I'll Miss You
1 Don't wanna lose you
Notas iniciais
Domingo à tarde
Ele parecia não ligar para a doença. Continuava cantarolando pela cozinha, como se nada estivesse acontecendo. Ele era incrível. Nada o abalava e seu sorriso era imutável. A música que cantava era alegre, As Quatro Estações, se não me engano. O ritmo fazia com que ele batesse a colher na massa do bolo e agisse como se fosse o regente de tudo aquilo. Eu o observava calada, escondida atrás da parede, admirando quão bela é a alegria que ele tem nas pequenas coisas da vida. Sabe, a doença parece tê-lo feito sentir ainda mais vontade de viver, e não o contrário. Desde que recebeu a notícia de que estava com leucemia, Connor começou a brincar mais, a sorrir mais e até a aprontar mais. Acho que ele finge esquecer de que está morrendo e tenta aproveitar ao máximo cada minuto que lhe resta. Colocou o pote com a massa de bolo em cima da mesa e foi ao armário debaixo da pia.
– Ué, onde está a forma de bolo?
– No armário oposto a esse. — Comentei baixinho. Connor tomou um susto enorme, que, aliás, foi muito engraçado. Prendi o riso assim que percebi que seu semblante mostrava desapontamento. Ou algo parecido com isso. — Esse é o armário das panelas, querido.
– Ally, era uma surpresa! — Ele parecia um pouco triste por eu ter visto o que ele preparava. — Por que você olhou?
– Eu estava te vendo cozinhar, qual o problema? Acordei e não te encontrei. Fui ao banheiro e nada de te achar. Encontrei-o aqui, mas você parecia tão concentrado que eu achei um desperdício jogar toda aquela sua alegria fora. Bolo do que?
– Surpresa, mocinha! E não tente bancar a esperta. O mágico sou eu, você é apenas minha assistente, portanto nada de truques!
– Tudo bem, tudo bem. Vou te esperar no quarto, ok?
– Não, fique na sala, onde eu possa manter os olhos em você. — Fez cara de James Bond e voltou a procurar a forma no armário de panelas.
– Armário de lá! — Apontei novamente onde estava a bendita forma de bolo. Ele me olhou “bravo” e pude notar um “Vá!” saindo meio espremido de sua boca. O obedeci rindo e fui me sentar no sofá que ficava de costas para onde ele estava. Fiz perninha de índio e comecei a meditar.
Depois de um bom tempo, Connor me gritou e pediu que eu fosse até a cozinha. Ele tampou meus olhos e guiou meus passos até a mesa. Me sentei com cuidado e ele pediu que eu ficasse com as mãos no colo, tirando assim as mãos do meu rosto, e pedindo que eu mantivesse os olhos fechados. Pude ouvi-lo preparando ainda mais alguma coisa e de repente uma resposta. “Pode abrir.” Fui abrindo os olhos devagarinho, fazendo certo suspense. Uma linda surpresa me aguardava. Um bolo agora todo branco, por causa do creme de chantilly, enfeitado com rosas em sua lateral. Em cima, Connor desenhou meu rosto, provavelmente com aquela massinha comestível que lembra biscuit, tudo em um tipo de cinza escuro cintilante. Apenas meus olhos se destacavam. Ele os pintou com o mais bonito azul.
– Querido... Isso é incrível! — Pude sentir meus olhos marejando, declarando quão emocionada eu estava. O sorriso de Connor foi tão lindo quanto sua obra de arte. Eu diria até que foi grandioso.
– Feliz aniversário, meu bem. — Foquei minha atenção no fundo daqueles olhos cor de mel. Levantei e fui em sua direção, dando-lhe um abraço forte como nunca. Já sentia algumas lágrimas escorrendo por meu rosto e não fiz muita questão de tirá-las de lá.
– Obrigada.
– Você merece muito mais, meu amor, — ele nos afastou para que pudéssemos olhar um nos olhos do outro — pena que isso foi o máximo que eu pude fazer.
– Connor, você não precisa me fazer mais nada. Só o fato de ainda te ter aqui comigo já é o bastante. Obrigada por ser essa pessoa maravilhosa que você é, obrigada pelos momentos em que você cuidou de mim e não o contrário, como deveria ser. Obrigada por sempre me ouvir, por sempre me dar forças nas horas em que eu estou mais precisando e por sempre me faze rir nesses momentos também. Você é a pessoa mais magnífica que eu já conheci na minha vida! — Ele passou a mão pelo meu rosto e depois colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. Olhei meiga e terna para ele e percebi que ele fazia o mesmo. — Eu não mereço alguém tão bom como você...
– Eu que não mereço essa dádiva que recebi de Deus. Ally, eu te amo muito! Você não faz ideia do quanto me dói saber que uma hora ou outra eu vou acabar te deixando sozinha nesse mundão mau. — Senti outra lágrima escorrendo por meu rosto e não me contive, beijando os lábios macios do homem perfeito que estava de frente a mim. Parti o beijo e mais lágrimas caíram dos meus olhos. Comecei aos poucos a chorar, já sentindo a falta que Connor me faria.
– Eu te amo demais. Por favor, me diga, como eu vou viver sem você?
– Nunca se esqueça, Ally, eu estarei sempre com você, independente do que aconteça. — Fui ouvindo, com o coração doendo, cada palavra que ele dizia. Ainda chorando, voltei a abraçá-lo muito, muito forte. Ele ficou dando beijinhos no meu pescoço, fazendo com que eu ficasse arrepiada e ao mesmo tempo confortada. Sua mão deslizava por minhas costas, na tentativa de me fazer parar de chorar. — Então, vamos comer logo esse bolo? Não é porque ele está lindo que precisamos deixá-lo intacto! — Olhei para ele e sua feição era de uma alegria recém surgida, a alegria que ele nunca perdeu. — Vamos? — Acenei positivamente com a cabeça e ele abriu um sorriso largo. Deu um beijo na minha testa e em seguida passou um dos braços por cima dos meus ombros, levando-me novamente ao bolo que preparara. — Chocolate, o seu preferido. — Cortou uma fatia e colocou num pratinho, entregando-o a mim.
Comemos mais algumas fatias, ficamos conversando e logo a noite chegou. Tomamos banho e nos arrumamos para dormir. Assim que deitamos, como de costume, Connor me deu um beijo delicioso e orou comigo. Virei para o meu lado e ele me abraçou. Ficamos assim, de conchinha, enquanto eu sentia sua respiração no meu pescoço. De súbito, as lembranças do dia em que saímos pela primeira vez, de quando ele me pediu em namoro aos meus falecidos pais e do dia do nosso casamento. Quieta e sozinha, chorei, como faço de costume, sabendo que eu não há o que eu fazer contra isso. Desde o dia em que Connor me contou sobre a leucemia, eu tenho me esforçado para não pensar no assunto e muito menos comentar algo com ele. Desde aquele dia, eu choro sozinha, choro enquanto trabalho e até enquanto estou no banho. Eu vou perdê-lo, e isso é inevitável.
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