Im Just A Fallen Angel...

8 A friend from another world


Ali estávamos nós, congelados um no outro como se nossos sentidos não nos respondessem mais. Era aquilo que eu queria, era aquilo que eu estava esperando...aquela emoção, eu estava sentido-a!

Ela despertou num susto e olhou rapidamente para as suas mãos, aproximando-as ao seu rosto pálido e logo olhou para mim dando um passo em falso.

– ....você não se desfez....- murmurou para si mesma, o que me fez balançar o rosto ligeiramente ao me lembrar que ela tinha visto mais do que deveria.

Antes de qualquer coisa, Elliot se aproximou da moça e colocou os braços em volta dela.

– Coroline, se acalme por favor. A culpa foi minha, não descarregue no Alex.- ele falava baixo com ela, mas eu conseguia ouvir o suficiente para perceber que eles dois tinham uma relação bastante próxima.

No entanto, ela não respondia, o olhar e atenção dela estavam fixados em mim com um tom estranho... não era de horror, e sim de espanto. Me lembrei então do velho, inclinei o corpo ligeiramente para o lado para poder encará-lo, e ele não fazia nada mais e nada menos do que nos observar e tirar notas. Elliot olhava fixamente para ela enquanto a tentava acalmar... Enquanto eu tentava direcionar minha atenção para alguma coisa que fosse, a dor que antes tinha passado voltou em uma pontada forte para me recordar de algo que eu não sabia. Coloquei a mão no rosto sobre o local dorido e me levantei.

– Alex?- Elliot então virou rapidamente o rosto para mim surpreso.

– ... — me dirigi para a porta de forma tão calma que mesmo estando de costas para eles, percebi a confusão que criei naquelas almas pequenas.

– Alex! Para onde vai?.... Ei! — Elliot não sabia se deixava a garota ou se vinha atrás do fulano deslocado deste mundo.

Mas isso não me interessava para nada.

Deixei a sala com toda a vontade que eu podia ter e desci as escadas adiante, me levando para um corredor amplo e vazio iluminado pelas várias janelas que espalhavam os últimos raios de sol criando um contraste impecável. Eu não sabia para onde eu queria ir, por isso virei na primeira porta que achei ser um banheiro, desta vez masculino.

Me aproximei do espelho para poder ver a parte atingida do meu rosto.... estava vermelha, o que não era de estranhar sendo que minha pele era extremamente pálida. Resolvi passar a mão por ela para poder senti-la melhor, não doía quase nada e isso até seria um bom sinal... se a parte do meu rosto na qual passei a mão não tivesse ficado em pó nela.

– Malditos....- a primeira coisa que me lembrei foi praguejar contra aquele Conselho imbecil.

– Não se irrite...- ouvi uma voz feminina atrás de mim, eu não precisava nem virar para saber de quem se tratava. Os pequenos sinos de prata pendurados no seu véu preto e longo a denunciavam de imediato.

Soltei um suspiro pesado enquanto jogava fora as cinzas do meu rosto.

– O que você quer Dorothea?- apoiei as minhas mãos sobre a bancada, meu tom de voz a fez estremecer de tal maneira que seus sinos reproduziram o som único deles.

– Eu consegui ganhar algum tempo para poder ver como você estava, assim que descobri que havia parado nesta dimensão.- ela se aproximou mais de mim, sendo a ponta dos seus sapatos a única coisa que nos impedia de ficarmos colados.

Através do espelho pude ver suas mãos escondidas naquelas mangas negras de renda passando por baixo dos meus braços e deslizando pelo meu tronco antes de se encontrarem uma com a outra num enlace.

Aquilo era intragável para mim.

Dorothea não era um anjo, e muito menos humana. Sua aparência nunca fora vista desde o inicio de tudo, escondida por baixo de camadas de roupa preta das mais trabalhadas que algum humano alguma vez poderia produzir. Era das poucas criaturas dentro do Conselho sobre as quais o mesmo não tinha total poder... e também das poucas que não me tratava com desprezo.

Ela forjava os corpos dos anjos, arcanjos, querubins... todas as criaturas existentes naquela dimensão tiveram os seus corpos forjados por ela, inclusive eu. Mas ela era um poço de segredos imundos que ninguém tinha coragem de escavar.

– Eles estão se divertindo com sua situação aqui na Terra.- passou uma das mãos pelo meu pescoço e em seguida pelo meu rosto desfeito.

– ...Enquanto podem.- virei meu rosto.

– Tome muito cuidado, não desperdice o corpo que eu te dei.- ela pegou minha face e voltou a virar para onde estava, colocando algo sobre as cinzas.

Era algo semelhante a uma pérola, que ao tocar em minha pele se desfez em inúmeros fios finos que literalmente ''costuraram'' os buracos no meu rosto o regenerando.

– Eu não poderei vir muitas vezes... então fique com alguns.- ela colocou três pérolas iguais no meu bolso da calça, mas sua mão estava tentando ir ao encontro de algo mais naquela zona.

Dorothea era safada, não por mim, mas por todos os corpos que ela forjava. Era algo como que um fetiche repugnante.

– Vou só....- a voz do loiro falando com alguém soou ao abrir a porta do banheiro e ao me achar ali arregalou os seus olhos e tirou o ar dos pulmões em um tom de alivio.- Ele tá aqui!

Dorothea havia sumido.

Ajeitei as minhas roupas e olhei para o loiro cara-a-cara. Pela reação, ele estava me procurando o tempo todo, desde que deixei o gabinete do velho.

– A-Alex... Eu... — ele fechou a porta do banheiro enquanto gaguejava.- Me desculpe pelo que aconteceu há pouco, Coroline apenas se sente ofendida quando alguém se mete com quem ela se preocupa que às vezes ela explode sem ninguém ter tempo para explicar o que aconteceu.

Coroline, então era esse o nome dela.

– Quando eu me importar com algo que vocês humanos fazem, eu direi.- me dirigi até ele querendo sair.

– ... — Elliot cada vez mais ofendido com a minha pessoa.

Ele se afastou para que eu passasse pela porta e em seguida fez o mesmo, nos deparando com o mesmo corredor que antes, porém mais movimentado. Não resisti em olhar para o lado e ali estava Coroline encostada na parede, por sinal aguardando Elliot.

Ela tinha um olhar difícil de explicar, explicava tanta coisa mas ao mesmo tempo me deixava com muitas dúvidas sobre o que poderia estar pensando. Olhava inocentemente para as pessoas que passavam pelo corredor, cada uma com seu rumo, de uma forma tão emotiva que me deixava intrigado.

– Co-chaaan! — o loiro chamou-a e acenou para ela.

Seus olhos se atrapalharam quando sua atenção foi subitamente desviada e se arregalaram ao pousá-los sobre mim... e apesar das minhas expressões serem pouco notáveis, eu senti que algo ficou atordoado dentro de mim enquanto ela descolou as costas da parede e começou andando na nossa direção.