Imperium

1 I - Imperador Austríaco


Hodge Starkweather sabia melhor do que ofender o Imperador Austríaco.

Valentim III da Casa Morgenstern era conhecido em toda a Europa por sua força militar e sua autoridade sobre o seu povo e sua família, governando aqueles ao seu redor com um punho de ferro. Seu cabelo loiro era comum em sua Corte e seus olhos negros pareciam apontar cada erro na postura do embaixador inglês.

Ele se curvou ao entrar na sala e beijou o anel de rubi do monarca, como era esperado de um estrangeiro. A Imperatriz piscou e inclinou o queixo, reconhecendo sua presença. Ela era linda, como todos os rumores diziam, e seus olhos verdes pareciam iluminar a sala enquanto seu cabelo ruivo estava preso em uma trança elaborada. Havia tinta em seu rosto, a mesma que as damas francesas usavam na Corte em Versalhes, e ela sorria gentilmente.

— Embaixador Starkweather! — disse o Imperador sem se levantar de seu trono dourado. Hodge se impediu de franzir o cenho, o inglês de sua majestade estava quebrado e seu sotaque poluía suas palavras. — Bem-vindo à Viena!

— É ótimo estar aqui, Vossa Majestade — respondeu com seu vocabulário londrino.

— Confio que você esteja bem informado na língua da Corte — anunciou, as palavras escorregando para fora de sua boca em seu alemão nativo. Por muitos anos, a língua da Corte austríaca havia sido o francês, mas tudo havia mudado com a morte do Imperador Leopoldo IV e a ascensão de Valentim.

Hodge tentou não se alarmar. Como um lorde da sociedade inglesa, ele havia recebido uma educação extensa na parte de linguística, porém o alemão sempre havia sido uma pedra em seu sapato.

— Estou bem informado, senhor — respondeu, vendo as sobrancelhas do Imperador se juntarem com sua fala. Certamente, não havia se impressionado.

— Como embaixador, imagino que esteja aqui para falar de política.

Ao contrário da Inglaterra e seu parlamento antigo, a Áustria ainda era uma potência com monarquia absolutista assim como vários outros países ao redor do globo. Não era uma surpresa que a política fosse discutida com o próprio monarca.

— Não exatamente, senhor. — Jocelyn Morgenstern, a Imperatriz, ergueu uma sobrancelha ruiva. Estava surpresa. — Estou aqui para propor uma aliança entre meu país e o seu à pedido de meu Rei, Stephen VII da Casa Herondale.

— Uma aliança? — Valentim apoiou seu queixo em sua mão, apertando dois dedos contra seus lábios finos. — Explique-se.

Hodge apertou seus documentos, as cartas de seu Rei contra o peito. Essa era a parte que ele mais temia, a proposta. Tudo poderia dar certo tanto quanto tudo poderia dar errado. O que acontecesse naquela sala nos próximos minutos mudaria o futuro da Europa inteira.

— Sua Majestade sugere uma aliança em forma de casamento — disse, erguendo o peito e tentando parecer confiante. — Entre seu herdeiro e filho, Príncipe Jonathan Christopher de Gales, e sua filha, a Arquiduquesa Seraphina Clarissa Jocelyn.

Se o Imperador havia sido afetado por aquela notícia, ele não havia deixado mostrar e permanecia com o mesmo rosto impassível e frio. A Imperatriz, no entanto, estava surpresa e murmurava para si mesma coisas em seu francês nativo. Hodge esperava reações mais fortes dos dois, ele estava falando de sua única filha afinal, mas tentou se alegrar no fato de não ter sido negado imediatamente.

— Casamento? — repetiu o Imperador. — Entre Seraphina e o Príncipe de Gales?

— Exatamente, senhor.

— Ela está na idade para se tornar uma esposa, meu amor — disse a Imperatriz.

Tanto o Imperador quanto Hodge a ignoraram. Mulheres, ele pensou com escárnio, o sexo frágil deveria se manter afastado das políticas.

— Eu ouvi rumores sobre a vida do Príncipe, embaixador. — Valentim estreitou seus olhos e eles se tornaram duas fendas pretas em seu rosto. — Sobre como ele vive em falso matrimônio com uma atriz e como ela não é a única mulher em sua vida. — Hodge engoliu em seco. Aquilo era o que ele mais temia, que as imprudências do Príncipe chegassem aos ouvidos dos líderes mais importantes do continente que esconderiam suas filhas e suas irmãs. Ele quase entendia o desprezo que o Rei tinha por seu filho e a ameaça que ele era para a linhagem Herondale. — Por que eu daria a mão de minha única filha para um homem assim?

Hodge lambeu os lábios. Ele não tinha nenhuma resposta.

— Você tem sorte que eu considero um casamento entre Seraphina e um Príncipe Herondale desde o momento que ela chegou nesse mundo — continuou Sua Majestade Imperial, coçando o queixo. — Apesar de eu ter desejado William para ela.

O embaixador arfou e tocou em sua bandana preta, amarrada na manga de seu casaco. A Inglaterra ainda estava de luto pela morte do Príncipe William, o antigo herdeiro, quase um ano antes. William era um bom homem, sabia o seu dever e seu lugar e não merecia ter sido levado pela tuberculose. Seraphina teria sido uma dama de sorte por se casar com tal indivíduo.

— Mas um Príncipe Herondale é um Príncipe Herondale, mesmo que Jonathan Christopher não é a minha primeira escolha ou a de qualquer outro pai na Europa continental. — ele deu um sorriso largo e de dentes pontudos. — Acredito que você vai ter que ficar por mais alguns dias em minhas terras, Embaixador Starkweather. Temos muito a discutir.