Notas iniciais
Num belo dia que todos estavam fazendo seus deveres diários normalmente, algo muito fora do comum acontece e lhes tira daquela segurança.

Bom, eu espero que tenha explicado bem como ficou a Base da Guilda e como foram divididos os cargos para cada um. Pelo menos para os membros iniciais. E claro, ainda tem muito mais gente para ser comentada. Essa guilda não era feita só de oito ou nove pessoas.

Sobre os outros integrantes, eles serão descritos conforme vão aparecendo durante minha narrativa, então você não precisa se preocupar em ficar perdido quando um ou outro aparecer.

Ah, e mais uma coisa: imagino que você ainda esteja com duas questões muito importantes na cabeça. A primeira é sobre o que era aquele tal "projeto" que os membros da Planetarium estavam envolvidos. E a segunda é sobre a guerra que tinha se iniciado no sul. É óbvio que eu não me esqueci deles, mas só agora posso falar mais sobre esses dois assuntos.

Vou começar pela Guerra.

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Em um mundo gigantesco e cheio de criaturas místicas, não era de se estranhar que milhares de histórias fossem criadas. Muitas dessas histórias chegavam a ser ridículas de tão irreais, mas quando se pensado que existe uma criatura imensa, escamosa, que voa e que cospe um fogo mais quente que o de um vulcão, você acaba dando o braço a torcer.

E por muitos anos, inúmeras lendas foram sendo criadas pelos quatro cantos do mundo. Cada região tinha suas próprias lendas, já que muitos monstros e seres sobrenaturais só viviam em uma parte específica do globo. Os Gigantes Azuis só eram vistos nas terras congeladas do extremo norte. As Sereias de Karf só eram vistas nas ilhas de Karf ao leste, que eram o motivo delas terem esse nome. E assim por diante.

Mas não só de monstros nascem as lendas. Na verdade, a maioria dos contos fantasiosos vinham de grandes feitos de heróis e heroínas corajosas. Assassinos de grandes feras ou salvadores de grandes cidades sempre acabavam tendo seus atos heroicos contados em poemas ou canções.

Uma dessas "Lendas" estava caminhando pelo corredor leste do Grande Castelo da Capital. Como sempre, seus passos eram pesados e precisos, para não dizer ligeiros. Era uma hora fora do comum para o General estar por ali, então ele não estranhou o fato de não encontrar quase ninguém no caminho.

Raziel bateu três vezes no alto da grande porta de madeira, e assim que ouviu um "Entre!", o homem não esperou para puxar a maçaneta para baixo e empurrar a porta. O homem estava com sua brilhosa armadura de combate, estava cansado, atrasado e um pouco preocupado. É necessário lembrar que Raziel nunca era visto de uma forma tão abatida.

Ele não tinha culpa. Fez três viagens para três lugares diferentes, sem ter tempo para descansar. Quando finalmente parou nas Muralhas de Bertram — onde era seu Posto Primário e ficava exatamente na divisa de Riven com Erem, o reino vizinho do leste —, ele recebeu um comunicado urgente vindo da Capital, dizendo que dali a dois dias haveria uma reunião do Alto Conselho do Reino sobre um possível início de uma Guerra em larga escala. E lá foi Raziel de novo...

O General do Leste se dirigiu imediatamente à cadeira mais a direita da grande mesa. Todos os assentos estavam ocupados, o que era uma raridade centenária. Mesmo o General não lembrava quando foi a última vez que viu tal fato.

— Agora que meu último General chegou, podemos iniciar a reunião.

A voz de Julius, ainda o Rei de Riven, soou mais grossa do que o normal. Quem o conhecia bem, sabia que ele só usava aquele tom de voz quando estava prestes a mandar seus soldados para uma matança.

— Deixem-me apresentar. — disse um homem magro sentado na ponta contrária de onde estava Julius. Ele estava vestindo roupas bonitas de seda nas cores azul e branca, e só por esse padrão, já podia se notar que ele era do Reino de Martir, ao extremo sudeste. — Meu nome é Paolo Asdem. Sou Representante do Rei Rildegard. Ao meu lado direito está o General Hil, e do lado esquerdo o Conselheiro de Guerra, Nefaristo, ambos de Lazetna. É uma honra estar presente no salão de guerra de Riven.

— Acho que meus Generais e Conselheiros dispensam apresentações. — respondeu Julius, sem nenhuma alegria por ser honrado pelas palavras do Representante.

— Ah, com certeza não, Meu Lorde. — continuou Paolo. — Mas não vejo o General Arian aqui presente.

— General Arian faleceu em batalha há oito meses atrás, devido a um ataque de Rebeldes ao nosso Castelo. — os três visitantes de Lazetna sentiram um certo peso naquelas palavras do Rei. Provavelmente a informação da morte de Arian ainda não tinha ido à público, por isso eles não sabiam. — No lugar dele ficará este que está sentando ao meu lado. Seu nome é Marcus Teodorus.

O homem, também vestindo sua armadura de combate negra e vermelha, se levantou rapidamente e fez uma reverência para os convidados de outro reino, sem falar nada, e se sentou novamente. Marcus era Coronel e trabalhava sempre junto a Arian. Eles eram grandes amigos, e a morte do General afetou muito o homem em questão. Mas também o fez criar coragem e determinação para assumir o posto do amigo caído. Sua personalidade era a de um homem de poucas palavras, mas muito cuidadoso em relação aos amigos íntimos e irmãos de armas.

— Agora que as apresentações terminaram, eu lhes peço para iniciar o seu discurso que os trouxe de tão longe e nos fez reunir nosso conselho. — era Quantis, Conselheiro Real de Riven.

— Claro, não queremos tomar muito tempo dos Senhores. — disse Paolo, abrindo uma pequena pasta de couro que jazia na mesa a sua frente. Ele retirou uma só folha de papel, limpou a garganta e se levantou. — "Prezado Rei Julius Ferdinand Di Solter XII, esta é uma carta escrita diretamente por mim, Charles Rildegard VII. Estou enviando três dos homens que eu mais confio para lhe entregar uma mensagem de suma importância. Mil perdões por não poder comparecer pessoalmente, mas o Senhor deve compreender a situação que meu Reino se encontra. E é exatamente sobre esse fato que eu quero retratar por essa carta."

Paolo fez uma pausa. Ele sabia muito bem qual era o conteúdo da carta que tinha em mãos, já que ele ajudou o Rei a escrever. Mas não é por saber o que estava escrito, que ele podia se sentir menos tenso. O conteúdo não era nada agradável e poderia causar um belo de um desentendimento relâmpago. O General ali presente ao seu lado iria servir mais como escudo do que como uma força de apoio às palavras.

