I'm Yours
24 Respeito
Notas iniciais
POV Damon
Terminei as últimas pastas de relatórios e fui para casa.
Estava com saudades de Elena, mesmo que isso parecesse ridículo, eu precisava dela.
Dirigi o mais rápido que pude e mesmo assim parecia que não chegaria nunca, a estrada ficara mais longa na volta, esse é um efeito causado pela porcaria da ansiedade, quanto mais você quer chegar logo, mais demorada fica a jornada.
Cheguei e não encontrei ninguém, nem mesmo Madeleine ou algum bilhete, a casa estava completamente vazia, silenciosa e eu já conseguia sentir a raiva invadir meu peito, minha alma e meu coração.
Andei pelos jardins, pelo bosque, por todas as extremidades da casa a procura de Elena ou talvez de Madeleine, mas na verdade, não havia encontrado nada.
Elena havia sumido.
Logo pensei no pior, ela poderia ter me abandonado, visto uma oportunidade e fugido. Mas ela não faria isso, não seria tão louca a ponto de fugir. Ou seria, meu coração batia forte no peito.
Eu a caçaria até no inferno se ela fosse embora.
Meu coração batia ainda mais acelerado. Ela podia fugir, se quisesse.
Irritado, peguei minha caixa de charutos que não abria fazia alguns meses e servi uma boa dose de whisky, bebida sempre alivia o estresse, bebida é a solução para todos os problemas.
Sentei-me na varanda espaçosa, sentindo meu peito subir e descer acelerado, a respiração um pouco ofegante demais, e fiquei esperando a hora que ela chegasse — se chegasse.
Eu esperava que ela tivesse ido dar uma volta, mesmo sem minha permissão, pois assim pelo menos, eu saberia que ela iria voltar, mas no fundo, algo dizia que se ela voltasse, eu não iria conseguir ser sensato...
Vinte minutos depois, Elena e Madeleine apareceram no meu campo de vista.
Elas estavam cansadas, a barra dos vestidos de ambas estava completamente suja, a respiração delas aceleradas como quem caminha durante horas e precisa de um bom copo d’água.
As duas paralisaram ao me ver. De imediato, pensei em voar no pescoço de Elena e arrancar a cabeça dela fora, mas seria um grande desperdício fazer algo parecido.
Me levantei, sentindo a raiva percorrer meu corpo novamente, a mesma sensação de quem se mete numa briga e quer matar o adversário.
— Onde é que você estava Elena?
Ela me olhou com medo, mas desviou os olhos rapidamente. De repente, seus pés ficaram extremamente interessantes e ela os encarava.
— Eu fiz uma pergunta — rosnei. — E quando eu pergunto, eu quero uma resposta.
— Fomos comprar legumes — disse Madeleine de repente, gaguejando.
— Interessante — analisei olhando para as duas. — Trouxeram o que? Legumes invisíveis?
Madeleine corou, mas não disse nada, tinha uma expressão apavorada, um sentimento de culpa, talvez.
Madeleine já tinha me visto extremamente bravo e não havia sido uma boa experiência para ela.
Meu coração estava acelerado novamente.
— Fomos visitar um amigo — Elena falou tão baixo que mal pude ouvi-la.
Lembrei-me de seu último amigo Isaac e de seu fim magicamente trágico.
— E quem é esse seu amigo? — senti uma raiva maior ainda percorrer por meu corpo.
Quem ela pensava que era para ir visitar amigos enquanto eu estava fora? Quem ela pensava que era para ter amigos?
Madeleine a olhou apavorada e fez um gesto de não com a cabeça.
— Você não conhece.
Elena me encarou e por um momento senti vontade de estrangula-la novamente. A mentira estava estampada na cara das duas.
Quem seria este misterioso amigo? Será que era realmente apenas um amigo?
— Então me apresente que eu quero conhecer.
Falei com desdém, tentando esconder a minha fúria. O cigarro em minhas mãos estava completamente amassado.
— Damon... — ela se aproximou de mim, subiu as escadas lentamente, sentia medo.
Não falei nada, meu ódio não permitia que eu falasse alguma coisa.
— Eu não permiti que você saísse Elena!
Ela abaixou a cabeça, lágrimas se formaram no canto dos seus olhos. Ela me olhou, seus olhos transmitiam um pedido de desculpas, como se ela quisesse muito se desculpar. Tentei não olhar naqueles belos olhos, ou eu acabaria cedendo, ou pior, acabaria desculpando-a.
— Eu saio e você simplesmente resolve ir visitar um amigo? O que você está pensando? Só porque nós transamos não quer dizer que você pode fazer o que bem entende, está ouvindo?
Comecei a gritar, perdendo o controle de vez.
— Não quero que isso se repita. Nunca mais!
