In-Sanidade
11 Trinta e duas horas
Notas iniciais
Minha visão estava turva. Para visualizar a estrada eu precisava forçar meus olhos, mas depois de um tempo nem isso era o suficiente. Conseguia ver apenas luzes e sombras passando rapidamente na frente do carro. Eu nunca sentira uma dor como aquela, ela era contínua e queimava cada vez mais a parte interna do meu ombro, onde estava o buraco da bala.
Eu já sabia que a bala não estava mais lá, Emily me disse.
– Acelera, Mart! – Emily gritou ao meu lado.
Eu não respondi. Estava cansado demais para abrir minha boca. Agora eu percebia, minha boca estava seca, meus lábios rachados. Era só um tiro no ombro. Por que eu estava tão mal?
Virei para o lado e pela primeira vez vi Emily perder a calma de maneira autêntica. Ela gritava e gesticulava, seus braços vindo em direção a minha roupa. Ela me chacoalhava e gritava algo que eu não conseguia entender. Eu tentava entender, mas meus sentidos estavam bagunçados. Foi então que ela me deu um soco na bochecha esquerda, fazendo com que eu retomasse o controle de mim. Ela estava gritando para eu olhar para frente, quando vi a luz se aproximando entendi o motivo. Girei o volante para direita e consegui nos tirar da colisão com um caminhão enorme.
Porém, o movimento brusco fez com que o carro virasse e fosse rolando em direção ao gramado do lado da estrada. Eu e Emily estávamos com o cinto de segurança, então ficamos olhando o carro girar e sentindo o impacto de cada vez que ele batia na terra com força. Os vidros laterais não aguentaram o terceiro impacto, jogando milhares de estilhaços em nós dois, senti vários pedaços rasparem na minha pele, abrindo pequenos cortes.
O carro deu mais duas. Três. Quatro voltas, até que os air bags foram acionados. Senti um deles no meu rosto, como se um boxeador estivesse me socando. Eu estava bem e ainda consciente, só não sabia por quanto tempo e se iria sobreviver, afinal, o carro poderia acabar caindo em um rio ou algo parecido.
Tentei olhar para o lado, mas era impossível, o air bag cobria minha visão totalmente, não conseguia dizer se Emily também estava bem. Mas sentia que as cambalhotas do carro estavam mais lentas. Até que finalmente acabaram, após mais de cambalhotas o carro parou e, por sorte, parou com as rodas no solo – ou o que restaram delas. Não queria nem ver como ele estava como um todo.
Comecei a mexer meus braços para desinflar o balão de ar que me protegia, eu precisava saber como a Emily estava. Saber se ela estava viva ou não. Ela era a única pessoa que poderia me dar as informações que eu queria.
Quando consegui escapar do air bag, sai pelo espaço em que anteriormente havia uma janela lateral. Senti pequenos cortes na minha perna enquanto eu saia – além dos diversos outros que eu já percebera durante o acidente — mas os ignorei, me preocuparia com eles depois.
– Emily! – gritei. – Emily! – eu gritava enquanto cambaleava para o outro lado do carro para ver como ela estava. Minhas pernas estavam fracas e meu braço machucado voltara a doer. Aquele não era um dia muito bom.
– Ei, pequeno Mart. – ela estava encostada no carro, com uma feição de que nada acontecera.
Novamente eu me questionava “Quem é essa menina?!”
Ignorei esse pensamento quando vi os machucados em diversos pontos do corpo dela, que iam desde o tornozelo até a orelha sangrando. Ela não estava bem, na verdade, ela estava tão mal quanto eu, porém não queria que eu visse isso. Ela era forte.
– Então você está bem. – eu disse.
– E você não tão bem? – ela brincou, sorrindo.
– É o que acontece quando você deixa um cara sem um braço dirigir um carro. – rebati.
– Vem, vou te ajudar.
– Agora você vai. – eu disse. – Por que?
– Porque você vai precisar estar bem, logo o Silva chega.
– Silva?
– O exterminador da Insanity. – ela disse, sorrindo.
– Você sabe até o nome do cara? – ela sabia de tudo, eu precisava fazer aquela garota abrir a boca e me contar algumas coisas. – Quem é você?
