Imperdoável encantamento

5 Aula de poções - Draco Malfoy


A fumaça sobe de meu caldeirão, mergulhando meu rosto em um cheiro podre e desagradável. Enquanto balanço um dos braços para escapar daquela pequena armadilha criada por minha incompetência, puxo o livro de poções para perto, mas o maldito despenca no chão com um baque surdo. Ouço uma risadinha abafada e percorro as masmorras com os olhos, procurando a alma infeliz que teve a audácia de zombar de minha desgraça.

Weasley. Já deveria ter imaginado.

Por que ele não explode sua poção também? A fumaça dourada certamente é o mais próximo de um galeão que ele verá em toda a sua medíocre vida. Sinto a satisfação preencher-me quando as orelhas dele ficam vermelhas diante de meu comentário maldoso. A vingança é um prato que se come quente!

Estou prestes a voltar minha atenção para o líquido borbulhante de coloração duvidosa quando uma nova voz distrai-me. A Granger faz um afago rápido no braço do Weasley, murmurando palavras de consolo. Retira a mão rapidamente, surpresa com sua própria atitude. As orelhas do Weasley ficam ainda mais vermelhas, fazendo com que ele pareça o próprio Expresso Hogwarts. Quase escuto o som do apito da timidez quando ele abre um sorrisinho vitorioso.

Irritado, abaixo a cabeça, murmurando blasfêmias. Em um mundo mais justo, o Weasley nunca receberia carinhos da garota por quem estou apaixonado. Ela seria somente minha. De mais ninguém. Estaria sempre ao meu lado, debochando dos amantes dos sangue-ruins... e seria ela uma sangue-puro como eu. Uma sonserina.

Será que eu realmente posso chamar isso de justiça? Ou será que o encanto da Granger murcharia caso ela fosse diferente, mais perversa? Eu não encontrei este sentimento estranho em nenhuma idolatria. Encontrei-o no confronto. Na audácia. Se a Granger não se opusesse a mim com tanto fervor, acho que sequer me daria conta de sua existência.

Tenho um sobressalto quando Snape olha para dentro de meu caldeirão, apertando os lábios finos. Ele está decepcionado. Não porque seu aluno preferido fracassou tão douradamente na execução de uma tarefa. Ele está decepcionado porque a poção da Granger está perfeita, cuspindo pequenas lufadas de fumaça roxa que preenchem lentamente as masmorras com um cheiro adocicado.

Com a vergonha subindo meu rosto, retiro a varinha do bolso e faço um movimento rápido com o pulso, dando um fim ao líquido borbulhante. Vejo Snape deslizar para longe, a capa flutuando sobre o chão de pedra. Sei que pretende descontar sua raiva em Neville, cujos resultados foram ainda mais apavorantes do que os meus. Ao menos a Parkinson, de pé ao meu lado, não ganhou nenhum furúnculo.