Immortal Star - Segunda Saga
3 O Fogo da Capital
Notas iniciais
Não sei se você teve a mesma sensação quando eu estava contando sobre o ataque dos rebeldes ao Castelo, já que fiz algo muito parecido agora. Mas infelizmente dessa vez, eu realmente não tive escolha. Estava acontecendo muita coisa ao mesmo tempo naquela época.
E como sempre, eu não te contei nem metade do que estava acontecendo por lá. Mas imagino que você já deve ter percebido isso, já que muitos outros personagens nem chegaram a ser comentados no meu último conto. Mas não se preocupe, eu não esqueci de ninguém. Eles terão seus momentos, assim como os outros membros da Guilda que ainda não foram apresentados.
E também preciso lhe dar um aviso: talvez você vá se confundir e talvez não lembrar de muitos nomes que eu lhe direi daqui pra frente. Eu não o culpo. Muita gente importante apareceu desde que a Guilda foi criada, e eu gostaria muito de contar pouco a pouco sobre eles... Mas o próprio destino me faz apressar as apresentações.
Você vai descobrir o porque disso nesse exato momento.
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Ser Líder de uma Guilda era algo que Any nunca pensaria que acabasse sendo. Ser Vide-Líder já era trabalhoso o suficiente, e por mais que ela tivesse boas habilidades de liderança, a garota admitia que às vezes pensava em desistir.
Mas agora ela não podia. Tinha várias razões para estar nesse atual posto e precisava levar seus objetivos a sério. Precisava completá-los, e não só por ela mesma. Centenas de pessoas estavam contando com ela. Mães, avós e crianças esperavam pacientemente por alguma notícia de seus familiares desaparecidos, e Any não era alguém que daria as costas para um problema desses.
No momento, a maga estava deitada em sua cama. Era de tarde, mas ela não tinha ideia de que horas exatamente. Depois de almoçar, ela foi para a Sala de Reuniões, que lhe servia como escritório na maior parte do tempo. Havia uma pequena pilha de folhas que precisavam de sua atenção. E era ESSA parte que lhe fazia pensar se tinha sido mesmo uma boa ideia ser Líder de Guilda.
Os papéis eram preocupantes. A maioria falava sobre pedidos de suporte de cidades distantes. Qual era o problema disso? Todas, sem exceção, era pedido para ajudar em guerras civis. Onde o mundo estava querendo "ir" com tantas batalhas envolvendo pessoas comuns contra seus próprios reinos? Any sabia que tinha alguma coisa muito errada acontecendo nos quatro cantos do globo, e isso estava lhe tirando o sono.
Mas o mais preocupante foi uma carta que ela recebeu de Lelouch. O Atirador de Elite estava em uma missão já fazia duas semanas, e nenhuma notícia dele havia aparecido... Até hoje. Ele tinha sido enviado para o Nordeste, em uma cidade que Any nem lembrava o nome, para investigar um estranho surto de roubos nas inúmeras minas de ouro e prata da região.
A carta falava que, quando ele chegou lá, muitos aldeões estavam desesperados, pois quase todas as minas foram "limpadas" pelos bandidos. Lelouch chegou a visitar as tais minas, e conseguiu perceber que o trabalho de extração dos minérios tinha sido esquisitamente... Profissional. Outra coisa ainda mais estranha: depois de dois dias de investigação, o atirador concluiu que os bandidos conseguiram roubar tudo e sumir sem deixar NENHUMA pista ou marca para trás, o que era bizarro demais.
Acredite, tinha como ficar ainda mais assustador: Lelouch manteve suas investigações por mais dias, e conseguiu descobrir uma enorme base temporária para exército, mais ao sul da cidade mineira. Ele viu que era lá que estava todo o minério roubado, mas o próprio atirador não podia fazer nada, pois os "ladrões" eram soldados de elite do Exército de Wylian, a Capital de Veert, o maior reino do Nordeste. Então sim, os ladrões eram Soldados do próprio reino. Nem Lelouch e muito menos Any conseguiram entender o sentido disso.
Depois de ler e assinar os papéis, a Líder da Guilda sentiu uma forte dor de cabeça e se retirou para seu quarto, no andar superior. O quarto dela era o maior da Guilda, pois era como um "bônus" que você tinha por ter que aturar tanta gente maluca. Any retirou sua capa nova — que tinha o símbolo da Guilda costurado em grande escala atrás dele — e o jogou dentro da gaveta do seu roupeiro que estava aberta. Andou meio cambaleante até sua cama e se jogou nela, ignorando totalmente o fato de que seu quarto estava uma bagunça.
E então, uma hora depois, aconteceu. O barulho, o desespero, a gritaria, o terror.
Any acordou sobressaltada. Ouviu algumas explosões ao longe, e uma certa gritaria que vinha de muitos lugares ao mesmo tempo. Vários sinos de alerta estavam sendo tocados ao mesmo tempo, coisa que só aconteceu duas vezes em toda a história da Capital. A maga ainda estava meio tonta e a dor de cabeça ainda permanecia, não ajudando em nada seu entendimento dos fatos. Ela foi para sua janela e a abriu bruscamente, recebendo um ar quente no rosto. Depois de piscar várias vezes e fazer seu cérebro trabalhar forçadamente, a mulher viu uma cena típica de quadros pintados para retratar guerras. Ela viu fogo. Muito fogo.
Sem esperar, ela correu para sua porta, a abrindo tão fortemente quanto abriu sua janela e ela quase deu um "beijo acidental" em um dos membros da Guilda. Reita quase esbarrou na Líder quando ela saiu do quarto como se estivesse fugindo de baratas verdes explosivas que voavam. Terrível, eu sei.
— Líder! — disse Reita, depois de dar um passo para trás. — Eu já estava vindo te chamar!
— O que está acontecendo lá fora? O que é tudo aquilo?
— Eu sei tanto quanto você! Vamos descer, o pessoal ta se reunindo no Saguão de Entrada!
Os dois viraram em direção as escadas e começaram a correr. Passaram por mais alguns membros que estavam em seus quartos e que pareciam tão aturdidos quanto Any. A própria Líder passou gritando uma ordem para que todos descessem imediatamente. Quando chegou no segundo andar, ela topou com Geovanna e Tabatha, que tinha lágrimas escorrendo pelo seu bonito rosto avermelhado. Any decidiu não perguntar nada agora.
O Saguão de Entrada estava cheio de gente, e nem todos ali eram membros da Guilda. Alguns cidadãos da Capital estavam só passando para fazer algum pedido ou algo do tipo, e acabaram se vendo presos naquela alvoroço. As grandes portas de entrada estavam abertas e Jimmy estava entre elas, como se fosse um guarda. Ele olhava para fora e não parecia ter uma boa expressão em seu rosto suado.
— Pessoal, mantenham a calma! — disse Any, em alto tom. Ela esperou a atenção de todos se voltar para ela, e então continuou. — Alguém pode me dizer o que esta acontecendo?
— Eu ouvi explosões não muito longe daqui. — começou Geovanna. — E quando olhei pela janela, vi fogo se espalhando pelas casas como se estivesse vivo.
— Não é um fogo comum. — disse Jimmy, lá da porta. Todos olharam para ele. O lutador continuava olhando para o além. — Da pra sentir uma forte intensidade vinda dele. Esse fogo é mágico!
— Você quer dizer que alguém está tentando incendiar a cidade? — perguntou Reita, se aproximando do colega.
— Se for "alguém", então essa pessoa tem que ter um poder mágico maior do que de Kula, pois ele ta se espalhando em uma velocidade surpreendente.
