-opa! Pode vir, eu estarei aqui – ele respondeu.
– Até já – desliguei, sem esperar uma resposta.
Vi um táxi passando e fiz sinal para o motorista. O contador no meu celular acabará de marcar trinta e sete horas.
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