Imperium
24 XXIV - Deus salve o Rei
n/a: galera mil desculpas pela minha demora em atualizar, mas aconteceu um problema. meu sobrinho derrubou meu celular no chão de pedra e ele ficou sem ligar por três meses. até aí tudo bem, eu normalmente escrevo pelo computador, mas cara... os nomes dos filhos tava tudo no meu celular. eu demorei quase dois anos para escolher nomes que eu gostava e não queria mais mudar e eu não sabia eles de cor. minha mãe queria me comprar um celular novo mas eu chorei para ela consertar o meu porque se não eu ia ter que começar tudo de novo kkkkkk. mas agora ta tudo bem, meu celular ta consertado e eu salvei os nomes numa pasta que eu tenho que da pra acessar de qualquer lugar, caso isso aconteça de novo. eu devo terminar de responder os comentários amanhã bjs
O menino chorou enquanto o Arcebispo de Canterbury molhava a sua testa, as mãos e pernas minúsculas se esperneando enquanto ele gritava. Ele usava um longo vestido branco, com detalhes em dourado, e uma touca bordada cobria a cabeça e os fios de cabelo vermelhos. A capela de Hampton Court estava enfiada no silêncio, os trezentos convidados observando o batizado real completamente quietos, como se tivessem medo de acabar com o silêncio e serem expulsos daquela festividade. Apesar dos assentos disponíveis estarem todos em uso, e o calor abafado com o ar viciado ser de insuportável, todos precisavam admitir como aquela situação era única.
Aquela criança que chorava enquanto era banhada com as águas do rio Jordão era William Alexander Francis James da Casa Herondale. Ele era o primeiro filho de um soberano inglês a nascer desde seu próprio pai, vinte e um ano antes, e o primeiro herdeiro aparente ao trono desde seu tio, vinte e seis anos antes. Ele era o Príncipe de Gales, Duque de Rothesay e Cornwall. Quando seu pai morresse, ele iria governar como rei. Não poderia haver menino mais importante em todo o reino. O futuro de todas as ilhas britânicas estava ali, soluçando nos braços do Arcebispo.
E não havia mulher mais orgulhosa no reino do que sua mãe. A rainha Clarissa estava parada ao lado do Arcebispo e de seu marido, o rei. Ela usava o seu melhor vestido, a seda rosa se prendendo em seu corpo à la française, e os diamantes brilhando em seu colo e orelhas. O cabelo vermelho da rainha, compartilhado com o seu filho, estava penteado para cima, e coberto com diamantes enormes que provavelmente custaram milhões de guldens. Ela segurava seu rosário com força, as contas de rubis pressionando contra seus dedos, e sussurrava preces em latim, pedindo ao seu Senhor para que o menino crescesse saudável.
Dois dos três padrinhos estavam presentes, com o embaixador austríaco representando seu imperador. A irmã mais velha de Jonathan, Ella, estava usando um vestido vermelho escuro, como se ainda estivesse de luto por seu falecido marido, e luvas brancas. Alexander Lightwood parecia nervoso enquanto observava o príncipe, um menino tão pequeno que, apesar de tudo, já estava acima dele na ordem do mundo.
O Arcebispo de Canterbury despiu o príncipe, entregando suas vestes brancas para um coroinha ao seu lado. A pele de William Alexander era vermelha, e certamente macia, mas a marca de nascença pálida em seu ombro estava visível a todos. Uma mancha extremamente parecida com uma cicatriz em formato de estrela, o símbolo de todos os homens Herondales desde o fundador de sua linhagem. Segundo a lenda, o primeiro Herondale foi tocado por um anjo enquanto dormia, pois o querubim viu como sua alma era pura, e perfeita. Ao acordar, a marca estava em seu ombro, e nos ombros de seus filhos e nos filhos de seus filhos.
Clarissa deu um passo para frente ao mesmo tempo que Jonathan quando o Arcebispo vestiu seu filho e fez o movimento para devolvê-lo aos pais. Ela olhou para o marido, apenas dando outro passo para frente e pegando William Alexander em seus braços. Conseguia sentir o olhar de Jonathan Christopher em si, quente e desejoso, mas o ignorou, preferindo voltar seus olhos para a criança em seus braços.
Ela ajeitou seu aperto, garantindo o apoio à cabeça ruiva e colocando uma mão no traseiro enfraldado. O rosto de seu filho era gorducho e rosado, saudável. Seu coração se apertava em um nó toda vez que o via, como se pudesse ser a última vez. Sabia muito bem como a sobrevivência de uma criança nunca era certa. Antes de sua concepção, os pais haviam perdido dois de seus amados arquiduques, e a notícia da morte de um terceiro foi a que levou sua mãe a entrar em trabalho de parto com ela.
Saber que seu filho poderia morrer a qualquer momento lhe trazia uma grande ansiedade. Amava aquele menino com todo o seu coração. Ela o havia carregado em seu ventre por nove meses, lutado para trazê-lo ao mundo, e iria lutar para mantê-lo nesse mundo também. Quando William nasceu, ela havia tentado alimentá-lo com seu próprio peito, mas Charlotte Branwell o tirou de seu colo.
— Se Vossa Majestade alimentar o Príncipe sozinha, nosso Rei terá que esperar muito tempo para ter um outro herdeiro — a Condessa de Pembroke explicou antes de sair do quarto com o príncipe, levando-o até sua ama de leite, como se isso resolvesse todos os problemas de Clarissa. No momento, ela estava delirante com o parto, extremamente cansada depois de acordar no meio da noite cheia de dores, e concordou sem mais reclamações. Agora, como ela se arrependia disso. Se pudesse, iria voltar no tempo e não iria permitir que tirassem o menino de seus braços.
