Imperium
23 XXIII - Família Real
Jonathan bateu seus dedos em sua mesa, contemplativo. O pajem enchia o cálice em sua frente com vinho, suas sobrancelhas loiras franzidas em concentração. Ele não falava nada; seu trabalho era servir em silêncio, sem ser visto, mas Jonathan sempre via aqueles perto de seu corpo. Sempre observante. Não queria deixar ninguém se aproximar demais.
O menino se afastou, segurando a garrafa de vinho em sua mão. Os dois estavam sozinhos no escritório do Rei e havia uma pilha de papeis na frente de Jonathan, pedidos esperando para serem aceitos. Soldados, na maioria das vezes, procurando pensões de tempo servido na Guerra de Sucessão Espanhola. Apesar dos sete anos desde o fim do confronto, estava claro que muitos não receberam o devido dinheiro.
Desde a morte do pai, a maioria de seus dias era passado assim. Assinando papéis, presenciando reuniões do conselho. Consertando todos os problemas que Stephen Herondale ignorou durante seu reino de quase cinquenta anos. Era frustrante em muitas horas, mas bom. Jonathan se descobriu gostando do trabalho. Ter alguma coisa para fazer em suas mãos, sabendo que o assinar de um papel seu poderia mudar a vida de uma família era revigorante.
Enquanto lia os pedidos, ele mantinha um olhar cuidadoso em seu orçamento. Anson Pangborn havia entregado aqueles papéis de manhã, a pedido dele. Jonathan queria estar ciente do estado dos cofres do país.
Ele havia usado parte do dote de sua esposa para as reformas no palácio, mas ainda restavam seiscentos mil guldens no governo. Não seria o suficiente para pagar todos os soldados, mas muitos poderiam voltar para casa e comprar comida e roupas para suas esposas e filhos, agradecendo ao novo Rei que tornou tudo aquilo possível.
Seu novo status como monarca era quase estranho. Como um casaco mal ajustado, que não cabia em seu corpo. Ele sempre hesitava ao tomar uma decisão, temendo que alguém fosse entrar em sua sala e lhe tirar da mesa enquanto gritava: Esse não é o seu lugar! Invasor!
E aquele não era seu lugar. Ele nasceu como um Duque de York, o segundo filho. Aquela cadeira deveria ser de William. Aquele castelo deveria ser de William. Jonathan só bebia daquela taça devido a uma maldita doença, a maldita tuberculose.
Se ele falasse sobre essas inseguranças com Clarissa, ela diria que ele ser rei era o desejo de Deus. Apenas o Senhor poderia retirar uma vida e ele havia escolhido William. Jonathan era seu herdeiro, seu escolhido. Ele estava vivendo o caminho lhe dado por seu Deus.
Talvez ela estivesse certa. Jonathan não poderia saber. Nunca foi religioso. Pelo menos, não desde a morte de sua mãe. Aos oito anos, ele ainda não entendia os problemas e os testes da cama de parto, então simplesmente pensou no Deus cruel que tirou a coisa mais preciosa de sua vida. Todas as noites, ele se ajoelhava em sua cama e pedia por ela, para que ela voltasse a viver. Quando o Senhor obviamente não o respondeu, ele não conseguiu mais acreditar em sua imagem.
Mas isso não importava agora. Ele era um rei. Ele era o chefe da Igreja da Inglaterra. Tinha coisas mais importantes em sua vida do que a preocupação com sua alma imortal.
E ele era um pai.
Um sorriso tomou seus lábios ao se lembrar de seus dois filhos. Christopher e William. Nascidos com apenas algumas semanas entre eles, os dois irmãos já mostravam pequenas diferenças em suas personalidades. William era quieto, apenas chorando quando queria leite ou precisava de uma troca, enquanto Christopher parecia estar sempre irritado, gritando e acordando todas as outras crianças do berçário real. Para proteger os filhos de seus nobres, Jonathan permitiu que movessem para um quarto privado, onde ele sempre estaria acompanhado de uma babá e uma ama de leite. Ao olhar os dois irmãos, tão diferentes, Jonathan gostava de rir e pensar como cada um havia puxado a própria mãe.
Pensar em Jessamine não lhe agradava. Não sentia sua falta, mas sim, raiva. Raiva de si mesmo por ter se permitido lhe dar tanto tempo, por ter colocado um filho dentro dela. A moça tinha muito poder sobre o Príncipe de Gales, mas ela não teria nada sobre o Rei da Inglaterra.
Ele não sabia se ela iria ser sua última amante. Gostaria de pensar que sim. Gostava de pensar em si mesmo como uma pessoa forte, capaz de ignorar as tentações da carne fora de sua cama de casamento.
Talvez. Nunca era possível saber o futuro. Pelo menos, não com certeza. Jonathan não gostou de pensar na bruxa de Jessamine, e as mentiras sussurradas em seu ouvido, mas a memória veio aos seus olhos mesmo assim.
