I'm Yours
15 Lembranças
POV Elena
Damon me dava nojo, enjoo, náusea, enfim, qualquer um desses substantivos ou outros sinônimos que poderiam justificar meus “sentimentos” por ele. No momento eu me sentia completamente idiota, não imaginava que eu pudesse sentir tanta raiva de mim, mas Damon me fazia sentir um ódio inexplicável, eu queria arrancar-lhe a cabeça e dá-la para os cachorros. E olha que não tínhamos cachorros.
Desde o momento em que me casei eu soube que jamais passaria a ama-lo, mas achei que poderíamos pelo menos tentar nos dar bem, mas nem isso ele parecia querer. Pelo menos não fazia nada para que isso acontecesse.
Quando conheci Damon, há alguns sete anos, ele era ainda mais desprezível e arrogante do que é hoje em dia, se é que é possível uma coisa dessas.
O dia estava quente, eu e mamãe havíamos saído para comprar os vestidos para o baile que teria a noite e teríamos um convidado especial que de acordo com os meus pais era o melhor pretendente que eu poderia ter dali a alguns anos. Ele é mais velho do que eu, na época eu tinha quatorze e ele vinte, embora eu sempre tenha tido muito mais corpo e estatura para uma garota de quatorze para quinze anos, Damon era bem mais velho do que eu, pelo menos antes a diferença era grande.
Então estávamos fazendo compras, lembro que Anastácia, uma das vendedoras da loja, uma senhora idosa com a aparência bem cansada dizia-me que eu tinha os cabelos mais lindos que ela já vira e que se fosse nova, queria ter os mesmo cabelos do que eu. Não sei por que eu me lembro disso, mas aquela senhora — que hoje já não está entre nós — causou um forte impacto sobre mim, o que é engraçado, pois se eu a vira três vezes na minha vida fora muito.
Eu estava experimentando o quinto vestido da tarde, era um verde comprido com babados maiores do que a própria saia, não tinha ficado muito bom em mim, era totalmente fechado, braço, mangas, tudo cobria meu corpo e o tecido ia do inicio da panturrilha até o pescoço, eu preferia um que tinha visto na vitrine com um decote de arrasar quarteirões, mas lembro-me muito bem de minha mãe dizendo:
— É vulgar demais para uma moça da sua idade, comporte-se.
“E ter um pretendente com quatorze anos, não.”
Conheci Damon naquele dia, mas não fomos apresentados pela primeira vez no baile, mas sim no meio da calçada de uma rua de areia suja um pouco deserta enquanto ele tentava flertar comigo do jeito mais canalha que eu já vira.
Eu tinha ido tomar um ar, pois a sessão de experimentar um vestido que ficasse bom estava acabando comigo.
Andei um pouco até pegar uma distância suficiente da loja da Dona Hubermann e mamãe não ficar me espionando porta a fora. Eu odiava ser vigiada.
Caminhei mais um pouco, o sol estava mesmo quente e eu debaixo daquele vestido maldito que cobria meu corpo inteiro. Maldito século XIX. Lembrei de Damon na noite anterior falando sobre eu usar roupas mais curtas, um meio sorriso formou-se em meus lábios.
Foi no momento em que eu, sem modo algum levantei um pouco a saia do meu vestido para ver se entrava um pouco de ar que vi Damon parado em minha frente, analisando cada movimento meu.
De fato, ele era lindo, isso não dava para negar. Quando o olhei a primeira vez, tive certeza que estava olhando o paraíso, o céu, a oitava maravilha, mas assim que ele começou a falar, tive certeza que de paraíso ele só tinha o rosto, o corpo e o resto. (Tirando as atitudes, personalidade, caráter, etc.).
— Uau — exclamou Damon irônico analisando minhas pernas cobertas apenas pelas meias cor-de-pele. — Uma moça dessas levantando o vestido no meio da rua?
Ainda vislumbrada diante dele, demorei a entender o que ele dizia. Sorri meio sem jeito e abaixei a saia depressa. Por mais que eu tenha a erguido em uma altura ainda considerada respeitável, não era muito comum as mulheres fazerem isso, ainda mais assim, com outras pessoas por perto. Quando percebi o tom dele, achei melhor dar a resposta que ele merecia, mesmo sendo lindo.
— Na verdade, estamos no meio da calçada e, bom, o vestido é meu e eu o ergo a hora que quiser, mas se me dá licença, estou de saída.
Nunca pensei que eu pudesse ser tão madura naquela idade, mas levando em conta que eu sempre dava respostas autoritárias e sempre tinha uma opinião formada, facilitava.
Sai antes de ele falar alguma coisa, sua expressão de desagrado deixou seu rosto carrancudo. Mas ele não desistiu, é claro que ele não desistiu.
— Meu nome é Damon — disse ele apressando o passo para me alcançar e ficando ao meu lado. — Damon Salvatore, é uma honra conhece-la, senhorita...?
O olhei séria pensando em deixa-lo falando sozinho, mas ele era bonito demais para ser deixado falando sozinho. Eu simplesmente não resisti àqueles olhos azuis me olhando como se eu fosse a coisa mais linda ali. Ele era irresistível. Observei uma ruga de expressão na testa dele.
— Harmon. Elena Harmon.
Ele deu um sorriso, um sorriso deixando claro as suas intenções nada amistosas. Aquele sorriso cafajeste que eu odiei por anos — e ainda odiava.
— Sabe Srta. Harmon, eu adoraria conhece-la melhor, se me permitir, claro.
— Não, obrigada, tenho compromissos melhores.