— Eu sou a Rainha da Inglaterra — ela diria. — Eu decidirei quem irá alimentar meu filho.
Mas agora era tarde demais. Era tarde demais para muitas coisas.
Clarissa olhou seu marido com o canto do olho. Jonathan Christopher estava muito bonito naquele dia. Usava uma jaqueta longa creme bordada com fios de ouro e seus cabelos estavam penteados até brilhar como ouro batido. Ele mesmo parecia uma estátua, feita de ouro, como o David de Michelangelo. Feito por uma mão talentosa para aparentar o seu melhor.
Seu coração doía ao olhar para ele. Pensar em como o amava, como o adorava. Teria feito tudo por ele. Se tivesse pedido por sua vida, ela se sacrificaria com um sorriso, mas ele retirou seu orgulho. Por Jonathan, ela ignoraria uma centena de bastardos se eles ficassem longe, mas o menino Christopher estava sendo cuidado ao lado de William Alexander. As mesmas babás os atendiam, como se ambos fossem príncipes do sangue, dignos das mesmas coisas, herdeiros dos mesmos tronos.
Isso ela não conseguiria aguentar. A criança bastarda de Jonathan e sua meretriz sendo criada ao lado de seu próprio filho era demais para Clarissa Morgenstern. Por isso, ela não conseguiria perdoá-lo. Era pedir demais dela.
Clarissa olhou para seu filho novamente. O menino estava dormindo, a cabeça encostada no peito dela, como se ele reconhecesse a mulher que havia lhe trazido ao mundo. Ela respirou fundo e se permitiu relaxar novamente. Não poderia deixá-lo sentir a angústia em seu peito. Não poderia deixar ninguém ver o quanto estava sofrendo.
Quando Clarissa era pequena, o pai havia contratado atores para lhe ensinar como mascarar suas emoções, como fingir que estava tudo bem quando na realidade não estava. Ao chegar na Inglaterra, ela havia permitido esquecer essas lições, pois a felicidade em seu coração era tanta que não havia lugar para mentiras. Agora, entretanto, ela se lembrava, e aplicava esses ensinamentos. Em seu rosto, tudo ficaria bem. Ninguém iria ver seus pensamentos. Ela seria uma rainha de gelo, completamente inacessível.
Ela ergueu seus olhos para os membros da corte. Eles estavam de joelho dobrado diante da família real, e ela sentiu a mão de Jonathan em seu cotovelo enquanto ele se punha ao seu lado. Como marido e mulher, eles deveriam mostrar uma frente unida. Um casamento tão estável quanto a própria Inglaterra. Se isso fosse verdade, Clarissa temia pelo trono que seu menino iria herdar.
Uma pessoa limpou a garganta atrás da rainha e ela se virou, vendo a ama de leite parada perto da porta lateral da capela. Clarissa logo entendeu o que ela queria e suspirou, dando dois passos para frente. Suas mãos foram as mais gentis possível enquanto ela entregava William Alexander aos braços da mulher, tomando cuidado para não o acordar. O menino não precisava de uma alimentação agora, mas aquele lugar certamente não deveria ser bom para ele. As pessoas presentes no batismo faziam muito barulho ou poderiam lhe passar alguma doença. Como futuro rei, era necessário que estivesse em perfeita saúde a todo momento. Uma morte prematura sem outro menino para tomar seu lugar poderia fazer a sucessão voltar a sua instabilidade de antes.
E ninguém iria querer isso.
Ao retornar seu olhar aos presentes, ainda ajoelhados, Clarissa se perguntou quem havia lhe avisado sobre o bastardo de seu marido. Certamente, não haviam feito isso com as melhores das intenções, senão teriam vido lhe dizer frente a frente. Quem havia lhe avisado fora um covarde, se escondendo através de um pedaço de papel faltando uma assinatura. Fizeram isso para voltá-la contra o marido, provavelmente com esperanças de impedir novas relações entre eles. Apenas Clarissa poderia dar herdeiros legítimos a Jonathan e uma possível separação entre os dois deixaria isso muito difícil.
Mas, além de covarde, o seu auto intitulado único aliado era estúpido. Clarissa não havia escolhas em seu casamento. Se Jonathan quisesse um novo filho, e tentasse iniciar uma relação física com ela, não havia nada que pudesse fazer para impedir isso. Quando um marido desejava consumar a união, a esposa era obrigada a concordar. Não havia estupro dentro de um casamento.
Então, apesar de ter trancado o seu coração, Jonathan ainda era dono de seu corpo. Ela iria ter tantos filhos quanto ele quisesse. Seu pai havia garantido isso quando a vendeu como uma égua parideira para um país estranho.
Foi isso que ela manteve em sua mente enquanto descia os degraus que levavam ao altar da capela, a mão sobre a de Jonathan. A sua pele estava quente e o toque formigava em sua mão, querendo levantar uma onda de desejo. Ele era muito bonito, precisava admitir, e educado, gentil, culto. Muitas princesas teriam matado para estar em seu lugar, mas Clarissa nunca foi uma princesa realmente. Antes de seu casamento com o Príncipe de Gales, ela era uma Arquiduquesa da Áustria, e, ao passar pelo corredor da capela, conseguia ver os olhares das damas inglesas para seu marido. Elas o queriam e, apesar de ele tentar disfarçar, Jonathan respondia esses olhares com uma quantidade ainda maior de desejo.
