In-Sanidade

5 Trinta e seis horas


Notas iniciais
Capítulo disponibilizado um dia depois do anterior porque não sei se conseguirei postar no final de semana. Aproveitem!

Se fosse depender da velocidade padrão dos taxistas em horário de bandeira dupla eu demoraria no mínimo uma hora para chegar à loja de carros. Então separei mil dólares e ofereci ao motorista em troca de uma viagem extremamente rápida.

O resultado: cheguei à rua da loja em vinte e cinco minutos.

– Então, qual será o carro dessa vez? – perguntou Carlos. – Alias, por que você veio de carro? O que aconteceu com o Mustang?

– Longa história. – respondi, sério. – Eu quero a Audi R8.

Ao ouvir minha decisão sua expressão de incredulidade retornou por alguns segundos. Apenas por alguns segundos. Ele era um vendedor e sabia que não podia desperdiçar clientes.

– Só queria avisar que nosso único modelo é preto e o preço é duzentos mil dólares. – comentou de maneira cuidadosa.

– Tudo bem. – respondi. – Utilizarei meu cartão novamente.

– Hm. – resmungou, enquanto pensava. – Acho que precisamos de mais um uísque.

–----)(-----

Era a segunda tentativa e a mensagem “Não aprovado” continuava aparecendo na tela da máquina. Eu não estava entendendo o que acontecia. Conhecia muito bem o sistema de cartões, se eu errasse mais uma vez, ele provavelmente seria bloqueado. Mas esse era exatamente o problema. Eu não errara minha senha, nenhuma vez.

– Quer tentar novamente, Khelagar? – Carlos perguntou. Sua voz voltava a demonstrar o desdém que sentia e aquilo começava a me incomodar.

– Sim, mais uma vez.

Novamente digitei a senha. 6278. Poucos segundos se passaram e novamente a mensagem “Não aprovado” apareceu na tela. Aquilo reativou a personalidade idiota de Carlos que começou a rir descontroladamente.

– Qual o problema? – perguntei, sem entender o que estava acontecendo.

– Nada não. – continuou rindo. – Só acho engraçado quando pobres tentam se passar por rico, nunca dura muito.

– O que?

– Isso mesmo. – sua risada era alta e irritante.

– Eu sou pobre então? – perguntei impaciente.

– Claramente você não é rico. Afinal, não consegue comprar um carro de apenas duzentos mil. Ou talvez seu pai tenha visto sua última transação e bloqueado seu cartãozinho sem limites.

Aquele idiota estava passando dos limites. Incrível como as pessoas mudavam em pouquíssimos segundos. Não devia esperar menos de alguém que ganhava a vida através de bajulações e falsas amizades.

– Quer saber? – disse, enquanto pegava a chave da Audi que estava sobre a mesa. – Vou levar o carro mesmo assim.

“O que poderia acontecer comigo? Serei preso? Acho que não!”

Carlos ficou sem reação, ele não esperava que eu respondesse aos seus comentários daquela forma.

– Adeus, Carlos. – disse, enquanto andava em direção à porta. Daquela vez o segurança não estava lá. Na verdade ele não estava em lugar algum.

Quando pisei no primeiro degrau para descer a escada Carlos conseguiu se mover e veio em minha direção. Seus olhos brilhavam de raiva.

– Você não sai daqui com essa chave, seu moleque! – suas palavras saiam altas, quase como gritos.

– Me pegue, idiota! – sai correndo em direção ao carro.

Quando fui abrir a porta do carro senti uma força me puxando para trás. Não precisei olhar para saber que era o segurança.

Percebi que sua mão agarrava apenas meu terno. Deslizei rapidamente meus braços, escapando das mãos gigantes de Josh. Mas aquilo não impediu que ele tentasse me agarrar novamente.

Pulei rapidamente para o lado, escapando novamente do segurança. Ele era grande, mas era extremamente ágil. Não ia ser fácil contornar aquela situação.

Meu terno estava no chão, junto com a mochila e todas as minhas coisas.