Achei que meu tom autoritário fosse suficiente.
— Você não manda em mim! — gritou Elena em defesa. — Você não é meu dono!
Sem conter minha fúria, a palma de minha mão foi de encontro ao rosto dela, num estalo alto o rosto de Elena foi para o lado oposto ao tapa.
Ela não falou nada, mas as lágrimas começaram a escorrer e não pararam mais.
Ela ergueu uma das mãos e a colocou na face avermelhada, onde há poucos segundos eu havia batido.
Senti uma culpa ridícula atravessar meu corpo. O arrependimento me matando.
Minha vontade era de abraça-la e me desculpar, mas que tipo de homem eu seria se fizesse isso?
— Se você se atrever a sair por essa porta novamente sem eu deixar, saiba que na próxima vez vai ser pior.
— Você não tem o direito de me bater — disse ela entre soluços.
— E você não tem direito de sair dessa casa, nunca mais.
Ela assentiu soluçando, não falou e nem fez mais nada.
Passou por mim e entrou em casa, estava arrasada — eu também.
Me senti culpado minutos depois que Elena passou por mim, minha vontade era de subir no quarto dela, pedir desculpas e dizer que tinha me arrependido, mas por outro lado, eu também estava arrasado.
Ela não tinha direito de sair de casa, tampouco autorização.
Mas eu também não tinha o direito de bater nela, não daquele jeito.
E eu não iria pedir desculpas, não quando a errada era ela — ou talvez eu.
Precisei pensar muito em uma solução para Elena não sair de casa sem a minha presença. Eu poderia prende-la no quarto e só a deixar sair quando eu estivesse em casa, mas isso talvez a deixasse com ódio de mim. Mas as minhas atitudes sempre a deixavam com ódio, então não faria diferença alguma.
Por mais que eu não ligasse — ou fingisse não ligar — que ela me odiasse, eu não queria conviver com isso. Por mais que minhas atitudes a fizessem me odiar, eu não queria isso, não quando ela estava começando a confiar em mim, começando a se entregar...
Passei o resto do dia bebendo e fumando na varanda, não estava com vontade nenhuma de olhar para a cara de Elena e saber que ela estivera a tarde toda “visitando um amigo” enquanto eu estava trabalhando e recusando sexo por causa dela. Não queria olhar para seu rosto e ver o estrago que eu havia causado, não queria causar mais dor a ela.
Quanto mais eu pensava, mais ódio eu tinha. E se ela tivesse transado com outra pessoa? E se ela tivesse se agarrado com outro enquanto eu não via? E se ela amasse outro enquanto eu estivesse fora?
Meus pensamentos me fizeram levantar e ir até o quarto dela, tomar uma atitude sensata, sem tapas, sem agressões físicas.
Bati na porta umas três vezes até ela abrir.
Seus olhos estavam inchados e vermelhos, mas ela não estava mais chorando.
Quando me viu, ela recuou um pouco — parecia estar com medo. Um medo que eu entendia, mas não queria que ela sentisse.
Vestia um vestido velho não muito longo, um pouco abaixo dos joelhos, amarrotado, mas mesmo assim estava linda — como sempre.
— Precisamos conversar — anunciei passando por ela e entrando no quarto me sentindo autoritário, fazia dias que não me sentia assim.
Me sentei na cama dela, na cama onde um dia atrás estávamos tendo a melhor noite de minha vida, na cama que poderia ser nossa se eu não fosse tão idiota.
Elena fechou a porta e ficou em pé próxima a mim.
Não falou nada até eu falar.
— Você não vai mais sair de casa — falei o mais curto possível. — Vou levar as chaves quando precisar sair e você só poderá sair quando eu estiver em casa.
Elena abriu a boca para falar, mas fechou-a momentos seguintes.
— Não vou autorizar uma coisa dessas em minha casa! Mulher minha, é minha. Mulher minha não tem amigos, não sai e não faz as coisas por conta própria, a partir de hoje você vai aprender a me respeitar.
— Vai me manter prisioneira? — gaguejou ela.
— Exatamente.
Por um momento achei que ela iria chorar, mas então ela me olhou com raiva, seus olhos pareciam me eletrocutar.
— Ótimo, se é assim que você quer, é assim que você vai ter.
Eu sorri com sarcasmo. Quem ela pensava que era?
— É lógico que vai, cansei de ser bonzinho com você.
Ela riu debochada, lágrimas começaram a se formar no canto de seus olhos novamente.
— Quando é que você foi bonzinho comigo Damon? Você usou a minha fraqueza para se aproveitar de mim! Você fez uma cena para depois conseguir o que queria!
Sorri malicioso para ela.
— E eu consegui, não foi? — os olhos dela se encheram de lágrimas. — Ponto para mim. Eu sempre consigo o que quero Elena, acostume-se.
