Ilusões

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Boa leitura.

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Sakura

As luzes se apagaram e as cenas começaram a rodar na gigantesca tela à nossa frente. Poucos diálogos depois, caí no sono. É, não deu para evitar. Juro que tentei, mas o cansaço e o tédio foram maiores do que minha boa vontade em ver aquele filme chato. Sonhei com passarinhos a cantar em um belo campo verde e florido. O vento fresco soprava meus cabelos que era uma maravilha! Eu estava no paraíso. Mas isso durou pouco tempo. Ou pelo menos, foi o que me pareceu. Sonhos bons, afinal de contas, nunca duram o tempo necessário para desfrutarmos deles, devidamente, não é mesmo? Tudo o que é bom, dura pouco. O que é maravilhoso, então, menos ainda! Pois é. Acordei com minha amiga me sacudindo pelo ombro.

— Impressionante, hum? O que achou do filme? Qual foi a parte que mais gostou? Você viu ele sem camisa? Viu, viu? Muito lindo! O que achou da tatuagem nas costas dele? Incrível, né? — ela me pergunta, super entusiasmada.

Olhei em volta para ver que todos, dentro daquela sala de cinema, já se retiravam de seus acentos. O filme acabara.

— Ahh... É. Incrível! — respondo, tentando disfarçar que não fazia a mínima idéia do que ela falava.

— Ele não tinha tatuagem nas costas, Sakura! — e ela me dá um peteleco na testa. Odeio quando ela faz isso.

— Bom, eu sinto muito se passei a madrugada inteira estudando, e ainda trabalhei durante o dia todo. Me desculpe por estar cansada demais para ver o amor da sua vida que, a propósito, VOCÊ JAMAIS CONHECERÁ, INO!!! — levantei-me do meu acento, prontinha para ir embora.

— Você é uma péssima amiga, Sakura Haruno! — e com isso, ela me empurra para o lado, saindo às pressas, na frente.

Revirei os olhos, mas me sentindo péssima. Há dois meses que ela esperava para a estréia desse filme, estrelado pelo seu ator favorito, e eu acabara de arruinar seu encanto. Mas o negócio é o seguinte: ela tinha uma fixação pela criatura, que chegava a ser ridículo! O quarto dela não tinha mais janelas, porque ela cobrira tudo com pôsteres do cara. Não mencionarei nem as paredes, o teto (sim!) e seu guarda-roupas! E estava por um triz a perder a porta, da mesma forma. Eu não entendia como ela podia gastar toda sua grana naquelas bobagens, se o cara sequer imagina que ela existe. E se imagina, não dá a mínima. Afinal, o que ela, sozinha, lhe representa, dentre os milhares de fãs lhe enchendo toda a bola?

E ela ainda perdia tempo escrevendo romances, poemas e músicas, idealizando ele. E mandava cartas e mais cartas para o endereço se sua agência. Cartas que tinham duzentos metros de extensão, dizendo somente “eu te amo”. COMO QUE ELA AMA UM CARA QUE NÃO CONHECE PESSOALMENTE? Sem falar que ele nem deve saber que as cartas dela existem. Muito menos deve saber da existência dela. Eu já tentei lhe dizer que o cara deve sequer ler metade da metade da metade da metade da metade das cartas que recebe! Afinal, ele vivia viajando para lá e para cá, entre filmes, premiers e entrevistas. Não dava nem para culpar o coitado por isso.

Mas esse era o sonho dela; conhecê-lo e viverem felizes para sempre. Eu me sentia péssima por incentivá-la a ver os filmes, e mais horrorosa ainda quando tentava enfiar um pouco de realidade naquela cabecinha oca. Acho que não há mal em fantasiar algo, desde que não perca os pés do chão, como ela fazia. E o pior de tudo é que ela não era mais uma adolescentezinha para ficar babando desse jeito por um cara que, claramente, era areia demais para o caminhãozinho dela! A mulher já tinha vinte e dois anos! VINTE E DOIS ANOS! Ah, me poupe!

Mas o que eu poderia fazer para que ela abrisse os olhos, sem magoá-la?

Saí correndo atrás dela. No portão de saída do cinema, duas moças entregavam, aos que saiam da sala, tíquetes sorteados com prêmios do filme. Todos os tíquetes tinham algum prêmio. Camiseta, pôster, agenda, bonés, e mais brindes do tipo, para a divulgação do filme. Ino pegava o seu, alegremente, quando a avistei.

— Um desses tíquetes tem um prêmio especial! Uma viagem para Londres, para passar uma semana com ele! — ela me diz, segurando aquele pedaço de papel como se fosse ouro.

