I'm Yours

25 Álcool não mente


Notas iniciais
Só tenho uma coisa para dizer: ME DESCULPEM PELA DEMORA :(

POV Elena

Fazia três dias que eu estava confinada a viver presa em um quarto.

Se alguém me perguntasse como eu imaginava minha vida no futuro, há sete meses atrás, eu provavelmente não responderia que seria uma prisioneira.

Até porque, de todas as coisas que eu imaginei para minha vida, ser prisioneira de um homem completamente egocêntrico não estava em meus planos.

Mas se eu levasse em conta todos os meus planos, me casar com ele também não era parte de nada.

Se me perguntassem, talvez eu dissesse que me imaginava casada, com o homem que eu amava, tendo a vida que eu sempre quis, sem me preocupar com dinheiro ou com coisas materiais, somente com o amor que eu sentia por esse homem, e então teríamos três filhos, dois meninos e uma menina e um cachorro, porque todo mundo precisa ter um cachorro.

Mas para minha infelicidade, tudo aconteceu ao contrário. Eu não tinha um marido que amava ou que me amava de volta, eu não tinha filhos — e nem teria — tampouco tinha um cachorro.

Eu estava deitada na cama, a barriga virada para cima, encarava o teto com forro branco já fazia horas. Contei e recontei quantas madeirinhas tinham ali, dava um total de 137 madeiras, a pintura daquelas paredes começava a fazer minha cabeça doer.

Eu estava sozinha nesses três dias e por mais que odiasse a solidão e quisesse a companhia de Madeleine, Damon a proibira de falar comigo e como tinha muito medo dele e sérios problemas com autoridade, ela havia obedecido quieta.

Minha única conversa diária era quando ela vinha trazer o que comer para mim.

E mesmo assim, era em vão.

Foi o que Damon autorizou, ele me mantinha presa, mas me alimentava para que eu não morresse de fome. Isso soava tão irônico, eu estava condenada a passar o resto da minha vida trancada, mas viva.

Como um rato em uma gaiola, você o deixa lá o dia todo, a noite toda, para o ver rodando naquela roda enorme e o alimenta para que ele não fique com fome e pare de rodar. Você mantém o bichinho preso por que tem nojo de vê-lo fora da gaiola, caminhando pela sua casa. Enquanto está preso, ele é incrivelmente fofo e engraçadinho, mas se ele escapar morre porque ninguém quer um rato sujo perambulando pelos cantos.

Toda vez que Madeleine vinha até meu quarto, eu tentava tirar algumas informações dela, como por exemplo, o que Damon havia dito para ela depois que me trancou ali, ou qual havia sido a reação dele, ou o que ele havia feito com ela e até mesmo sobre Jeremy, mas ela abaixava a cabeça e saia, sem dizer nada. Ou quando falava alguma coisa, ela só dizia que não podia tocar naquele assunto — e em nenhum outro.

Damon havia passado correntes nas janelas pessoalmente, ele entrou no quarto logo depois que saiu, trazendo correntes enormes e fortes, passou por todas as janelas, dizendo que aquilo era para me manter ali, sem perigo de pular as janelas ou tentar me jogar.

E isso significava que nem ver a luz do sol eu podia, só alguns feixes de luz que atravessavam as grades da janela eram o que mantinha a luz solar em meu quarto. Só alguns feixes mantinham a luz e a esperança naquele quarto profundamente escuro e descrente.

Eu era tão burra a ponta de achar que ele estava mudando, achar que minha vida iria mudar, que Damon e eu estávamos começando a nos entender... Por um momento, eu achei que podia ama-lo e que ele também podia me amar de volta.

Mas estava na cara que Damon não era digno de amar e eu também não.

Fiquei refletindo sobre minha vida medíocre por exatos 14 minutos e meio quando ouvi batidas na porta.

Não estava na hora do meu almoço, nem do café da tarde.

Levantei assustada, eu não tinha chave, nem como abrir a porta porque só Madeleine e Damon tinham a chave.

— Quem é que está ai? — perguntei desconfiada, sentindo um medo tomar conta de mim.

— É o Damon — falou uma voz totalmente confusa e grogue. — Abra es... por... pa... eu ar...

Não entendi o que ele dissera de imediato, foram precisos longos dois minutos para eu assimilar as palavras dele.

— Você está bêbado! — falei alto pela fresta da porta.

— Nau Elina eu to cosaudade sua, nabebi nada olhaqui meubafo de normal.

Ele falava tão enrolado que mal dava para entender uma palavra, ouvi quando ele bateu na porta, provavelmente não era de proposito que ele estava batendo.

— Damon! — gritei. — O que você está fazendo?

Ouvi batidas mais altas e consecutivas na porta e ela se mexia no batente.

— Voentra Elian calminhai eutochegando patesalvar.