Any teve um lapso de memória. Uma memória que estava enterrada em sua mente e ela jurava que tinha esquecido. A garota começou a suar em bicas, e sua boca se abriu e fechou várias vezes. Ela começou a andar até perto dos dois membros da Guilda que estavam na porta e ainda olhavam para fora, até passar por eles. Seu rosto assustou Jimmy e Reita.
— Não, isso não é obra de uma pessoa. — disse a Líder, quase gaguejando. — Esse fogo é obra do Componente N-002, um item alquímico capaz de criar chamas mágicas que se alastram sozinhas e não são fáceis de se extinguir. Ele foi criado para debandar grandes grupos de soldados em Guerras de Larga Escala. O fogo tirava a atenção dos soldados e, enquanto eles fugiam para não serem pegos pelas chamas, acabavam morrendo pela artilharia do exército inimigo.
— Ei, eu já ouvi falar de algo parecido. — comentou Reita. — Ele foi usado na Guerra da Libertação de Aurais, não é? Mas eu soube que ele foi uma falha! A Guilda que o usou para ajudar as forças de defesa do Castelo acabou perdendo muitos membros porque eles mesmos foram engolidos pelo fogo!
— Você não ouviu errado. — disse Any, sem nenhuma emoção em sua voz. — Os cristais que deveriam suportar o Componente não aguentaram e antes mesmo que ele fosse usado da maneira correta, os cristais se quebraram e o fogo se espalhou pelas paredes do muro do Castelo, matando muitos soldados.
— Você parece saber muito sobre isso... — comentou Jimmy, interessado sobre a história da Líder.
— Claro que sei. — respondeu Any, por fim. — A Guilda que criou esse componente foi a Diamont Wall. Minha antiga guilda.
Egan estava correndo pelas ruas da parte leste da Capital, tentando se esquivar da maré de pessoas que corriam contra ele. Elas fugiam desordenadamente , alguns aos gritos, outros machucados, e alguns deles nem sabiam pra onde iriam. Naquele ritmo, chegar até a Base da Guilda seria demorado.
Egan tem uma história interessante para contar. Ele nasceu em uma vila muito pequena e pobre do Leste, razoavelmente perto de Loto. A vila em si passava por dificuldades em sua terra, deixando algumas plantações escassas e atraindo animais e roedores que destruíam o que lhes restava.
Antes do garoto nascer, seus pais estavam enfrentando um inferno. O pai estava com uma doença perigosa e a mãe, grávida, passava muito mal quase todos os dias por não ter uma alimentação descente. Muitas vezes esses dois se olhavam nos olhos, querendo dizer adeus um para o outro, sabendo que suas vidas não tardariam a terminar.
Mas um "salvador" apareceu em sua casa em uma fria noite chuvosa. O homem se identificou como Professor da Academia Téras — Téras é uma Vila Acadêmica, onde todos os residentes são alunos e são treinados para enfrentar Monstros ou para estudá-los, e fica bem ao sul de Loto —, e disse que tinha uma proposta para os dois. Ele disse que precisava de um bebê recém nascido para realizar um grandioso teste que poderia mudar o mundo da magia e do conhecimento sobre os monstros e criaturas místicas.
Os pais aceitaram a proposta, mas não só para "ajudar" na evolução do conhecimento, mas sim, porque foi lhes prometido uma enorme quantidade de dinheiro. Foi o único momento na vida daqueles pais que eles sentiram a cobiça lhes subir a cabeça. Eles foram levados para a Vila Acadêmica, onde eles ficariam até o nascimento do bebê. Como eles seriam melhor alimentados e tratados, os dois não tiveram nenhuma objeção. O problema veio depois.
A mulher teve que ficar quase todo o tempo em um tipo de laboratório arcano, onde ela mesma passaria por diversos testes. E foi horroroso. Ela teve que passar por vários testes envolvendo administração de sangue, resistências mágicas, alteração psicológica e até mesmo alimentação forçada de certas coisas que não é bom comentar aqui. Tudo isso estava sendo manipulado para ir diretamente para o pequeno corpo que crescia dentro dela.
"O resultado deve ter sido incrível, não é?", perguntaria um aficionado em desenvolvimento arcano. Mas não, não foi. A mulher, que já não tinha uma saúde muito boa, morreu um pouco antes de dar a luz. O bebê sobreviveu, pois ele foi retirado imediatamente depois do falecimento da mãe e colocado em uma certa máquina preparada para ele. E para piorar ainda mais a situação, assim que o pai da criança soube da morte da esposa e por já estar com uma doença complicada, não aguentou o trauma mental e faleceu. Mal tinha chegado ao mundo e o pequeno garoto recém nascido já tinha ficado órfão.
Daqui pra frente, a história de Egan — nome dado a ele por causa do Projeto Egan que a própria Academia estava fazendo nele — pode ser resumida em mais testes e muito treino forçado. O garoto desenvolveu um poder único de absorver a energia de criaturas e seres mágicos, para depois usar isso da maneira que lhe bem interessasse. Parece interessante, não concorda? E até SERIA, se o coitado não sofresse com choques de personalidade e raciocínio toda vez que usava uma magia. Era como se ele estivesse aderindo o sentimento feral e instintivo de cada criatura que ele absorve.
Mas isso fez a Academia cessar sua pesquisa? Óbvio que não! Acredite se quiser, quando você tem que lidar com magos ou pesquisadores que não saem de dentro de um laboratório nem para se alimentar, pode apostar que eles não sabem o que é limite. Então eles continuaram com as pesquisas e com os treinos. Isso por, pode acreditar, longos vinte anos.
Depois de tanto tempo, Egan tinha melhorado muito seu autocontrole e quase não ficava em um estado de fúria onde ele destruía tudo que estivesse perto dele. Mas acima disso, ele culminou uma raiva pura de cada um daqueles homens e mulheres que só os viam como um rato de laboratório, um boneco de testes. E essa raiva criou um plano.
Em certos dias, os pesquisadores e alguns alunos da Academia levavam Egan para fazer alguns testes de campo. Também faziam isso para treinar os alunos em batalha e para capturar outros monstros, caso fosse possível. E foi em um desses dias que o garoto decidiu agir.
O pessoal o levou para umas montanhas mais ao sul, onde haviam cavernas que serviam de lar para alguns monstros territoriais que ficavam um tanto furiosos com humanos metidos a bestas que adentravam suas casas. Para Egan, foi uma oportunidade perfeita. Ele esperou até todos estarem dentro de uma das cavernas — era uma equipe de cinco pesquisadores e mais dez alunos —, e quando três Vermes de Pedra apareceram, ele agiu. Foi lhe ordenado para atacar e absorver a energia de um dos Vermes, mas Egan simplesmente se virou e atacou um dos Pesquisadores, o desmaiando.
Isso criou um caos no pessoal da Academia por causa do choque da traição de Egan. E por causa de poucos segundos de distração, os Vermes atacaram e começaram uma chacina. Egan se esgueirou e, ignorando totalmente os gritos e pedidos de ajuda do pessoal, fugiu da caverna e correu como nunca.
Pra onde ele iria? O garoto não conhecia ninguém e lugar algum. Ele não sabia onde as cidades e vilas ficavam. Estava perdido e sozinho em um mundo em pé de guerra. E pra piorar, não demoraria muito para que caçadores da Academia viessem atrás dele. Mas pela primeira vez em sua vida, ele teve muita sorte por ter encontrado um certo alguém que lhe ajudaria a continuar vivendo da forma mais "normal" possível. Esse "alguém" já irá ser comentado.
