Imperium
2 II - Retratos Reais
Jessamine tombou a cabeça, beijando o peito despido de Jonathan com uma preguiça excitante. O seu cabelo loiro estava caindo em seu rosto e ela, como sempre, não se intimidava em relação a própria nudez.
— Queria poder ficar aqui para sempre — comentou o Príncipe, acariciando a cabeça de sua amante.
— Então fique — respondeu ela. — Eu não me importo em ter você nessa cama por toda a eternidade.
— Talvez eu fique — disse Jonathan, sorrindo e se ajeitando no enorme e macio colchão. — Com você ao meu lado, eu não preciso me preocupar com nada.
Ela sorriu e se ergueu, colocando uma perna de cada lado do quadril dele. Era cedo demais para ele estar pronto para qualquer brincadeira, mas Jessamine não parecia se importar; estava com uma expressão brincalhona e os olhos brilhavam com maldade.
Jonathan a conhecia o suficiente para saber que ela queria e bufou, jogando a cabeça pra trás. Ele atingiu o travesseiro de penas, macio e felpudo, e desejou voltar a dormir.
— Eu estava pensando, querido… — comentou ela, olhando para os olhos dele enquanto mexia o quadril, atingindo propositadamente a virilha do Príncipe. Ele suspirou e colocou suas mãos na cintura dela, tentando parar seus movimentos. Nunca pensava direito em momentos como aquele. — Amantes Reais francesas têm títulos e recebem dotes pela generosidade. Por que eu não tenho um título? Estava pensando em Marquesa ou quem sabe Duquesa, tenho certeza de que mereço.
Aqui não é a França, pensou sentindo um ódio patriótico inflar seu peito na menção do antigo inimigo de sua nação. Todos sabiam que os reis franceses exibiam suas amantes com orgulho e pompa, talvez até mais do que suas próprias esposas.
— Apenas reis podem dar títulos — explicou, grunhindo com os movimentos certeiros da atriz. — E minha mesada anual já é gasta com você.
— Você deveria ser rei — disse Jessamine, sorrindo maldosamente. — Seu pai já está velho e cinza. É a sua vez de governar, meu amor.
Ouvindo isso, Jonathan prendeu seus dedos na cintura da amante e a tirou de cima de seu corpo; fazendo uso dos músculos ganhos em seus anos vivendo no ducado de York. Jessamine arfou e reclamou enquanto ele se levantava e andava até a cadeira onde suas roupas haviam sido jogadas na noite anterior.
— Meu pai está velho, cinza e ainda vivo, Jessamine — murmurou, incapaz de não sentir um pouco de afeição pelo Rei da Inglaterra. — As coisas que você fala podem acabar com o pouco respeito que tem na Corte.
Antes que Jessamine pudesse responder, a porta se abriu com cerimônia e o Rei entrou com pompa, olhando ao seu redor como se fosse superior a tudo e a todos – o que ele era. O pai de Jonathan não estava usando sua coroa, mas suas roupas caras eram suficiente para identificá-lo.
— Você está indecente — comentou, uma ruga aparecendo entre suas sobrancelhas grisalhas. As irmãs de Jonathan costumavam dizer que o Rei era incapaz de relaxar, mesmo na presença de sua família, e ele não era velho demais ao perceber que era verdade.
— Você está no meu quarto, Majestade — respondeu o Príncipe, insolente. — Acredito que tenho o direito de ficar… desnudo.
— Teve sorte de ser eu e não uma das criadas. — Stephen VII se sentou, apoiando os braços na cadeira como se fosse o seu trono. Jonathan sentiu vontade de lhe contar que a noite com Jessamine havia começado naquela mesma cadeira, só por amargura. — A fofoca corre sem pudores entre a classe menos afortunada. — ele olhou para Jessamine enquanto dizia, os olhos estreitos e o rosto duro. — Hodge Starkweather retornou da Áustria ontem à noite.
— Por que Vossa Majestade está me dizendo isso? — perguntou Jonathan. Apesar de ser o novo herdeiro, Stephen nunca havia lhe dado permissão para lidar com o governo. Era como se o Rei se recusasse a aceitar a morte de seu primogênito.
— O Embaixador Starkweather foi para o continente para propor uma aliança ao Imperador — explicou Stephen. — Amizade entre a Áustria e a Inglaterra deve ser cementada pelo casamento. Você irá desposar a única filha de Valentim III: Seraphina Morgenstern.
O ar deixou o peito de Jonathan com velocidade, como se mãos pesadas apertassem suas costelas. Ele arregalou os olhos e se sentiu tonto, obrigado a agarrar uma mesa próxima para se equilibrar.