— "Graças a expansão territorial que o meu Reino vem fazendo há alguns anos, os custos para vivência e suporte de novas cidades estão crescendo cada vez mais. Com a aquisição das Capitais de Feital e Arknar, nosso reino se viu em um prejuízo monetário e militar. Vendo por esse ponto, eu acabei me aliando diretamente com meu irmão, Richard Semangard VII, para uma justa troca de mantimentos e controle de terras." — nesse ponto, todos os oficiais de Riven estreitaram os olhos, criando um ar muito mais pavoroso e tenso naquele salão. — "É de conhecimentos de todos que o seu reino e o reino de meu irmão estão em fase inicial de guerra, então o Senhor deve imaginar que, o que foi pedido a mim pela cooperação de Semangard, foi uma Aliança Militar." — mais uma vez, mesmo parecendo impossível, a intensidade naquele salão aumentou. — "Mas eu sei o quão grandioso e implacável é o Poder Militar de seu reino e da Aliança que os envolve, então eu gostaria de fazer um pedido simples: por favor, se renda."

Há um momento na vida de cada pessoa em que ela sabe que deve estar em sua mais perfeita sanidade mental. As vezes é por uma coisa mais boba, como um namorado se apresentando para a família rica de sua namorada. Cada palavra que esse namorado disser pode e será usado contra ele imediatamente pelo pai ciumento da garota em questão.

Agora pense nisso em uma escala colossal. Você chega no maior reino do mundo, na frente do Rei e dos quatro Generais que comandam o Exército dele, e lhes pede, com toda a educação, para que se rendam.

Para a sorte de Paolo, todos os homens sentados àquela mesa eram respeitosos e compreensivos. Se passaram exatos quinze segundos de puro silêncio. Era quase tão absurdo, que não dava para ouvir nem o queimar da madeira das tochas que iluminavam o salão. Aquilo ali não era a mesa de janta das crianças. Ninguém iria contar uma piada. Ninguém iria fazer uma brincadeira indevida. Aquilo tudo era sério. Mas ainda sim:

— Senhor Paolo... — começou Berul, que estava sentado ao lado de Raziel. — Por acaso isso é algum tipo de brincadeira?

— Eu nunca os reuniria aqui para lhe fazer uma brincadeira de tão mal gosto como essa. — respondeu Paolo, engolindo seco. — A carta ainda tem mais uma parte. "Eu sei que é um pedido um pouco assustador, então o Senhor não precisa responder imediatamente. Podemos esperar por sete dias. Nesse tempo, eu lhe juro que Lazetna não agirá em momento algum contra Riven. Mas caso o Senhor não aceite a rendição, então pode nos riscar do Triângulo do Universo, porque logo ele não mais existirá."

— Isso é um ultraje! — falou Quantis, um tanto nervoso. Ele se levantou de sua cadeira e bateu as duas mãos na mesa. — Você só pode estar querendo fazer uma grande piada com nós! Não posso acreditar que isso seja verdade!

— Desculpe que tenha feito o Senhor se irritar, mas se caso lhe agrade, pode ver a carta para confirmar o meu discurso.

E assim foi feito. Paolo foi até perto do Conselheiro e lhe passou a carta, voltando ao seu assento tentando ser o mais confiável possível. Em realidade, ele estava morrendo por dentro, pois o olhar dos Generais tinha mudado bruscamente depois do seu discurso.

— A escrita é mesmo do Lorde Rildegard, e além de sua assinatura, está com o brasão da Família Real. — disse Quantis, entregando a carta para o Rei Julius. — Ele estava falando sério.

Mais alguns longos segundos de silêncio se passaram enquanto Julius lia a carta. Ele viu que cada palavra dita pelo Representando estava ali escrita, mesmo não precisando confirmar. Ele era Rei por muitos anos e sabia que ninguém era ingênuo o suficiente para fazer algum tipo de piada desse nível.

Mas isso não o tranquilizava. Ele não queria admitir, mas imaginava que uma coisa grandiosa dessas poderia vir a acontecer. A expressão dos visitantes de Lazetna ao chegar no Castelo já lhe deu uma boa ideia do que estava para vir. Mas foi não adiantou ficar ansioso por isso. É como se você soubesse que alguém está preste a te dar uma facada. Mesmo que você saiba de onde vem e quando vem, ela ainda irá doer.

— Senhores Paolo, Hil e Nefaristo. — começou Julian. Todos prestavam total atenção ao Rei, pois era agora que ele daria uma resposta que mudaria tudo. — Eu lhes agradeço por terem vindo pessoalmente ao meu Reino para entregar tão importante carta diretamente em minhas mãos. Eu peço desculpas se em algum momento parecemos grosseiros. — Julian deu uma rápida olhada para Quantis, que abaixou a cabeça imediatamente. — E agradeço a preocupação do Rei Rildegard e a admiração que ele tem por nosso Reino. É muita gentileza dele querer nos dar tempo para pensar, mas eu lhes digo que isso não será necessário. — a intensidade chegou a passar do limite. Paolo estava suando em bicas e Nefaristo não parava de se mexer em sua cadeira. — Eu lhes peço para levarem a minha resposta diretamente ao seu Rei. E quero que digam exatamente essas palavras: a Aliança das Lâminas do Julgamento irá transformar todas as suas terras em mares de sangue.

Longe do fogo inicial de uma Guerra em escala mundial, ia uma carruagem não muito extravagante e em uma velocidade média. Ela andava pelas estradas de terra de Gargamel para a Capital de Riven, tendo que se esquivar de muitos buracos feitos pelas incontáveis chuvas dos últimos dias. A própria cidade de Gargamel estava incrivelmente suja, pois sendo uma cidade com muitos turistas, o pó e a lama trazidos de caminhadas e de veículos decidiram tomar conta das ruas e calçadas como se fossem deles.

Mas voltando àquela carruagem dita no início. Ela é importante porque trazia o casal que inaugurou a Immortal Star. Mulkior e Kula estavam voltando para casa depois de três dias naquela cidade. Eles não estavam lá para fazerem compras — a especialidade da cidade eram joias raras e belíssimas, o que atraia gente de todo o mundo —, mas sim, para fazerem uma missão dada por ninguém menos que Regi. O trabalho era bem simples, mas demandou tempo demais.

No atual momento, Kula dormia quase confortavelmente, usando o colo de Mulkior como travesseiro. Digo "quase tranquilamente", porque era difícil pregar os olhos quando seu veículo faz tantas voltas e balança tanto quanto uma canoa em uma tempestade. Mulkior estava afagando a cabeça de sua amada bem de leve, enquanto tentava não pensar nos problemas que a Capital estava tendo que enfrentar.

Podia não parecer, mas Mulkior era uma pessoa extremamente preocupada com o bem estar da sua Família. Mesmo tendo fugido de casa, ele nunca deixou de amar seus pais ou seus irmãos. E desde que ele voltou para Riven, ele não deixava de ir visitá-los.