Egan virou uma esquina e não parou de correr. Ele estava sem camisa e seu cabelo liso espetado na cor azul estava totalmente embaraçado. Seus shorts negros estavam meio surrados e seus pequenos sapatos de couro puro estavam enlameados, pois ele estava no meio de seu treinamento diário quando toda aquela algazarra começou.
Seus olhos captaram alguém em perigo mais à sua frente. Uma mulher segurando uma pequena garota em seus braços, enquanto ela estava presa a parede, pois um grande Minotauro bufava e ia em sua direção.
— SANGUE DO LEÃO DOURADO, BRAÇO DO REI!
Egan não teve tempo para pensar em coisas como "O que diabos um Minotauro faz no Centro de uma Cidade?" ou "Por que ele emite uma radiação estranha de seu corpo?". Ele simplesmente concentrou sua energia no braço direito e invocou sua magia, fazendo seu braço ser "tomado" por uma forma animalesca. O membro fica maior, mais grosso e com uma pelugem também grossa, na mais bonita cor dourada. Sua mão se transformava em uma pata de leão da mesma proporção do braço, com unhas capazes de rasgar armaduras.
Ou carne de Minotauro. Egan aplicou um golpe horizontal certeiro na parte lateral do peito do monstro, lhe tirando um berro gutural e o jogando três metros de distância para longe. O monstro caiu rolando e sangrando, sentindo falta de dez por cento de carne de seu corpo. Ele se virou, tremendo, e tentou se levantar. Mas assim que levantou a cabeça para frente, ele percebeu que já era tarde demais.
Egan já tinha pulado para cima do Minotauro. Com seu braço ainda transformado, ele segurou a cabeça do monstro e, usando sua força aumentada pela gravidade de seu pulo, empurrou com tudo para o chão, esmagando o focinho, dentes e mais qualquer coisa que existia no rosto monstruoso da criatura. Sem esperar, Egan continuou usando sua força contra a cabeça do Minotauro até que ele parasse de se mover.
Egan se afastou do monstro morto e seu braço voltou ao normal. Ele olhou para trás e viu que as duas mulheres, mãe e filha, continuavam no mesmo lugar. Seus rostos ainda expressavam medo, mas Egan sabia que aquela não era uma boa hora pra se ficar chocado e paralisado.
— Por favor, fujam daqui. — disse ele, o mais carinhosamente que conseguiu. Egan tinha uma voz ligeiramente grossa, então você deve ter imaginado o esforço que ele fazia pra não tentar soar irritado. — Podem haver mais desses monstros e...
A parede ao lado de Egan explodiu com um barulho ensurdecedor, e do estrago, saiu algo grande e quadrúpede, que acertou o homem de lado, o levando até o outro lado da rua. A "coisa" ainda bateu com tudo na parede de um restaurante, destruindo boa parte da construção. As duas pessoas recém salvas deram outro grito quando viram que a criatura se tratava de um touro totalmente feito de ferro, e que labaredas saiam das sobras de espaço de sua carapaça e também de suas narinas.
Aquilo era um Touro Mecânico, uma criatura feita com a mistura de artesanato e alquimia. Era uma criatura controlada por magia, e tinha um poder destrutivo muito bom contra edifícios, muros e até mesmo barreiras. Já foi bastante usado em invasões de territórios dominados por monstros e até em guerras.
Não que essa explicação era necessária para Egan, que saiu dos escombros com um salto, jogando pedras para todos os lados. Ele não parecia muito machucado, mas ninguém estava ali por perto para comprovar isso. As duas mulheres tinham se levantado e corrido em alguma hora, sem esperar por outro aviso. Para Egan, isso era um bom sinal.
— SANGUE DOS MERMANS, JATO DE ÁGUA COMPRIMIDA!
Egan juntou energia e passou tudo para sua boca, deixando suas bochechas infladas como se tivesse fazendo um enxague bocal. Depois, ele cuspiu um jato de água super concentrado, que voou reto na cabeça do touro e o acertou com mais força do que uma marreta. A criatura deu três passos para trás, claramente zonza. Mas foi algo rápido. Ele balançou a cabeça e soltou ainda mais fogo pela sua narina e boca. Ele parecia gritar por dentro, demonstrando fúria.
O Touro arrastou o pé no chão enquanto mirava sua próxima investida. Uma coisa interessante nessa criatura, era a bizarra semelhança das atitudes do animal real. Ele bufou mais uma vez, e com um impulso, correu na direção do humano que tinha lhe lavado a cara. Por mais que ele parecesse pesado, os Touros Mecânicos conseguiam atingir uma grande velocidade em linha reta.
Mas não era o suficiente para atingir alguém que já lutou contra criaturas totalmente focadas em velocidade. Egan esperou até o Touro estar perto o bastante e depois se jogou para o lado, rolando pelo chão de pedra. A criatura continuou correndo até bater com tudo na mesma parede que tinha atingido há uns segundos atrás, destruindo quase que completamente o restaurante.
Egan se virou para o lado que o Touro estava e voltou a concentrar energia mágica. Ele não tinha atirado aquele jato de água simplesmente para irritar a criatura. Como já dito, Egan foi treinado para enfrentar todos os tipos de monstros que visse pela frente, então ele tinha um grande conhecimento sobre as fraquezas de muitos deles. Ele levantou o dedo indicador da mão direita e esperou o Touro sair dos novos escombros. Assim que isso aconteceu, Egan gritou:
— SANGUE DO THUNDERBIRD, PENA TROVÃO!
Do céu, uma pena amarela e laranja muito grande caiu exatamente em cima da cabeça do Touro. Assim que o objeto tocou na criatura, um estrondoso trovão rugiu e desceu com toda sua força e velocidade exatamente em cima da pena. E claro, na cabeça do Touro Mecânico. Com o local devidamente molhado, tomar um raio desses na cabeça não deve ser uma experiência que algum humano deva tentar.
O Touro ficou paralisado enquanto tomava o raio, e dois segundos depois, sua cabeça explodiu, liberando centenas de pequenas peças metálicas para todos os lados. Seu grande corpo caiu de lado e ali ele ficaria para todo o sempre... Ou até alguém vir tirar aquilo dali.
Usar essa magia não fez bem a Egan. O Thunderbird era uma criatura de Classe S, onde só existem algumas no mundo e tem um poder mágico assustador. Se tratava de uma ave imensa, que voava muito alto e tinha o corpo eletrificado. Seu puro bater de asa tinha o mesmo som de trovões cruzando as nuvens mais escuras. Egan lembra que teve que batalhar quase sozinho contra essa criatura, e absorver o poder dela lhe trouxe grandes problemas. Mas ele tinha treinado bastante e já conseguia suprir todos os pontos fracos de usar essa magia.
Ou pensava ele. Assim que o Touro caiu, Egan recebeu um choque elétrico que o fez ficar de joelhos. Sua respiração começou a acelerar, junto com seus batimentos cardíacos. Ele estava paralisado e tremendo.
E aquela era uma péssima hora para isso ter acontecido. Vindo da rua da sua direita, um homem passou gritando, correndo de alguma coisa que provavelmente não era nem bonita e nem amigável. Egan não precisou tentar adivinhar o que era, pois três segundos depois ela apareceu. Era uma Medusa. Um monstro de corpo humanoide feminino, totalmente escamoso, e em sua cabeça tinham cobras em vez de cabelo, seus olhos dourados e seus dentes grandes e afiados, capazes de perfurar pedra.