Elena abaixou a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, ela não disse mais nada, nem era preciso depois do que eu dissera, mas soluçava tão alto que por um momento eu quis não dito o que disse, não quis ter feito o que fiz. Minha vontade foi de abraça-la e pedir desculpas.
Mas que tipo de respeito eu iria ter se não demonstrasse que era forte?
Nunca havia sentido arrependimento por maltratar uma mulher, mas Elena me fazia sentir culpado, fazia o pior sentimento que eu tinha vir à tona e me arrepender por ele.
Eu queria continuar ali e cuidar dela até vê-la bem, queria ver aquele sorriso de princesa nos lábios dela, queria confortá-la. Mas como eu poderia confortá-la se o motivo pelo seu choro era eu mesmo?
Continuei ali, olhando para ela, talvez ela percebesse o meu arrependimento sem eu precisar dizer nada. Talvez, só talvez ela viesse até mim e me pedisse um abraço e talvez dissesse que me entendia, que eu não era tão ruim quanto eu pensava.
Talvez ela se entregasse novamente, dissesse que me amava, que na verdade eu era tudo o que ela precisava.
Mas aquilo não aconteceu.
Seus olhos estavam fechados, mas as lágrimas ainda caiam, por mais que ela tentasse esconder, as lágrimas não colaboravam e escorriam incansavelmente pelo seu rosto, molhando completamente seu vestido.
Elena tentava limpar a água que caia com as costas da mão, tentando o máximo não demonstrar que estava chorando.
Eu não iria fazer nada, mas só o fato de estar ali, junto dela, já me fazia bem.
— Eu te odeio — foram as palavras que saíram da boca dela, junto com um soluço alto e agudo.
A encarei por ser tão corajosa e por mais que eu não quisesse admitir, entendia o ódio dela — só queria que ela também entendesse o meu.
Elena não ficava por baixo, por mais que sentisse medo, ela sempre rebatia. Eu amava isso nela — não eu não amava nada nela. Não podia amar.
Senti uma pontada de dor ao repassar as palavras dela em minha mente, algo naquele ódio me fazia sentir um lixo.
— Então guarde o seu ódio para você, porque eu realmente não me importo.
Levantei-me da cama e passei por ela abrindo a porta, peguei a chave da fechadura e sai.
Por mais que eu fingisse não me importar, eu me importava — e me importava pra caralho.
Desci as escadas e fui procurar por Madeleine, se ela estava pensando que iria se safar dessa, estava muito enganada. Afinal, ela também estava junto com Elena, e talvez até fosse ela quem incentivara minha esposa a sair com seu amigo — e possivelmente me trair — e merecia ser castigada.
Não achei Madeleine em lugar algum e estava começando a achar que ela havia saído outra vez, quando a vi sentada no jardim, cuidando das flores que eu havia arrancado na noite anterior para me desculpar com Elena.
Dessa vez para me desculpar, o jardim inteiro ainda não seria suficiente.
— Aí está você — falei aproximando-me da velha, me agachei a uns três passos dela e apalpei a terra seca.
Madeleine me olhou assustada, os olhos arregalados.
— Me desculpe senhor Damon — começou ela antes que eu pudesse falar alguma coisa. — A culpa foi minha, eu que a levei, Elena não tem culpa de nada, eu juro. Se alguém tem que ser punido, esse alguém sou eu.
Sorri sarcástico, elas estavam trabalhando em equipe. Estavam me traindo em equipe.
Isso não era uma coisa boa, se eu não podia nem confiar na minha governanta que estava naquela casa desde que eu me entendia por gente, realmente não poderia mais confiar em ninguém.
— Não adianta tentar defender ela, Madeleine — falei, deixando clara a situação. — Elena vai ter o que merece. E quanto a você...
Ela me olhou assustada novamente, o pavor tomou conta de seu rosto enrugado.
— Não quero que isso se repita, está ouvindo? Se eu souber que Elena saiu de casa, você estará no olho da rua — ela assentiu com a cabeça. — Se ela sair, Madeleine, eu acabo com a vida dela, você ouviu? Quero que fique bem claro, Elena não vai mais sair dessa casa!
Completamente apavorada, Madeleine assentiu novamente. Eu sabia que aquilo seria o suficiente para Madeleine mantê-la em casa.
— E se você comentar qualquer coisa com ela, você também estará na minha lista.
Seus olhos se arregalaram novamente.
— Eu não falarei nada senhor, eu nunca falei.
— Não faz menos do que a sua obrigação. Agora termine logo isso, estou com fome.
Ela assentiu e voltou a trabalhar na terra e eu levantei e fui para dentro.
Problemas resolvidos.
Manteria Elena na linha e Madeleine também.
Agora eu esperaria para ver qual delas iria sair primeiro.
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