Isso ela não conseguiria esquecer. Clarissa poderia perdoar o amor, mas não o respeito. Ela não merecia ser humilhada perante a corte, aos servos e a toda a Inglaterra, e era isso que ele havia feito ao colocar seu bastardo no mesmo berçário que seu filho legítimo. Aos seus olhos, Jonathan havia dito que as mães de seus filhos eram iguais, como se Clarissa fosse apenas mais uma prostituta encontrada na rua e não a filha de um Imperador, rainha de todas aquelas terras.
Ao saírem da capela, Jonathan ergueu sua mão até a altura de sua boca, plantando um beijo nos nós de seus dedos. Antes, o coração de Clarissa teria acelerado com aquele gesto de afeição, mas agora, ela só conseguia pensar em quantas outras mulheres ele havia beijado com aqueles mesmos lábios. Subitamente, ela sentiu uma vontade enorme de lavar seus dentes.
— Tenho uma importantíssima reunião agora, meu anjo — disse Jonathan, a voz macia e doce como um bombom. — Verei você mais tarde?
Clarissa acenou com a cabeça.
— Se essa for a sua vontade, Vossa Majestade.
Ele franziu o cenho, mas, antes que pudesse perguntar o que havia de errado, Clarissa soltou sua mão. Ela fez uma semi-reverência e virou as costas a ele, andando de volta para seu quarto. Clarissa ouviu as despedidas respeitosas de suas damas, Isabelle Lightwood e Helen Blackthorn, antes de elas mesmas correrem para segui-la.
Apesar de toda a agonia em seu peito, amarrando suas entranhas em um nó, Clarissa não conseguiu engolir a vontade de olhar para trás. Ao virar a cabeça sobre o ombro, ela viu Helen e Isabelle, usando suas melhores roupas, e, entre elas, a figura cada vez menor de seu marido. Jonathan estava olhando para ela, percebeu, com uma expressão extremamente confusa em seu rosto. Confusa e preocupada.
Clarissa voltou seu olhar para frente e disse a si mesma para não se importar com ele. Por algum motivo, ela não conseguiu seguir seu próprio conselho.
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Os olhos de Cecily Herondale ardiam de tanto chorar. Sua cabeça e peito doíam com a força de seus soluços. Desde o nascimento da criança, ela havia passado péssimas noites, dormindo muito pouco. Algumas, era devido ao estômago do recém-nascido, que esvaziava tão rápido, necessitando de outra alimentação. Outras vezes, ela não conseguia dormir de tanta preocupação, puxando o menino e Anna para sua própria cama, mantendo vigília sobre eles por uma noite inteira. Temia que se ela fechasse os olhos, eles iriam parar de respirar, e ela ficaria sem filhos novamente.
O médico disse que uma nova gravidez real seria improvável. O terceiro parto havia machucado seu interior, ele explicou, e isso dificultaria a concepção. Ela deveria aceitar isso, pois assim era o desejo de seu Senhor. Deus queria lhe mostrar e ela precisava ver. Anna e o menino eram suas únicas chances de dar herdeiros ao seu marido. Por isso, eles precisavam sobreviver. Era necessário que vivessem até a idade adulta, tivessem seus próprios filhos, ou os inimigos de Gabriel iriam se aproveitar da difícil sucessão.
Um rei sem herdeiros era fraco e Gabriel Lightwood nunca poderia ser fraco. Cecily nunca iria se perdoar se ela fosse a causa da queda do Rei da Espanha.
Ele a visitava todos os dias, segurava suas mãos e beijava suas bochechas molhadas. Algumas vezes, ele passava a noite em sua cama, mas eles apenas dormiam. Nenhum dos dois tinha a força mental para o sexo. A morte de Juan e a revelação de seu assassinato haviam deixado feridas profundas demais. Feridas que apenas o tempo poderia curar.
Em noites como essa, eles falavam muito pouco. Não havia como colocar seus sentimentos em palavras, como eles sofriam pelo filho perdido e pelas crianças que ainda restavam. Juan havia morrido por ser um menino, morto pelos inimigos de Gabriel para deixar o novo rei da Espanha sem herdeiros varões. Eles não poderiam deixar isso acontecer com seus outros filhos. Cecily achava que iria morrer se perdesse mais um dos frutos de seus ventres.
Ela segurava o menino em seus braços, gentilmente o balançando de um lado para o outro. O decote de sua camisola estava puxado para baixo, o bico de seu peito colocado dentro de sua boca enquanto ele mamava. Ele não se parecia com Juan ou com Anna. Seu cabelo era ralo, enquanto os dois irmãos mais velhos nasceram extremamente cabeludos, e de um tom terroso de castanho, mais escuro do que o de Gabriel, mas mais claro do que o de Cecily. Quando ele abria seus olhos, suas írises possuíam a cor mais interessante. A rainha mesma nunca a viu antes. Era um tom belíssimo entre o azul e o castanho, quase roxo. Ao olhar em seus olhos, a única palavra que vinha a mente de Cecily era lavanda, se é que poderia descrever os olhos do menino assim.
