In-Sanidade
2 Trinta e nove horas
Acho que estava na hora de trocar aquele meu velho Uno Vivace. Principalmente que agora eu poderia comprar qualquer carro.
Mas antes, era necessário comprar algumas roupas. Se eu fosse com as roupas que eu possuía atualmente provavelmente nem conseguiria entrar na loja de carros de luxo. Convenhamos, calça jeans, camisa preta amassada e um tênis Vans não é uma roupa que pessoas ricas usam.
Estava decidido, minha primeira parada seria uma loja de ternos e roupas mais sérias, já que eu não tinha nenhuma.
Antes de sair, guardei todas as coisas na bolsa, exceto o dinheiro. Não podia sair com quatrocentos mil dólares na rua. Coloquei trezentos e oitenta mil na caixa e a fechei. Não havia local mais seguro, pois apenas eu poderia abri-la, mas mesmo assim a escondi sob a minha cama de solteiro.
Finalmente me dirigi à porta do meu apartamento com a mochila nas costas. O elevador já estava no andar. Entrei e apertei o botão do andar da garagem, essa seria minha última volta em meu carro comum.
A única loja que eu conhecia próxima costumava fechar as 22h30m nos finais de semana e, para minha sorte, era sábado.
Consegui chegar enquanto a loja ainda estava aberta, eram 22h05m, mas por algum motivo os atendentes lançaram olhares desagradáveis na minha direção quando entrei na loja.
“Esperem até saber quanto irei gastar.”
Nenhum dos cinco atendentes – duas mulheres e três homens — moveu um músculo se quer para me atender, enquanto eu passava minhas mãos pelos diversos ternos pendurados.
Finalmente uma garota loira e baixa, que acabara de sair de uma porta ao fundo, veio em minha direção. Mas, antes de me entender, fez questão de olhar para seus colegas com ar de desaprovação.
– Em que posso ajuda-lo, senhor...? – ela disse, sorrindo.
– Senhor Val... Mart Khelagar. – respondi, tentando controlar meu nervosismo.
– Valmart? Como o mercado? – ela questionou, dando uma risada baixa, enquanto olhava para mim.
– Desculpa, é Mart Khelagar. – respondi, retribuindo o sorriso. Eu precisava me acostumar com aquele novo nome ainda.
Nos encaramos por alguns segundos em silêncio. Os olhos daquela garota eram lindos, praticamente dourados.
Não! Eu não tinha tempo para aquilo.
– Eu gostaria de comprar dez ternos, cinco pretos, três cinzas e dois azuis. Ah. Preciso que sejam do melhor tecido e que possuam caimento perfeito, pois meu empregador não tolera coisas de baixa qualidade. – disse com firmeza, esquecendo o nervosismo e a beleza da atendente. – Também preciso de algumas calças de sarja, camisas, cintos e sapatos sociais. – parei por um momento para pensar se havia esquecido algo. – E gravatas, por favor.
Quanto terminei de falar, olhei para Amber — finalmente conseguira ver seu nome no crachá, antes coberto por seus cabelos loiros longos — que claramente estava surpresa com o tamanho do meu pedido.
– Tudo bem. – disse, após alguns segundos tentando formular uma frase. – Me siga.
Eu a segui em direção aos provadores.
– Uma pergunta apenas. Os outros itens também serão dez itens de cada? – perguntou.
– Correto. E, peço um favor, me ajude nas escolhas das roupas.
Fiquei exatamente quarenta minutos dentro do provador experimentando diversas roupas escolhidas pela Amber. Felizmente não precisei realizar ajustes em nenhuma delas, o caimento de todas estava perfeito.
– O total da compra é trinta e sete mil, setecentos e oitenta e oito reais e quarenta e dois centavos. – Amber disse de forma calma, mas era aparente sua ansiedade com relação aquele número. – Qual será a forma de pagamento?
– Cartão de crédito.
– Gostaria de parcelar? – ela perguntou com receio.
– Não. – respondi, em nenhum momento tirando os olhos dela.
Ela pegou meu cartão e inseriu na máquina. Após alguns segundos a mensagem “senha” apareceu na tela.
“Senha? Qual é a senha desse cartão?” precisava descobrir rápido aquela informação, afinal, todos os olhos da loja estavam em mim. Que falta de atenção em não pensar naquilo logo quando peguei o cartão.
Foi então que percebi qual poderia ser a senha. Olhei para o teclado e apertei os números correspondentes as letras do meu novo nome.
Apertei 6 para o “M”.
Em seguida o 2. “A”.
O próximo número era o 7. “R”.
E finalmente o 8. “T”.
A máquina respondeu a sequência numérica com um apito baixo, seguido da frase “operação aprovada” na tela. Eu tinha conseguido.
– Amber, gostaria que aqueles funcionários me ajudassem a levar as coisas para o carro. – apontei para cada um dos cinco funcionários que não me atenderam quando entrei na loja. — Estou com um pouco de pressa.
A quantidade de roupas era gigantesca. Mesmo com os cinco acabei precisando levar algumas roupas para o carro. Sem contar o terno que já estava no meu corpo. Talvez eu tivesse exagerado nas compras.
– Até a próxima, Amber. – disse, enquanto ligava o carro e engatava a primeira marcha. – Espero que você esteja aqui nessa "próxima".
Minha próxima parada era a loja de carros de luxo que ficava a menos de dez minutos. Agora sim eu estava vestido apropriadamente para aquela situação.
No caminho para a loja fiquei pensando nos cinco funcionários da loja e em Amber. Aquela lição ao final da compra poderia ser muito pior. Poderia não. Pode. Eu ainda tinha trinta e oitos horas e alguns minutos de impunidade.
Aquele ideia gerava uma sensação que eu nunca sentira antes. Uma sensação ótima.
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