Identidades Indefinidas, Um Mesmo Coração

10 Capítulo 10 - Estamos Namorando?


Kuroumaru acordou com o barulho habitual que ouvia todas as manhãs, de Touta levantando abruptamente e batendo a cabeça na cama de cima, onde ele dormia, soltando uma exclamação de dor em seguida. Ele esfregou os olhos, sonolento, enquanto ouvia Touta gritando "estou atrasado, estou atraso, vou levar bronca" enquanto corria pelo quarto semi-vestido, procurando por suas roupas. Ia começar a se levantar, quando uma chuva de lembranças invadiu sua mente. Os vários acontecimentos que ocorreram em um único dia. Sua declaração para Touta. Ele ter contato a verdade sobre sua falta de gênero. O flagra entre Touta e Yukihime. Sua fuga para a praia. E a resposta que Touta tinha lhe dado. Céus… tudo aquilo tinha mesmo acontecido ontem? Pensando nisso agora, parecia tudo tão surreal que poderia muito bem ter sido apenas um sonho. Um longo e belo sonho… bom demais para ser verdade.

— Ei, Kuroumaru — Touta apoiou os braços na cama de cima de repente, encarando. Como o garoto ainda estava deitado, seus rostos ficaram muito próximos um do outro — Eu sempre quis te perguntar isso. Por que você dorme com essa camisa de manga comprida, mesmo com esse calor horrível que faz aqui?
— Ah… é que eu já estou acostumado a dormir assim — o garoto respondeu, finalmente se levantando e descendo da cama. Ele desviou o olhar de Touta, que ainda estava sem camisa.
— Mesmo? Não sei como você consegue, esse quarto é tão abafado — Touta comentou enquanto procurava por uma blusa — Você deveria usar pelo menos uma camiseta. Se quiser eu te empresto uma das minhas. Ah, é mesmo. Agora que reparei, você nunca se trocou na minha frente quando vamos dormir. É porque você queria esconder a verdade sobre o seu gênero?

Kuroumaru, que tinha vestido o casaco pela metade, ficou paralisado e encarou Touta em silêncio por alguns instantes. Então aquilo tinha mesmo acontecido? Não tinha sido um sonho? Touta sabia o que ele era, sabia sobre seus sentimentos… e não se incomodava com isso. Mais do que isso, o garoto tinha dito que também gostava dele. Aquilo era o que qualquer pessoa poderia chamar de uma felicidade completa.
Exceto que Kuroumaru não sabia como deveria proceder a partir daquele ponto.

— Ei, por que está me olhando com essa cara? — Touta sacudiu a mão diante do rosto dele.
— Ah, não é nada — Kuroumaru terminou de vestir seu casaco — É que… b-bom, na verdade você tem razão. Eu prefiro dormir com essa blusa porque ela esconde bem o meu corpo. Uma camiseta não seria o suficiente.
— Guardar esse segredo parecer ser bem trabalhoso — Touta comentou — E você nem solta o cabelo para dormir… isso não te incomoda?
— Já estou acostumado. Quando solto o cabelo, fico mais parecido com uma garota, eu acho — Kuroumaru respondeu — Na verdade eu estive pensando em cortar…
— Não faz isso! — Touta o interrompeu — Eu gosto do seu cabelo assim — ele ergueu uma das mãos e passou pelas mechas do cabelo negro de Kuroumaru, até chegar em seu rosto e afagar sua bochecha corada.
— T-Tudo bem… não vou cortar então — o garoto concordou, sentindo o rosto esquentar onde Touta o tocava.
— Ótimo! — Touta sorriu e afastou a mão dele — Mas agora é melhor a gente correr. Ficamos acordados até tarde ontem e acabamos acordando tarde, a Karin-senpai vai nos dar uma bronca se descobrir que estamos atrasados para fazer a limpeza matinal!

Kuroumaru concordou com um aceno de cabeça e os dois saíram apressados do quarto, apenas para descobrir que seus amigos o esperavam do outro lado da porta, e nenhum deles parecia estar muito amistosos no momento.