O silêncio do quarto e a pouca iluminação lhe traziam um ar de relaxamento e, junto com o embalar, carinhoso de Cecily, faziam o menino sentir sono. Ele abria e fechava seus olhos, como se não quisesse dormir, mas não conseguia ainda lutar contra a fadiga. Cecily cantarolava uma das músicas francesas de Céline de Montclaire, pensando em como a saúde do príncipe precisava que ele dormisse bem.
Vá dormir, meu querido, ela pensava, Durma e sonhe com um mundo melhor. Durma e sonhe com a vida que você irá levar. Meu menino, meu filho, minha salvação.
A infanta já estava dormindo, a cabeça posta sobre o colo de seu pai, e Gabriel acariciava seus cabelos. Eles estavam deitados ao lado de Cecily, as costas do marido apoiadas contra a cabeceira da cama da rainha. Anna estava chupando seu dedão, os olhos se movendo embaixo das sobrancelhas. Os fios negros estavam muito compridos e formavam cachos macios que atingiam seu queixo. Doña Ana María Benedita Estefania era inocente, incapaz de ver como sua vida quase foi cortada antes mesmo de começar. Ela teve sorte. Era menina e, por isso, sobreviveu.
Talvez, quando crescesse, a verdade iria ser demais para ela. Apesar de ser a primogênita do rei, poderia nunca ascender ao trono espanhol devido ao seu gênero. Ser menina era sua salvação e sua perdição, ao mesmo tempo. Cecily rezava para ela nunca descobrir isso, mas seria muito difícil. Todas as princesas do mundo um dia aprendiam o porquê de serem tratadas diferentes de seus irmãos homens.
— Ele precisa de um nome — Gabriel disse, retirando Cecily de seus devaneios.
Ela ergueu a cabeça e olhou seu marido nos olhos. Gabriel parecia cansado, com olheiras escuras e bochechas fundadas. A esposa dentro de si se preocupou imediatamente e desejou ter forças para repreendê-lo. Dizer que deveria se cuidar melhor, relaxar, mas a mãe dentro de Cecily calou a boca da esposa. Todos estavam cansados. Há dois meses, desde o nascido do príncipe, os dois sofriam sem fim. Sua miséria só iria melhorar quando os assassinos de Juan Luis Fernando fossem trazidos a justiça e isso poderia demorar anos.
Mas ela não precisava dizer isso a ele. Cecily voltou seus olhos para o menino em seus braços e assentiu, acariciando a testa macia da criança. Ele estava dormindo agora, a boca molenga ao redor do mamilo de sua mãe, e Cecily afastou seu seio, guardando-o de volta na camisola. O príncipe dormia com a boca aberta, completamente relaxado. Ele não sabia o quão importante era e o quanto os inimigos de seu pai pagariam para acabar com a sua calmaria.
Ele não sabia, mas logo iria saber. As crianças não são crianças para sempre.
— Sim — Cecily respondeu. Ela olhou bem para o rosto do menino, tentando ver qual nome combinava com ele. — Christopher. Um nome forte e cristão.
Ao invés de concordar com ela como normalmente fazia, Gabriel desviou o olhar enquanto balançava o rosto.
— Você não concorda — disse Cecily. Não era uma pergunta.
— Não — Gabriel murmurou. — Se o chamássemos de Christopher, seu nome seria Cristóbal para todos os efeitos, e esse não é um nome tradicional da família real desse país. Meu herdeiro precisa de um nome espanhol se ele deseja ascender ao meu trono.
Cecily olhou para o príncipe novamente. Em alguns poucos anos, ele seria instalado como Príncipe de Astúrias, Girona e Viana, Duque de Montblanc, Conde de Cervera e Senhor de Balaguer, o herdeiro aparente e não contestado ao trono da Espanha.
Gabriel estava certo. Ele sempre estava certo. O menino precisava de um nome espanhol. Ela tentou não sentir decepção com isso, apesar de não conseguir imaginar chamando-o de qualquer coisa além de Christopher. Christopher Lightwood. Seu irmão iria gostar disso.
— Qual nome você tem em mente? — perguntou. Ela falava o mais baixo possível para não acordar os filhos e manter seu temperamento calmo.
— Felipe — murmurou. — Quando eu morrer, ele reinará como Felipe V, e terá herdado um trono mais seguro do que o meu.
Cecily arqueou a sobrancelha.
— Você irá dar um nome dos Morgenstern para seu herdeiro? — perguntou. O ódio de Gabriel aos Morgenstern era bem conhecido, pois eles também reivindicaram o trono da Espanha com a morte de Carlos II. A Europa inteira foi puxada para a Guerra de Sucessão, prolongando os conflitos por mais de uma década. A mãe de Gabriel, a infanta Bárbara, havia sido morta junto com o marido em um ataque austríaco. Se eles tivessem aceitado o fim de seu reinado no império espanhol em 1700, muitas coisas poderiam ter sido diferentes.
Por isso, era tão estranho a escolha do nome pela parte de Gabriel. Ele havia entregado sua irmã ao Arquiduque, sim, mas isso era apenas para garantir a paz. A união das duas famílias mostrava como eles haviam colocado as batalhas no passado, prontos para entrar em uma nova era de iluminação e sucesso. Tatiana Lightwood seria a futura Imperatriz do Império Sacro Romano Germânico, esposa de Sebastian Morgenstern.
