In-Sanidade

1 Quarenta horas


Notas iniciais
O que você faria se tivesse 40 horas para fazer tudo, exatamente tudo? Sem consequência alguma.

E realmente a caixa preta, com as letras “i” e “n” em branco, estava em cima da minha cama.

E isso tinha apenas um significado: eu estava dentro. Eram 21h25min.

Eu não sabia ao certo o que fazer. Poderia abrir a caixa ou não, mas mesmo a ignorando talvez o tempo já estivesse contando e, consequentemente, eu já estaria participando.

Decidi abrir. Que mal iria fazer? Aliás, seria divertido saber o que de tão surpreendente escondia aquela objeto feito de metal. Afinal, diversas pessoas gostariam de estar no meu lugar. Meus amigos ficariam mortos de inveja se soubessem do que estava acontecendo.

Andei até a cama e analisei a caixa. Notei que ela não possuía tampa ou qualquer separação para que fosse aberta. Era um cubo perfeito e maciço sem nenhuma fechadura, dobra, ou qualquer forma de abri-lo.

– Que porra é essa? – perguntei em voz alta. Aquilo não fazia sentido.

Comecei a passar as mãos pela superfície e não consegui encontrar nada, nem um botão. Nada. Finalmente coloquei uma mão em cada uma das extremidades e levantei o objeto para ver se havia algo na parte inferior. Antes mesmo que eu pudesse olhar, um som baixo saiu da caixa, uma espécie de apito. A soltei na cama imediatamente e observei tentando entender o que estava acontecendo.

Uma pequena luz branca surgiu em um ponto da caixa. A luz percorreu em linha reta em volta do objeto, como se o estivesse cortando, separando a parte de cima da inferior. Então eu entendi.

Olhei para minhas duas mãos. Aquela caixa possuía uma espécie de sensor de reconhecimento digital. Não conseguia lembrar nenhum boato sobre isso.

Ou deixaram de fora, ou era uma novidade. E que novidade.

Retirei a parte superior sem dificuldades. O conteúdo não me surpreendeu, era exatamente o que diziam. Armas, dinheiro, documentos falsos, celulares, um notebook e mais dinheiro, todos posicionados sobre um acolchoado de couro embutido no fundo da caixa. Mas a falta de surpresa foi compensada pelo sentimento de euforia. Eu simplesmente não conseguia acreditar no que via. Era tudo real, armas de verdade e mais de cinquenta mil dólares.

Minha indiferença anterior agora não mais existia. Eu definitivamente queria participar.

Decidi então retirar todos os itens da caixa, um por um.

Comecei pelas armas, duas Desert Eagle .50. Segurei cada uma delas, sentindo o peso — estavam carregadas — e as coloquei sobre a cama. Confesso que nunca fui fã de armas, e só sabia dessa informação porque meu avô costumava me forçar a ir ao seu clube de tiro e ficar atirando em alvos sem vida.

O segundo item foi o notebook que era, na verdade, um MacBook. Não sabia exatamente sua configuração, afinal nunca fui adepto aos produtos da Apple, mas ele era extremamente fino e media menos de trinta centímetros. Seria fácil transportá-lo.

Enfileirei os celulares um ao lado do outro. Eram quatro ao todo. Dois Samsumg, um modelo A5 e o outro modelo 6S Edge. O segundo nem tinha lançado ainda. Inacreditável! Já os outros dois celulares eram ambos Iphone 6.

Olhei novamente para a caixa e percebi um saco de pano onde antes os celulares estavam. Peguei o saco e soltei o laço que prendia a abertura. Lá dentro continha oito capas para os celulares, quatro preta com as iniciais “i” e “n” em branco e quatro brancas com as iniciais “i” e “n” em preto.

“Capinhas de celular?” pensei. “Um tanto quanto desnecessário, mas tudo bem”

Continuei a retirar os itens e distribuir pela cama. Posicionei os documentos falsos em um local separado, sem tomar muito tempo com aquela tarefa, mas notei que continha desde identidades até passaportes. Finalmente retirei os rolos de dinheiro da caixa. Era um total de dez. Pela grossura deduzi que cada um era composto por cem notas, todas de cem dólares. Eu tinha cem mil dólares na minha frente naquele momento.

Não restará nada na caixa, além do acolchoado de couro preto. Passei a mão pelo tecido e foi então que percebi que aquilo não era simplesmente um acolchoado, mas sim uma mochila. Imediatamente a retirei de dentro da caixa e a chacoalhei para que desdobrasse. Ela não estava vazia.

