I'll Miss You
2 From me to you
Segunda-feira de manhã
Acordei cedo para ir trabalhar. Bem, trabalhar porque esse é o nome, mas não sinto que estou fazendo isso. Como escritora e cronista do jornal, minha vida é relativamente tranquila e eu posso trabalhar em casa mesmo. Só preciso manter o cronograma e não atrasar a entrega das crônicas, mesmo porque, se eu atrasar, o Brown vai querer comer meu fígado com manteiga, então é melhor não arriscar. Levantei, tomei um banho relaxante e voltei ao quarto, para procurar uma roupa. Fui direto ao nosso guarda-roupa, pegando algo confortável para vestir. Estava colocando a blusa quando ouvi um ronco mais alto. Olhei para trás e vi Connor, tranquilamente, dormindo o sono dos justos. Sorri ao ver seu peito subir e descer, num sinal de respiração. Eu ainda o tinha junto a mim. Fui até a cama e me ajoelhei ao lado dele. Passei delicadamente a mão por seu rosto e desci-a ao lado de seu corpo, apoiando-me na cama. Com a mão livre, trouxe meu cabelo para trás e fui descendo a cabeça, até deitá-la em seu peito. Abracei-o devagarinho, fechei os olhos e fiquei ali, ouvindo seu coração bater e sentindo seu corpo todo pulsar.
– O nome disso é vida...– sussurrei. Senti certo conforto ao tocá-lo. — Ele está aqui.
Levantei devagar, para não acordá-lo, e fui em direção à sala. Ao lá chegar, peguei meu computador em cima de um dos sofás e o liguei. Olhei no relógio: nove horas em ponto, exatamente a hora de começar a trabalhar meu cérebro. O computador ligou e eu fui diretamente ao arquivo que me interessava: I'll Miss You, um pequeno livro que estou escrevendo para Connor. É, na verdade, um desabafo, um pouco do meu ponto de vista sobre a situação que estamos vivendo por causa de sua doença. Nele estou tentando encorajá-lo a lutar, pois, apesar de seu caso ser quase irreversível, ainda há a esperança de que o um por cento de chance de cura surja no meio dessa história toda e acabe de uma vez por todas com a tragédia em nossas vidas. As esperanças de sobrevivência, para Connor, estão extintas porque ele já não responde mais aos tratamentos, à quimioterapia nem a nada que os médicos fazem. Para mim não. A minha esperança só acaba no momento em que ele der seu último suspiro. O arquivo carregou e li a última frase que tinha escrito: “Isso me deixa muito mal, mas ter-te ao meu lado faz-me querer viver. Ah, querido, por que você?”
– Isso é tão injusto...– murmurei.
– O que foi, Ally? — Connor apareceu de surpresa na sala e quase que eu derrubei o computador no chão. Ele percebeu meu susto e veio até mim. — Está tudo bem?
– Está! — Fechei rapidamente o computador. — Acordou agora, meu bem?
– Sim... — Ele parecia meio confuso e desconfiado. Acho que minha cara também não estava ajudando muito. — Você está me escondendo algo, Ally Kay?
– Escondendo? Por que eu estaria escondendo algo de você?
– Vamos, Ally, o que aconteceu? Você recebeu um e-mail do médico? É isso?
– Não, querido, fique tranquilo. Não tenho nada para te esconder.
– E por que o susto quando cheguei? — Ele me olhava como se fosse Sherlock Holmes a descobrir o mistério da história toda.
– Porque eu estou trabalhando, e você sabe que eu não gosto de spoilers, então não queria que você visse antes do tempo. Você sabe, Connor, eu sempre te mostro os livros antes de enviar para a editora. Você é meu controle de qualidade! — Ele se despiu da máscara de Sherlock e riu, balançando a cabeça como quem tenta arejá-la.
– E a essa hora da manhã ainda sou obrigado a ouvir esse tipo de lorota...
– Quem falou em lorota? — Connor foi saindo devagar, rindo, indo em direção à cozinha, e eu larguei o computador em cima do sofá para ir atrás dele. Peguei por trás, pela cintura, e tentei fazer-lhe cócegas. — Quem está falando em lorota aqui, hein? Quem? — Ele se assustou um pouco, mas logo se voltou para mim e virou o jogo. Começou a fazer-me cócegas também e eu não resisti. — Para! Para!
– Bonito, né? Querendo me atacar sem que eu veja.
– Você sempre ganha, não vale!
– Eu só ganho pra poder te proteger. — Parei por um instante, para tentar entender sua lógica. — Se você fosse mais forte, quem me protegeria seria você. Eu quero te proteger, por isso preciso ser mais forte que você. — Ele só falava enquanto me olhava nos olhos. Abracei-o, feliz em saber o quanto ele também me ama.
– Você é incrível, sabia?
– Por trás de todo grande homem tem sempre uma grande mulher. Agora volte lá ao seu trabalho obscuro, quero logo saber sobre o que você está escrevendo! Vou fazer nosso café.
– Eu bem que poderia brigar com você por causa desse “obscuro”, mas vou deixar passar. — Rimos e fomos cada um para o canto da casa que lhe era devido.
Depois de um tempo, ele já tinha arrumado a mesa e então me chamou. Não consegui escrever muita coisa, ele foi rápido. Assim que terminamos de comer, Connor saiu da mesa rapidamente e disse que precisava ir ao mercado, fazer as compras para o mês. Não questionei e ele foi, porém só quando saiu que me veio um pensamento: “Estamos no meio do mês”, o que significa que ainda não precisamos de comida. O que será que ele vai aprontar dessa vez?
Notas finais
"Fui tirando suas peças de cima e ele tirou a única blusa que eu usava. Me beijou outra vez e foi com uma das mãos em direção a minha calça, mas lhe poupei o trabalho de retirá-la, fazendo isso eu mesma. Ele tirou a própria calça e se pôs sobre mim.
- Eu te amo. - falou em meu ouvido.
- Eu também te amo."
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