Então é claro que ele estava por dentro dos embates que o Reino vem tendo em alguns lugares. Sua família cuidava dos equipamentos dos soldados, desde os que ficavam na cidade até os que iam para os campos de batalha. A Família Musubi estava bem atarefada nos últimos meses, e algumas de suas lojas chegaram a fechar, para não fazerem mais nada além dos pedidos do Castelo.

O mago de ferro estava quase adormecendo com seus pensamentos quando a carruagem parou abruptamente. Mulkior teve que segurar Kula para ela não ir ao chão, de tão instantâneo que foi. Ele a deixou sentada ao seu lado, perguntando se estava tudo bem, e assim que teve uma resposta positiva, levou a mão na pequena janela que dava visão das costas do cocheiro. A visão não foi prazerosa.

Para começar, Mulkior não via o cocheiro. Se isso fosse a pior coisa... Mas ele conseguia ver que a carruagem tinha sido barrada por uma quantidade razoável de pessoas. Haviam cavalos. As pessoas estavam armadas. Era um assalto?

— Mulkior Musubi! — gritou alguém lá fora. A voz era masculina e nada intimidadora. — Sabemos que está nessa carruagem! Saia agora e não tente nenhuma gracinha!

Kula, que tinha acabado de sair de um meio transe, passou a mão rapidamente no cabelo desajeitado e olhou o amado nos olhos. Ela não encontrou preocupação em seu olhar, mas sim, dúvida. Ela abriu a porta do seu lado e desceu bem lentamente, tentando analisar tudo ao redor. Mulkior fez o mesmo, descendo logo em seguida pela mesma porta.

Não tinha pessoas só na frente, como também nos lados e atrás da carruagem. Eles estavam cercados de todos os lados, e nenhum dos dois magos decidiu contar as pessoas naquele momento.

Mas era uma visão realmente... Bizarra. Na frente, estava um grande homem montado em um belo cavalo branco. O homem tinha um ar imponente, vestia uma armadura completa de ferro em uma coloração cinza escuro, trazia uma lança um tanto grossa nas mãos e — Mulkior não deixou de notar — uma insígnia militar no peito. Era fácil identificá-lo como um General de algum exército, ou pelo menos um Capitão. Algumas outras pessoas daquele bando também estavam equipadas com armaduras e usando o mesmo brasão que aquele homem. O problema era...

Que haviam outras pessoas que CLARAMENTE não eram soldados. Eles vestiam coisas aleatórias demais, e usavam armas diferentes demais. Alguns tinham partes de armadura. Alguns com caneleiras, outros com peitoral, outros com ombreiras. Mas era tudo aleatório. Nenhum deles carregava alguma insígnia, nem nenhuma bandeira, então, assim como o tal General, dava para entender que eles eram bandidos.

Então... O que esses dois grupos estavam fazendo juntos? Todos os supostos soldados e bandidos estavam misturados no círculo em volta da carruagem, como se fossem parte de um só exército. Todos olhavam para os dois magos, e era possível notar cobiça, ambição e até mesmo raiva em suas expressões.

— Então você é Mulkior Musubi. — disse o tal homem descrito anteriormente. Ele desceu do cavalo e deu alguns passos à frente. — Meu nome é Lázaro Corter III. Sou Comandante da Segunda Armada Terrestre da Aliança dos Reinos Divinos.

— Aliança dos Reinos Divinos? Nunca ouvi falar nela! — respondeu o mago de ferro, em um alto tom para poder ser ouvido.

— Não o culpo, nossa Aliança foi criada há muito pouco tempo. — continuou o Comandante. — Mas logo você saberá bem quem somos e quais são nossos grandes objetivos.

— Você pode começar me dizendo o quer comigo. — disse Mulkior. Ele estava um tanto tenso, porque sabia que aquilo não era nada agradável e tinha uma estranha sensação de já ter ouvido o nome do Comandante em algum outro lugar.

— Ah, vejo que é um homem de coragem. Pois bem, serei breve: queremos sua colaboração à nossa causa. E se possível, de sua Guilda também. Somos uma grande Aliança que foi formada para derrubar Riven e destruir de uma vez o "Triângulo do Universo".

É claro que esse não é o tipo de "pedido" que você vai ouvir todos os dias. Kula e Mulkior ficaram em silêncio, só olhando para o tal Lázaro. Ele não piscava e não mudava a expressão. Os dois magos tinham experiência suficiente com pessoas para saberem quando estão brincando e quando estão falando sério. E aquele homem tinha tudo, menos um ar de brincalhão.

— Você ficou maluco? — perguntou Kula, pela primeira vez. — Está reunindo um exército para atacar a maior capital do mundo, acreditando que vai conseguir destruir a Aliança com o maior poder militar que já existiu?

— E pensa em fazer isso com um bando de soldados e alguns bandidos? — continuou Mulkior, como se fosse sua deixa. — Não soube o que aconteceu ao último ataque de rebeldes que teve lá na Capital?

— Não se engane. — respondeu rapidamente o Comandante, antes que algum de seus homens mais "complicados" se irritasse e os atacassem por serem tratados como meros ladrões. — O que você vê aqui não passa de um dos inúmeros esquadrões que nossa Aliança possui. Somos Reinos inteiros unidos por uma grande causa. Estamos cientes da Guerra que está em nossa frente e temos total confiança de que nós VAMOS vencê-la. — Lázaro colocou toda sua convicção nessas últimas palavras, e era quase difícil contrariá-lo.

— Então é disso que a tal da Aliança dos Reinos Divinos se trata, não é? — disse Kula, mais como uma resposta do que como uma pergunta. — Ela é uma Aliança de vários Reinos que estão querendo tomar o Centro do Mundo para si.

— É nosso objetivo principal sim, mas não o único. — continuava Lázaro, dando mais dois passos para frente. — Caso você e a Família Musubi decidam nos apoiar, teremos prazer em compartilhar todos nossos planos. Sabemos o quão influente é sua família dentro da Realeza de Riven, e juramos que serão tratados com honra e respeito ao nosso lado.

— Eu humildemente me recuso a aceitar uma proposta tão absurda como essa. — respondeu Mulkior, com imponência. — Não sei quem você acha que eu sou, mas se acha que eu trairia os anos de tradição e honra que minha família tem em seu histórico, está muito enganado. Assim como fazer minha Guilda, minha segunda família, trabalhar com vocês. Não iremos nos aliar a nenhum Reino em uma tentativa tão maluca assim.

Houve um murmúrio por parte dos soldados e mercenários do esquadrão, mas foi algo muito rápido. Lázaro abaixou um pouco a cabeça e a balançou negativamente. Ele tinha uma sensação de que essa conversa seria exatamente assim, pois as informações que lhe passaram de seu "alvo" eram de alguém corajoso, preocupado e principalmente fiel.