Que era exatamente o perigo dela. O poder das Medusas é transformar qualquer coisa que olhe diretamente para seus olhos em pedra sólida. Depois da transformação, a Medusa suga todo o poder vital da vítima com uma única mordida, parecendo um vampiro.
A velocidade de reação de Egan o fez não olhar a criatura diretamente nos olhos assim que ela apareceu. Mas isso não quer dizer que um ser humano paralisado e ajoelhado no meio da rua não atrairia a atenção da Senhora Petrificadora. Ela parou de seguir o homem que já tinha corrido o suficiente por uma vida, e se virou para Egan, dando passos lentos em sua direção. O homem tentou se mexer, mas seu corpo ainda não lhe obedecia. Ele poderia concentrar mais energia, mas do jeito que estava, não iria conseguir mirar nenhuma magia que lhe ajudasse. Então... E agora? O que fazer? Tentou se mexer de novo. Nada. Olhou para o lado, tentando focar sua visão somente do pescoço da Medusa pra baixo. Ela se aproximava, parecendo saborear o momento. Já estava muito próximo agora. Egan conseguia sentir o cheiro dela. E a vontade. O desejo.
— FLECHA DE FOGO!
Egan não viu, mas de cima de algum dos telhados das casas próximas a ele, alguém conjurou uma magia rápida. Uma flecha de chamas voou certeiramente até a cabeça da Medusa, a incendiando. A criatura gritava enquanto dava passos imprecisos para trás. O fogo consumiu boa parte de sua cabeça, matando as cobras que não podiam se livrar daquele local, e a Medusa caiu de costas no chão, morta.
Alguém caiu atrás de Egan, indo em sua direção logo em seguida. O homem que se livrava da paralisia se virou para trás e viu um homem um pouco alto, vestindo uma roupa muito elegante. Roupa que ele conhecia bem.
Se tratava de um conjunto vermelho bem chique: calças largas de seda, camisão bem largo com linhas brancas, abotoado na frente e com um bolso na altura do peito, onde levava uma linda rosa, uma capa que saía de seu ombro e quase batia no chão, terminando com um largo chapéu vermelho com uma faixa branca que segurava uma pena, também branca. A única coisa não vermelha de sua roupa eram suas botas, que eram grandes e de couro fino com travas de metal e suas finas luvas brancas.
O homem retirou o chapéu revelando seus longos cabelos ondulados e loiros, que foram jogados para trás com um leve balançar de sua mão. Ele sorriu para Egan quando eles trocaram olhares, e os olhos verdes claros do homem de vermelho chegaram a tranquilizar Egan.
— Parece que você precisa de uma mãozinha, meu companheiro. — disse o homem de vermelho.
— Aristarkh!!
Lembram que eu comentei sobre uma certa pessoa que ajudou Egan a dar um rumo certo em sua vida? Pois então, esse alguém era Aristarkh Leonhartd III.
Claro que você deve ter imaginado algo sobre Egan, do fato dele se inteirar a sociedade depois de ter passado vinte longos anos encarcerado, sendo submetido a testes quase todos os dias. Bom, obviamente ele não iria ser uma pessoa "normal" mesmo depois de fugir.
Egan não conseguia ficar em vilas e muito menos em cidades. Ele olhava para todas as pessoas como se elas fossem inimigas. Muitas vezes, ele teve que se controlar para não atacá-las. Seu psicológico estava tão aturdido que os instintos animalescos dos monstros que ele absorveu acabavam vindo à tona.
Isso foi até um fatídico dia que ele estava viajando por uma floresta — que ele não fazia a mínima ideia de onde ficava — e foi atacado por uma legião de Goblins, os monstros mais numerosos do planeta. Eles não eram fortes, mas sempre andam em bando e por isso, viajar pelas florestas sozinho não é uma boa ideia.
Foi aqui que ele conheceu Aristarkh. No meio da batalha, o homem vestido de vermelho apareceu, gritando que o ajudaria de qualquer maneira, atacando os monstros com magias elementais. Foi uma cena mais bizarra do que heroica.
No fim da batalha, os dois saíram sem muitos ferimentos. Mas não foi assim que foi criada uma amizade cheia de confiança entre os dois. Muito pelo contrário. Aristarkh foi tentar conversar com Egan, e esse mesmo o atacou. E essa sim, foi uma luta desastrosa.
Aristarkh passou toda a luta tentando acalmar Egan, dizendo que estava ali para ajudá-lo e não para sequestrá-lo, assim como o garoto das energias monstruosas achava. Egan não acreditava nas palavras e continuava atacando. Mas ele não imaginava que Aristarkh fosse uma pessoa com uma vontade inabalável. Ele não desistiu nem uma vez de tentar provar que queria ajudar, e como ele não atacava Egan para machucá-lo, a luta foi mais demorada.
No fim, com os dois extremamente exaustos, Egan se acalmou e deixou aquele homem chato se explicar. Aristarkh disse que nunca deixaria alguém em apuros, mesmo que ele não conhecesse a pessoa, o que era exatamente o que estava acontecendo ali. Ele disse que isso já vinha de sua família e que seria uma desgraça para seu nome caso ele desse as costas para alguém necessitado.
Demorou, mas Egan acabou acreditando naquela pessoa. Ele contou sua história e das coisas que fizeram com ele. Isso deixou o coração de Aristarkh apertado, lhe fazendo sentir algo único. Ele queria sentir a mesma raiva que Egan tinha pelos pesquisadores, mas em vez disso, só conseguiu sentir a suprema necessidade de ajudar aquele homem de alguma forma. E ele teve a ideia perfeita.
Aristarkh levou Egan para Riven. Sim, como você deve ter imaginado, foi quase impossível fazer com que Egan entrasse na Maior Capital do Mundo, mas com muito diálogo e com uma promessa de que tudo ficaria bem e que seria bem diferente para sua vida, os dois adentraram. E foram até a Mansão Musubi.
Aristarkh conhecia bem Mulkior, mas para você entender o porquê, é necessário dizer que o próprio Aristarkh era um "ex príncipe". Seu pai era o antigo Rei de Hilderais, Capital do Continente Póros, vizinho norte de Riven. Póros e Riven tem uma grande história de parceria, então não era muito estranho Aristarkh e Mulkior se conhecerem.
O problema era que Hilderais sofreu um golpe de estado de níveis catastróficos. Na verdade, seria ainda pior se o Rei não tivesse feito o que fez. Karky Leonhartd II, pai de Aristarkh, tinha um irmão que só conseguia ver poder e riqueza em sua frente. Quando o pai deles escolheu Karky para ser sucessor, seu irmão criou uma fúria descontrolada dentro de si. Então apenas dois anos depois de Karky assumir o trono, seu irmão criou uma situação onde não haveria escapatória. Ele envenenou os rios e os poços de toda a Capital — sim, TODOS os poços e TODOS os rios, sem exceção —, deixando todo o povo da Capital com sério risco de vida, e ao mesmo tempo, ameaçou Karky com uma revolta armada.
Karky tinha duas opções: ou fortalecia seu exército para lutar contra seu irmão maluco, ou usava todos os seus recursos para tratar do seu povo. Falando assim, parece que o Rei ficou muito tempo tentando analisar qual seria a melhor opção. Mas a verdade é que Karky não pensou duas vezes e mandou todos os seus homens para cidades e vilas vizinhas, comprarem remédios e trazerem a maior quantidade de curandeiros possíveis. Quando seu irmão invadiu o Castelo, Karky ordenou que não houvessem lutas e se rendeu imediatamente.