Mas Cecily sabia bem o quanto o marido odiava seus parentes maternos. Se precisasse adivinhar, diria que ele culpava os Morgenstern pela morte de Juan Luis. Caso Gabriel não tivesse filhos homens, Valentim III poderia argumentar pela ascensão de sua nora e de seus herdeiros. Dessa forma, o trono espanhol voltaria a mão dos Morgenstern, e a Dinastia Lightwood não passaria nada mais de uma memória. Uma nota de rodapé na história. Todos os sonhos de Gabriel, acabados.
— Não — seu marido disse. — Eu irei dar o nome do meu avô para meu herdeiro. Quando ele morreu, eu tinha apenas cinco anos, mas minha mãe sempre me contava histórias dele. Ela dizia que nós éramos muito parecidos. Quando meu tio morreu, e ela se auto titulou como Bárbara I, eu virei seu herdeiro e ela dizia que eu iria ser um bom rei, como ele foi. — Gabriel sorriu, triste, e Cecily poderia ter se chutado por sua falta de tato. Gabriel quase nunca falava da mãe, a quem se lembrava e amava ainda, e estava claro como a memória lhe era dolorosa. Dar o nome do filho de Felipe seria homenagear Felipe IV Morgenstern e a Infanta Bárbara, ao mesmo tempo.
— Tudo bem — ela disse. — Ele se chamará Felipe, então.
Gabriel sorriu novamente, mas, dessa vez, a luz voltou aos seus olhos.
— Felipe Cristóbal — ele disse. — Homenagearemos o bisavô e o tio do menino com seus nomes.
Foi a vez de Cecily de sorrir. Se pudesse, ela iria inclinar-se para frente e beijar o marido em agradecimento, mas não poderia fazer isso sem arriscar acordar o filho. Philip Christopher, ela pensou, já imaginando a carta que iria mandar a Jonathan. Ele também tinha tido um filho varão, nascido no mesmo dia de Christopher, a quem havia chamado de William Alexander.
Se William fosse uma menina, eles poderiam casar as duas crianças quando chegassem a idade certa, mas Cecily não se permitiu ficar triste com essa oportunidade perdida. Clarissa Morgenstern ainda era jovem, e haveria tempo para ela ter meninas. Na realidade, Cecily estava feliz com o nascimento de seu sobrinho, mesmo sabendo que isso empurrava ela e a irmã para mais longe do trono inglês. A Casa de Herondale estava ameaçada de extinção na linha masculina, enquanto Gabriel possuía primos na Inglaterra que poderiam continuar o nome caso ele e Gideon morressem sem varões. Mas para a família de Cecily sobreviver, Jonathan precisava ter filhos homens se quisesse continuar a dinastia que governava a Inglaterra desde o século quinze. E Cecily não era nada se não leal a sua família até o fim.
— Perfeito — ela murmurou. — Mas eu continuarei o chamando de Christopher.
Gabriel riu em silêncio, os ombros balançando.
— Eu não esperava outra coisa de você — ele respondeu, pegando um dos cachos de Anna em seus dedos. Ele acariciou aquele cacho, enrolando seu dedo nele, e Cecily o observou em silêncio, pensando.
A ligação entre Anna e Gabriel era invejável. Os dois eram muito parecidos, física e mentalmente. Ambos eram teimosos, mas muito amáveis, e gostavam de por a mão na massa. Quando Anna crescesse, ela certamente iria lutar contra as contrições da vida de uma princesa. Aos quase três anos de idade, ela já fugia de suas babás, ignorando suas surpresas ao brincar na lama com seus vestidos brancos, e quebrando todas as bonecas dadas por súditos de Gabriel que a ofendiam com sua pompa. Ela era forte e era muito difícil para Cecily observar o mundo olhar para ela e dizer que ela era fraca simplesmente pela falta de um pênis entre suas pernas.
— Os embaixadores franceses esperam por uma resposta para a oferta de Granville II — Gabriel sussurrou, tão baixo que ela mal o ouviu.
— E o que você decidiu? — Cecily perguntou.
Gabriel balançou a cabeça e esfregou uma mão pelo rosto, aparentando ser dez anos mais velho do que realmente era.
— Eu não quero que meu reino seja dominado pelos franceses — disse. — Mas ela precisa de um marido, e nós precisamos de aliados contra o império.
— Você poderia casá-la com meu sobrinho, William Alexander — Cecily disse. Por ser inglesa, ela possuía uma desavença natural contra os franceses, devido aos séculos de discórdia entre os dois países. — Isso reforçaria a aliança com a Inglaterra, e te daria a melhor marinha do mundo caso o Imperador decida te atacar.
Gabriel assentiu, mas seus olhos estavam distantes. Ele estava pensando, ela percebeu, e suas palavras mal faziam um efeito nele, apesar de ela saber que ele havia compreendido. Por conta dos anos passados em um campo de batalha, Gabriel era obcecado em pensar a frente, imaginar todas as jogadas possíveis antes de dar um passo frente, e discutir todos os modos como seu trono poderia ser retirado enquanto ainda acordava toda manhã. Cecily pensava que sua paranoia lhe fazia mais mal do que bem, se alguém lhe perguntasse, mas todas as suas tentativas de acalmar os nervos de seu rei foram refutadas.
— Temo que não — ele disse. — Seu irmão deverá procurar uma noiva para o filho em outro lugar quando chegar o tempo. Somos católicos, e, caso Anna venha a se tornar rainha reinante, ela deverá ter um consorte católico também. — ele suspirou. — Meu primo, o Duque de Norfolk, tem um filho pequeno e eu poderia pedir a sua mão caso quisesse continuar o nome Lightwood, mas não me parece certo.