Feitiçaria, ele pensou, irritado. Nada que um Rei deveria perder sono sobre. Decidiu, então, que não iria acreditar nas besteiras murmuradas por ela. Quatro filhos nascidos, três sobreviventes. O pai havia morrido ao câncer em seus pulmões, não envenenado por ódio e ganância.
Rex e Caesar. Ele desejou cuspir as palavras. Seus filhos e netos seriam Reis da Inglaterra, Escócia e Irlanda, apenas. Ao trono austríaco, iria subir a linhagem de Sebastian Morgenstern, o irmão de Clarissa e seu cunhado.
Jonathan não era uma pessoa ambiciosa e não iria criar seus descendentes para serem. Eles deveriam se contentar com o que tivessem, ou morrer tentando.
Pegou um papel de sua frente e a pena, molhando a ponta em um pote de tinta preta. Jonathan não soube o que iria escrever até já ter começado, riscando o papel com a pena, formando letras redondas e palavras cumpridas. Ele pensou no próprio pai e o que ele faria em sua situação, mas a ideia lhe trouxe uma risada aos lábios. Stephen Herondale se casou apenas duas vezes. Linette Owens era uma dama galesa, escolhida para aquietar rumores de rebelião no país, enquanto Céline Montclaire era filha do nobre mais poderoso da França. Seu amado pai nunca esteve nessa mesma situação.
Caro senhor,
Escrevo-te como Rei, filho e pai. Deve já saber de minhas boas notícias, e como a corte inglesa festeja em nome de sua filha. Minha esposa deu à luz a um varão, meu herdeiro, e seu primeiro neto. O primeiro de muitos, assim espero.
Como todos os outros novos cristãos que chegam ao mundo, meu filho irá precisar de um nome e uma cerimônia de batismo. Seria um prazer para todos se o senhor pudesse agir como padrinho. Apesar da cerimônia ocorrer segundo ritos protestantes, todos irão entender o caso quando se fala de seu neto.
Espero sua resposta em breve.
Jonathan Christopher I
Ao terminar, ele selou a carta com seu brasão de armas: três flores-de-lis por sua reivindicação ao trono da França, três leões correndo pela Inglaterra, um leão rampante pela Escócia e a arpa céltica, símbolo milenar da Irlanda. Jonathan não sabia como os galeses se sentiam com sua exclusão, e nunca pensou em perguntar.
Jonathan virou-se para o menino ao seu lado, ainda segurando sua jarra de vinho.
— Leve isso ao correio — disse, usando sua voz de Rei. — A carta deve ser entregue ao meu sogro em Viena.
O pajem assentiu, colocando o vinho de lado, e pegou a carta de Jonathan, sem olhá-lo nos olhos. Ele saiu com passos ligeiros, quase temerosos. O Rei sentiu pena dele quando percebeu ser apenas um menino, com menos de doze anos de idade. Deveria ser filho de servos e subiu no ranque em poucos meses, ganhando um lugar perto do monarca. No futuro, quando Jonathan fizesse inimigos e irritasse pessoas em lugares poderosos, ele poderia ser usado em uma conspiração contra sua pessoa. Seria fácil demais colocar um veneno em seu vinho, matando-o antes que ele pudesse chamar por ajuda.
Quando Jonathan ficou sozinho, ele apoiou seu rosto em sua mão, lendo os papéis em sua frente. Assinou alguns pedidos, anotando seus gastos com cuidado, e continuou seu trabalho. Era difícil e demorado, mas ele gostava.
O menino ainda não tinha voltado quando alguém bateu na porta, Anson Pangborn colocando sua cabeça para dentro do cômodo.
— Vossa Majestade — disse, entrando completamente e fazendo uma reverência. — A Viscondessa de Rochester está aqui para lhe ver.
— Sim — Jonathan respondeu. Estava esperando por Theresa. — Deixe-a entrar.
Anson assentiu, saindo do escritório. A porta se abriu e Theresa Carstairs, nascida Starkweather, entrou. Ela usava um vestido verde a la Française. As delicadas anquinhas laterais e pregas nas costas lhe davam a impressão de estar flutuando pelo cômodo. Em seu peitilho, havia três laços rosados, combinando com os laços brilhantes em suas mangas, e uma longa cauda verde caía de seus ombros. Um largo colar de diamantes pendia em seu decote, e ela usava brincos de diamantes também, com pequenas pedras presas em seu cabelo penteado para cima. Tessa havia se vestido como uma moça da corte ao ter sido convocado pelo Rei a vir para Hampton Court.
— Vossa Majestade — ela disse, fazendo uma reverência. — Eu esperava seu convite há muito tempo.
Jonathan não se levantou. Naquele dia, ele havia se vestido como um rei, usando um longo casaco de veludo vermelho, com as pontas do tecido bordadas com fios de ouro. Suas calças também eram vermelhas, parando em seus joelhos, e suas longas meias brancas estavam imaculadas de sujeira. Ele usava sapatos pretos com um fecho de ouro e seus cabelos foram penteados até brilharem.