— Argh! Ino, assim você me mata! — resmunguei. Ela me olhou de canto, se desfazendo de sua cara de felicidade.

— Eu sei o que você está pensando. Porque eu, dentre milhares de outros tíquetes, ganharia esse prêmio, não é mesmo? — e assim, ela atira seu tíquete em minha cara — Tome. Não preciso disso.

— Ino... — argh! Eu odeio fazer papel de bruxa.

— Não, você tem razão! Eu sou uma idiota mesmo, Sakura.

— Não, você não é. Só é meio avoada, mas nisso ainda podemos dar um jeito. Com um garoto que faça parte do nosso mundo, e não um cara que mora não sei onde, e vive cercado de fotógrafos e jornalistas.

Ela deu de ombros. Caminhamos mais algumas quadras até chegarmos ao ponto de ônibus. Ela ainda resmungava algo sobre ele ser sua alma gêmea, e ter nascido para fazê-la feliz. Ela devaneava sobre o jeito que ele caminhava, o jeito que se vestia, o jeito que piscava olhos, mexia nos cabelos, coçava a barba... Só faltava falar sobre o jeito que ele cagava, isso sim! Argh! Mas ele era o homem dos seus sonhos, ela dizia. Sim, pensei, dela e de mais um milhão de outras garotas. Mas deixei quieto. Pobre do rapaz, que teria nascido para todas elas.

— Abra o tíquete. — ela me diz, assim que sentamos nos bancos, ao fundo do ônibus.

Abri o papel.

— Parabéns! Você acabou de ganhar uma camiseta com a cara de bunda dele estampada. — sorri. Ela revirou os olhos. Entreguei seu prêmio, e peguei o meu tíquete para abri-lo, enquanto via nosso amigo, Sai, subir no ônibus, duas paradas depois.

— Ora, ora. Dúvida cruel! Onde vocês estavam? Vendo o filme! — ele pergunta e responde, ao mesmo tempo. Hehe.

Havia um tempo que eu tentava fazer com que a Ino olhasse mais para o Sai. Ele era bonito, alto e tinha descendência asiática. Era inteligente, engraçado e recém formado em medicina. Era perfeito! Lindo, alto, cheiroso, quadriculado e médico! Porque diabos EU, não estou com ele? Err.

Ele sentou no banco a nossa frente, enquanto eu terminava de abrir meu tíquete, indignada pela falta de interesse dela pelo japa. Não, espere aí, ele é coreano! Descendente de coreanos.

Ele ia perguntando a ela sobre o filme, sem muita força de vontade, na verdade, quando deixei meu queixo cair no chão, sem acreditar no que estava escrito naquele papel.

— Você viu um fantasma, Sakura? — ele me pergunta, não sei quanto tempo depois. Mas eu simplesmente não consegui fazer com que as palavras saíssem da garganta. Aquele bilhete dizia mesmo o que eu estava vendo? Ino iria enlouquecer de vez.

Hum. Ou... Eu poderia entrar com meu plano maligno em ação! Muahahaha.

Ela tomou o bilhete de mim, com as mãos trêmulas e olhos esbugalhados. Em questão de segundos, ela conseguira ficar ainda mais pálida do que eu.

— Eu... Eu... Eu não... Não acredito! O bilhete. A viagem. O amor da minha vida! Meu Deus do céu! Eu ganhei???

— Correção! — lhe disse, tomando-lhe de volta o papel — EU ganhei! — é impressionante o que a ganância e a inveja faz com as pessoas.

Ela, rapidinho, me lançou um olhar de fúria e pulou em meu pescoço. Se Sai não estivesse ali para detê-la, acho que ela teria me esgoelado mesmo, hein?!

— VOCÊ SEQUER GOSTA DELE! VOCÊ NÃO SABE NADA DELE! VOCÊ NUNCA SEQUER VIU UM FILME POR INTEIRO DELE, SAKURA! ME DÊ ESSE PAPEL AGORA!!! — ela ficou completamente histérica e fora de si. Até mesmo Sai estava chocado com sua transformação.

— Ino; respira! Você está sendo irracional aqui!

— Pro inferno com a racionalidade, Sakura! Você sabe o quanto eu sonho com isso. E não me importa o que você diga! Eu quero esse bilhete, e quero agora! Eu sei absolutamente tudo sobre ele! Sua data de nascimento, nome completo, perfumes que usa, cor favorita; sei o nome da faculdade em que estudou, o nome de solteiro dos pais, nome do cachorro de estimação, os livros que leu; sei até a marca da cueca que usa! Pergunte qualquer coisa sobre ele, e eu te direi!