Ele, sua esposa e seu filho, Aristarkh, foram exilados da Capital, com quase nada em mãos. Os três sobreviveram porque a família de sua esposa tinha uma fazenda bem ao leste da Capital e os acolheram. Ainda naquela época, Karky ensinou seu filho a não criar raiva por seu tio. Aristarkh já tinha uma boa educação e sempre achou o pai o maior herói do planeta, e jurou que nunca faria algo que o decepcionasse. E esse juramento ainda não havia sido quebrado.
O "problema" é que ele levou os ensinamentos do pai sobre querer ajudar os outros e sempre ser o mais nobre possível muito a sério. Exageradamente falando. Aristarkh ajuda velhinhas a atravessar ruas que não estão movimentadas, ajuda gatos a descer de árvores que não precisam, ajuda donas de casa a carregar sacolas de compras que não são pesadas, ajuda crianças a voltar para sua casa mesmo não estando perdidas. A quantidade de vezes que ele foi tarjado como "chato" ou "enxerido" já tinha passado da casa das centenas.
Então voltando ao fato em mãos, Aristarkh foi conversar diretamente com Mulkior, porque ele sabia que o colega estava criando uma Guilda e que, com o grande senso de justiça e responsabilidade que o mago de ferro tinha, com toda certeza ajudaria Egan de alguma forma. E depois de ouvir toda a história do homem órfão, Mulkior não pensou duas vezes em convidar Egan para ser membro oficial da Guilda. Naquela época, faltava mais ou menos duas semanas para o término da Base.
Egan se viu em uma grande indecisão. Para ele, não era possível que existisse pessoas tão propensas a ajudar os outros como aqueles dois. Ninguém poderia culpá-lo, pois em toda sua vida na Academia, nem amigos ele tinha feito. Todos os alunos que treinavam com ele só o viam como um objeto de treino e mais nada. Para Egan, ver a vontade de Mulkior e Aristarkh era como atravessar para outra dimensão.
Egan deu uma condição para aceitar a proposta de Mulkior: que Aristarkh ficasse com ele por uns tempos. Aristarkh era o primeiro "amigo" que ele tinha conseguido fazer, então enfrentar os problemas com alguém junto poderia lhe ajudar. E como já dito, Aristarkh nunca abandonaria alguém que precisasse, então ele também se inscreveu na Guilda.
A ideia de Aristarkh era permanecer na Guilda até que Egan conseguisse se adaptar ao pessoal e a uma nova vida. Então eles fizeram muitas missões juntos, foram conhecendo pessoas novas juntos e conhecendo novos lugares juntos. Só que Aristarkh não imaginou que fosse se apegar tanto a Guilda. Ele adorou o pessoal, adorou o jeito como eles faziam as coisas e adorou o sentimento de "lar" que a Base lhe proporcionava. No fim, ele decidiu que ficaria por ali e não deixaria que nenhum mal fosse criado na Guilda enquanto ele vivesse. Nisso, seu pai também se orgulhou.
— Você está ferido, meu amigão. Aguente firme. — disse Aristarkh, ficando bem ao lado de Egan e mirando sua mão direita com a palma aberta para ele. Com um pouco de concentração mágica, Aristarkh pronunciou outra magia. —CURA RÁPIDA!
A mão de Aristarkh emitiu um brilho não muito forte na cor branca, e enviando aquela energia para o amigo, Egan ficou com o corpo envolto de uma aura da mesma cor. Seus leves ferimentos foram se fechando e Egan sentiu seu corpo voltar a obedecê-lo. Ele se levantou e estralou o pescoço, mexeu os braços e deu uma batida na perna, se certificando que estava em perfeito estado. A magia de Aristarkh sempre era salvadora de vidas.
Que é importante comentar que a classe de Aristarkh é Feiticeiro, mas ele não gostava muito desse nome, então preferia ser tratado como antigamente, ou seja, como Mago Vermelho. Muito antigamente, quando a magia ainda era uma criança, as classes mágicas eram divididas em quatro cores: os Magos Negros controlavam as magias elementais de ataque, ou seja, Fogo, Água, Vento e por aí vai. Os Magos Brancos eram os clérigos de antigamente, controlavam magias de cura e de suporte. Os Magos Verdes eram especializados em magia que causava alteração de saúde tanto para os aliados quanto para os inimigos, com magias que aumentavam velocidade e resistência, ou veneno e cegueira. E por fim, existiam os Magos Vermelhos, que eram simplesmente uma mistura dos Magos Negros e Brancos. Então eles tinham magias de ataque e de cura e suporte, mas não tão poderosas quanto as das classes originais. Lendas dizem que existiam mais "cores" que misturavam naturezas de magos, mas nunca foi provado ou sequer visto algo desse gênero.
— Ark, o que está havendo? O que esses monstros estão fazendo dentro da cidade? — perguntou Egan. Ark era um apelido carinhoso que o pessoal da Guilda colocou em Aristarkh, e ele o adotou com contentamento.
— Eu gostaria de poder lhe responder, meu caro amigo. — respondeu o Mago Vermelho, arrumando o chapéu. — A cidade está infestada de monstros e eu não sei da onde eles saíram.
— Infestada? Então não eram só esses ?
— Exatamente. Os gritos que você ouve são das centenas de pessoas fugindo ou do fogo, ou dos monstros. — Ark se virou e começou a caminhar. — Vamos, não podemos ficar aqui parados! Temos que ir para a Base e ver como faremos para ajudar essas pessoas indefesas!
Com apenas um aceno afirmativo da cabeça, os dois Soldados da Primeira Linha de Frente da Immortal Star começaram a correr em direção à Base, que ainda estava muitos quarteirões a frente.
Na verdade, a Immortal Star já estava agindo. Any organizou todos que estavam na Base na hora do início do incêndio, e dividiu afazeres para cada um. A maioria foi ordenada a sair e ajudar as pessoas que estariam presas em suas casas ou para ajudar no combate ao fogo. Naquela hora, eles não sabiam da invasão de monstros na cidade, mas todos que saíram acabariam descobrindo muito rapidamente.
Que foi o caso de Jarhan Al'Arwah. Depois de ter que derrotar dois Trolls Montanheses, ele teve que entrar em uma mercearia que estava em chamas para tirar uma senhora que tinha ficado presa embaixo de algumas prateleiras. Por sorte, ele conseguiu realizar o ato sem nenhum dos dois saírem com ferimentos graves.
Inicialmente, a mulher se assustou com seu salvador. Jarhan era um cara alto, pele um pouco mais escura por trabalhar muito debaixo do sol, com expressão facial firme, olhos castanhos escuros e cabelo cumprido até o ombro, amarrado em um pequeno rabo de cavalo, na cor negra. Mas seu rosto era normal se formos comparar com sua roupa.
A vestimenta dele era única no mundo e tinha um ar ameaçador impressionante. Jarhan usava uma túnica de armadura feita de "ossos". Sim, é esquisito. A roupa era marrom escura, e onde deveriam ter linhas que desenhavam as formas de uma roupa, haviam ossos que serviam para proteção de seu corpo. Ele tinha ombreiras de ossos — que eram duas cabeças de... Algo. — e perneiras que protegiam suas canelas, do mesmo material. Vestia uma calça por baixo, também marrom escura. E no conjunto, também tinha um capuz da mesma cor, que ele quase não tirava. Suas botas eram de couro negro, e ele também usava luvas dessa mesma cor.
