Imortais | Fatais
3 Capítulo 2 |
Às nove e trinta e seis, às portas da delegacia se abriram e uma figura bem vestida passou por ela. Ronan, a princípio não reconheceu a figura até que ela estivesse perto de sua mesa.
Kiera Fakhri parecia exatamente como qualquer outra jovem, usava um casaco longo cinza escuro, jeans azul e uma blusa fechada preta que combinava com os coturnos, e ao mesmo tempo parecia com uma aparição divina com a pele cor de cobre envelhecido iluminada, os olhos maquiados, os lábios brilhando sutilmente e a postura de uma modelo.
E Ronan tinha quase certeza de que havia um manto com ela, mas era só o casaco.
— Ei policial. — ela chamou.
Ronan sorriu de canto.
Não tinha notado na noite anterior que era mais alto que ela, apesar de que Kiera não era necessariamente baixa, o ombro dela ficava pelo menos três dedos mais baixo que o dele quando ficavam lado a lado.
— Ei moça. — respondeu. — Não sofreu nenhuma ameaça no caminho?
Kiera franziu o cenho por um par de segundos antes de abrir um sorriso brilhante e dizer que o caminho tinha sido rápido e sem ameaças. Então, os murmúrios começaram. Questionando e supondo sobre os Avatares, como conseguiam o dinheiro para se manterem num patamar de vida tão mais alto que a maior parte dos realmente ricos do país entre outras coisas.
Ronan sabia da possibilidade de que qualquer um na delegacia tentar ouvir informações e repassá-las, mas não esperava que fosse tão… explícito. Sentia o rosto quente de vergonha pela atitude dos colegas, deveriam estar me ajudando bastardos, podia sentir o peso dos olhares que estavam em Kiera.
— Pode me mostrar o quadro de suspeitos? — a jovem questionou baixo. — Não quero… tem muita coisa não me sinto confortável em falar com plateia. Nem todos tem a capacidade de ouvir e não repetir como eco o que ouvem.
Por um segundo Ronan não soube o que responder, Kiera tinha um sorriso contido e brilhante no rosto como se não tivesse chamado todos ali de fofoqueiros.
Enquanto o silêncio suspendia toda a ação, Kiera deixou os ombros caírem e Ronan suspirou.
— Quer café? Eu quero um. — ele anunciou, e barulho preencheu novamente o ambiente. — Tudo pode ficar melhor com café!
Ele não precisava ter superpoderes ou algo do tipo para saber que nada do que ouvisse daquela jovem sobre o assassinato de Juno poderia ser melhorado com café.
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— Uh, vocês não tem ideia de por onde começar, não é? — Kiera perguntou observando o quadro branco quase vazio.
Ronan encolheu os ombros, incomodado mas não envergonhado. Kiera não queria café ou qualquer outra coisa além de uma garrafinha de água, canetas para quadro branco e fotos impressas dos Avatares.
— Ninguém queria trabalhar nesse caso. Ninguém realmente quer trabalhar nesse caso, ou para os deuses.
Kiera estalou a língua e sorriu.
— Se vissem meu salário, com certeza iam pensar duas vezes. — comentou. — Quatro dígitos todo mês na minha conta… não preciso ficar muito preocupada com a faculdade.
Ronan ergueu as sobrancelhas e bebericou do café que estava segurando enquanto observava a sacerdotisa espalhar as fotos. Faculdade? Ele observou a jovem enquanto ela escolhia fotos e separava para então agrupá-las sob algum critério que ele não tinha ideia.
— Esses aqui, — Kiera falou mostrando três fotos. — são avatares cujo divindade imperou e eles raramente são vistos fora dos devidos domínios. Esses outros, — ela pegou outras cinco fotos. — tem a personalidade compartilhada, andam por aí. Cupido andava muito com a Amélie; nos últimos tempos Loki também. E esses quatro, — ela pegou outras quatro fotos, uma de Amélie, uma de Júpiter e outras duas pessoas que não conhecia. — são de pessoas cuja personalidade humana imperou. Por hora, você e todos os outros que forem trabalhar no caso deveriam ler sobre o atual Panteão.
Ronan assentiu com a cabeça, com informações demais para falar algo. E ainda assim ele conseguiu notar Kiera inspirando profundamente para não chorar.
— O café ainda tá de pé?
— Conheço um lugar bem legal, vamos.
Saíram da delegacia sob os olhares curiosos dos outros policiais, mas ninguém sequer lhes deu um olhar estranho enquanto caminhavam pelo centro até uma cafeteria meio escondida entre uma loja de roupas e uma livraria quase duas quadras distante da delegacia.
A sacerdotisa suspirou mais uma vez quando entrou na cafeteria, e embora ela estivesse com um sorriso Ronan desejou entender o motivo de esconder tanta tristeza.
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A tríplice sacerdotisa tinha os olhos vermelhos pelo esforço de conter as lágrimas, mesmo depois de Ronan dizer que estava tudo bem em chorar.
— Eu não vou chorar. — ela fungou, mantendo o rosto virado para o alto. — Não aqui, não agora, e definitivamente não na sua frente.