Revirei os olhos irritada, o que ele estava pensando? Me mantinha presa e depois iria arrombar a porta para me tirar dali?

Era só beber um pouco que já ficava fora de si.

— Madeleine! — gritei alto o suficiente para até os vizinhos que nós não tínhamos ouvir. — Madeleine!

Minutos depois, ouvi a voz de Madeleine no corredor e as batidas cessaram.

— Sr. Damon! Levante-se dai, o senhor vai ser machucar.

— Mesota Madalena euvove a Elina vocenao e minha mãe.

— Senhor, o senhor está bêbado, não pode ficar batendo a cabeça desse jeito na porta, se continuar assim, nunca vai ver a Elena, não vivo, pelo menos! — o repreendeu Madeleine.

Por breves segundos um meio sorriso se formou em meus lábios, eu gostava de saber que ele me queria, por mais idiota que fosse, eu o queria também.

— Abra a porta Madeleine — falei do outro lado para ela. — Deixe ele entrar.

— Elena... Ele está podre de bêbado, pode não ser uma boa ideia...

— Deixe, eu quero vê-lo.

— Ovi velhaela quemive.

Ela não respondeu, mas ouvi o barulho da fechadura e então a porta se abriu revelando Damon sentado no chão e Madeleine em pé ao seu lado.

Ele tinha uma aparência horrível, fedia a cachaça e a cigarro barato, sua roupa estava completamente suja e um pouco rasgada. Ele sorria de uma forma ridícula e completamente embriagada, como de alguém que passa dias bebendo e fumando. Estava mais para mendigo alcoolizado do que para um poderoso homem dominador.

— Meu Deus! — exclamei ao vê-lo, Damon sorriu bobamente quando me viu, abriu os braços feito uma criança e se atirou em minhas pernas, agarrando-as em um abraço apertado. — Ele se meteu em alguma briga?

Senti uma pontada de dor invadir meu peito, meus olhos se encheram de água. Se tem duas pessoas que nunca mentem, são crianças e bêbados, meu pai sempre dizia isso quando colocava uma dose de whisky e sentava na frente da lareira.

— Não sei, ele chegou em casa assim e então bebeu um pouco mais e ficou completamente fora de si.

Madeleine disse após alguns minutos.

— Damon...

Chamei baixinho, passei a mão em seus cabelos negros macios e fiquei fazendo carinho na região.

Por mais que meu eu dissesse para sair correndo e me libertar, algo naquele Damon totalmente bêbado e indefeso me deixava sem reação, me fazia querer ficar ali e cuidar dele. Me fazia ter vontade de abraça-lo e xingar ele por beber tanto. Depois o abraçar novamente e o beijar, dizer que eu estava ali.

Mas eu não podia me dar ao luxo de pensar assim, eu sabia que assim que o efeito da bebida passasse, ele voltaria a me prender naquele quarto e me deixaria sem vida novamente.

— Fazia tempo que ele não bebia desse jeito Elena — comentou Madeleine triste, me tirando de meus pensamentos. — Fazia muito tempo. Ele costumava beber antes de conhecer você...

Levantei meus olhos para olhá-la, ficamos em silêncio por um tempo enquanto ouvíamos Damon murmurar alguma coisa que ambas não entendíamos. Algo parecido com “você mudou minha vida” ou talvez fosse “quero mais bebida”.

— Ele está acabado — falei perplexa, observando Damon agarrado as minhas pernas, o sorriso completamente bobo continuava estampado em seus lábios enquanto ele murmurava coisas que nós não entendíamos.

— E sabe por que ele está assim? — Madeleine me olhou sorrindo, não entendi, mas gostei de ver aquele sorriso acolhedor outra vez.

Balancei a cabeça negativamente para ela, mesmo tendo uma noção do que ela diria.

— Porque ele se arrepende do que fez com você.

Meus olhos estavam marejados, eu gostava de Damon, gostava do seu jeito canalha e até mesmo das suas péssimas atitudes e por mais que eu quisesse negar, vê-lo daquela forma, me deixou extremamente mal. Eu não sabia o que estava acontecendo, de uns tempos para cá, eu sentia como se tivesse realmente apaixonada por ele, depois que tivemos nossa primeira vez juntos, eu tive certeza que sentia muito mais do que uma atração por ele. Mas Damon fazia tudo errado. Ele conseguia transformar o amor que eu sentia por ele em ódio em apenas segundos.

Esse era o problema dele, ele não sabia administrar o amor, não sabia fazer com que as pessoas o amassem de volta, ele era um monstro sem sentimentos, ele era só... Só Damon, um homem incompreendido que não tinha capacidade de amar e ser amado de volta.

E era esse Damon que eu sentia necessidade de amar e fazê-lo me amar de volta.

— Ele me usou Madeleine — murmurei, eu não queria contar a ela o que exatamente havia acontecido entre nós, mas sabia que era preciso.