— Sente-se — ele disse, apontando a uma cadeira em sua frente. — Há muito a conversar.
Tessa assentiu e se sentou, colocando as duas mãos em seu colo. Ele conseguiu ver em seu rosto como estava desesperada por respostas, como a curiosidade mordiscava seus membros e como ela queria lhe perguntar. Devido ao ranque, ela não poderia iniciar uma conversa com ele, e precisava esperar por sua boa vontade.
Jonathan pensou no menino em Rochester e seus olhos dourados, o cabelo negro igual ao do pai. Ele suspirou e disse:
— Diga-me, Tessa, você conhece a história de William, o Conquistador?
A Viscondessa relaxou visivelmente e balançou a cabeça em concordância.
— Sim, meu Rei — murmurou. — Ele era o Duque da Normandia e invadiu a Inglaterra buscando um trono. Conseguiu e Vossa Majestade é descendente dele por meio de sua neta, a Imperatriz Matilda.
— Exatamente — Jonathan disse. — Você sabia que antes de ser chamado de William, o Conquistador, ele era conhecido como William, o Bastardo?
As bochechas de Tessa se encheram de cor e ela balançou a cabeça.
— Não, meu Rei — disse. — Não estava ciente desse lado da história.
— Sim. — ele balançou a cabeça. — William da Normandia nasceu como um filho ilegítimo, mas ascendeu ao trono ducal aos oito anos quando seu pai morreu antes de poder ter um filho legítimo. Suponho que o século XXI fosse diferente nesse quesito. A ligação de sangue era mais importante do que um papel não assinado. — ele suspirou ao ver o olhar de completo terror no rosto de Theresa, a mulher que um dia foi amante de seu irmão. Jonathan abaixou seu tom e suavizou sua voz, tentando ficar mais aberto e amigável. — Eu tenho um filho agora. Um menino bonito e saudável. Ele deverá ter um trono dourado em seu futuro, sem nenhum... primo para ameaçar sua vida e a de seus herdeiros.
— Eu entendo sua preocupação, Vossa Majestade — disse Tessa. — James não irá ser uma ameaça aos seus filhos. William nunca soube de sua existência e ele não sabe quem é seu verdadeiro pai. — ela mordeu o lábio inferior, ansiosa. — Eu nem queria lhe contar, colocar essa pressão em seus ombros. William sempre falou tão bem de você... Mas meu marido achou que você precisava saber. Jem passou um tempo na corte após a morte do Príncipe, e viu como você ficou. Seu luto. — ela respirou fundo, seus ombros relaxando, e ele sentiu quase pena e arrependimento em ter causado tantas emoções nela. — Perdoe-me, meu Rei. Nunca queríamos que você colocasse a vida de James sobre a de seus filhos. Apenas queríamos te mostrar como ainda havia um pedaço de William vivo, crescendo e correndo por aí.
Jonathan sorriu. Ele pensou no pequeno James novamente, seus olhos e seu cabelo, suas bochechas. Ele pensou em seu irmão, levado pelo mal da tuberculose. William era tudo; ele era a vida, a diversão. A esperança da monarquia Herondale andando em duas pernas. Ele ainda sentia a sua perda vividamente.
— Eu sei — respondeu. — Eu entendo. Jem nunca foi ambicioso e vocês dois amavam meu irmão. Sei que querem apenas o melhor para seu filho... — Tessa assentiu, abaixando a cabeça. Assim como eu.
— O quê? — Theresa Carstairs disse, erguendo o rosto. Ele atribuiu o choque a sua falta de respeito. — Como assim?
— Irei prover pelo pequeno James — Jonathan murmurou. — Pagarei por sua educação, suas vestimentas. Enquanto eu estiver vivo, nada lhe faltará, mas eu tenho uma condição. Ele nunca poderá saber quem foi seu progenitor. Legalmente, ele é filho de James Carstairs e irá permanecer assim. Quando crescer, ele se tornará o Visconde de Rochester, não o Rei da Inglaterra.
— Oh! — Tessa suspirou, se erguendo. Jonathan não soube como reagir quando a mulher deu a volta em sua mesa, caindo de joelhos em sua frente. Ela puxou sua mão e beijou o anel de rubi em seu dedo indicador, lágrimas descendo por suas bochechas rosadas. — Obrigada, Jonathan. Muito obrigada. Meu Rei é piedoso, misericordioso. Deus te abençoe, Vossa Majestade.
Ele entendia o porquê de tudo aquilo. Em poucas palavras, Jonathan havia perdoado seu sobrinho do crime de ser bastardo. Não era ilegal, exatamente, mas um filho do sangue de William poderia ser uma ameaça para ele. Uma ameaça melhor eliminada, ou deixada para morrer na sarjeta. Prometer seu dinheiro ao menino era como dizer: não irei fazer nada contra ele.
Entendia isso, mas não significa que ele compreendia a necessidade de ela se jogar aos seus pés.
