Um ano antes...

As sirenes soavam alto, com um barulho extremamente irritante para os ouvidos sensíveis do jovem, que com sua corrente de lençóis escalava o muro do hospital.

O vento batia forte, naquela típica tarde de outono, bagunçando os cabelos loiros e pouco crescidos, que Alecsander teimava em manter sempre desalinhados, sobre os olhos de retinas escuras.

Escalou o muro, com dificuldade, até que conseguiu alcançar a grande figueira, que estendia seus galhos, de folhas amareladas, até a calçada.

Desajeitado, pulou para a rua silenciosa.

A sirene soou mais alto, e o grande portão de metal se abria, por onde os médicos o olhavam, perplexos — De novo não, Alec. — gritou o doutor, tirando um sorriso satisfeito do rapaz.

Ele correu, deixando para trás a placa sombria do hospital psiquiátrico Saint' German.

Sempre que fugia da clínica, Alecsander Blake andava pelos confins florestais da cidade, até chegar a um lugar novo.

Naquela tarde, ocasionalmente chegara ao Centro. Ele não ia muito para aquelas redondezas, pois os riscos de ser pego eram maiores, mas algo lhe dizia para ir até lá: as vozes.

Para um fim de tarde amarelado de sexta-feira, a praça estava ligeiramente cheia.

"Uma péssima ideia." Brigou ele com seu subconsciente.

Precisava achar um lugar tranquilo para ficar, e o achou logo abaixo de uma figueira rodeada por muitos arbustos.

Quando já estava acomodado, Alecsander tirou do bolso interno de sua jaqueta esportiva, uma caneta e um grosso bloco de anotações, onde desenvolvia suas mirabolantes estórias. Sua criatividade era tamanha. Um dom e uma maldição.

Olhou para o alaranjado pôr do sol, alguns pássaros planavam no céu, fugindo do inverno que se aproximava.

As íris negras cintilaram em contato com a luz do Sol. Sua vista doeu, e ele desviou o olhar para o bloco de anotações que refletia a sombra de sua cabeleira dourada.

"Aquela era de longe a pior data comemorativa de todas. Até pior que seu aniversário.

Seu nome é Elizabeth Vladesco, você perdeu sua mãe em um assalto, na noite de natal, enquanto abria seu presente na pequena casa do Bronx. Você ainda se lembra de como tudo aconteceu, tinha apenas cinco anos, mas ainda se lembra.

Sabia que sua mãe trabalhara muito para lhe comprar aquela maldita boneca. Malibu Lucy. Estava embrulhada em papel de presente cor de rosa, de baixo do medíocre pinheiro, decorado com pisca-piscas.

Quando chegaram em casa, naquela noite, correu para abrir seu presente, mas sua mãe a impediu com um olhar apavorado e você se escondeu. Katherine estava tremendo, e aquele olhar você conhecia muito bem.

Havia alguém na casa."

Ele parou de escrever, subitamente, quando seu campo de visão fora tomado por uma sombra.

Faziam dois dias que Dana tinha saído do centro psiquiátrico. Sua vida estava um tédio, já que seu irmão mais velho não a deixava sair. Então, às vezes ela fugia.

Thomas Hemsworth passava o dia ocupado e dividido entre a faculdade de medicina, o estúdio de tatuagem e os shows de sua banda. Passava pouco tempo em casa. E só assim Dana tinha verdadeira liberdade.

Ela estava a caminho do parque. Gostava de ficar por lá e relaxar. Mas, como ficou o dia inteiro sozinha, e Thomas lhe proibiu de chegar perto do fogão, não tinha o que comer. Então, foi até o centro da cidade para comprar alguma coisa.

Quando chegou à praça, Dana andava distraidamente com os fones de ouvido, quando uma movimentação peculiar lhe chamou a atenção, logo atrás de alguns arbustos.

Porque não dar uma olhada? Se fosse um bicho preso em alguma coisa, precisaria de ajuda. Pobre animalzinho.

Ela fora se esgueirando para próximo do arbusto, e não se surpreendeu com o que viu.

Um garoto estranho, sentado rabiscando um bloco de notas.
Ela ficou intrigada. Seus olhos eram escuros demais, como daqueles que a visitavam constantemente em seus sonhos.

O garoto loiro se acoou ao vê-la e instintivamente Dana deu um passo para trás, ele a fitava avidamente.
Achou melhor continuar seu caminho, pois estava a poucos metros da lanchonete e aquele garoto acionava seu mecanismo de sobrevivência.

Alecsander se congelou. Foi tão repentino, e aquela garota... Tinha algo de diferente nela.
Quando ela saiu correndo, não pensou duas vezes em segui-la.

A lanchonete estava cheia, era um tipo de bar com comida típica do interior e música ao vivo. Vasculhava dentre a multidão de beberrões e mulheres de roupas curtas por aquele par de olhos azuis.