– Só uma ex-participante do programa. – ela respondeu. – Vamos, senta aqui que vou fazer um curativo nesse seu ombro.
Eu andei até onde Emily estava e sentei onde ela apontava com seu dedo indicador. Senti sua mão encostar no meu ombro suavemente e logo após arrancar sem esforço a manga do meu terno e da minha camisa.
Começava a sentir novamente minhas pálpebras pesadas. A visão voltava a ficar turva e o tempo começava a passar mais lentamente, para mim pelo menos.
– Pronto!
A voz de Emily me fez voltar novamente a realidade. Balancei minha cabeça. Emily estava ao meu lado de pé, diversos panos brancos agora ensanguentados estavam próximos de mim e outro pano amarrado no meu braço. Ela fizera o sangramento parar e prepara um curativo.
Quanto tempo eu fiquei fora?
– Ei, quanto tempo eu fiquei... – a bota de Emily na minha boca me impediu de terminar a frase. Eu apaguei.
–----
Acordei com alguém me chacoalhando violentamente. A violência era tanta que meu braço doía apenas pelo balanço. Esperava que fosse Emily me acordando, mas quando abri os olhos me deparei com um gigante.
Silva?
– Acorda, seu filho duma puta! – ele gritou, saliva voando na minha face.
– Me solta. – tentei escapar da suas mãos, mas não tive força.
– Cadê aquela vadia? – ele perguntou?
Emily.
– Quem? – agora ele não me chacoalhava mais, apenas apoiava suas duas mãos pesadas em meus dois ombros, impedindo que eu me movesse. A dor no ombro machucado era insana.
– Você sabe quem. – recebi um soco no rosto troca da minha mentira.
– O que faz você acreditar que ela está aqui comigo, seu idiota? – eu esperei pelo soco, mas não veio. Ele olhou para mim na tentativa de descobrir se eu estava mentindo ou não.
– Fala ou eu mato você. – uma arma surgiu de seu bolso. Ele a trouxe vagarosamente em direção ao meu rosto até encostar o cano na ponta do meu nariz.
Seus olhos estavam cheios de ódio. Ele era o Silva, fazia sentido todo aquele ódio. Porém, parecia um ódio antigo e não por mim, mas sim por Emily. Aquele ódio não era pra mim mesmo, ele não ia me matar, eu era o que dava dinheiro para a Insanity atualmente.
Aquilo fazia sentido, eu poderia arriscar meus próximos movimentos com base naquilo. Era um aposta, com uns setenta por cento de chance de ser bem sucedida. Valia a pena tentar.
– Não, você não vai me matar – eu disse. Ele ficou sem reação por alguns segundos. Eu estava certo.
– Matar não mesmo, espertinho. – um sorriso sádico dominava seu rosto. – Mas te fazer sentir muita dor é outra coisa. – Ele pegou a arma pelo cano e levantou o braço para bater no meu rosto com o objeto. Minha reação foi automática, levantei meu joelho com todas as minhas forças e o atingi no saco. Ele não esperava por aquilo e rolou para o lado com as duas mãos no saco.
Eu vi que ele soltara a arma e corri para pegá-la antes que ele se recuperasse. Ou pelo menos tentei correr, já que minhas pernas não responderam. Aparentemente desperdicei toda minha energia na joelhada.
Olhei para o Silva e vi que ele começava a se reerguer. Eu estava ferrado se não conseguisse me mover nos próximos segundos.
Juntei toda a minha força e consegui me ajoelhar no chão, agora era simples, eu precisava engatinhar uns dois metros e já pegaria a arma. Comecei a me arrastar de joelhos pelo chão em direção da arma. Silva estava de joelhos também, massageando seu estomago, ele não estava com pressa de levantar. Aquela situação dava prazer a ele, ele gostava da resistência da presa. Filho da puta! Se ele não se preocupava com a arma só podia ter um motivo, ele devia estar usando colete a prova de balas. Mesmo sem a arma eu já começava a pensar em como acertaria uma bala na cabeça daquele merda, era a única forma de mata-lo.