Jonathan olhou para os lados, como se procurasse alguém para lhe retirar daquela situação, mas, claramente, o quarto estava vazio. Ele havia mandado seu pajem para longe e encontrou a dama sozinho. Sem ver outra opção, ele se levantou, segurando a Viscondessa pelos cotovelos.
— Vossa Graça deve se erguer — tentou dizer, mas ela não o ouviu. Estava chorando e sussurrando coisas. Chamou por James, por William e por seu pai, enquanto balbuciava graças e pedidos por saúde à Jonathan e sua família. — Tessa, por favor. Levante-se.
Ele tentou levantá-la, ou apenas levá-la de volta a sua cadeira, mas suas saias e anáguas o forçaram de volta ao lugar. O tecido se acumulou no chão, como um mar verde borbulhando por entre as peças de madeira que faziam o piso, e ele ficou preso onde estava.
Assim, ele não conseguiu ver a próxima coisa a acontecer. A porta se abriu de supetão e dois homens entraram, um atrás do outro. Anson Pangborn parecia estar perseguindo o moço a sua frente, tentando agarrar seu braço, mas o outro homem, um cavalheiro alto e de cabelos castanhos curtos, o empurrou para longe como se não fosse nada mais que um simples inseto em sua frente.
— Vossa Graça não pode entrar agora— disso o secretário pessoal de Jonathan. — O Rei está ocupado!
— Meu primo sempre terá tempo para me ver — respondeu o Duque de Buckingham, virando-se para ele. Ao ver a cena em sua frente, um sorriso tomou seus lábios, quase como uma chacota.
Jonathan sentiu vontade de matar alguém. Anson, Wayland, Tessa; qualquer um dos três seria o suficiente para satisfazer sua raiva.
Ao invés de cometer assassinato, ele simplesmente respirou fundo e se forçou a se acalmar.
— Perdoe-me, Vossa Majestade — Anson murmurou, parecendo sinceramente arrependido. — Ele simplesmente me ignorou quando disse que você estava em uma reunião.
— Está tudo bem, Anson — Jonathan disse, desconfortável com tudo aquilo. A presença de Wayland o irritava, acabava com suas forças e suas defesas. — Por favor, leve a Viscondessa até um quarto confortável onde ela poderá se recompor e deixe-me sozinho com o Duque de Buckingham.
Ele não iria chamá-lo de primo. Não agora e nunca mais. Saber que dividia sangue e ascendência com aquele... imprestável era demais para ele.
Anson Pangborn assentiu e andou até Jonathan, pegando a pobre Theresa Starkweather em seus braços. Ele a levou para fora, sussurrando alguma coisa em seu ouvido, talvez palavras de conforto? Jonathan não sabia dizer realmente.
Ele foi deixado sozinho com Wayland, os dois primos se olhando com todas as emoções divididas entre eles. Desprezo e indiferença, se encontrando juntos em uma dança verde e dourada.
— Sabe — Jonathan disse, quebrando o gelado silêncio presente na sala. — É costume se curvar na presença do Rei.
Wayland sorriu o seu timo de sorriso mais letal. Era como se ele disse, Eu farei o que eu quiser e não tem uma coisa que você possa fazer sobre isso. Ele deu uma pequena reverência extremamente relutante, mas ainda sorrindo por todo o movimento. Quando ele se levantou, disse:
— Aposto que você adora essa parte do trabalho, não é mesmo, primo? — ele cuspiu a última palavra como se fosse veneno. — Suponho que congratulações são necessárias. Parabéns. Você tem um filho agora.
Jonathan acenou com a cabeça.
— Sim — disse. — Ele é meu herdeiro agora. Em breve, o nomearei Príncipe de Gales. Meu menino tomou seu lugar como o primeiro na linhagem de sucessão. Deve se acostumar com isso. Em breve terei outros filhos, e eles também o empurrarão para mais baixo na linha e mais longe do trono.
— Exatamente — Wayland retrucou. — A vida tem momentos duros como esse. — Jonathan se perguntou o que ele quis dizer com tudo aquilo. Nunca era possível saber quando o assunto era o Duque de Buckingham. — Estou aqui para lhe avisar, entretanto.
Jonathan deu um passo para trás e pensou nos guardas colocados por Alexei de Quincey do lado de fora de seu escritório. Se ele gritasse, estariam ali em menos de um minuto.
— Me avisar? — repetiu.
— Sim — disse Wayland. — Eu estou casado agora. Com nossa amável prima, Grace Cartwright. Estamos muito felizes juntos. Como nosso soberano, você deve saber antes de todos. Em breve, farei um anúncio para a corte.
A raiva veio a Jonathan em pequenas ondas, se acumulando em seus membros como uma inundação. Ele sentiu seu rosto queimar com a humilhação, todo o corpo tremendo. Precisou respirar três vezes para não o expulsar de seu escritório naquele mesmo momento. Ficar ali, encarando o primo, era como ser envenenado lentamente.
