In-Sanidade
3 Trinta e oito horas
Notas iniciais
– Então Senhor B, aceitaremos essa nova transação? – perguntei, enquanto acompanhava as informações dos monitores. – Ele vai comprar um carro de trezentos mil. Está claro que utilizará o cartão de crédito novamente.
– Ele é inteligente – responde. – Em sua cabeça, o dinheiro restante será dele após o fim do programa – não está errado – e por isso decidiu gastar tudo através do cartão.
Observei o Senhor B em silêncio, aguardando a resposta ao meu questionamento.
– Pode bloquear quando ele tentar passar a primeira vez. Já na segunda, libera. Uma vez será o suficiente para os funcionários da agência o tratarem com displicência. – ele disse, enquanto andava pela pequena sala.
– Outro problema, Senhor B – eu disse, enquanto digitava. – Esse novo participante não emplacou. A audiência está baixa e, consequentemente, a plataforma. O que faremos?
– A audiência sempre é baixa no início e nenhum dos associados gosta dos participantes, sobre a plataforma, sabe que só começa a rodar de verdade depois que manipulamos alguns acontecimentos. Então, caso nosso amigo continue agindo como um adolescente sem graça, utilize nossa influência para direcioná-lo ao caminho certo. Te dou meu aval.
Após aquelas palavras, o Chefe dirigiu-se para porta e saiu da sala, me deixando sozinho naquela sala repleta de monitores e computadores. Era hora de fazer o que eu fazia melhor.
–----
Estacionei o carro na rua lateral da concessionária e fui andando até a entrada do local. A loja de carros estava com todas as luzes acesas, mas de início não localizei nenhum funcionário. Talvez aquele fosse o padrão da loja, fechada ou aberta.
– O que você deseja garoto? – perguntou uma voz masculina.
De início não localizei sua origem. Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Foi então que percebi a presença de uma pessoa dentro de um dos carros de luxo.
– Um carro – respondi, sem mais delongas.
– Você quer um carro daqui? – a voz respondeu, dando ênfase na palavra “você”.
Parecia que a pessoa estava ignorando as roupas e me tratando como o jovem de classe média que eu era.
– Isso mesmo. Você consegue me vender um carro, ou preciso chamar um vendedor de verdade? – questionei retribuindo seu desdém.
– Hm. Então o garoto sabe se defender – finalmente conseguia ver o homem que conversava comigo de dentro do carro. Ele tinha aproximadamente dois metros de altura e estava vestido com uma calça bege, camisa branca e um sapato com aparência extremamente cara. Para combinar com sua altura seus braços eram musculosos, esticando a camisa. O homem não era bonito, mas possuía a combinação necessária para que eu não quisesse uma briga contra ele. – Que tipo de carro?
– Rápido. Tecnológico. Caro.
– Bem específico. Acredito que entre os vinte e cinco carros dessa loja, TODOS se enquadram nessa descrição – ele não estava tentando ser político. Estava evidente que ele não acreditava que eu ia comprar nada.
– Tudo bem, senhor comediante.
“Eu podia te dar um tiro agora, seu merda!” pensei.
– Estou à procura de um carro fabricado pela Ford, em específico o Mustang, ou pela Porsche, ou pela Audi, nesse caso o modelo TT – pronunciei cada palavra com firmeza.
– Entendo. Nossos carros mais baratos. Me siga – ele disse, enquanto andava para o lado esquerdo da loja.
– Ei. Por que você é um idiota? – perguntei.
– Não estou sendo idiota. Simplesmente não imagino que um garoto que gastou toda sua mesada para comprar um terno, pode utilizar o resto da mesada para comprar um carro de cem mil dólares – cada palavra saia graciosamente de sua boca. Ele dizia aquelas palavras de desdém como se estivesse citando um poeta famoso. – Mas vou admitir que você tem bom gosta com roupa, mas, infelizmente sua mochila entregou a falta de dinheiro.
“A mochila” pensei.
Simplesmente não podia deixa-la no carro. Eu poderia precisar do seu conteúdo a qualquer momento. Talvez nos próximos minutos se ele continuasse sendo um "mala".
– Qual o problema. É nela que eu guardo a arma que usarei daqui alguns segundos para te roubar – disse, enquanto o acompanhava. Ele parou por um segundo. Naquele momento imaginei que ele acreditara nas minhas palavras. Felizmente, sua risada demonstrou o contrário.
– Boa brincadeira, garoto – ele disse, entre sua risada. – Se você realmente estivesse armado eu teria que mandar meu segurança atirar em você – apontou para a escada que levava ao segundo andar. Lá, onde anteriormente não havia ninguém, estava um segurança parado, olhando para nós.
– Wow! Apenas um segurança para essa loja inteira? – questionei.