— Tente entender que essa é a nossa segunda tentativa de lhes trazer para o nosso lado, mas dessa vez, estamos fazendo de uma maneira mais pacífica. — essas palavras fizeram os dois magos terem um misto de sentimentos. — Por favor, reconsidere sua resposta.

— Espere... Segunda tentativa? — perguntou o nobre mago. — Como assim? Do que está falando?

— Falo de seus dois companheiros que foram atacados há alguns dias atrás. — respondeu Lázaro, com um peso em sua voz. O raciocínio de Kula e de seu parceiro agiram na velocidade do som e logo eles já sabiam que ele falava de San e Mana. — Aquilo foi um infortúnio. Não era para ter ocorrido nenhum ataque e não era para ninguém ter se ferido.

— Foram VOCÊS? — gritou Mulkior, claramente saindo do seu habitual estado tranquilo. — Foram vocês que tentaram fazer nossos colegas de reféns e quase os mataram?

— Espere, você deve ter entendido algo errado. — respondia o Comandante, sem se amedrontar. — Foi o meu esquadrão que estava lá. Os soldados que você vê aqui são os que restaram daquele massacre. Mas nós nunca tivemos a intenção de machucá-los! Nós pedimos para que eles se rendessem e juramos tratá-los da melhor maneira possível! Mas o seu colega simplesmente atacou um de meus soldados, e aquilo deu início a um banho de sangue sem limite!

Dessa vez, nenhuma outra palavra foi ouvida. O som do vento era o único a vagar por entre as árvores com poucas folhas que restavam por ali. Mulkior e Kula se entreolharam. Foi um segundo. Só uma olhadela. Era tudo que precisavam para se entenderem. O mago tinha ideias. E a maga irias as complementar. Eles já eram um casal tão unido quanto David e Sayuri.

— É só isso que tem a nos dizer? — perguntou Mulkior, olhando diretamente para os olhos do Comandante. Lázaro quase não resistiu ao impulso de dar passos para trás.

— Temos ordens específicas para lhes trazer conosco, mesmo que seja de maneira forçada. Então eu já peço desculpas, mas vocês não poderão ir embora daqui.

— Acho que vocês que entenderam alguma coisa errada. — disse Mulkior, colocando a mão dentro da sua fiel e reforçada bolsa de esferas de ferro. — Quem não vai sair daqui são VOCÊS!

Tabatha Heartwil caminhava alegremente pelas calçadas quase interditáveis da Capital. Seus longos cabelos loiros e lisos dançavam ao vento como se fossem vivos. Ela estava usando sua vestimenta padrão, que era uma camisa bem larga de mangas compridas, com babados no punho e na gola (também haviam quatro botões quase invisíveis no lado direito, alinhados da gola até a borda de baixo), saia longa do mesmo conjunto da camisa, e belas botas de couro, sem tintura. Seu conjunto de roupa era branco e impecável. Tudo aquilo só servia para deixá-la ainda mais radiante.

Aliás, não havia nada que ela fizesse que poderia ser descrito sem a parte do "alegremente". De acordo com a própria garota, tudo que era feito com um sorriso no rosto tinha maiores chances de ser feito do jeito "certo". Se você achou que isso não fez o menor sentido, então nunca tente perguntar a ela sobre magia.

Ah sim, ela era uma maga. Provavelmente essa era a parte mais importante de sua vida. Nascida em uma família normal, em uma vila normal, nunca fez nada que pudesse se orgulhar. Seus pais eram donos de uma central de entregas simples — um tipo de loja que você procura quando quer mandar algo que não sejam cartas para outras cidades —, mas era um negócio que colocava pão todos os dias na mesa de sua casa.

Ela não era excepcionalmente inteligente, mas conseguiu chamar atenção de um Professor de Magia que passava por aquela vila, e que, depois de um certo teste envolvendo uma esfera de absorção, convidou a garota a ir para a Universidade Harven estudar magia. Os pais deram permissão e Tabatha se foi.

Ela tinha que admitir, mas inicialmente, odiou a ideia de estudar magia. Ela achava que em um mundo tão caótico como esse em que vive, tudo que ela precisaria para ser feliz e resolver os problemas era de um grande sorriso. Você deve imaginar que Assassinos, Ladrões e Mendigos não concordariam com isso.

E nem os Professores dela. Por isso o seu treinamento foi duro, mas recompensador. Se você tem uma boa memória, vai lembrar que a Universidade Harven é onde Geovanna treinou. Então era uma Escola Mágica especializada em Energia Pura. Mas diferente da garota apaixonada que vive atrás de um certo cara que quase nunca tira as mãos nos bolsos, Tabatha se especializou em "Magias Defensivas". E ela ficou particularmente boa nelas. Boa o suficiente para ser a Capitã da Primeira Linha de Defesa da Immortal Star.

Ela passou por duas pessoas que saíam da Base de sua guilda e os cumprimentou com um feliz aceno de mão. Ainda cantarolando, adentrou a base, indo diretamente ao balcão que ficava na outra ponta. Depois de conversar muito rapidamente com uma das balconistas, ela descobriu que seus pais lhe enviaram uma carta — eles faziam isso todos os meses —, e depois de pegá-la, decidiu ir até o andar de cima para ler.

Ela subiu as escadas alegremente, deu "boa tarde" para um membro da Guilda que estava de saída e adentrou o salão de refeição.

O local estava como sempre: barulhento. Sempre haviam pessoas por aqui, não importando o horário. Mas hoje estava especialmente barulhento, já que um certo ninja conversava em alto tom com mais quatro outros integrantes da guilda nas mesas centrais. Tabatha sorriu quando o viu. Ela gostava de Shiro pois ele emanava risos por onde passava. O que mais a fazia rir, era quando ela recusava os incessantes "pedidos de encontros" do ninja.

Tirando Shiro, ainda haviam mais algumas outras pessoas espalhadas pelo local, e alguns até tentavam ter uma refeição normal. San estava em seu "cantinho nomeado" — isso era devido ao fato de que o garoto escolheu uma pequena mesa no canto esquerdo do salão, e só se sentava lá, geralmente longe do resto do povo — e olhava sem expressão pela pequena janela ao seu lado, parecendo perdido em pensamentos.

Reita estava na mesa ao lado da de Shiro, com uma mão segurando um garfo e a outra segurando a cabeça, como se estivesse tendo uma terrível dor naquele local. O que, na verdade, ele realmente estava. E isso era devido ao fato de estar sentado ao lado de Shiro.