— O quê? — perguntou ao recuperar sua compostura. — Por quê?
— Porque os Morgenstern são uma família rica e poderosa. Precisamos deles como aliados e nada melhor do que um casamento para fortalecer a amizade — explicou Stephen, seu rosto se enrijecendo ao ser contestado. — Porque você é o único Herondale homem de sua geração e precisa de uma esposa e herdeiros. — o Rei tombou a cabeça para o lado, escárnio tomando suas feições. — Ou você esperava se casar com a sua meretriz?
— Eu sou uma atriz! — reclamou Jessamine, pulando da cama enquanto vestia sua camisola. — Não uma prostituta qualquer que os senhores ingleses encontram na rua.
— Mulheres atrizes! Há! — o Rei riu, parecia achar graça em toda aquela situação. — Cem anos atrás, você seria presa por indecência, mas, infelizmente, os tempos mudaram.
Jessamine fez uma careta, preparada para retrucar quando se lembrou com quem estava falando. Ela poderia ser a amante do Príncipe, mas o Rei ainda estava vivo.
— Sua Majestade, — começou Jonathan. — eu não quero me casar com a Arquiduquesa.
— Não quer? Não quer? — repetiu Stephen VII. — Devo lembrá-lo, Jonathan, que eu sou o Rei dessa nação e seu pai! Você vai se casar com quem eu achar digna! Não importa o que você quer. — o rei ofegou, cansado depois de esbravejar com tanta força. — Sua reputação arruinou suas chances com quase todas as princesas europeias e a presença dela na Corte conseguiu irritar a maioria das damas inglesas. Tivemos sorte com os austríacos e eu não deixarei que você arruíne isso.
Stephen enfiou a mão nos bolsos e retirou um objeto oval e dourado. Jonathan sabia o que era antes mesmo que ele pudesse explicar: uma miniatura de um retrato, provavelmente da Arquiduquesa.
— Aqui — disse o Rei, estendendo o retrato. — Sua futura esposa.
A garota na pintura encarava Jonathan com olhos grandes e verdes. Seu rosto era pequeno e os cachos ruivos caíam com leveza em sua pele pálida. Ela era bonita e elegante, mas parecia com alguém que nunca tivesse recebido suas feições adultas, quase como uma criança.
Jonathan sentiu vontade de vomitar.
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Maia fechou os olhos, franzindo o cenho enquanto abaixava a xícara de chá e estalava a língua contra o céu da boca.
— Odeio limão — murmurou. — Por que não me avisou que era de limão?
Seraphina lançou um sorriso inocente para sua amiga e levou sua bebida aos lábios, aspirando o cheiro cítrico do chá quente.
— Eu não sabia — respondeu, piscando os olhos. — Minhas damas nunca me dizem qual o sabor do meu chá. Eu simplesmente bebo.
— Você confia demais, Alteza— disse, simplesmente. Maia colocou sua xícara na travessa e se inclinou, pegando um biscoito açucarado entre os dedos. — Não que seja errado, é claro, mas alguns consideram tanta confiança como algo imprudente.
Maia era sua amiga mais antiga e preciosa, filha da ama de leite das crianças reais e uma dama da Imperatriz. Elas haviam brincado juntas quando jovens, se escondendo das babás e roubando doces da cozinha. Não havia uma Seraphina sem uma Maia ao seu lado.
— Confiança é boa.
— Se você diz. — deu de ombros.
Seraphina sorriu e bebeu um pouco de seu chá, sentindo-o traçar um caminho quente de sua boca até seu estômago. O dia estava lindo com raios solares brilhantes e as flores que se desabrochavam com o início da primavera, apenas uma brisa fria que vinha do norte do país afetava os bons humores de todos, mas a Princesa Imperial e Arquiduquesa Austríaca já estava acostumada com o frio.
— Queria ir cavalgar hoje, — disse, olhando para as janelas largas e compridas na antecâmara de seu quarto com ânsia. Ela suspirou, deixando os seus ombros caírem levemente; sentia-se livre para não seguir o protocolo Imperial na frente de Maia. — mas Copo de Leite acabou de parir. Ela precisa ficar perto do potro.
Cavalgar era sua paixão, o motivo de sua existência e cada momento longe de sua égua era um momento de sofrimento.
Maia fez um som de concordância no fundo de sua garganta.
— Palavras sábias, Vossa Alteza — murmurou. — Talvez possamos ir na cidade ou pedir para que os atores da Corte façam uma performance extra-especial para nós.