— Se sabe que eu devo ser o primeiro a saber, então também sabe que eu preciso saber antes do casamento — ele disse, sentindo o gosto de cinzas em sua boca. — Você e Lady Grace são membros da família real. Membros de minha corte. Minha permissão era necessária para esse matrimônio ocorrer.
— E, no entanto, aqui estamos nós — Wayland respondeu. Ele sorriu novamente e Jonathan viu como seus dentes eram brancos e afiados. — Eu espero que você entenda a urgência do amor, meu querido primo. Quando o pai de Grace me deu sua permissão para o casamento, não podemos esperar.
— Mentira — disse Jonathan. — Você poderia esperar, mas não quis. Quando minha esposa anunciou sua gravidez, você sabia que seu lugar na linhagem de sucessão estava ameaçado e correu para assegurar a legitimidade de sua descendência. Grace é neta de uma princesa Herondale, irmã mais nova de meu pai, assim como você. Se ela tiver um filho homem, ele terá uma reivindicação maior ao trono do que você mesmo. Terá Herondales dos dois lados de sua família. Você não se casou por amor, querido primo, mas sim, por ganância.
O sorriso de Jonathan Wayland cresceu ainda mais, como se isso fosse possível, e seus olhos se escureceram. Jonathan Herondale entendeu então que havia acertado nas suas palavras.
— Mesmo assim, você precisa compreender. O casamento ocorreu na frente de um padre, com muitas testemunhas, e já foi consumado. Será impossível anulá-lo agora — murmurou. — Não se preocupe, meu primo. Quando Grace me der um varão, darei seu nome para ele.
Está bem.
O rosto do Duque de Buckingham caiu para trás quando Jonathan o socou. Seus dedos ardiam, mas ele não se importou, dando a volta na mesa. Enquanto Wayland tentava se recompor, ele moveu seu cotovelo, o socando novamente e sangue borbulhou do nariz quebrado de seu primo.
— Desgraçado! — ele xingou. — Maldito! Filho de uma meretriz!
O primo riu, colocando uma mão no nariz em uma tentativa falha de estancar o sangue.
— Vossa Majestade não deveria ter feito isso — disse Wayland, finalmente fazendo uso do respeito merecido ao rei. Jonathan não viu quando o outro se mexeu, apenas piscou e estava no chão, olhando para o teto enquanto tentava recuperar o fôlego. Suas costas doíam com a força de sua queda e logo, o Duque de Buckingham subiu em cima dele, desferindo seus próprios socos contra o Rei.
As bochechas de Jonathan doíam, a carne pulsando embaixo de sua pele, e ele tentou chutar ou arranhar seu caminho para a liberdade. Wayland estava rindo, rindo!, enquanto o batia, murmurando coisas que o rei não conseguia ouvir.
Jonathan respirou fundo e desceu seu cotovelo no rosto do homem, batendo na pele macia acima de sua têmpora e isso foi o suficiente para desestabilizar o outro. Ele fez uso da distração para trocá-los de lugar, empurrando seus quadris e usando suas pernas musculosas para subir em cima de Wayland.
— Não sabe quanto tempo eu esperei para fazer isso — murmurou, erguendo sua mão dominante.
Os minutos se passaram lado a lado aos socos e tapas. Jonathan Christopher I, o Rei da Inglaterra, não soube dizer exatamente quanto tempo se passou enquanto ele batia no primo, apenas que logo seus dedos perderam a sensação. O sangue dos dois se misturava, junto com a saliva de seus gritos, e o riso eterno de Jonathan Wayland.
— Pare de rir! — ele disse. — Pare de rir! É uma ordem! Seu rei comanda! Pare de rir!
Em resposta, o Duque de Buckingham cuspiu e dois dentes caíram de sua boca.
Jonathan não aguentou mais. Ele se levantou, puxando o primo pelos braços. Wayland era tão magro que não foi impossível dominá-lo e levá-lo para fora do escritório, arrastando-o pelo cotovelo. Seus guardas pessoais estavam do lado de fora, como se discutindo se deveriam entrar ou não, mas o Rei os ignorou. Ele continuou andando pelos corredores, levando o primo pelo braço, e ouviu os gritos de damas que passavam por seu caminho. Imaginou que deveria estar sangrando. Conseguia sentir algo quente deslizando por seu rosto e sua testa estava começando a doer.
Mas ele não se importou. Jonathan arrastou seu primo risonho pelo braço até chegarem em uma das salas de jogos da corte. Jonathan ouviu novos gritos e suspiros, homens sussurrando em tom baixo, enquanto mulheres fofocavam. Todos se perguntando o que havia acontecido com o Rei e o Duque de Buckingham para eles estarem naquele estado.
Jonathan os ignorou. Não se importava com eles. Só estavam ali por tradição. Se pudesse, os expulsava.
Ele parou de andar, ou marchar, e jogou Jonathan Wayland ao chão como um criminoso. O primo ainda estava rindo, e ele pôde ver como os dois dentes da frente perdidos na briga faziam falta em seu sorriso.