Corri na direção contrária e fui seguido por Josh. Durante a corrida fui surpreendido por Carlos que resolvera juntar-se a perseguição. Virei imediatamente, escapando dos dois por poucos centímetros. Mudei a direção da corrida, voltando em direção ao local onde minhas coisas estavam.

Felizmente eu era muito mais rápido que ambos e consegui alcançar o local com alguns segundos de vantagem. Tempo suficiente para pegar a .50 e apontar para os dois.

Josh e Carlos pararam imediatamente. Estavam a cinco metros de distância. O segurança ameaçou pegar uma arma que ficava dentro de seu paletó. Respondi aquela ação com um tiro alguns centímetros acima da cabeça dos dois.

– Não se movam! – gritei. Eles congelaram. – Eu disse que vou levar o carro e é exatamente isso que farei. Não tentem me impedir.

Sentia a mão que segurava a .50 transpirar. Pequenas escorriam entre meus dedos. Porém ela estava firme, sem tremer por um mínimo fragmento de segundo. Pela primeira vez eu conseguia enxergar a possibilidade de matar uma pessoa. Ou duas.

– Você não precisa fazer isso. – Carlos disse, tentando me acalmar.

– Eu faço o que eu quiser.

– Garoto. Isso trará problemas a você. Nós temos todas as suas informações. – o segurança disse, sua voz demonstrava uma segurança verdadeira. – Vai ser fácil de te encontrar. E temos seu rosto. – disse, apontando para as câmeras.

– Vocês ACHAM que possuem informações sobre mim. – respondi.

– Não. Nós temos informações sobre você, Mart. E caso esse não for seu nome verdadeiro, imagino que conseguiremos encontrar essa informação através da placa do seu carro. – retrucou o segurança, sorrindo. – Não foi muito prudente deixar seu carro parado próximo daqui. Eu sou bom no que faço Mart, que não é apenas ser segurança desse lugar.

“Droga! Como eu consegui esquecer meu carro aqui? Onde eu estava com a cabeça?!”

– Então. Acho que já percebeu a fragilidade dessa situação. – Carlos disse com um tom de deboche.

– Não há fragilidade. – os dois tiros seguintes surpreendeu tanto os dois quanto a mim. Dois tiros no meio do peito de cada um deles.

Os dois caíram lentamente no chão e rapidamente duas poças surgiram abaixo deles. Naquele momento minha mão direita ainda estava levantada segurando o revólver quente. E a fumaça saindo da ponta do cano. Eu havia atirado em duas pessoas.

A poça de sangue aumentava. Esperava que pelo menos o segurança levantasse e diminuísse minha culpa. Ele tinha que estar vivo. Ele tinha que usar um colete a prova de balas. Mas nada aconteceu e a poça continuava aumentando.

Guardei a arma, entrei na Audi R8 e sai da concessionária. Virei à direita para ir embora, mas antes dirigi até meu carro e peguei todas as roupas que estavam lá. Agora podia deixa-lo ali para ser vítima de algum bandido. Se ninguém fizesse isso a “i.n.” cuidaria daquilo, provavelmente.

Coloquei as mãos no volante e senti que estavam molhadas. Meu coração ainda batia forte. Mas eu não sentia culpa e muito menos estava aterrorizado com meu ato anterior. Foi tão fácil puxar o gatilho.

O que aquele programa estava fazendo comigo?

Eram apenas as primeiras horas e eu já estava daquele jeito. O que sobraria da minha personalidade ao final das quarenta horas?

Será que era isso que acontecia quando perdemos as ligações com os conceitos e proibições do mundo? Como agora matar não era algo proibido eu conseguia fazer aquilo como se fosse uma atividade comum? Talvez então aquele sentimento de culpa, responsável por dominar as pessoas que possuem consciência quando cometem uma atrocidade como essa, fosse apenas uma ilusão. Uma ilusão cultural, criada pela sociedade nos últimos anos.

Não sabia ao certo o que pensar sobre o que acontecera, estava simplesmente perdido em meus pensamentos.

Olhei novamente para o contador. Já eram duas horas da manhã. Eu tinha exatamente trinta e cinco horas e quarenta minutos.

Eu precisava de uma mudança de ambiente.

Respirei fundo e acelerei o carro.