Lila estava no balcão tendo uma longa guerra discursiva com Batz, o Cozinheiro. Ela estava reclamando da falta de morangos para poder usufruir seu doce gelado, enquanto Batz mandava ela tomar vergonha na cara e crescer um pouco, para variar. Lila Xeng-Ni era uma garota que... Não. Melhor deixar essa apresentação para mais tarde.

Tabatha sabia que não conseguiria ler tranquilamente ali, então deu as costas e voltou a caminhar pelo corredor do segundo andar. Ela se dirigiu até a biblioteca, que ficava no outro lado daquele corredor.

A biblioteca, como já dito anteriormente, ainda estava em um estado infantil. Ela não era grande e ainda não haviam muitos livros. Três grandes mesas ovais foram postas na sala para organização, escrita e até leitura. No momento, o local estava vazio... Com exceção da Bibliotecária Chefe, que estava recolocando alguns livros em uma prateleira mais à direita.

— Ah Tabatha! Pode entrar, fique à vontade! — disse Geovanna, assim que a viu analisando o local, parecendo procurar alguém suspeito.

— Obrigada. Estava procurando um lugar mais silencioso para poder ler uma carta.

— Então nem tente a cozinha. — continuou Geovanna, ainda analisando e recolocando livros. — Shiro acabou de voltar de uma missão e não parou de falar disso até agora.

— Já passei por lá. — respondeu a Capitã, rindo. — Esse é o motivo de você não estar lá observando San?

— MAS O QUÊ?

Geovanna perdeu o equilíbrio e veio ao chão, trazendo cinco livros com ela. Tabatha gargalhou da expressão que a colega fez, em uma mistura de surpresa e vergonha. Como já dito, as duas frequentaram a mesma Escola de Magia, mas só foram se conhecer na Guilda. Mas Tabatha tinha uma facilidade quase fantasmagórica de fazer amizades, então ela já era amiga de todo mundo na sua primeira semana de trabalho na Guilda.

Tabatha também tinha um certo "problema" de não saber esconder sentimentos e ser direta DEMAIS. Então era complicado contar segredos a ela ou até mesmo deixar ela saber de supostas fofocas. Então é claro que o fato de Geovanna não tirar os olhos de San iria fazer a Capitã se interessar, perguntar e, se deixassem, "ajudar".

— E-Eu tenho muito trabalho para fazer! — respondeu Geovanna, gaguejando. — E nem sabia que ele estava lá!

Depois de rir mais um pouquinho, Tabatha puxa uma cadeira e se senta, abrindo o envelope que trazia em mãos. Geovanna, ainda vermelha, juntou os livros caídos e voltou a organizá-los, tentando fazer de tudo para não pensar naquela conversa e, acima de tudo, tentando tirar a vermelhidão do rosto.

Aquele clima agradável e engraçado poderia ter durado para sempre. A temperatura do ambiente estava perfeita, havia silêncio e havia tranquilidade. Essas horas eram sempre as preferidas das duas garotas ali presentes. Não precisar se preocupar com guerras, com torneios. Era muito bom relaxar de vez em quando, mesmo estando em uma guilda meio maluca como aquela. Mas depois de começar a ler a carta, um trovão acertou o subconsciente de Tabatha, e a fez tremer e chorar ao mesmo tempo.

— Não... Não, não!! — gritava ela.

— Tabatha, o que houve? — disse Geovanna, depois de levar um grande susto. A maga correu até a amiga que estava em pé agora, depois de derrubar a cadeira que estava sentada. — O que aconteceu?

— É meu pai! — respondia Tabatha, em meio ao choro. Geovanna teve que prestar muita atenção para entender aquele dialeto choroso. — Essa carta foi escrita pela minha mãe... E ela diz que meu pai... Meu pai! Ele foi...

Vamos criar uma nova curiosidade sobre a carta de Tabatha para satisfazer uma outra curiosidade que deve ter sido criada há alguns minutos mais cedo. Vamos contar sobre Lila.

Lila era uma garota energética. Com seus dezoito anos de idade, ela parecia estar no auge de sua constituição física... Mas não mental. Ela adoraria chamar atenção dos homens para seu corpo bem treinado, mas a falta de "curvas" e o fato dela agir como uma criança a maior parte do tempo fazia com que ela fosse tratada de uma maneira especial dentro da Guilda. Ou como diria ela: especial e irritante.

A vida dela foi bem corrida. Ela nasceu de uma junção nada comum de uma mãe que era do extremo oeste do mundo, com um pai do extremo leste. Por isso o nome dela parece... Errado. Seu pai era Mestre em um Templo de Artes Marciais não muito conhecido e sua mãe era uma feiticeira que estava cansada de passar horas e mais horas dentro de uma sala mofada e empoeirada tendo que ler livros completamente sem sentido. A história de amor desses dois daria uma peça teatral.

Por nascer e viver no Templo, Lila foi iniciada nas artes marciais desde muito pequena. Não demorou muito para ela perceber que sua verdadeira vocação era com a espada, por isso decidiu se especializar só com essa arma. Mas ela era uma sonhadora. Ela queria algo mais. Queria ser diferente. E daí ela lembrou que sua mãe já tinha sido uma feiticeira...

Resultado? Ela juntou as duas coisas. Habilidades excepcionais com a espada e magias elementais variadas a fizeram ser uma "Espadachim Arcana", uma classe um pouco vista no mundo hoje em dia.

Sua escolha de Guilda foi por causa do plano de boato que San fez quando viajava para se acostumar à sua nova falta de visão e fazer propaganda ao longo do mundo. O Templo em que ela vivia foi um dos últimos visitados pelo garoto, onde ele derrotou o pai de Lila, o que a fez querer saber onde ele conseguiu tamanho poder. Não demorou muito para ela arrumar as malas e fazer a maior viajem que já tinha feito. Hoje ela se orgulha de ser colocada como Soldado da Primeira Linha de Ataque da Guilda.

Lila saiu bufando da cozinha depois de perder o discurso com o cozinheiro. Ela odiava terminar de comer qualquer coisa e depois não tomar sua sobremesa favorita. Ela ignorou o chamado de Shiro e sumiu na porta que levava para os corredores. Andou rápido até a escadaria e a desceu. Ainda estava brava quando cruzou todo o salão de entrada da base.

Ela se sentia estranhamente nervosa naquele dia. Quase rasgou a camisa que mais usava ao colocá-la. Lila se vestia de uma maneira bem diferente, porque quis lembrar de seus pais no modo de se vestir também. Então sua calça era uma clássica calça de artistas marcais, larga e cinza escuro, sem bolsos, e aquele sapato pequeno e firme, da mesma cor. Enquanto a camisa era um blusão de manga comprida, que tinha duas pontas retangulares que começavam da borda da frente e de trás da camisa, e caiam até a canela e a dobra do joelho, respectivamente. O blusão tinha alguns cristais sem nenhum significado aparente espalhados por ele, e sua cor era bege escuro. Ela tinha dois braceletes de couro e ferro que ficavam por baixo da manga da camisa, e ela usava para defesa.