— Ele não é mais minha família! — disse, a voz subindo uma oitava para que todos os ouvissem. — Ele não falará mais comigo, ou com aqueles próximos a mim. Ele não falará por mim. Jonathan Wayland está banido de minha presença a partir de hoje. — ele respirou fundo. Estava sem fôlego. — Se eu vir qualquer um de vocês conversando com ele, saiba que perderá qualquer resquício de meu favor existente.
Jonathan se virou e andou para longe, as risadas de Jonathan Wayland ecoando em seus ouvidos. Apesar da finalidade em suas palavras, ele não conseguia parar de pensar que havia feito exatamente o que Buckingham queria.
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Clarissa se sentou ao lado do Padre Enoch, as mãos juntas ao peito enquanto segurava seu crucifixo com força. Estava tensa, seus ombros paralisados, uma culpa pesada pairando sobre ela. Como católica, ela estava acostumada a fazer confissões, era um de seus hábitos semanais trazidos da Áustria, mas naquele dia, suas admissões eram particularmente problemáticas para si mesma.
— Perdoe-me, padre, pois eu pequei — ela murmurou, fechando seus olhos. — Duvidei daquilo que me era mais importante. Nos últimos dias, tenho me encontrado em dúvidas sobre as escrituras, sobre tudo que me foi ensinado em questão de religião. O catolicismo não me parece mais... — ela hesitou, duas mãos frias se fechando ao redor de seu pescoço, ameaçando enforcá-la por ousar dar voz aquele medo. — Certo.
— Todos na vida têm falhas em sua fé — Padre Enoch respondeu, as mãos postas sobre uma bíblia em cima da mesa. — Essas falhas nos mostram a verdadeira luz, e deixam nosso amor por Deus mais forte.
Ela balançou a cabeça. Como fazer seu padre católico entender sobre o questionamento em seu coração e o medo que levava a ela?
Durante toda a sua infância, Seraphina Morgenstern achou que Deus era o único a amá-la. Seus pais estavam sempre longe, ocupados com assuntos da corte, e Sebastian era cruel com todos. As governantas e babás temiam a sombra de seu pai, e nunca faziam nada que poderia irritá-lo, mesmo se isso significasse uma mão mais gentil durante as aulas de sua filha, ou a permissão para passar a tarde cavalgando como ela gostaria. Maia era uma amiga e companheira, mas tinha seus limites. Uma arquiduquesa da Áustria raramente podia passar todo o seu dia com a filha de sua ama de leite.
E agora, ela tinha dúvidas. Pensou na primeira noite romântica que teve com Jonathan, quando viu Alexander Lightwood e um de seus namorados.
— A bíblia foi mal traduzida, anjo — explicou, paciente. — Esse versículo fala sobre dois homens não se deitarem na cama de uma mesma mulher, considerando que apenas o marido se pode fazê-lo. O adultério é reprimido, não a sodomia.
— Eu li as palavras de Nosso Senhor em latim, Jonathan — Clarissa disse. — Todos os meus tutores disseram…
— A bíblia foi escrita em latim, sim — disse Jonathan. — Mas o original do Antigo Testamento está em hebraico.
Toda a sua vida, os tutores lhe diziam que havia apenas uma maneira de interpretar os textos religiosos. Apenas uma voz a ser lida. Os protestantes haviam amaldiçoado suas almas imortais ao inferno por ousarem ler a Bíblia sem a ajuda da Igreja Católica. Seraphina Clarissa passou toda a sua infância com medo do inferno e da condenação eterna, e agora, seu cérebro criava pensamentos pecaminosos.
Tudo por um simples comentário. Jonathan pulou para defender seu melhor amigo, para impedir Clarissa de denunciar o Duque de Norfolk como um indecente para o rei ainda vivo na época. E esse simples comentário criou uma bola de neve na cabeça da princesa, agora rainha. Uma bola de neve que poderia mudar tudo na vida dela.
— Vossa Majestade está em um lugar difícil — Padre Enoch respondeu. Ele fora enviado por seu pai para acompanhá-la em sua jornada até a Inglaterra, e garantir sua permanência na fé católica após sua conversão ao protestantismo. — Esse país é infiel e a Rainha é uma moça jovem. É compreensível ter dúvidas, mas deve se manter forte. Deus coloca essas provações em seu caminho para se assegurar de seu amor devoto.
— Meu amor é devoto — Clarissa retrucou, apertando o crucifixo ainda mais forte. — Amo o meu Senhor com todo o meu coração. Amo-o mais que a mim mesma.
— Então deve ignorar essas dúvidas e elas passarão — disse Padre Enoch. — Vossa Majestade é uma nova mãe. Todos os médicos dizem que o parto pode acarretar o desequilíbrio dos humores no corpo feminino. Deus compreenderá. — Clarissa corou furiosamente ao ouvi-lo falar de seu próprio corpo. — Recomendo que leia, todas as noites antes de dormir, Tiago 1:6, Hebreus 11:6, Provérbios 3:5-8, Mateus 14:31 como penitência.