Cecily olhou para Christopher novamente. Ela se sentia suja por discutir um mundo sem a sua sobrevivência quando o menino dormia calmamente em seu colo, mas era da natureza de Gabriel estar preparado para tudo. Crianças morriam por motivos quaisquer e a sucessão de um trono nunca era garantida. Eles precisavam encontrar um bom marido para Anna se ocorresse a sua sucessão ao trono.
— Case Gideon — ela disse, erguendo o rosto.
Gabriel franziu o cenho, confuso.
— Mesmo? — ele disse, um tom de nojo em sua voz. — Ele é quase trinta anos mais velho do que ela, e seu tio. Sei que somos descendentes dos Morgenstern, mas uniões entre tio e sobrinha são um crime contra Deus.
Cecily revirou os olhos.
— Não quis dizer isso — ela murmurou, irritada. — Eu quis dizer para você casar o Infante com alguém jovem o suficiente para ter muitos filhos. Por ser homem, seu lugar na sucessão espanhola vem antes do de Tatiana, e, com varões próprios, um retorno dos Morgenstern fica quase impossível. Assim, poderemos prometer a mão de Anna ao Duque de Bretanha e teremos chão para discutirmos um acordo vantajoso aos interesses da coroa. Será possível até mesmo garantir que Anna renuncie seus direitos e os de seus filhos ao trono em troca de acordos comerciais e um dote significativo.
Gabriel assentiu, os olhos levemente esbugalhados, e sorriu.
— Se soubesse que me daria conselhos tão bons, — ele começou. — Teria me casado com você antes.
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Ele usava um casaco branco que chegava aos seus joelhos, com folhas e fios de ouro bordados no veludo. Os sapatos também eram brancos, assim como as meias, e os babados de sua camisa interna. A cerimônia era religiosa e os oficiais insistiram em vesti-lo dessa maneira. Supostamente, para passar uma imagem de pureza e divindade aos presentes. Desde a morte de seu pai, alguns meses antes, todos na Inglaterra se preparava para a coroação, quase cinco décadas após a última. Muitos da população nem se lembravam, ou estavam vivos, quando o jovem Stephen recebeu sua benção. Com o batizado privado do príncipe William, aquela cerimônia era a mais importante em todo o reino naquele ano.
Jonathan sentia-se um tolo dentro daquelas roupas, mas segurou os seus movimentos desconfortáveis enquanto andava pelo longo corredor da Abadia de Westminster. Toda a nobreza da Inglaterra, Escócia e Irlanda o olhavam, tentando entender esse novo rei, jovem e inexperiente. Jonathan não encontrou o olhar de nenhum deles, preferindo continuar olhando para a frente, onde o Arcebispo de Canterbury o esperava com suas vestes formais. A Robe of State era carregada atrás dele, o veludo vermelho brilhando sob a luz do sol que entrava pelos vitrais. Dezesseis pés de comprimento, ou quase cinco metros, do tecido mais fino em toda a Inglaterra nas mãos de seis pajens.
Jonathan olhou para a Coroa de Santo Eduardo, esperando por ele em seu travesseiro de veludo. Pertencia a ele agora, como rei, assim como todas as outras joias da Coroa. Por algum motivo que nem mesmo ele entendia, Jonathan acabou por ler documentos extensivos às descrevendo. Vinte e dois quilates de ouro. Quatro flor-de-lis e quatro cruzes pátea, todas feitas de ouro puro. Os arcos e monde significam uma coroa imperial. Pela a última conta, havia mais de quatrocentas e quarenta pedras preciosas, como rubis, turmalinas, topázios, safiras e outras. Era pesada. Jonathan foi advertido a não tombar a cabeça para frente durante a cerimônia, pelo medo de quebrar o pescoço e deixar o trono para o filho recém-nascido que dormia calmamente nos braços de sua ama em Hampton Court.
Sua esposa também seria coroada naquele dia, logo após ele. Clarissa teria suas próprias atendentes e roupas brancas, mas, como rainha-consorte, ela deveria mostrar sua “inferioridade” entrando atrás de seu marido e com uma cerimônia menor.
Jonathan continuou andando até chegar ao altar, onde todos o esperavam. Ao se sentar na Cadeira de Estado, ele viu, pelos cantos dos olhos, o Lorde Chanceler, o Lorde Camareiro-Mor, o Lorde Alto Condestável e o Conde Marechal dirigem-se para o leste, sul, oeste e norte da Abadia. Clarissa se sentou ao seu lado, em uma cadeira mais baixa como se para significar visualmente a desigualdade de ranque entre os dois. Se tivesse que adivinhar, Jonathan diria ter uma diferença de pelo menos trinta centímetros entre o braço dele e o dela. Uma vontade intensa de olhar para ela e receber um sorriso encorajador correu por suas veias, crescendo dentro de seu estômago, mas Jonathan a ignorou.
— Senhores, eu aqui apresento a vós, norte, o seu rei inquestionável. Portanto todos vocês estão vindo aqui hoje para fazer a sua homenagem e vassalaria, todos estão dispostos a fazer o mesmo? — disse o Arcebispo de Canterbury e o norte concordou. — Senhores, eu aqui apresento a vós, sul, o seu rei inquestionável. Portanto todos vocês estão vindo aqui hoje para fazer a sua homenagem e vassalaria, todos estão dispostos a fazer o mesmo?