Você já está bem ciente de que existem as "Classes Perdidas". São classes que foram criadas há muito tempo atrás, mas por algum motivo, foram se perdendo ao longo da história. Algumas Academias faliram. Outras classes, com menos adeptos, foram morrendo sem ter a chance de passar seus conhecimentos para frente. Ninguém sabe exatamente quantas dessas classes se perderam, e possivelmente nunca iremos descobrir ao certo. Mas há uma coisa ainda mais secreta e misteriosa que essas classes. E elas são chamadas de "Classes Proibidas".
Elas são poucas no mundo e são proibidas por uma série de motivos diferentes. Jarhan era adepto de uma dessas classes. Mas você precisa entender exatamente o porque a classe é proibida e o porque nosso membro a possui.
Vamos começar dizendo que a classe se chama "Necromante". Ela é uma classe que possui magias que mexem com corpos já mortos, doenças e algumas maldições. O motivo dela ser proibida você já deve ter imaginado. Mexer com pessoas que já chegaram ao fim de sua vida era, em quase todo o mundo, um ato desrespeitoso e em muitas religiões, um puro sacrilégio. Mas como toda regra, sempre existem exceções.
E esses se chamavam Necromantes. Nunca deu para saber onde e nem quando essa classe surgiu primeiramente, mas o que é possível dizer era onde a maioria estava concentrada: Celtor, uma cidade mais a sudoeste, não muito longe da Capital do Reino. A cidade não tinha nada de especial. Não era grande e nem pequena e não era especializada em nenhum tipo de fabricação ou mercadoria de qualquer tipo. Era uma cidade relativamente normal.
O que não era normal era uma mansão que tinha bem ao sul da cidade. Muitos até não consideravam a mansão como parte da cidade, pois mesmo não tendo muros ou alguma linha divisória pra marcar o início da cidade, a mansão ficava afastada da entrada sul. Era uma construção feita no meio do nada, mas lá vivia o Duque Alester DeRosso, um nobre rico e poderoso. Sua família já tinha sido donas de muitas terras e até mesmo Líderes de cidades. Era uma família com muitos e muitos anos de história. Era.
Nessa mansão era onde ficava a "escola" dos Necromantes. O próprio Duque era o Professor, provando que não só de riquezas e aquisições boas sua família possuía. Mas a escola não tinha muitos alunos. Eram dez, no máximo doze. Essa parte da história também é difícil de ser descrita.
Como você pode imaginar, a escola era secreta e ninguém tinha a permissão de contar a ninguém nada sobre ela. Claro, todos os alunos nunca abririam a boca. Você não consegue fazer amigos chegando neles e falando: "Ei! Eu mexo com corpos em decomposição!". Todos os alunos sempre tomavam cuidado com as pessoas que conversavam e também eram alertas por onde andavam ou pretendiam ir. Jarhan não era um dos alunos. O pai dele era. Afinal de contas, essa é uma história de mais de cinquenta anos atrás, e o nosso garoto tinha só vinte e cinto.
Agora vamos a parte que interessa. Os adeptos precisam treinar suas magias de formas... Exóticas. Eles precisam de corpos mortos para muitas de suas magias. Claro, não só de humanos. Monstros e animais também eram objetos de pesquisa e treino, mas era mais difícil conseguir esse tipo de corpo. Por quê? Fácil: um dos adeptos daquela escola era o coveiro da cidade. Então ele sabia quando alguém morria na cidade, e na mesma noite do enterro, ele planejava com alguns alunos e desenterrava o corpo e levavam para a mansão. Depois o próprio coveiro arrumava tudo para parecer que nada tinha acontecido e ninguém percebia alguma diferença. Prático.
Os alunos conseguiam fazer grandes avanços em seus treinos, e muitas magias novas eram criadas e ensinadas pelo Duque. Poderiam existir outras escolas secretas pelo mundo, mas provavelmente essa era a mais poderosa. Até o aluno mais novo da turma, que era o pai de Jarhan, tinha um talento nato para aprender novas magias. Mas eles não conseguiram ser uma boa escola para todo o sempre. Os esforços dos alunos não renderam bons frutos. Pois a mansão foi atacada e destruída.
Mesmo hoje, não se sabe como os cidadãos descobriram o que se passava dentro das paredes daquele lugar. Alguns acham que foi algum empregado de dentro da mansão que espalhou os boatos para os residentes da cidade, falando que seus familiares mortos estavam sendo usados como objetos para magia negra. A única coisa que se sabe é que, com os cidadãos loucos da vida por saberem disso, foram até o líder da cidade e demandaram que ele fizesse algo. E o líder da cidade levou o caso diretamente para o Rei da Capital, que tomou ação imediatamente.
O Exército do Reino foi reunido e bem tarde da noite, marcharam para a mansão. Eles sabiam que as aulas aconteciam naquele horário. As ordens eram extremas: invadir o local e assassinar todos lá dentro. Aqui é outro ponto da história que foi perdido. Por que o próprio rei mandaria assassinar todos? Por que eles não poderiam ser presos e ter passado por algum tipo de julgamento? Ninguém nunca soube a verdade.
O que houve lá foi um massacre. O exército atacou com catapultas e logo em seguida invadiu pelas três entradas, sem esperar qualquer forma de rendição. Todos que estavam dentro foram brutalmente assassinados, e nem mesmo os empregados foram poupados. Absurdo? Com certeza. Mas aqueles homens estavam seguindo ordens de seu rei.
O único sobrevivente foi o pai de Jarhan, e pelo motivo mais sortudo do mundo. Naquele dia, ele não estava se sentindo muito bem e decidiu não ir a aula. Logo quando soube do desastre, ele sabia que corria perigo. O homem juntou suas coisas e fugiu para o mais longe possível, sem nem olhar para trás e não contando a ninguém. Ele prometeu a si mesmo que nunca pisaria naquela cidade novamente.
Os anos se passaram e o homem agora trabalhava em uma grande fazenda, junto com sua mulher e mais tarde, seu filho. O pai adorava contar histórias, então um dia ele contou sobre suas aulas para Jarhan como um conto de terror, mas teve o efeito inverso. Em vez de ficar assustado, Jarhan adorou a história e se empolgou em querer aprender magia. Houveram várias discussões sobre o pai se recusando a ensinar tal coisa, e o filho fazendo de tudo para aprender. No fim, o pai disse que ensinaria magia ao garoto, mas só as que não mexiam com corpos humanos. Como Jarhan não tinha uma escolha melhor, ele aceitou.
Jarhan foi aprendendo muitas magias enquanto ajudava o pai na fazenda. Ele também treinou habilidades físicas sozinho, com seu equipamento de trabalho: a foice. Como ele tinha muito tempo livre, ele dava bastante duro em seus treinamentos, desejando algum dia poder usar as habilidades para trazer facilidade a família.
Mas isso não aconteceu. Um belo dia, que não havia nenhuma ameaça de chuvas ou tempestades, a família fazendeira trabalhava tranquilamente junto com os muitos outros fazendeiros que se ajudavam por aquelas regiões. Mas nosso mundo é caótico. Você nunca sabe se vai acordar em sua cama cheia de Serpentes das Sombras e ser comido vivo sem deixar traços. Então naquele lindo dia, um bando de Grifos de Penas Laminadas — os piores do tipo. Tem um poder físico e mágico relativamente grande e causam muita destruição por onde passam — estava fazendo uma viagem migratória do sul e decidiram parar na vila dos fazendeiros para fazer uma "boquinha".