No banheiro, ela lavou o rosto com água gelada e tentou arrumar o cabelo. Esse, era liso e curto até antes do ombro, mas cheinho e bem espalhado, na cor castanho claro. Ela geralmente não o penteava. Também usava duas presilhas quase invisíveis na frente, para que o cabelo não caísse em seu olho na hora do combate. Seus olhos verdes claros estavam cheios de vida, e com um sorriso determinado, ela saiu do banheiro para ter início a mais um dia.

Acordou muito cedo para treinar, mas teve que esperar mais de uma hora para poder usar o salão de treino porque era dia das aulas de Jimmy. E o cara estava repleto de alunos!

Depois de treinar, ela se dirigiu ao banheiro para tomar uma ducha. Existiam quatro grandes banheiros em toda a Guilda — dois masculinos e dois femininos —, dois serviam para o banho e dois para as necessidades fisiológicas. O do banho era quase "comunitário", sendo dez chuveiros divididos em dez alas, todas uma do lado da outra. Então vinte segundos depois de entrar em uma ala, Tabatha apareceu, entrou na ala ao lado da de Lila e começou a cantarolar. Normalmente a garota ignorava por costume, mas hoje ela não aguentou e saiu até antes.

Voltou nervosa para o seu quarto e dormiu novamente, sem ligar para o horário ou até mesmo procurar trabalho. Ela não estava afim de ter que salvar um gato de uma árvore de novo. Quando acordou, se dirigiu para a cozinha, onde teve que aguentar o tagarelar de Shiro e o absurdo fato de não ter mais morangos. É... O dia dela estava péssimo.

Lila caminhava rápido pelas ruas bem limpas da Capital de Riven, virando esquinas e se esquivando de pessoas. Ela sabia bem onde ia. Mesmo não estar tanto tempo assim na cidade, ela já a conhecia como a palma da mão. Ou assim achava ela.

Depois de alguns minutos de caminhada, ela adentrou a loja de equipamentos de Regi. Como sempre, o estabelecimento estava lotado de gente, e os empregados quase não conseguiam atender todo mundo. A própria Regi disse que pensava em aumentar a loja... De novo.

— Pareces bem ocupada. — disse Lila para Regi, depois de esperar alguns longos minutos na fila para o balcão, onde a ferreira jazia concentrada em uma pilha ligeiramente grande de papéis.

— Lila! Oi! — Regi respondeu ficando ereta e saindo da sua concentração preocupante. — Como você está?

— Já tive dias melhores. — disse Lila, disfarçando o olhar. — Não quero tirar o seu tempo. Só vim ver se minha espada está pronta.

— Ah claro! Me dê um segundo.

Regi deixou o balcão e sumiu da vista, entrando por uma porta já aberta que ficava na parede e levava para a parte de trás da loja, onde ficavam as bigornas e os outros itens de criação e reparos de armamentos. Ou seja, onde ficava a parte "técnica" da loja. Não demorou muito para a ferreira voltar segurando uma espada embainhada e colocá-la na frente da espadachim.

Lila desembainhou sua espada e a levou até perto do seu rosto. Sua espada era uma cimitarra fina e curvada, feita especialmente para resistir a decomposição mágica. Era uma arma bonita, com punho dourado e com dois rubis presos em cada lado. Ela tinha deixado aqui porque, em sua última missão, a lâmina tinha trincado perto da base, mas agora estava perfeitamente intacta e brilhosa. O trabalho que Regi fazia era realmente incrível. E mesmo depois de ser proibida de fazer alguma aliança com a Guilda de seu tio, a garota falou que todos os membros da Immortal Star teriam descontos com qualquer equipamento que trouxessem para sua loja.

Lila sorriu pela primeira vez no dia ao ver sua fiel companheira perfeita para novas lutas. Embainhou a espada novamente e a amarrou na cintura. Tirou algumas moedas de prata do bolso e pagou Regi, que agradeceu com outro belo sorriso e disse para voltar sempre que precisasse. Assim que Lila se virou e começou a andar, a ferreira a chamou novamente.

— Lila, espere! — disse Regi. Ela esperou Lila se virar e a encarar. — Por um acaso vocês tiveram notícia do meu tio e da Kuchi?

— Capitão Mulkior? Ahm... — Lila levantou a cabeça e tentou de lembrar de algo. — Eu acho que não. Pior que faz um tempinho que eu não ouço nada desses dois...

— Isso é estranho. Eles já deveriam ter voltado de Gargamel. Imaginei que chegariam hoje de manhã. Mas se você não sabe deles, então...

— Devem ter feito algum desvio. Dizem que as estradas para aquele lado ficam ruins quando chove muito. Bem possível que eles estejam pra chegar a qualquer momento.

— É, deve ter sido isso. — diz Regi, tentando livrar maus pensamentos da mente. — Obrigada.

Depois de acenar mais uma vez para a ferreira, Lila saiu da loja e voltou a caminhar pelas movimentadas ruas da cidade. A garota quase nunca se preocupava com seus colegas de Guilda, pois sabia muito bem que eles sabiam se cuidar melhor do que ninguém. Principalmente os quatro campeões do torneio.

Que foi com esse pensamento que ela acabou parando no Coliseu. Ela sabia muito bem do Grande Torneio que teve há uns meses atrás, no qual foi dado como ponto inicial para a criação de sua Guilda. Toda vez que ela ouve as histórias das batalhas, ela sente um aperto no coração, pois gostaria muito de ter participado. E infelizmente, desde o Torneio de Equipes, mais nenhum outro "grande" torneio fora realizado. Só pequenas demonstrações.

Lila estava pensando em dar uma olhada no ringue — pois pensar em lutar em cima dele algum dia lhe acalmava—, quando sua percepção lhe avisou de algo curioso. Ela olhou para sua esquerda e viu três figuras suspeitas entrando em um beco, a alguns metros dali.

Agora é necessário esclarecer bem a palavra "suspeita". Em um mundo com uma quantidade enorme de guerreiros de todos os reinos e culturas possíveis, era normal você dar de cara com pessoas se vestindo com roupas bizarras ou acessórios diferentes. Então isso meio que corta o fato suspeito de uma pessoa que está de viagem, vinda de muito longe para aperfeiçoar suas técnicas das mais variadas maneiras.

Mas as três figuras não se vestiam tão estranhamente assim. Elas estavam com a clássica capa negra com capuz grosso que lhe escondiam tanto o corpo quanto o rosto. Ela lembra bem de San falando que só há dois tipos de pessoas que usam isso: os assassinos ou as pessoas que estão prestes a cometer alguma coisa errada e não querem que ninguém os descubra. Por ficar imaginando a segunda opção, Lila foi atrás dos três.