O sul concordou. Com uma voz alta e confiante, Arcebispo fez o mesmo para o leste e o oeste. Apesar de ser apenas perguntas cerimoniais, Jonathan não conseguiu parar de pensar em seu primo, tentando ganhar apoio para seu direito ao trono, e os nobres da Irlanda que um dia haviam apoiado o pai de Tobias. Se eles se recusassem a reconhecê-lo como rei, ele se perguntou, o que aconteceria?
Ao terminar, o Arcebispo se virou para Jonathan e perguntou, com a voz alta e ecoando pela abadia silenciosa:
— Promete e jura solenemente governar os povos da Inglaterra, Escócia, França e Irlanda, e de suas posses e outros territórios a qualquer um deles pertencente ou relativo, de acordo com suas respectivas leis e costumes?
— Prometo e juro solenemente — Jonathan respondeu.
— Você vai usar seu poder para trazer a Lei e a Justiça, na Misericórdia, em todos os seus julgamentos?
— Eu vou.
— Você vai usar o máximo de seu poder para manter as Leis de Deus e da verdadeira pregação do Evangelho? Vai usar o máximo do seu poder para manter em seus reinos a Religião Protestante Reformada estabelecida por lei? Vai manter e preservar invioláveis a liquidação da Igreja da Inglaterra, e da doutrina, e do culto, e da disciplina e governo do mesmo, conforme estabelecido por lei na Inglaterra? E você vai preservar os bispos e o clero da Inglaterra, e as igrejas na quais são comprometidos, todos os seus direitos e privilégios, como estabelecido por lei?
Jonathan olhou de lado para Clarissa, tão sutilmente que ninguém deveria ter percebido. O rosto de sua esposa estava neutro, mas ele imaginou o desprazer que tomou seu coração. A Rainha era católica e apenas converteu-se ao protestantismo para poder se casar com ele, como foi decidido entre os pais dos dois três anos antes.
Ele se virou para o Arcebispo, um homem chamado Jeremiah.
— Eu prometo fazer. As coisas que eu prometi fazer antes, eu irei realizar e manter. Assim Deus me ajude.
O Arcebispo, mais velho até mesmo do que o pai de Jonathan havia sido em sua morte, pegou uma Bíblia do Rei James, abrindo uma página. Deveria ter sido escolhida antes, com cuidado e dedicação.
— Aqui está a sabedoria, esta é a lei real. Estes são os oráculos vivos de Deus — disse o Arcebispo e a parte do juramento acabou.
Vozes se ergueram pelo lugar, as pessoas presentes recitando:
Come, Holy Ghost, Creator, come
from thy bright heav'nly throne;
come, take possession of our souls,
and make them all thine own.
Thou who art called the Paraclete,
best gift of God above,
the living spring, the living fire,
sweet unction and true love.
Thou who art sevenfold in thy grace,
finger of God's right hand;
his promise, teaching little ones
to speak and understand.
O guide our minds with thy blest light,
with love our hearts inflame;
and with thy strength, which ne'er decays,
confirm our mortal frame.
Far from us drive our deadly foe;
true peace unto us bring;
and through all perils lead us safe
beneath thy sacred wing.
Through thee may we the Father know,
through thee th'eternal Son,
and thee the Spirit of them both,
thrice-blessed three in One.
All glory to the Father be,
with his coequal Son;
the same to thee, great Paraclete,
while endless ages run.
Amen.
O Arcebispo puxou uma oração, Deus electorum fortitudo, e Clarissa abaixou a cabeça, fechando os olhos. Jonathan a imitou, mas não rezou a Deus. Não havia o porquê de rezar. Ele aproveitou esse momento para refletir e se acalmar. O coração estava batendo acelerado dentro de seu peito, um zumbido havia tomado os seus ouvidos. Conseguia sentir o olhar de milhares de pessoas sobre ele, esperando que cometesse algum erro, lhe desse algum motivo para lhe tirar do trono. Querem que eu falhe? ele pensou, irritado, Pois eu não vou. Vou ter sucesso. Só para mostrar a vocês. Um coral presente cantou, as vozes agudas e graves se misturando para trazer vida ao Hino da Coroação. Jonathan se ergueu e seus pajens foram rápidos em se aproximar, tirando a longa capa e cauda e deixando o Rei apenas em suas vestes brancas.
Ele se virou à Cadeira de Coroação, erguida sobre todos através de vários degraus. Representava sua superioridade, o sangue que corria azul em suas veias, a linhagem real traçada há um milênio. Jonathan subiu os degraus e se sentou, colocando os braços nos apoios. Percebeu então o motivo do pai ser como era, seu egocentrismo e senso de superioridade. Quando Stephen Herondale se sentou naquela mesma cadeira, longos anos antes, ele teria olhado por cima de todos.
Serei melhor do que ele, Jonathan pensou. Não irei ignorar meu povo. Irei ouvi-los e abraçá-los como irmãos.
Ele ficou em silêncio enquanto quatro cavalheiros da Ordem da Jarreteira ergueram uma marquise de algodão dourado sobre ele. O tecido criou um largo quadrado de sombra ao redor do antigo príncipe, e ele suprimiu a vontade de olhar para cima, seu corpo coçando para investigar melhor a construção acima de sua cabeça. Jonathan pendeu o queixo para frente enquanto o Reitor de Westminster derramava o óleo consagrado na Colher da Coroação. O Arcebispo pegou o óleo em seu polegar e molhou a testa de Jonathan, fazendo o desenho de uma cruz.