Seraphina inclinou a cabeça para o lado, franzindo os lábios. Para ir a cidade, ela necessitava da autorização expressa de seu pai, o Imperador, e ele estava em um péssimo humor nos últimos dias. Apesar de ninguém ousar falar isso em voz altas, todos sabiam que era pela presença da amante do Arquiduque Sebastian na Corte. Lady Seelie era uma pessoa terrível e rude, que se achava melhor do que todos por esquentar a cama do herdeiro do império.
Eles são perfeitos um para o outro, pensava Seraphina toda vez que os via.
— Talvez não — disse. O rosto de Maia permaneceu neutro, mas estava claro seu desapontamento. — Melhor pedir para os atores uma performance extra-especial. — ela inclinou a cabeça para o lado e apertou os lábios. — Quem sabe algo russo, tenho criado um gosto especial pelos artistas de lá.
Maia foi impedida de responder quando as portas da câmara se abriram e o anunciador real entrou com seu queixo erguido e suas vestes espalhafatosas.
— Suas Majestades Imperiais, Imperador Valentim III da Casa Morgenstern e sua esposa, a Imperatriz.
Seraphina se levantou e se curvou, vendo pelo canto dos olhos Maia fazer o mesmo. A presença de seus pais era uma raridade em sua vida diária, os dois preferindo seguir o exemplo de seus antecessores e se manterem afastados dos filhos. Ela tentou arrumar um pouco de felicidade ao vê-los, porém falhou miseravelmente.
— Seraphina, — começou a Imperatriz. — arrume sua postura.
A Arquiduquesa obedeceu com receio, corrigindo a posição de seus ombros e de seus pés. Era fácil se desleixar quando estava na presença reconfortante de Maia.
— Aconteceu algo, meu pai? — perguntou ela, dirigindo seu olhar para o Imperador. O cabelo platinado de Valentim estava penteado para trás e ele parecia feliz, algo que nunca ocorria na Corte Imperial.
— Muitas coisas — respondeu ele. — O embaixador inglês voltou para seu país depois de dias de negociações. Tudo está determinado agora.
— O que é, pai?
— Mein tochter, — disse Valentim. — nós encontramos um noivo para você.
Os olhos de Seraphina se arregalaram e um sorriso tomou seu rosto antes que ela pudesse impedi-lo. Desde que se entendia por gente, ela ouvia sobre seu casamento e futuros filhos; havia aprendido tantas coisas com o objetivo de se tornar uma boa escolha para os reis e Príncipes da Europa. Filosofia, ciências, música.
— Um noivo? — repetiu. — Jura?
— Eu não mentiria sobre algo assim — retrucou o Imperador. — Entregue à ela, querida.
A mãe de Seraphina colocou a miniatura de um retrato em sua palma aberta. A Princesa arregalou os olhos e deixou seu queixo cair ao ver o homem retratado ali.
Ele era muito atraente e Seraphina tinha certeza de que era conhecido por sua beleza, não importava em que país morava. Seu noivo tinha um belo e encaracolado cabelo dourado, longos cílios e olhos que pareciam ouro na luz. Seu rosto era lindo, deslumbrante e angular. Ela determinou, depois de alguns minutos, que ele era belo e leonino, com uma boca estreita.
— Ele é perfeito — sussurrou a Princesa, tocando com cuidado a tinta dourada que havia sido usada em sua pele.
— Ele é Jonathan Christopher da Inglaterra — disse a Imperatriz. — Príncipe de Gales, Duque de Chester, Cornwall e Rothesay além de ser o antigo Duque de York. Jonathan é o primeiro na linha de sucessão para o trono inglês.
— Eu serei Rainha da Inglaterra? — perguntou, incapaz de esconder sua esperança.
— Rei Stephen é velho enquanto Jonathan é jovem e saudável — explicou Valentim. — Improvável que o Príncipe morra antes que o pai.
— O casamento é uma certeza? — Seraphina ergueu o rosto, receosa. — Não haverá mudanças?
— Mas é claro que sim — disse o Imperador. — Embaixador Starkweather voltou para a Inglaterra para ajudar com os preparativos para o seu casamento e, enquanto isso, você aprenderá inglês e a história e geografia de seu novo país.
Ser Rainha era tudo que Seraphina mais sonhava, não importava da onde. Já conseguia imaginar seu futuro na Inglaterra, ganhando o amor do povo inglês e apoiando seu marido na política; talvez até mesmo recebendo o seu carinho e devoção. Ela teria filhos também, muitos filhos.
— Serei boa — prometeu.
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