Ela correu e virou a mesma esquina que os três suspeitos, entrando em um beco largo. Ela ainda conseguiu vê-los virando outra esquina, em um passo rápido. Antes deles virarem, Lila percebeu que a pessoa que ia mais atrás trazia uma grande mochila nas costas, também na cor preta.

A perseguição não durou muito. Depois de virarem em algumas ruas e entrarem em alguns becos, Lila encontrou os três suspeitos em outro beco, mas dessa vez, sem saída. Ela ficou os espiando, controlando a respiração para não fazer nenhum barulho.

Os três suspeitos estavam abaixados, mexendo em alguma coisa que foi retirada da mochila negra. O que era aquilo? Algum dispositivo mágico? Parecia.

Tinha dois cilindros de uns quarenta centímetros, ligados à vários fios e tubos pequenos. Ele tinha um cone inverso que servia para enterrar e fixar no chão, o que tinha acabado de ser feito. Um dos suspeitos retirou uma esfera brilhosa do bolso e o introduziu em um bocal que ficava mais em cima, entre os dois cilindros. Depois veio a parte chocante: os três indivíduos mandaram energia mágica para a esfera que brilhou ainda mais, absorvendo toda aquela energia mágica. Em outro instante, os tubos e os cilindros começaram a tremer e a se encher de energia mágica. Aquilo parecia algo que Lila viu nos livros de sua mãe. E não era algo legal.

— Ei! — gritou Lila, assim que se mostrou, ficando em frente à única saída do beco. Os três indivíduos foram pegos em um rápido susto, se virando para ela. — O que vocês pensam que estão fazendo?

— Má sorte, garotinha. — disse um dele, se levantando e puxando uma faca escondida debaixo de seu manto. — Não vai poder sair daqui depois de ter nos visto.

— Eu ODEIO quando me tratam como criança!

Sem esperar, Lila desembainhou a recém reformada cimitarra e partiu para o ataque. Mau sabia ela que aquele trio de suspeitos não eram o único grupo que andava pela cidade com capas, capuzes e mochilas negras.

Muito ao contrário de Lila, o dia de Victoria começou ótimo. Victoria Jardem era o membro mais novo da guilda, e provavelmente o mais empolgado.

A história de vida dessa pequena garota é um tanto excêntrica. Na idade que ela se encontra — quatorze anos —, ela deveria estar preocupada em arrumar o cabelo, parecer bonitinha na frente dos meninos da sua turma na escola e pensando em qual doce ela comeria depois do jantar. Mas tirando essa última afirmativa, Victoria se diferenciava de todas as garotas de sua idade.

Ela nasceu ali na Capital de Riven mesmo. Era de uma família bem de vida. Não era exatamente "rica", mas ter o Homem da Casa sendo um dos Capitães da Guarda do Castelo lhes traziam certos benefícios que nem os Nobres tinham. Ter uma filha maluca por combates não é um deles.

Victoria sempre gostou das lutas de guerreiros. Acredite se quiser: ela conhece os detalhes das lutas feitas no Coliseu mais do que ninguém. De tanto gostar, era óbvio que uma hora ou outra ela tentaria aprender por si própria. Sabendo disso, seu pai começou a dar aulas para a garota, que se mostrou ser uma aluna e tanto. Ele também comprou alguns livros sobre magia, mas nada muito profundo ou complicado.

Vendo que ela gostava muito das lutas, ela decidiu que gostaria de entrar para a Guarda Real de Riven, para servir junto com seu pai. O problema é que para se entrar na Guarda Real, era necessário passar por vários testes, e Victoria reprovaria no primeiro que era ter a idade adulta, coisa que só aconteceria dali há quatro anos. Imagine o quanto ela ficou louca da vida quando descobriu?

Mas seu surto de raiva só durou até esse último Grande Torneio do Coliseu. Como uma fiel observadora de todos os tipos de luta, a garotinha não perdia nenhum Torneio. Mas ela não esperava se "encantar" com algum estilo de luta. Ou por um dos lutadores.

E foi o que aconteceu. Foi como se apaixonar. Foi como Amor a Primeira Vista, coisa que só vemos naqueles contos bem melosos ou canções bem chatas dos bardos. E o "alvo" de tamanha admiração se chamava Mana.

Ok, Victoria não tinha se apaixonado pela assassina, mas sim, pelo seu estilo de combate. A fluidez dos movimentos, os golpes rápidos e certeiros, a mudança de distância para alguns golpes e magias. Victoria percebeu imediatamente que era exatamente aquele estilo de combate que serviria para ela.

Quando o torneio terminou, a primeira coisa que a garotinha fez foi ir atrás de Mana. Mas uma corrente de azar a fez não conseguir encontrá-la... NENHUMA vez. Não adiantou procurar dentro do Coliseu, pois ela não poderia ir até a ala onde os times ficavam. Então tudo o que ela podia fazer é esperar.

Mas quando tudo terminou, Victoria ainda não tinha conseguido encontrar a assassina. Ela sabia que Mana ficaria pela cidade, pois a Guilda seria criada ali. Mas onde ela tinha se metido? Victoria procurou por muito tempo, e só foi ter pistas dela quando viu Kula fazendo propagandas da Guilda nas ruas.

O encontro das duas foi terrivelmente engraçado. Kula a levou para a casa de Mulkior, onde os membros se reuniam. Quando entrou no escritório temporário da Guilda, Victoria correu até Mana, falando sem parar. Falava de como ela era habilidosa e como ela parecia linda no campo de batalha. Também disse que tinha virado sua "Fã Numero Um". Imagine a reação da Assassina? Mulkior se engasgou com algo que comia e San caia na gargalhada.

Depois de explicar sua situação para o pessoal ali presente, Victoria pediu formalmente para ser aluna de Mana. Mana, por sua vez, recusou imediatamente. Ela se recusava a ensinar técnicas assassinas para uma criança. A conversa se seguiu com a garotinha falando que não queria se tornar uma assassina. Ela só queria aprender as técnicas de luta que Mana usava, mas jurava que não seguiria esse caminho. Mana continuou recusando, falando que nunca tinha ensinado nada a ninguém e não saberia como fazer isso direito. Mas Victoria continuou pressionando a mulher contra a parede, falando que não desistiria de pedir e que iria a seguir para onde ela fosse.

Mana estava sem saída e nem sabia o que pensar. Nunca em sua vida ela pensou em passar suas artes assassinas para alguém, principalmente para uma criança. Mas alguma coisa no olhar de Victoria fez o coração da mulher amolecer. Por algum motivo sem sentido, Mana se lembrava dela mesmo quando olhava para a garotinha empolgada e teimosa à sua frente.