— Como o SENHOR foi com o rei meu senhor, assim o seja com Salomão, e faça que o seu trono seja maior do que o trono do rei Davi meu senhor — disse o homem, citando 1 Reis 1. — Então desceu Zadoque, o sacerdote, e Natã, o profeta, e Benaia, filho de Joiada, e os quereteus, e os peleteus, e fizeram montar a Salomão na mula do rei Davi, e o levaram a Giom. E Zadoque, o sacerdote, tomou o chifre de azeite do tabernáculo, e ungiu a Salomão; e tocaram a trombeta, e todo o povo disse: Viva o rei Salomão!
— Viva o rei Salomão! — as pessoas responderam.
A marquise saiu, encerrando a parte sagrada da coroação, e dois pajens se aproximaram de Jonathan, colocando a Colobium sindonis, uma longa túnica de um tecido branco frouxo, sobre ele. O Lorde Camareiro-Mor apresentou as duas esporas, representando o cavalheirismo. O Arcebispo de Canterbury, com a ajuda de outros, apresentou a Espada de Estado para Jonathan. Os pajens vestiram ainda mais o rei, colocando o Roupão Real e a Estola Real sobre ele. Foram levadas semanas para todos se lembrarem de suas partes, dias de treinamento para permitir que aquele dia fosse perfeito e saísse sem problemas.
O Arcebispo entregou um orbe de ouro puro à Jonathan. O orbe possuía uma cruz em cima, representando o governo de Jesus Cristo sobre o mundo e, com Jonathan o segurando, o governo do próprio rei sobre o mundo. Ele a segurou por poucos minutos, apenas o suficiente para ficar sobre a vista de todos, e marcar seu próprio governo sobre eles. Quando o tempo necessário passou, o Arcebispo pegou o Orbe e, imediatamente, o colocou de volta em seu altar.
Logo após, Jeremiah conferiu o Anel do Soberano à Jonathan, empurrando a joia de ouro com rubis, safiras e pérolas para o seu dedo anelar. A joia representava o seu casamento com a nação Era pesado, puxando o seu dedo para baixo, mas ele não disse nada, sem demonstrar dor ou desconforto.
Alguém lhe entregou dois cetros. O Cetro do Soberano com uma Pomba e o Cetro do Soberano com uma Cruz, assim chamados por seus respectivos detalhes. Eles eram finos nas largas mãos de Jonathan, mas, assim como o anel, ele não reclamou. Essa parte era importante para a sua coroação.
O Arcebispo de Canterbury ergueu a Coroa de Santo Eduardo e a colocou novamente em seu altar, recitando:
— Ó Deus, a coroa dos fiéis; bendito te rogamos e santifiquemos este teu servo, nosso rei, e como hoje colocas uma coroa de ouro puro em sua cabeça, enriquece seu coração real com a tua abundante graça e coroa-o com todas as virtudes principescas por meio do Rei Eterno Jesus Cristo nosso Senhor. Amém.
— Amém — os presentes responderam.
O Arcebispo pegou a coroa novamente e Jonathan prendeu a respiração, o coração acelerado dentro de seu peito. Ele manteve a cabeça reta, sem pender para frente ou para trás, e um ar de reverência subiu pelo público.
— Deus salve o Rei! — eles chamaram. — Deus salve o Rei! Deus salve o Rei!
Jonathan olhou para a multidão e pensou ter visto uma jovem mulher de longos cabelos loiros e olhos dourados olhando para ele, lágrimas descendo por seu rosto enquanto sua voz desaparecia entre as outros milhares. Ele piscou e ela sumiu, mas não havia espaço para se questionar sobre isso quando a cerimônia estava longe de acabar.
Os membros da nobreza colocaram as suas coronetas, trompetes soaram pela igreja, sinos preencheram ainda mais a cacofonia e Jonathan conseguiu ouvir, ao longe, tiros de rifles ressoando por todo o lugar.
Ele foi coroado. De agora até o dia de sua morte, Jonathan Christopher da dinastia Herondale era o Rei da Inglaterra e seus domínios.
— Deus o coroou com uma coroa de glória e justiça, que, tendo uma fé correta e múltiplos feitos de boas obras, você poderá obter a coroa de um reino eterno pelo dom daquele cujo reino dura para sempre — disse o Arcebispo e os presentes responderam, Amém.
Jonathan se ergueu, ainda segurando os cetros, e andou até seu trono, sentando-se.
— Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa — Arcebispo Jeremiah murmurou e a cerimônia para Jonathan havia acabado.
Depois dos bispos irem até ele, pagando suas homenagens, e plantaram beijos em seu anel, o Arcebispo de Canterbury coroou Seraphina Clarissa Jocelyn como a Rainha da Inglaterra, Escócia, França e Irlanda, até o dia de sua morte ou a de Jonathan. A coroa em cima da peruca branca que usava foi feita para Mary de Modena, a Rainha de James II. Decorada com veludo roxo e diamantes, era uma combinação digna à Coroa de Santo Eduardo.
Trocaram o Cetro do Soberano com uma Pomba pela Orbe; trocaram a Coroa de Santo Eduardo pela Coroa do Estado Imperial e Jonathan se levantou, vendo quando os pajens retiraram suas vestes e lhe vestiram outro roupão de tecido roxo, a cor da realeza.
Enquanto ele andava para longe do altar e para fora da Abadia de Westminster, um coro de vozes se ergueu entre as pessoas, cantando:
God save our gracious King!
Long live our noble King!
God save the King!
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