Não foi difícil encontrá-la, porém ele não se aproximou. Ficou a observando do bar.

Não demorou para a garçonete se debruçar ao lado dele no balcão.

– O que vai querer, meu bem? — ela lhe lançou um sorriso convidativo, que era até encantador. O cabelo negro estava preso em um coque, seu rosto era delicado e combinava perfeitamente com o corpo de porte pequeno.

– Uma água, por favor! — ele sorriu em retribuição.

O lugar tinha uma decoração rústica, porém bem conservada. Quase tudo feito de madeira de demolição e couro. Próximo aos banheiros, haviam dois homens, em um palco improvisado, que cantavam Robbie Willians, ou algo do tipo, com uma gaita e um violão.

Alecsander estava tentando se controlar, e rabiscava algo no guardanapo. Já estava se arrependendo de estar tão longe da clínica. Pois aquela música o estava consumindo, e não lhe fazia bem. Talvez algumas pílulas ajudassem a se acalmar.

– Sua água. — a garçonete chegou com uma garrafa e um copo, não tinha mais o sorriso de antes, já que a água custava pouco e certamente não tiraria uma gorjeta boa. — Garoto? Tudo bem? — os olhos dela se arregalaram, e mostraram sua surpresa. Alec estava pálido e suava frio. — É melhor tomar essa água logo, por minha conta... — ela o tocou no ombro e saiu às pressas para atender os outros.

Um dos bufões do bar, talvez o pior, cambaleava entre as mesas. Ele cheirava a cerveja, e não conseguia parar em pé.

Alecsander se escondeu com o capuz do casaco esportivo, mas continuava observando o homem bêbado, até que ele caiu por cima da mesa onde a garota de olhos azuis estava sentada.

Instintivamente se levantou e sua visão ficou turva. Tudo estava perdido.

Dana sempre sentia que estava sendo perseguida, mas daquela vez era real. O "menino-arbusto" a seguira até o bar e ficava lhe observando com aqueles olhos escuros.

Não sabia se devia gritar ou correr.

– Oi bonitinha. — o cheiro de álcool lhe queimou as narinas e fez à bílis subir de seu estômago.

– Ah! — gritou no susto e todos na lanchonete a olharam.

O homem estava debruçado sobre a mesa, e aquele cheiro a deixava cada vez mais enojada.

– Ei, a moça não quer você aqui. Ainda não percebeu? — o garoto do arbusto puxou o beberrão pelo colarinho da camisa surrada, estava mais sombrio do que o normal com aquele capuz sobre o rosto.

Ele não era muito forte e nem muito grande, mas o bêbado era velho e esquelético por causa do vício.

– Acho melhor você sair daqui antes que alguém se machuque. Rápido. — soltou-o com cuidado e o colocou no chão. O homem cambaleou para longe dali com pressa, a expressão de espanto emoldurada em seu rosto.

– Ahn... obrigada. Eu acho. — Dana se encolheu na cadeira em que estava, porque aqueles olhos lhe davam arrepios. Era um certo choque quando os pretos encontravam os azuis. — Você quer se sentar? — tinha que ser no mínimo educada.

Ele saiu em silêncio. Saiu em silêncio a deixando sozinha e confusa.

O bêbado saiu cambaleando para longe da mesa, e Alecsander faria o mesmo... até que ela falou. Aquele timbre o deixava sem fôlego, batia em seu coração e apaziguava toda a confusão que se passava ali.

E Alec não era o único a sentir aquilo. Ele também sentia, ele a queria... e isso era, realmente, ruim.

"Sente-se. Fique com ela, seu Mané." Ordenou a voz.

Claro que aquela era sua vontade, sentar-se só para poder ouvi-la falar, pelo resto da vida. Mas, seria uma escolha estúpida já que a colocaria em perigo.

Alecsander baixou a cabeça e saiu em silêncio, sofrendo por uma terrível consternação interna.

"Você é estúpido. Volte lá pra dentro. Deixe-me vê-la." Parecia que ele estava se debatendo por dentro. Sua cabeça começou a doer e novamente tudo começou a ficar turvo.

Ash. Era a pura destruição.

A dor de cabeça começou a ficar mais forte, ele parecia desnorteado no meio da calçada e todos que passavam o olhavam de maneira estranha.

– Eu a quero. — rosnou guturalmente, enquanto chutava uma lata de lixo. Já não era mais Alecsander Blake.

Ele havia tomado conta.

"Vá embora. Continue andando e volte pra clínica. Ou acabaremos dentro daquele lugar escuro. Coisas ruins acontecem lá. Você sabe. Nós sempre caímos lá quando você aparece. VÁ EMBORA" a voz suave de Alec ganhou um tom mais severo, autoritário. Mas era como um eco dentro do cérebro, sem resposta.

Ash. Ele não se importava. Suas aparições sempre levavam Alecsander a uma falência física e mental.