Foi um desastre. Os Grifos destruíam tudo que estava no caminho de seus rasantes, pegando gado e até pessoas que conseguiam. Os dois únicos lutadores que faziam algo eram Jarhan e seu pai. E por mais incrível que pareça, eles estavam lidando bem com a situação. Até... Seu pai ser morto por um dos Grifos que o atacou em seu ponto cego, enterrando suas garras na jugular do pobre homem. Depois desse fato, as coisas ficaram piores de um segundo para outro.
Jarhan perdeu a cabeça. Ele começou a atacar sem se preocupar com mais nada, o que lhe rendeu muitos ferimentos graves. Já cansado e se sentindo no caminho para se encontrar com o pai, ele decidiu usar seu último recurso: as magias que ele aprendeu sozinho olhando nos pergaminhos secretos de seu pai. Mesmo tendo prometido nunca usar esse tipo de magia, Jarhan chegou próximo ao corpo falecido do pai e usou uma magia poderosa. A mão do morto se mexeu. O pé do morto se mexeu. Os olhos do morto se abriram. E o corpo do morto se levantou.
O aprendiz de necromancia e seu pai morto continuaram a luta, mas foi por pouco tempo. Além de já estar muito machucado, Jarhan gastou tudo o que tinha de energia mágica em sua última magia, que estava destreinada. E ainda haviam uns dez grifos. Os olhos de Jarhan foram se fechando pouco a pouco. Sua vida foi se esvaindo. Sua respiração tinha ficado difícil. Ele estava se vendo morrer. Até... Ver um cara MONTANDO em um dos grifos.
Sim, você não ouviu errado. Jarhan piscou três vezes para ter certeza de que não estava tendo alucinações. Mas havia mesmo um cara de cabelos cumpridos montando em um dos grifos que voava desordenadamente. Isso foi até o próprio homem atingir um poderoso soco na cabeça do monstro e ele cair morto no chão, a uns quatro metros de distância de Jarhan. O cara se aproximou dele e falou algo como "Estamos aqui para ajudar, não se preocupe".
San e Mana estavam voltando para Riven depois de completar uma missão complicada e por uma coincidência do destino, viram o ataque ao longe e decidiram ajudar. Na verdade, Mana decidiu ajudar. San foi atrás, mesmo falando que isso não tinha nada a ver com eles e, como os dois estavam um pouco cansados e feridos, não deveriam se meter. Não foi o suficiente para convencer Mana. Nada seria.
A Dupla Imortal matou todos os grifos restantes, salvando os poucos residentes que ainda viviam. Com ajuda, eles reuniram os feridos e foram atrás de médicos da cidade mais próxima. Jarhan conseguiu sobreviver, mas ele agora tinha um ferimento que não iria cicatrizar tão cedo. Ele ficou contente ao descobrir que sua mãe tinha sobrevivido também, sem nenhum ferimento sério. Mas sua casa havia sido totalmente destruída.
O que ele faria? Seu pai era muito mais que uma figura paterna. Ele era seu professor, seu mentor, seu mestre. E nem casa ele tinha para poder voltar. Só um caminho de tristeza esperava por ele e por sua mãe. Ele teria sorte se alguma família conhecida lhes desse um abrigo temporário.
Mas a sorte sorriu para ele. Mana e San o visitaram enquanto ele ainda estava internado e fizeram uma proposta. Eles viram as habilidades de Jarhan e sabiam de sua atual situação. Então eles falaram que se Jarhan entrasse para a Immortal Star, ele teria um quarto na guilda, um trabalho bem remunerado e até mesmo um abrigo para sua mãe, desde que ela também trabalhe na Guilda. Isso aconteceu um pouco depois da Base estar pronta, então a guilda PRECISAVA de mais gente para trabalhar dentro da Base. Depois de conversar com a mãe, Jarhan aceitou de bom grado a oferta e prometeu ir para Riven depois que ficar melhor.
Hoje ele era Soldado das Linhas de Frente da Guilda e sua mãe trabalhava na Cozinha da Base. Demorou para ele se acostumar com o pessoal meio doido da Guilda, mas pouco a pouco ele foi fazendo amizades e vendo que a Guilda realmente sabia cuidar um dos outros. Ninguém ali ligava para suas magias de maldição e doença, então ele se sentia realmente parte de uma nova família.
Depois de deixar a mulher salva com um dos guardas da cidade que passava por ali, Jarhan voltou a correr procurando mais gente que precisasse de ajuda. Ele sabia como era o terror de ser atacado por monstros sanguinários, e não gostaria que ninguém passasse pelo mesmo que ele passou. Só que em sua corrida, ele encontrou um tipo diferente de problema.
Três Guardas da Cidade estavam tendo uma luta desvantajosa contra... Seis pessoas usando armaduras padronizadas. Eram soldados de outro reino. Jarhan ainda não tinha aprendido muito sobre bandeiras e brasões, então não dava pra saber da onde é que aqueles soldados tinham vindo. Mas para o Necromante, isso pouco importava. A guarda da cidade, que era pra estar espalhada ajudando inocentes, estava tendo que lutar com um bando de malucos que provavelmente estavam aproveitando a oportunidade desse caos. Mal sabia ele que havia muito mais profundidade nesse pensamento.
Jarhan era um lutador impiedoso. Ele aprendeu magia com seu pai que era um fazendeiro paciente e feliz, mas nunca aprendeu a lutar como um verdadeiro homem honrado. Então a primeira coisa que ele fez foi cortar as duas pernas do soldado mais próximo, que estava de costas pra ele em um só movimento de sua grande foice negra. O soldado caiu no chão, gritando o que podia.
O susto alertou todos naquela luta, o que rendeu um tempo precioso de descanso e oportunidade para a Guarda. O soldado ao lado do recém sem pernas se virou para Jarhan e o atacou sem nem pensar. Ele usava uma espada longa e deu um golpe de ponta. O que foi uma péssima escolha quando você enfrenta um inimigo com uma arma com alcance maior que o seu. Jarhan deu um salto para trás sem nenhuma dificuldade e, concentrando um pouco de energia mágica, apontou o dedo indicador para o pé direito do soldado e usou sua magia.
— IMOBILIZAÇÃO DO TERROR!
Essa era uma magia muito rápida. Bem ao lado do pé direito do soldado uma mão cadavérica nasceu destruindo o chão, que agarrou e apertou a parte mais baixa de sua perna. Além de perceber que não conseguia se mover, o soldado também levou um susto ao ver aquela mão branca feita de ossos lhe segurando, como se um esqueleto estivesse debaixo da terra e quisesse trazer quem quer que ele pegasse para seu aconchego terrestre.
De fato, aquela mão não era de algum esqueleto que estava coincidentemente enterrada ali. A mão era feita de pura energia mágica, e desaparecia como qualquer outra magia. Claro, Jarhan PODERIA fazer um esqueleto fazer a mesma coisa se tivesse um enterrado ali, mas não era o caso.
O caso é que, por estar imobilizado e assustado, o soldado não viu a foice de seu inimigo vindo em sua direção. Jarhan o cortou no peito de ponta a ponta, fazendo o soldado cair no chão sangrando para sua possível morte.
Isso não causou nenhuma boa impressão para os soldados inimigos. Um deles, inclusive, acabou sendo perfurado pela espada de um dos Guardas, por não prestar atenção em sua própria luta. Agora eram três soldados inimigos contra três Guarda e mais Jarhan. Mas isso iria mudar logo.
— AGULHA DE TSE!