Agora estava a poucos centímetros da arma, eu precisava apenas esticar meu braço e pronto, eu poderia reagir aqueles ataques.
Estiquei meu braço e quando o abaixei para pegar a arma percebi aproximação de uma bota em direção ao meu rosto, novamente. Por reflexo coloquei as duas mãos na frente e amorteci o impacto, mas a força do chute foi o suficiente para jogar meu corpo para trás.
Abri um dos olhos e vi quem era, Silva. Ele vinha em minha direção e dessa vez nem se preocupara em pegar a arma, ele ia me espancar até eu dizer onde Emily estava. O problema é que eu não fazia ideia. Com certeza se eu soubesse eu falaria depois dela ter me nocauteado com um chute.
Meus olhos capitaram um vulto atrás de Silva. Quando olhei para o chão a arma não estava mais lá.
Em seguida ouvi um tiro e vi Silva parando.
Emily estava alguns metros atrás de Silva, ela pegara a arma e dera um tiro na perna direita do gigante. Mas o que parecia é que o haviam espetado com um alfinete, pois ele continuava de pé.
– Sério, Emily? – ele falou, sua voz estava mais grossa. Ele estava tentando assustá-la apenas com a voz.
– Pode parar Silva, você não me bota medo. – outro tiro, agora no pé direito. Ele permanecia em pé.
– Filha da... – ele começou.
– Sem faltar com educação, por favor. – ela disse, sorrindo. – Que tipo de esteroide você toma? Dois tiros e ainda está de pé. Incrível.
– Você não tem noção do que eu sou capaz – ele disse, enquanto caminhava em direção de Emily. Sua perna direita claramente dificultava a locomoção, mas só de ele conseguir andar já era inacreditável. – Eu vou te destruir, seu pedaço de merda. Mas antes eu vou te amarrar, tirar sua roupa, meter meu pau nessa sua bocetinha apertada, fazer você me chupar sem parar...
– Que repugnante, Silva. Cadê sua classe? – ela ouvia cada uma das palavras dele, mas nenhuma surtia efeito.
– Eu vou arrombar o seu cu, sua puta. Vou fazer você gritar de dor e depois vou te cortar pedaço por pedaço, com você viva para assistir cada parte do espetáculo – a crueldade daquele homem despejava como um rio abundante em água. Ele não tinha limites.
– Acabou? – ela perguntou?
– Você sabe bem que não. Vem cá me chupar, como sua mãe costuma fazer. – ele abriu o zíper e retirou o membro da calça. Felizmente eu não conseguia ver, pois ele estava de costas para mim. Emily ignorou aquela atitude e continuou encarando Silva. Só que dessa vez, seu olhar estava frio e a feição de menina desaparecera.
– Você merece... – ela disse, sem emoção.
– Mereço o que? Vai vir fazer o trabalho da sua mãezinha? É isso que eu mereço?! – ele gritava cada uma das palavras e se engasgava em risos.
– Não. Isso.
Ela apontou a arma para a cabeça de Silva e a abaixou lentamente até a altura do seu pênis e atirou. BUM!
Ele não conseguiu ficar em pé depois daquele terceiro tiro.
– Vamos Mart! – ela disse, enquanto me ajudava a levantar do chão. – Agora que você me ajudou, eu vou retribuir com um pouco de sinceridade.
Nós dois entramos no carro do Silva, um Camaro preto. Ela me colocou no banco do motorista e entrou pela porta do passageiro.
– Dirige – ordenou.
– Não estou em estado... – comecei.
– Pode dirigir com calma.
– Ainda assim...
– Mart, eu preciso que você dirija para esse local – apontou para o GPS.
– Mas...
– Mart, eu não consigo dirigir – ela confessou.
Ela estava sendo sincera naquele momento. Emily realmente não sabia dirigir. Era estranho uma garota daquelas não conseguir fazer uma coisa tão simples. Mas não discuti, apenas girei a chave e acelerei o carro.
Pelo retrovisor, vi Silva se reerguendo do chão com dificuldade. Esperava não encontra-lo nunca mais. O ódio dele seria muito maior depois desse dia.
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