— Melhor do que a minha companhia? — perguntou com desdém como se isso fosse algo realmente surpreendente. — Duvido muito.
Eu o encarei por longos instantes fingindo desinteresse. Damon Salvatore era realmente um homem e tanto e até eu duvidava que houvesse algo melhor do que estar na companhia dele.
— Você é sempre convencido assim ou está fazendo isso só para me seduzir?
— Hmmmm, uma moça confiante — comentou.
Dei de ombros revirando os olhos e voltei a andar. Cada vez eu me distanciava mais da loja em que mamãe estava, mas tudo o que eu não queria agora era que ela me visse com um homem. Até porque, meninas na minha idade não poderiam ficar batendo papo com homens na rua, nem mais velhos, nem mais novos. Caso contrário, nunca acharíamos um bom marido. Nem mesmo se o homem em que estivesse conversando fosse um cara irresistível, gostoso, charmoso e muito, muito atraente.
— Gostei de você — insistiu Damon caminhando apressado para me alcançar novamente, a boca dele se abria e fechava lentamente enquanto falava, um movimento que eu considerei extremamente atraente. — Vamos nos conhecer melhor...
— Olha aqui — falei virando-me para encara-lo, ele estava a centímetros atrás de mim e quase colidi com ele. — O senhor é um cara bem bonito, mas eu não quero conhece-lo melhor. Porque homens como o senhor não prestam.
Ele riu da minha cara aproximando-se mais de mim. Ficou tão próximo que minha respiração falhou.
— Eu não presto? Você nem me conhece garota e pode parar com essa coisa de senhor, acha que eu tenho o que? Cinquenta anos?
— Exatamente, eu não o conheço. Mas para um homem que fica andando atrás de meninas no meio da rua e perguntando se elas querem o conhecer melhor, você já faz o tipo canalha.
Novamente a risada dele ecoou pela rua. Eu precisava sair dali, se alguém visse isso e contasse para meus pais... Provavelmente chegaria aos ouvidos do meu pretendente que viria para o baile e meu futuro casamento iria aos ares.
— Eu poderia me casar com você se quisesse.
Seu comentário me fez rir. Ele não poderia se casar comigo, afinal meus pais eram realmente rígidos, jamais deixariam eu me casar com qualquer um e eu nem o conhecia.
Pelo menos foi aquilo que pensei naquela época. Ou pelo menos era aquilo que eu queria que meus pais pensassem, que Damon não era bom o suficiente para se casar com a filha deles.
— Eu não me casaria com você nem se fosse o último homem no planeta, Sr. Salvatore.
— Você ainda vai engolir suas palavras, Srta. Harmon.
— Com certeza — falei rindo irônica. — Vou engoli-las enquanto tomar um café quente com meu futuro marido no sofá da nossa sala o ouvindo falar sobre como fora o trabalho.
— Gostei de você — disse ele sem humor. — E eu não desisto fácil, Elena. Você vai ver, guarde o que eu digo... Pode não ser logo, mas você vai ser minha. E eu vou fazer isso apenas para você ver que é que manda. Vou fazer você engolir essas palavras e pode ter certeza que você não estará tomando um café e sim gemendo debaixo de mim.
Aquelas palavras marcaram o meu dia.
Lembro perfeitamente quando o vi entrando em minha casa horas mais tarde para o baile, vestindo um terno preto, o cabelo bem arrumado e aquele sorriso irônico no canto dos lábios. Ele passou a noite inteira me ignorando, conversou com todas as minhas amigas e flertou com absolutamente todas elas.
Lembro perfeitamente de todas mais tarde falando o quanto ele era encantador. Mas eu ainda não tinha esquecido o que ele havia me dito. Tão cruel e obsceno. Ele me lembrava os homens que mamãe dizia para eu ficar longe.
Meu pai foi logo nos apresentando e eu descobri que ele era o convidado de honra, o cara que seria um ótimo pretendente para mim.
Os anos se passaram e minha família adorava o Damon, com o tempo meu pai achou que a melhor escolha para mim, seria me casar com ele. Mas consegui convence-lo de que me deixasse escolher alguém que gostasse, pelo menos.
Mas quando nossa família foi à falência, papai me vendeu sem nem hesitar. Claro que o Damon teve uma forte ajuda nisso tudo. Foi ele quem se ofereceu para se casar comigo. Na verdade, todos os homens da cidade queriam se casar comigo, mas foi justo para Damon que meu pai me vendeu.
Lembro perfeitamente de Damon naquele dia, o sorriso vencedor estampado nos lábios.
— Lembra que eu disse que me casaria com você? — perguntara ele quando meu pai estava ocupado demais para nos ouvir. — É parece que alguém aqui estava equivocada há alguns anos. Mas se eu bem me lembro, ainda falta a parte que você engole suas palavras debaixo do meu corpo quente enquanto geme meu nome alto o suficiente para acordar uma casa inteira.
— Você me dá nojo.
Foi tudo o que consegui dizer diante das palavras dele.
Talvez fosse esse o motivo pelo qual eu não visitava meus pais desde o casamento.
Eu fui vendida, trocada e usada. Eles simplesmente me deram para quitar dividas e restaurar o nome da família, como se eu fosse uma mera mercadoria que estava guardada para quando precisasse.
Era assim que eu via a atitude de meus pais, para eles, eu era um objeto e não uma jovem com sonhos que fora destruído em uma única noite e que jamais voltaria a sonhar novamente.
Damon destruiu a minha vida — e continuava destruindo.
Fale com o autor