– Ele é o suficiente – rebateu, claramente encerrando aquele assunto. – Chegamos. Aqui está um lindo Audi TT 2015, um potente Ford Mustang 2013, eu prefiro o design desse modelo do que o atual, e um Porsche 918 Spyder, esse eu só mostrei para você apreciar, pois custa apenas dois milhões de dólares.
Eu poderia escolher o Porsche pelo simples fato de fazer aquele vendedor engolir suas provocações. Porém, o modelo 918 Spyder era muito chamativo. Os outros dois eram carros acima da média, porém não eram raridades nas ruas, cumprindo meu objetivo de não chamar muita atenção, apenas o necessário. Estava decidido, seria o Mustang.
– Eu quero o Mustang – disse.
O vendedor simplesmente riu. Sua risada alta ecoava pelo local. Ele estava zombando de mim.
– Estou falando sério – afirmei com firmeza na voz. Para suportar minha seriedade retirei o cartão sem limites do bolso e estiquei em direção ao rosto do vendedor.
Sua risada desapareceu. Ele analisou por alguns segundos o cartão em total silêncio, desviando seu olhar algumas vezes em minha direção.
– Ter um cartão sem limites não significa que você vai conseguir comprar um carro com esse valor agregado, garoto – o vendedor disse sério.
– Vamos tentar? – retruquei, sorrindo.
Sem mais palavras o vendedor virou-se e foi em direção à escada. Mesmo sem ser convidado o acompanhei. Enquanto andava, passei a mão suavemente pelo bolso da mochila, sentindo as duas .50, não sabia ao certo quando precisaria utilizá-las.
Subimos as escadas e entramos numa sala. O segurança nos acompanhou e ficou parado no lado de fora esperando.
– Então – começou o vendedor. – Me passe o cartão. – disse, enquanto estendia a mão.
Entreguei o cartão sem dizer uma palavra. Aproveitei e peguei minha carteira de motorista, coloquei na mesa e deslizei em sua direção.
O vendedor ignorou o documento e simplesmente inseriu o cartão na máquina. Após digitar o valor, colocou a máquina na mesa e esperou eu digitar a senha.
Botão “confirma”.
Após alguns segundos a mensagem “Não aprovado” apareceu na tela.
“O que aconteceu?!” pensei.
– Garoto. Você desperdiçou meu tempo – o vendedor disse, enquanto retirava o cartão da máquina e jogava com desdém em minha direção.
“Porra! O que está acontecendo? Esse cartão não tem limites e a senha está correta!”
– Ei! – gritei, não era minha atenção, mas não pude controlar elevar minha voz. – Tente mais uma vez – disse, tentando disfarçar meu nervosismo e parecer o mais descontraído possível.
Aparentemente minha tentativa fora bem sucedida. O vendedor inseriu novamente o cartão na máquina, fez os procedimentos padrões e estendeu a máquina para que eu pegasse e digitasse a senha.
Peguei a máquina e digitei novamente a senha. 6278.
“Tem que dar certo”
A máquina estava demorando mais dessa vez para fornecer uma resposta. Um sorriso no rosto do vendedor aumentava a cada segundo de demora. Olhei para trás e percebi que o segurança estava no lado de dentro da sala, segurando uma pistola.
Foi então que a mensagem apareceu “Aprovado”.
Alívio inundou meu corpo e um sorriso vencedor apareceu em minha face, contrastando diretamente com a expressão de surpresa do vendedor.
– Quais documentos eu tenho que preencher? – perguntei.
O vendedor não conseguiu formular uma resposta. Sua reação foi abrir uma gaveta da mesa e puxar alguns contratos.
– Josh, pegue um uísque, do melhor, para o Sr. Mart.
“Hipócrita”
– Que seja o Blue Label, por favor.
O segurança olhou para o vendedor com um olhar de interrogação. Sua resposta foi apenas uma balançada de cabeça em sinal positivo.
Os próximos minutos foram ocupados por vistos e assinaturas em várias folhas de contratos. Entre um e outro eu bebia um pouco de uísque. Já estava na minha terceira dose, era melhor maneirar.
Consegui pegar as chaves do carro e sair da loja exatamente a meia-noite. Aquela hora Carlos (esse era o nome do vendedor) já era um dos meus melhores amigos, ou pelo menos agia como tal.
Dinheiro realmente comprava tudo, inclusive o afeto – falso – das pessoas.
– Até a próxima, Sr. Khelagar – disse Carlos, enquanto chacoalhava sua mão no ar.
Não retribui, apenas acelerei o Mustang e aproveitei o som do motor. Era a trilha sonora perfeita para aquele dia.
Meu celular no banco do passageiro mostrava que eu tinha trinta e sete horas e quarenta minutos.
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