Clarissa assentiu. Era um castigo mais suave do que ela imaginava. Ela fechou os olhos e suspirou, lágrimas quentes descendo por suas bochechas.
— Dominus noster Jesus Christus te absolvat; et ego auctoritate ipsius te absolvo ab omni vinculo excommunicationis (suspensionis) et interdicti in quantum possum et tu indiges. Deinde, ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, + et Spiritus Sancti. Amen — Padre Enoch murmurou, desenhando uma cruz invisível no ar em frente a Clarissa.
Enquanto Clarissa rezava, pedindo perdão e uma luz em sua vida como alívio de seus problemas; qualquer sinal que pudesse lhe mostrar o verdadeiro caminho, a porta se abriu. Ela abriu os olhos de supetão, assustada com a intromissão em seu momento privado, e viu Sophia Collins parada em frente a entrada com uma expressão triste em seu rosto.
— Perdoe-me, Vossa Majestade — disse a amiga da Rainha. — Mas alguém deixou esse bilhete em sua mesa. Seu nome está escrito no topo, senhora, então pensei que seria melhor trazê-lo até você.
Clarissa assentiu, limpando as bochechas úmidas, e estendeu a mão. Ela imaginou que fosse um novo relatório sobre a Casa de Buckingham, recentemente aberta ao público, e seu funcionamento. Não entendia nada sobre aqueles números, mas havia convencido Simon Lewis a ficar na corte até o final do ano, quando então iria lhe dar os fundos para construir seu observatório.
Sophie lhe entregou a carta e ela desdobrou, começando a ler:
Vossa Majestade,
Escrevo-te como um amigo, portanto espero que não termine de ler minhas palavras nesse momento ao perceber que não sou quem você esperava, ou que não irei me nomear. Seu filho é o orgulho e joia de toda a corte, mas há uma cobra ao seu lado. No berçário do palácio real, existe uma outra criança. Ao contrário dos filhos dos nobres, ele não irá se retirar para as propriedades de sua família quando atingir o primeiro ano de vida. Ele ficará, e crescerá, aqui, em Hampton Court.
Seu nome é Christopher e ele é o filho bastardo de vosso real marido. O Rei planeja criá-lo ao lado dos filhos legítimos, seus filhos, minha rainha. Caso tenha dúvidas de mim, vá ao berçário e veja como ele se parece mais com o pai do que o pequeno príncipe e, se ainda duvidar, retire suas vestes e veja a marca de nascença em forma de estrela em cima de seu peito.
Faça o que quiser com essa informação.
Caridosamente,
Seu único aliado nessa corte.
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— O que te deixou tão irritado? — Ella perguntou enquanto cuidava dos ferimentos de Jonathan.
O médico da corte o havia visitado meia hora antes, querendo limpar o corte em sua bochecha e dar uma olhada em seu lábio inchado, mas Jonathan o mandou embora. Quando sua irmã mais velha também chegou em seus quartos com ervas e panos para os ferimentos, ele tentou fazer o mesmo, mas Ella não o permitiu.
— Sou sua irmã, não sua serva — ela disse, indicando uma cadeira onde ele poderia se sentar. — Você não pode me comandar.
Jonathan abriu e fechou sua mão, sentindo-a pulsar no ritmo de seu coração. Parecia um sino tocando entre seus dedos. Dor dor dor dor. Os nós de seus dedos estavam cortados, mas os ossos embaixo da pele ainda estavam inteiros, disso ele tinha certeza. Os socos que ele desferiu contra Jonathan Wayland foram violentos e ele sentia a raiva cruzando por suas veias como espasmos. Estava quase arrependido da briga. Quase.
— Foi besteira — ele murmurou. — Nada régio.
Ella apertou seus lábios e ele conseguia ver a decepção estampada em seu rosto. A irmã apertou um pano gelado contra sua testa e ele segurou a respiração. Havia algo na água que fazia seu corte arder ainda mais, mas ele ignorou a vontade de sibilar. Deveria ser corajoso. Deveria ser um homem.
— Um rei ainda é um homem — disse Ella. — E homens tem suas fraquezas mortais.
Jonathan franziu o cenho com sua fala.
— Isso não foi fraqueza, foi... — ele não encontrou as palavras certas para descrever a sensação em seu peito.
Estava desapontado consigo mesmo. Estava com raiva de Jonathan Wayland. Estava com saudades de Clarissa e de sua mãe. Ele sentia e sentia, sem nunca parar de sofrer.
— Não seja tão duro consigo mesmo — a irmã murmurou quando ele não falou mais nada. — Wayland é uma serpente. Soube o que ele fez. Casar-se com Grace sem sua permissão... Estou surpresa de você não o ter expulsado da corte. Foi muito clemente, em minha opinião.
— Importa? — ele perguntou. — A partir de hoje, todos me verão como um rei de cabeça quente. Sem o controle da raiva. Precisarei lutar para reconquistar sua confiança.