— Não quero saber! Eu não vou dá-lo e ponto final! Esse foi o bilhete que EU ganhei da mulher! Contente-se com sua camiseta idiota. Ou você escolhe; o bilhete idiota, ou eu.

— Não me desafie, Sakura Haruno! — ela empinou seu nariz! Juro que por pouco não lhe dei um soco naquela fuça.

— O cara é o rei da Inglaterra, ou o quê? — Sai pergunta — Se for, eu também gostaria de um bilhete desses. — eu olhei para ele, furiosa, para ver se ele se tocava de que não estava ajudando em nada. Mas ele apenas deu de ombros — Qual é? Seria um momento histórico, ora bolas. Foram poucos os plebeus que chegaram perto da realeza! Eu faria parte da história, já pensou? Eu, Sai, ao lado do rei da Inglaterra! — não, e nem quero pensar!

— Ino, me escuta! Eu vou provar para você que esse cara não é o que ele aparenta ser!

— Argh! — ela revirou os olhos — De novo essa conversa?

— Estou falando sério, Ino! Todas essas pessoas famosas não são tudo isso o que aparentam diante das câmeras. E os que se exibem mais, são os piores. É obvio! Se eles mostrassem que são uns drogados, problemáticos, não conseguiriam trabalho. Eu vou bater foto de tudo o que eu encontrar que for suspeito, e tudo mais. Vou gravar os cacoetes feios, as manias horrorosas, tudo o que ele não mostra na tv.

— E se ele disfarçar tudo isso na sua presença? — Sai pergunta — Afinal, provavelmente, você vai ser questionada por algum repórter sobre sua semana com o cara. — grrr! Talvez, eu devesse pular no pescoço dele, isso sim.

— Bom, aí, meu caro... Eu... Eu dou um jeito. — err — Mas uma coisa eu lhes garanto! Se for preciso, para fazer sua máscara cair no chão, eu contarei todos os segredinhos sórdidos dele sim. Ah, se conto! — eu não fazia a mínima idéia, na verdade, do que ia acontecer, mas eu tinha que dar um jeito de fazer a Ino cair com os pés de volta ao planeta. Viver na lua, por tanto tempo, não lhe fez bem.

— Você vai arruinar a carreira dele, Sakura! — ela me diz, beliscando meu braço.

— Quem mandou ele se fazer de anjo quando, na verdade, era o diabo na pele de homem?

— GRRRRRRR!!! MAS QUE SACO, SAKURA! ME DÊ ESSE BILHETE! — ela ainda tentou roubá-lo de mim, mas o pus dentro da calcinha. É. Aí, ela se aquietou.

— Além disso, essa oportunidade é perfeita para mim, Ino! Naruto ainda está lá. Posso lhe fazer uma visita surpresa! Ele vai adorar!

— Sabe, você fala mal do meu amor platônico, mas não consegue enxergar que o seu namoro também não chega ser muito diferente do meu, não é mesmo? — ela me diz, maliciosamente.

Revirei os olhos. E ela sabia bem o por que. Meu relacionamento com Naruto era completamente diferente sim. Começando pelo fato dele pertencer ao mesmo mundo que o nosso. Tudo bem que ele já esteja há quatro anos em Londres, mas isso não muda o fato de nosso relacionamento ser mútuo. Nós dois nos amávamos. Diferentemente dela, que criava monólogos sonhadores com seu atorzinho.

É, eu tenho um pé atrás com pessoas famosas mesmo, sabe? Para mim, são todos falsos. Saem por aí, iludindo seus fãs, dizendo que os amam sem sequer ler suas cartas. E dizer que se ama alguém, é forte demais para ser dito assim, em vão. Talvez, alguém me ache careta ou exagerada, mas não movo meu pé até que me provem do contrário! E atores são piores ainda! Eles sabem fingir perfeitamente qualquer coisa. Depois dos psicopatas, eles são o pior tipo de mentirosos.

Não. Como melhor amiga, era meu dever fazê-la cair na realidade.

No dia seguinte, voltei ao cinema para reivindicar minhas passagens, de ida e volta, para Londres. Eles até que foram espertos em deixar o bilhete premiado aqui, na França. Assim, a passagem não sairia tão cara, e ninguém poderia dizer que foi armação, se o tivessem deixado na própria Inglaterra. Eles poderiam ter deixado na Finlândia, na Turquia, Ucrânia... A promoção era válida para toda Europa. Mas não. Deixaram em Paris, que ficava quase ao lado de Londres! Tsc.