Mas não foi exatamente ISSO que a fez mudar de ideia. Isso foi devido ao fato de San entrar no meio da conversa. Ele disse que, se Mana não quisesse ensiná-la, ele mesmo poderia ensinar. E com toda a certeza do mundo, Mana preferira cortar a própria e jogá-la aos lobos do que deixar San ensinar técnicas mortais para uma garota de quatorze anos... De novo! A assassina jurou para si mesmo que nunca deixaria alguém passar pelo mesmo que ela passou.

Então assim ficou. Mana aceitou Victoria como discípula, mas fez a garotinha prometer que seguiria fielmente as instruções e nunca, jamais, nem de brincadeira aceitaria qualquer tipo de trabalho assassino ou desleal, independente da situação.

Depois que a base ficou pronta, Victoria pediu para ingressar na Guilda. Ela fez os devidos testes e passou com quase maestria. Ainda por sua idade, foi declarado que ela ficaria na Segunda Linha de Defesa, longe do foco dos combates, ajudando os feridos. Sobre missões, todas as que Victoria fez, ela estava com Mana, que ainda dava aulas se tivessem tempo livre.

Hoje, ela tinha acordado de muito bom humor porque era dia de treino com a Mestra. É importante lembrar que toda vez que Mana ouve essa palavra, um tipo de raio arrepiante corre por sua costela. A garota vestiu sua roupa de treino, que era um conjunto simples de neoprene bem parecido com o de Mana, na cor preta com linhas vermelhas nas laterais. Não tinha mangas, e na parte da calça, só ia até acima do joelho. Ela levava um colete pequeno com dois bolsos frontais na cor vermelho claro, e geralmente o deixava aberto. Também usava uma pequena saia do mesmo tom do colete. Penteou seu cabelo castanho escuro, não muito longo, rapidamente e o amarrou em um rabo de cavalo. Ela usava um batom para combinar com suas vestimentas. Agora: brincos, colares ou qualquer outro produto facial ela passava longe. Então logo depois de se olhar no pequeno espelho do quarto, correu para a cozinha, tomou seu café da manhã em uma velocidade aumentada e partiu para a Base.

Mas como dito anteriormente, hoje seria um dia especial de treino com Jimmy, então toda a ala estaria sendo usada. Para não desmotivar a garota, Mana disse que essa era uma boa oportunidade para ela aprender técnicas de salto e corrida, então as duas saíram da base e foram treinar nas ruas movimentadas da Capital.

As duas andavam sobre os telhados das casas pequenas que ficavam muito a oeste da cidade. Mana ensinou a garota a pisar com delicadeza e sutileza, para fazer movimentos silenciosos e leves. Andar por cima de telhados requeria uma percepção especial dependendo da cidade onde você fazia isso, pois nem todos os telhados são resistentes o suficiente.

Depois de muita corrida e pulos, as duas almoçaram em um restaurante pequeno que tinha por lá, e depois de estarem bem descansadas, voltaram a treinar. Dessa vez, Mana a levou para uma área mais aberta, onde elas treinariam um pouco de combate corpo a corpo.

As armas de escolha de Victoria eram duas facas sem curva. Inicialmente, ela queria usar as katars, mas Mana falou que esse tipo de arma requer um braço mais rígido, e quebrar o braço seria uma péssima maneira de começar um treinamento intensivo. Já as facas eram leves e demandavam mais velocidade do que força para serem usadas.

Victoria era uma aluna exemplar e aprendia técnicas em uma boa velocidade. Ela já tinha uma fluidez com movimentos por causa das aulas do seu pai, então Mana poderia ensinar coisas mais avançadas, além de mostrar algumas habilidades com arremesso e uso de itens durante uma batalha.

A única coisa que Mana não a ensinaria era Magia. Isso, a garotinha teria que treinar e se aperfeiçoar por conta própria. Existiam dois motivos bem óbvios para isso: primeiro que Mana nunca poderia ensinar as suas magias de gelo, pois isso estava no sangue dela, e ela não fazia ideia de como explicaria tal fato; e segundo, que ela disse que não ensinaria nenhuma técnica assassina, e suas outras magias eram feitas exclusivamente para matar.

Mas isso não deixou Victoria com baixo astral. Ela iria usar os livros comprados pelo pai e treinaria o uso de energia mágica sozinha. Coisa que ela vem fazendo desde que começou seu treinamento e, até onde ela sabe, estava progredindo muito bem.

Depois de alguns "sparings", as duas foram se sentar na grama, debaixo de uma árvore bem folheada, para descansarem. Mana tirou uma jarra com água de sua bolsa e colocou em um copo para sua aluna. O dia estava calmo e bonito, e nada parecia dar errado no mundo.

— Mestra, qual é sua história com San? — perguntou a garota, inocentemente.

— Cof, cof... Ahm? — disse Mana, depois de cuspir alguns goles de água. — Como assim? Que história?

— É disso que eu quero saber! Parece que você o conhece faz muito tempo!

— Parece? — Mana tinha ficado realmente curiosa com essa observação. — Por que você diz isso?

— Ah, o jeito como você trata ele é diferente do jeito que você trata as outras pessoas. — começou Victoria. — Você é doce e meiga com quase todo mundo da Guilda, principalmente com Mulkior e Kula. Mas quando vai falar com San, você o xinga de muitas coisas e é grossa. E vocês tem até um Título Único como dupla! Até onde eu saiba, as pessoas só são assim umas com as outras quando elas passam muito tempo de vida juntas.

— Onde você ouviu isso?

— Li em um livro que estava na Biblioteca da Guilda.

Mana soltou um suspiro e decidiu que iria ter umas palavrinhas com Geovanna e perguntar que tipo de livro a Bibliotecária estava trazendo para a Guilda. Ela estava tomando mais um gole de água para tentar disfarçar e sair daquele assunto "Mana e San", quando algo brilhou em seus olhos. Não era algo muito forte, por isso demorou para que a Assassina percebesse. Ela olhou para o chão e viu que uma luz meio laranjada era refletida nas facas de sua aluna.

— Mestra... — chamou Victoria, com uma voz meio preocupante. — O que... O que é aquilo?

Mana seguiu o apontar da garota, que dava para um telhado de uma casa a alguns metros de distância. Havia algo no teto. Algo vivo. Algo natural. Ao mesmo tempo que Mana sabia que não tinha sido "criado" naturalmente. Era de lá que o brilho vinha. Aquele laranja que engolia tudo e que mudava para vermelho. Estava se alastrando em uma velocidade absurda para outros telhados vizinhos. Aquilo era...

— Fogo!

Notas finais
E no próximo capítulo: Como se as coisas não pudessem piorar, a Capital é engolida por batalhas.