— E daí? — Ella falou, o surpreendendo com a indiferença em sua voz. — Você é o Rei. Ainda é a pessoa mais poderosa entre todos os reinos. Seus cortesões irão se afastar de Wayland em uma tentativa de ganhar seu favor. Você já tem um herdeiro em Clarissa e logo ela lhe dará outros filhos, meninas e meninos. Aos poucos, ele será esquecido. Seu casamento com Grace Cartwright não chegará a ser uma ameaça.
— Você parece bem certa disso — ele sussurrou.
Ella se afastou e seus olhos se encontraram. Ela tinha olhos muito escuros, um castanho quase preto, e seu olhar era profundo, como se conseguisse enxergar tudo que havia no interior da alma de Jonathan. Ele percebeu, pela primeira vez, como a irmã era bela. Não tinha uma beleza tradicional como Cecily, mas parecia mais irritada, como uma atração austera e rígida.
— Não estou certa — ela disse. — Eu simplesmente sei.
— E como você sabe? — Jonathan retrucou.
Ella sorriu, colocando uma mão gentil em sua bochecha boa.
— Já fui rainha uma vez, Jace — ela murmurou em um tom quase triste. — Eu entendo de assuntos da corte.
Jonathan não respondeu. Sentiu-se bravo consigo mesmo por tê-la feito se lembrar de seus anos na Prússia, e talvez até mesmo do pequeno Friedrich, ainda um refém no estado germânico de seu pai. Ele olhou para sua irmã quando ela voltou a limpar seus machucados, retirando o sangue seco de sua pele com cuidado.
— Você deu sorte — disse Ella, os olhos focados no corte em sua bochecha. — As notícias não viajam tão rápido quanto tememos. Se Clarissa tivesse te visto antes, teria caído em prantos.
Jonathan sorriu.
— Não tenho dúvidas de que ela irá chorar mais tarde mesmo assim, apenas imaginando o estado em que estive — respondeu.
Ella sorriu de volta. Naquele dia, estava usando um vestido azul escuro e safiras adornavam seu pescoço e mãos. Apesar de Jonathan saber que seu curto luto por Frederick William havia acabado, ela precisava manter as aparências para a corte.
— Preciso te contar uma coisa — ele sussurrou. A irmã franziu o cenho e ele tomou isso como liberdade para continuar falando. — Os Monteverde. Eles têm um neto de dez anos, herdeiro ao trono de Portugal. É sugerido que para fortalecer a amizade entre nossos dois países, Dom Pedro se case com Wilhelmina quando ela chegar aos quatorze anos.
A irmã se afastou, os braços caindo ao lado de seu corpo.
— O quê? — questionou. Jonathan percebeu como não estava confusa, não realmente, apenas não acreditava em suas palavras.
— Você me ouviu — ele respondeu se ajeitando. — A monarquia Monteverde é nova e eles temem Gabriel Lightwood. Ainda se lembram da União Ibérica na península, portanto desejam se fortalecer com nossa ajuda. Seria um bom casamento para ela. Wilhelmina deverá se converter ao catolicismo, mas isso é apenas uma formalidade. — ele hesitou. Isso estava indo mais difícil do que o esperado. — O Rei também diz que você poderá vir com ela, se assim desejar. Poderá passar seus dias na corte portuguesa como uma mulher rica.
Jonathan sabia que a irmã iria confrontar a sua sugestão. Era normal das mulheres Herondale. Mas ele esperava também que entendesse como isso era bom para Wilhelmina. O reino da Prússia era novo, feito com a desaprovação dos Morgenstern, e seria difícil arrumar um casamento tão prestigioso como esse. Se Ella permitisse, Wilhelmina seria rainha de Portugal um dia, mãe de reis.
Ella não mostrou entendimento, ou aceitação, entretanto. Em seus olhos, uma chama azul de raiva se queimou.
— Quer vender minha filha? — ela questionou, colocando uma mão em seu peito. — Minha única filha? A única criança que me resta, e você irá mandá-la para os Monteverde como uma puta qualquer?
Ele bufou, frustrado.
— Não estou vendendo-a — respondeu. — Wilhelmina é muito nova para se casar. Ela ficará aqui por mais seis anos, se você aceitar. Se é com o dote que se preocupa, posso garantir que eu o pagarei.
— Ah! — ela exclamou, rindo falsamente. — Isso me faz me sentir muito melhor. — Ella se afastou, olhando ao redor enquanto colocava duas mãos em sua bochecha. — Você não está vendendo-a, está pagando alguém para levá-la. Pensei que quisesse nossa presença aqui.
Jonathan se levantou, dando longos passos até sua irmã. Ela, em sua parte, deu dois passos para trás, como se sua simples proximidade fosse tóxica a sua pessoa.
— Eu quero — ele respondeu. — Mas também quero que vocês tenham sucesso na vida. Esse casamento será bom para vocês.
Ella simplesmente o encarou de volta, o rosto completamente neutro. Seu olhar causou calafrios no corpo de Jonathan e ele engoliu em seco.
— Sinto muito — disse. — Eu não acredito em você.
E então ela foi embora.
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