— O que tem de errado em chorar na minha frente? — perguntou abaixando o rosto para bebericar do café.
Quando deixou o copo de café na mesa e levantou o rosto, encontrou os olhos da sacerdotisa muito sérios o analisando. Eram castanho-esverdeados quase amarelados, e combinavam muito bem com a pele cor de chocolate e o cabelo com cachos pretos.
Kiera combinava muito bem com si mesma, Ronan concluiu, mesmo quando estava mudando de assunto para não chorar.
— Você não é crente. — ela falou. — Não acredita em nada que não possa ver, seu deus é a razão. Você é cego por vontade própria.
Ronan a encarou chocado. Nunca tinha escondido de ninguém que pouco alterava sua vida que deuses haviam encarnado ou não, ninguém perguntava e ele não respondia, mas ouvir aqui saindo da boca da sacerdotisa pareceu quase uma ofensa.
— Olha se isso atrapalha a investigação eu–
— Não atrapalha, na verdade ajuda. — Kiera falou para então apertar os olhos, claramente ponderando algo antes de voltar a falar: — Droga. Você não é crente! Aquele…!
Ronan bebeu mais um ou dois goles de café antes encostar-se nas costas da cadeira. Kiera parecia estar tão irritada que por um par de segundos Ronan temeu que ela fosse uma discípula dos deuses da guerra.
— Uh, então qual o motivo da irritação?
— O bastardo. Júpiter. Não vamos conseguir seguir a investigação. Não sozinhos.
Ronan franziu o cenho, tinham o departamento de investigação mobilizado para resolver o assassinato e isso não seria o suficiente?
— Tem lugares que humanos normais não entram, nem a polícia humana. Você entraria, talvez até visse o mesmo que eu, mas o restante não veria nada.
— E o que isso tem com o fato de que não sou crente?
— Se você não é, teremos que trabalhar com alguém que é.
Ronan ergueu as sobrancelhas, esperando que a sacerdotisa falasse claramente.
— Os Avatares vão mandar alguém?
— Outro sacerdote, talvez.
As sobrancelhas de Ronan elevaram-se um pouco mais enquanto esperava que Kiera explicasse mais daquilo.
— Não me pergunte sobre isso, eu não sei quem eles vão mandar. — suspirou bebendo mais um gole do copo de café. — Não tenho nada contra eles, nem a favor.
— Sim, você tem algo contra. — rebateu.
— Não tenho.
— Tem, e pelo jeito te incomoda bastante.
Kiera enfiou os dedos no cabelo exasperada.
— Não tenho nada contra! — afirmou quase rosando. — Só não gosto da atenção que eles acham que merecer.
Ronan sorriu alegremente.
— Sim, você tem. — respondeu alegremente. — Mas fale quando quiser.
Kiera grunhiu e jogou as mãos pro alto, um pequeno sorriso no rosto.
— Você é impossível. — ela debochou.
— Pelo menos você não está chorando. — retrucou. — Não sabia que os últimos dias tinham sido tão puxados.
Kiera balançou a cabeça com um sorriso no rosto, terminou de tomar o café e apontou a colherzinha para ele.
— Sinceramente, não era pra você saber. A morte de Juno foi… a pá de cal em vários dos meus. Estamos todos meio perdidos e o velório… você já viu deuses chorarem? Acho que tanto choro mexeu com a energia nos mundos, sinto como se tivessem mexido com minha cabeça e minhas emoções com uma bengala de açúcar.
— Posso te levar pra casa Kiera, precisa descansar.
— Não posso. — ela retrucou. — Tenho que te ajudar com o quadro de suspeitos, descansar me faria mais mal do que bem.
Com um suspiro, Ronan concordou a contra gosto. Contrariar não vai adiantar, é vencer pelo cansaço.
Lançou um olhar rápido para a entrada da cafeteria encontrando um olhar pesado de um rapaz que apostava não ser mais velho que ele. Roupas escuras, cabelos muito pretos e tatuagens destacadas contra a pele branca e olhos que pareciam viperinos. Os observava como se pudesse matá-los ali.
— Kiera, acho melhor irmos.
A sacerdotisa sorriu e jogou o cabelo por cima do ombro antes de olhar para a entrada, e também encontrou o olhar do rapaz na direção deles.
Se já não tivesse ouvido tanto sobre como a sacerdotisa via o mundo podia jurar que ela tinha visto um fantasma pela forma como todos os músculos dela tencionaram, como se estivesse prestes a fugir. Ou pior, prestes a atacar.
Mas isso tudo durou apenas um par de segundos e quando Ronan olhou para ela novamente a mesma expressão solar estava em seu rosto. Eu realmente vi a expressão espantada, tenho certeza.
— Quer saber, vamos logo. — ela chamou sorrindo. — Te compro alguma coisa no caminho.
Ronan demorou alguns segundos para assimilar que Kiera já tinha se levantado e estava indo em direção à saída, e quase propositalmente esbarrou no rapaz que os encarava.
— Você conhece o rapaz que estava olhando pra nossa mesa? — perguntou.
— Sinceramente, — Kiera murmurou. — não sei mais se conheço qualquer um.
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