Eu precisava desabafar, colocar todos os meus sentimentos para fora, precisava de um ombro amigo e de palavras que me confortassem.

Eu precisava que alguém me dissesse que ele não tinha me usado, que ele havia sido sincero e completamente verdadeiro quando disse que estava gostando de mim. Que tudo o que ele havia feito, desde as flores a sua declaração, não foram apenas para ter sexo, mas eu mesma já não tinha certeza disso.

— Ele não usou você — analisou ela por fim, depois de ouvir tudo o que eu contei para ela sobre o que havia acontecido, deixando de fora os detalhes, detalhes esses que só pertenciam a mim e a ele. — Eu nunca vi Damon como ele está agora, eu sei que você não entende, eu também não iria entender se fosse você, mas Elena, ele mudou. E essas mudanças só acontecem quando se ama alguém, o amor muda as pessoas, Elena.

— Só se for para pior, você quer dizer né! — bradei, ela sorriu fraco.

— Não Elena, foi para muito melhor — ela olhou para Damon que continuava agarrado em minhas pernas, ele nos encarava com o mesmo sorriso bobo no rosto, sem entender absolutamente nada. — Faz anos que eu não o via sorrir, e com você aqui, céus, ele sorri a todo instante, para o teto, para as paredes, para as flores e até para mim.

Pensei a respeito do que ela estava dizendo, meu cérebro dizia para não acreditar nas palavras dela, mas meu coração...

Ah, porque diabos a gente sempre segue o coração?

Estendi minha mão para Damon, ele me olhou desconfiado, mas estendeu a mão para mim de volta. Segurei sua mão e a apertei carinhosamente.

Ele sorriu para mim, um sorriso tão verdadeiro e profundo.

— Levanta vai, vamos tomar um banho.

— Juntos? — indagou ele com a voz embaraçada. Mesmo bêbado ele ainda era pervertido.

— Não Damon! Não vamos tomar banho juntos, vem.

Madeleine me ajudou a carregar ele até a banheira do meu quarto, Damon parecia mais um bebê do que um homem cujas atitudes eram horríveis.

— Pode deixar que daqui para frente eu assumo — enunciei para Madeleine assim que Damon entrou na banheira. — Você pode preparar um café bem forte? Ele vai precisar.

Ela sorriu e assentiu, então saiu rapidamente fechando a porta atrás de si.

Deixei a torneira desligada enquanto tirava as roupas dele. Damon estava completamente sem reação, mas me ajudava a tirar as peças mesmo com dificuldade.

O deixei somente de cueca e então liguei a água quente.

Ele se assustou com o jato da torneira, mas segundos depois estava brincando nela.

Ele realmente parecia um bebê, um bebê de 35 anos. Meu bebê de 35 anos.

Deixei que ele brincasse com a água enquanto o molhava e passava a esponja pelo corpo dele.

— Vocetabusando demim Elina.

Disse Damon após alguns minutos enquanto eu o ensaboava, dei risada.

— Não Damon, eu estou apenas tirando esse cheiro de cachaça do seu corpo.

Ele sorriu um pouco e então sua atenção voltou-se para a torneira com água quente.

Terminamos o banho e ele levantou-se com muita dificuldade da banheira, com a minha ajuda, saiu de lá inteiro e sem cair nenhuma vez.

O sequei e ajudei-o a se vestir, Damon ainda estava muito bêbado.

O coloquei deitado em minha cama, não tínhamos tempo e nem condições para ir para o quarto dele.

— Aqui está o café Elena — alertou Madeleine entrando no quarto com uma bandeja em mãos. Serviu o café em uma xícara enorme e me entregou.

— Obrigada.

Sorri para ela e então fiz Damon tomar tudo. Ele fez cara feia e por várias vezes quis cuspir o café na cama.

— Para beber você não faz careta né? Pode tomar isso, agora!

Ele resmungava, mas obedecia. Após duas xícaras de café, ele dormiu.

Engraçado, pois dizem que café tira o sono.

Madeleine ficou ao meu lado o tempo todo, ela não disse nada, mas estava ali.

— Como está o Jeremy? — perguntei após alguns minutos, Damon já estava dormindo. — E o Aaron?

Ela estremeceu, deu uma checada em Damon para então falar:

— Aaron está bem, mas não vai poder ficar com Jeremy, não sei o que vou fazer.

— Eu tenho uma ideia.

Anunciei animada, sentando-me na cama ao lado de Damon que agora dormia e roncava.

— Não Elena, sua ultima ideia fez você ficar trancada nesse quarto!

Eu sorri.

— Me ouve primeiro e depois você acaba com meus planos.

Ela sorriu e então se sentou ao meu lado.

Ficamos por horas conversando e pensando em uma maneira de deixar Jeremy seguro e longe de problemas.