Consegui licença do escritório de advocacia em que trabalhava, dando a desculpa de precisar ficar com minha mãezinha no hospital, que faria um tratamento para os rins. Bom, na verdade, minha mãe já era falecida, mas eles não precisavam saber disso, não é mesmo? Para a faculdade, bastava eu levar um atestado médico, assinado pelo meu caro amigo Sai, alegando qualquer doença. O idiota disse que só assinaria se eu concordasse com uma diarréia aguda, causada por alguma virose. Bom, quando voltar, eu pulo no pescoço dele.

Meu avião sairia daqui à duas semanas. Enquanto isso, fui preparando a Ino mentalmente para o desapego emocional de seu ídolo idiota, dizendo-lhe que ele poderia até mesmo ser um comedor de criancinhas. Aham. Não era isso o que diziam do Michael Jackson? Err. Que Deus o tenha, sou fã dele, mas nunca se sabe!

Enfim, no dia da partida, ela sequer levantou-se da cama para se despedir de mim. E depois de muita choradeira, consegui fazer com que Sai me levasse ao aeroporto Charles de Gaulle em sua bicicleta capenga. É. O cara ganhava bem, e tinha uma bela caminhonete preta. Mas ele fazia de tudo para economizar gasolina. Esse era seu único defeito, na verdade. Mão de vaca ao extremo. Como eu levava apenas uma mochila nas costas, até que não tinha problema. Ele a carregaria por mim. Hihi. Mas devo dizer que eu tinha uma quedinha por essa criatura. Ele fazia tudo o que eu pedia! Era uma maravilha! Um rico de um rapaz mesmo. E ele tinha o sorriso mais cativante que já vi. Tinha os lábios mais bem desenhados por Deus. O corpo mais esbelto e cheio de gostosura para dar e vender. Hum. Pois é! Mas eu vivia para o meu trabalho, e somente isso. Não tinha como pensar em um relacionamento, ainda mais agora, que estudava à noite. Namorar à distância com Naruto, tinha lá suas vantagens.

Graças à maldita bicicleta capenga, eu me atrasei. Digo, cheguei muito em cima da hora. E para essas coisas, o ideal é chegar o quanto antes, certo?

— Vê se toma conta dela, ok? — lhe disse, antes do abraço de despedida, às pressas.

— Pode deixar,Sah. E coma bastante, por nós três! Se puder trazer algo, juro que também não vou reclamar! — é verdade. Eu não tinha pensado nas coisas que estaria prestes a desfrutar.

Eu iria ficar em um belo hotel, faria passeios pela cidade e comeria maravilhas. E o melhor de tudo, é que seria tudo de graça! Perfeito. Dei um beijo em seu rosto, e me fui em direção ao portão de embarque, correndo. De acordo com meu relógio de pulso, eu tinha apenas uns dez minutos para passar pelo portão. Saí correndo enlouquecida pelos corredores, contra aquela maré de gente que parecia caminhar contra mim. Aquilo parecia um inferninho. E ainda por cima, esbarrei em um idiota, me fazendo trocar de ticket pelo dele. Eu mereço! Tsc. Quanto mais pressa se tem, mais assombração me aparece. Saco. Quando percebi, tinha uma montanha humana à minha frente, me olhando com cara de idiota. Quando cheguei ao portão, o segurança pediu para ver minha identidade, para, depois, me dizer que os nomes não correspondem. Na hora, achei que eu fosse explodir de tanta raiva! O meu ticket estava no nome de um tal de Sasuke Uchiha. Que ódio! Na pressa, eu devo ter trocado de ticket com o cara com quem esbarrei, e não se desculpou. Aí, tive que ficar ali, plantada, esperando por algum milagre divino, porque não tinha como saber se o infeliz conseguiu passar ou não.

Felizmente, ele voltou para pegar seu ticket de volta. Mas a cara de idiota sorridente dele me irritou. Tanto que apenas lhe atirei o maldito papel em seu rosto, e tomei o meu de suas mãos.

E finalmente, embarquei em meu avião. Hum. Mas ao sentar em meu acento, tive a ligeira impressão de já ter ouvido aquele nome em algum lugar, antes. Mas que seja! Eu estava tão nervosa, que toda aquela cena se apagara da minha mente em seguida. Tudo o que conseguia pensar era nos comes e bebes que me aguardavam gratuitamente. Além de, é claro, rever meu namorado. Saquei meu celular da bolsa, e digitei uma mensagem para Ino.

“Decolei.”

Notas finais
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