Abri a mochila e nessa hora realmente não pude conter a surpresa. Seu conteúdo era de munição para os revólveres e mais rolos de dinheiro, no mínimo vinte.

Então além de ser um participante eu estava rico.

Algo interrompeu meus pensamentos. Um som emanava dos aparelhos eletrônicos que estavam na minha cama. Abri o MacBook e fui surpreendido por uma tela preta com aquelas mesmas iniciais cravadas em preto, acompanhadas de uma voz – não era possível distinguir o sexo da voz, pois estava alterada. Desbloqueei os celulares e aquilo estava acontecendo em todos eles.

– Olá Valt Petterson, filho de Jan Petterson e Kara Adams Petterson. Você, pequeno garoto de vinte e cinco anos é o participante da mais nova edição do nosso querido e exclusivo reality.

“Ok. Então eles sabiam informações encontradas em qualquer lugar, Facebook, por exemplo. E daí?”

– Acreditamos que após ouvir diversos boatos sobre nosso programa, já tem uma bela noção de como ele ocorre, mas iremos explicar da mesma forma. Atenção, pois isso ocorrerá apenas uma vez. O que não será uma dificuldade para o senhor, que possui uma inteligência impar – evidenciada principalmente em diversos campeonatos federais de xadrez e no feito conseguir entrar nas melhores universidades sob um nome falso, e tudo isso, apenas com 14 anos.”

Essa segunda informação já não era algo de conhecimento geral. Na verdade, apenas eu sabia. Esconderá esse fato de todos a minha volta, pois queria passar por um estudante normal durante minha vida acadêmica. Ser um prodígio no xadrez era aceitável, agora ser um gênio que tinha a capacidade de entrar na melhor universidade do país já era demais.

“Droga” pensei. “Eles realmente sabiam de tudo. Os boatos estavam certos”

“A partir deste momento nosso contador iniciará e durante as próximas 40 horas você poderá fazer tudo que quiser, sem sofrer nenhuma sanção. Ou seja, nenhuma ação tomada nessas 40 horas será punida. Nenhuma.”

“Somos uma organização gigantesca, composta por milhares de pessoas. Possuímos contatos e agentes externos em todas as áreas possíveis, em todos os países. Isso garante que nada acontecerá com o senhor durante ou após as 40 horas.”

“Porém, essa influência não impedirá que o senhor seja preso. Afinal, não controlamos todo o sistema e sem o devido cuidado suas atitudes poderão ser flagradas por alguém que não faz parte da nossa organização e você será preso. Nós o soltaremos, mas essa prisão tomará parte das suas 40 horas, e aconselhamos que as utilize sem desperdiçar um minuto sequer. Então, seja inteligente em suas atitudes.”

“Mas isso é um conselho apenas. Regras nós estipulamos apenas duas. Serão apenas 40 horas, nem um segundo a mais ou a menos e seu nome não será mais Valt Petterson, mas sim Mart Khelagar Black – conforme está nos documentos.”

“Aproveite suas 40 horas.”

Após essa última frase o silêncio invadiu meu quarto. Minha única ação foi encarar a tela preta com aquelas duas letras que formava a palavra “in”, ou “dentro” em inglês.

“Um aviso” a voz retornou. “Olhe todos os bolsos da mochila.”

A tela do MacBook desligou juntamente com as telas dos celulares. Peguei um deles e apertei o botão do meio para ativar a tela. Lá estava um contador regressivo, eu tinha 39 horas e 50 minutos. O que eu faria agora, perder alguns minutos ou horas planejando minhas horas seguintes ou sair sem rumo e ver o que aconteceria?

Antes de tomar minha decisão verifiquei os bolsos da mochila e encontrei um cartão preto. Era um cartão de crédito sem limites no meu nome, alias, no meu novo nome.

Definitivamente eu ia sair e aproveitar, mas não sem rumo.

Notas finais
Pensei nessa história uns dois anos atrás, porém nunca tive a coragem de iniciá-la. Sempre com dúvidas sobre como desenvolver a história, qual o tipo de narrativa, entre várias outras dúvidas.Mas eu consegui, finalmente. E gostaria de compartilhá-la com leitores de todo o Brasil. Essa é a única forma que consigo abrir minhas história aos outros - a timidez domina.Espero que gostem, apreciem e comentem, tanto sobre a história como quais atitudes vocês tomariam no programa. Querendo ou não, a participação dos leitores é o que incentiva os escritores a continuarem suas fics :D