Jarhan concentrou energia em dois dedos da mão direita e apontou para um dos soldados que atacava impiedosamente um dos Guardas. Se aquilo continuasse por mais um minuto ou dois, o soldado inimigo levaria a melhor. Mas o Necromante não deixou. Depois de concentrar energia, ele disparou um raio bem pequeno de energia arroxeada e enegrecida. Essa era outra magia com uma velocidade surpreendente. A agulha de energia atingiu o tal soldado na nuca, causando pouca dor.
Mas essa não era a função dessa magia. Pra início, o local que foi atingido fica com uma marca bem feia como se fosse um machucado feito por uma pancada. E claro, a magia em si se tratava de uma doença um tanto rara. Poucos segundos depois de receber a magia, o soldado ficou na defensiva , mas a cada novo movimento brusco de seu corpo, ele percebia que seus olhos tendiam a fechar e o peso de seu corpo estava se elevando demais. Isso piorou de um jeito que ele estava lutando com um só olho aberto e por não conseguir acompanhar os movimentos de seu oponente, acabou levando uma ferida mortal. O soldado caiu no chão e fechou os olhos imediatamente, não dando pra saber se ele ainda vivia.
Não demorou para os outros dois soldados caírem, já que estavam em menor número. O último tentou escapar, sem sorte. Um dos Guardas tinha sido ferido gravemente e agora um de seus amigos o ajudava. Um outro veio falar diretamente com Jarhan.
— Muito obrigado pela sua ajuda! Você é daquela Guilda nova, não é? — perguntou o Guarda, vendo o brasão da Guilda que Jarhan carregava no peito. — Prometo que iremos pagar essa dívida.
— Não se preocupe com isso, Senhor. — respondeu Jarhan, levantando a mão e a balançando em sua frente. — Mas o que está acontecendo aqui? Quem eram essas pessoas?
— São soldados do Exército Real de Martir. Mas eu não sei porque eles atacariam nossa cidade. O Reino de Martir fica muito longe daqui!
— Uhm... — disse Jarhan. Ele não conhecia esse reino e não fazia a mínima ideia de onde sequer ficava. — Mas não percam tempo por aqui. Ajudem seu amigo e qualquer outra pessoa que vocês puderem.
Depois de agradecer mais uma vez, os Guardas, ajudando o ferido, se viraram e começaram a andar em direção ao Castelo. Jarhan não teve tempo para se sentir orgulhoso de salvar bons homens que lutavam pela paz da cidade. Assim que os Guardas desapareceram da vista do Necromante, um grande barulho de algo muito grande sendo destruído foi ouvido. Jarhan se virou em posição defensiva, mas logo em seguida sabia que aquilo não adiantaria nada.
— Mas o que... É isso?
Jarhan engoliu muita saliva de uma só vez ao ver um ser enorme se levantando dos escombros de várias casas destruídas. Não pense pouco quando eu disse "enorme". Se tratava de um Colossus de Ferro, uma criatura mística criada e controlada remotamente por energia mágica. Como seu próprio nome já diz, ele era uma criatura colossal, medindo mais de vinte metros de altura. E era isso que começou a ir em direção ao Necromante.
O Capitão Keffman sabia que aquele seria um dia horrível. Foi ele que recebeu os visitantes de Lazetna, e por algum motivo desconhecido, ele sabia que eles não estavam fazendo uma visita de felicitações. Keffman era um velho soldado que servia Riven por mais de trinta anos, e por mais que sua personalidade seja de um velho ranzinza e nervoso, todos os seus soldados o adoravam. Ele tinha compostura e mesmo naquela idade, tinha habilidades de combate muito mais avançadas do que os soldados de elite do Exército.
Ele andava pela muralha do sul da Capital. É bom lembrar que não só o Castelo era cercado por uma grande muralha. A Capital mais famosa e grande do mundo também tinha uma segurança abissal, o que era motivo para nenhum reino ter a ideia maluca de querer atacá-la. Mas hoje parece que o mundo enlouqueceu de vez.
— E então? Por que eu fui chamado aqui de novo? — perguntou o Capitão, com sua já característica voz nervosa que fazia criancinhas chorarem.
— Senhor! — disse o soldado se virando e batendo continência. — É que... O senhor precisa ver isso. É mais rápido do que explicar.
O soldado entregou o Monóculo de Varredura, um equipamento especial cilíndrico que permitia a pessoa ver muito longe, para o Capitão que se aproximou da ponta da muralha e o colocou em seu olho direito. O soldado apontou para onde ele deveria olhar, e o Capitão ajustou o aparelho até ver o que tinha feito os soldados irem lhe tirar de seu posto primário.
— São tropas do Exército de Semangard! — disse Keffman, quase gaguejando. — Isso é impossível! Eles nunca conseguiriam passar pela defesa do General Berul!
Capitão Keffman tinha levantado uma hipótese válida. Entre Riven e Semangard, ficava a Fronteira Sul, que era o posto avançado de Berul, o General Monstruoso. Era lá que essa guerra havia iniciado, mas com toda certeza, iria demorar muito para acabar. O próprio General tinha pedido reforços da Planetarium, pois sabia que Semangard iria fazer um ataque de larga escala a qualquer momento. Mas para os soldados terem chegado até aqui, eles teriam que ter passado pela fronteira. Ou...
— A Fronteira do General Berul ainda não foi ultrapassada. Esses soldados vieram de esconderijos de vilas e cidades aqui perto.
Essa era a voz de um homem sem a menor expressão de vontade em sua vida. Ele passou por Keffman e depois pulou da muralha. Deixe-me lembrá-lo que a muralha tinha uns dez metros de altura. O homem pousou no chão sem ter nenhum problema, e começou a caminhar em direção as tropas que ainda estavam relativamente longe.
O tal homem tinha vestes esquisitas. Ele usava uma grande capa com capuz branca por debaixo de sua roupa que parecia ser feita de folhas. Mas não "parecia". ERA feita de folhas. Sua camisa sem manga e seu shorts curto eram verdes e infestados de folhas de todos os tipos. Não dava nem para descrever exatamente como era sua roupa, pois as folhas bloqueavam a visão de sua camisa e shorts. Ah sim, e ele andava descalço e tinha um grande cajado de madeira nas costas.
— EI! O que você pensa que está fazendo, rapaz! — gritou o soldado que estava ao lado do Capitão. Ele tinha levado um susto e não acreditou no que acabou de ver. — Você ficou maluco?
— Espere. — disse Keffman, colocando a mão no ombro do soldado preocupado. — Deixe-o quieto.
— Mas senhor! Ele está indo em direção as tropas!
— Sim, e você não precisa se preocupar com ele. Vá passar essa notícia aos outros Tenentes e diga para se prepararem para um ataque frontal!
— Mas... Mas... — o soldado estava realmente confuso. Seu Capitão estava dando as costas para um civil que andava para sua morte? Isso nunca poderia acontecer! Keffman era um ranzinza mandão, mas nunca abandonaria alguém indefeso.
— Soldado. — começou Keffman, tentando se manter o mais calmo possível, o que estava bem difícil. — Aquele homem é o nosso maior trunfo para essa guerra. Agora que ele entrou no campo de batalha, nós não precisamos nos preocupar em atacar a tropa e podemos fortalecer todas as nossas defesas.
— Trunfo? Quem é ele, Senhor?
— O nome dele é Fildais. Ele é o Soldado da Unidade Terra da Planetarium, o mais puro guerreiro que eu já vi em ação com todos esses anos de batalhas que eu já passei.
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