— Ah… o-oi, gente. Bom dia — Touta arriscou um sorriso.
— Bom dia coisa nenhuma — Karin respondeu de cara amarrada — Como vocês ousam aparecer a essa hora e dizer um simples "bom dia"? Vocês nos devem uma explicação!
— Sentimos muito, Karin-senpai — Kuroumaru se desculpou — Sei que estamos atrasados, vamos começar a limpeza matinal imediatamente…
— Dane-se a limpeza matinal. A casa pode continuar suja por mais alguns minutos, não se preocupe que a sujeira não vai fugir — Kirie abanou a mão como se a faxina fosse a última coisa que lhe importasse agora. E parece que era mesmo — O que nós queremos saber é o motivo do atraso de vocês!
— Bem, nós… acordamos tarde — Touta disse o óbvio.
— Disso eu já sei, seu nulo! — Kirie exclamou — Eu quero saber por que vocês acordaram tarde! O que ficaram fazendo ontem a noite toda, hein?
— I-Isso… não é da sua conta! — Kuroumaru respondeu, e imediatamente arrependeu-se de tentar bancar o corajoso quando Karin apontou uma marreta contra ele.
— Ah, isso é da nossa conta sim, e muito — a garota falou quase que de modo ameaçador — Porque, se vocês ficaram fazendo o que estamos pensando… eu sou a pessoa que mais precisa saber.
— Acalme-se Karin, assim você vai matá-lo — Ikkuu pediu.
— Ele é imortal, então não tem problema — a garota respondeu — Só vai doer um pouquinho.
— Vai doer muito mais do que um pouquinho! — Kuroumaru exclamou.
— Tonisaka-senpai… eu meio que contei parte do que eu ouvi sobre a conversa entre o Touta e a Yukihime-san para a Kirie-senpai, e ela contou isso para a Karin-senpai e para o Ikkuu-senpai, como você deve ter notado — Santa falou em tom culpado — Então eu acho melhor vocês contarem o resto logo… vocês não vão querer serem torturados pela Kirie-senpai, acreditem em mim.
— O que? Você contou isso para a Kirie, Santa? Logo para a Kirie?! — Touta exclamou indignado, fazendo o menino se encolher de culpa. Touta suspirou derrotado — Tá bom, vocês venceram… e, Karin-senpai, será que dá para deixar o Kuroumaru em paz?!
— Desculpe. Força do hábito — Karin, que aparentemente tinha se esquecido de que estava ameaçando o garoto com uma marreta, afastou-se dele e virou-se para Touta — Muito bem. Contem tudo.
— Certo… eu não sei o que você quer dizer com "tudo", mas enfim — Touta coçou a cabeça sem graça. Por que tinha que dar satisfação para eles afinal? — Vocês já souberam metade da história pelo Santa, não é? Que o Kuroumaru não tem gênero definido…
— Isso nós já sabíamos — Ikkuu corrigiu.
— Ah, certo — Touta assentiu — Bem, e sobre os sentimentos dele…
— Nós já sabíamos disso também — Karin o interrompeu.
— Mas será que todo mundo já sabia de tudo nessa história menos eu?! — Touta praguejou
— Calma, Touta, não é para tanto — Kuroumaru falou enquanto o garoto resmungava alguma coisa em voz baixa — Bom… ontem eu disse ao Touta como me sinto em relação a ele… e também sobre a condição do meu corpo, sobre eu não ter um gênero definido ainda… e então, justamente nessa hora, o Santa entrou no quarto e nos interrompeu, aliás, muito obrigado por isso, hein Santa — Kuroumaru falou com a voz carregada de sarcasmo.
— Me desculpa, eu juro que não foi de propósito! — o menino falou em tom de choro, enterrando o rosto nas mãos.
— Então você fez mesmo isso?! — Kirie exclamou indignada — Seu amontoado de ectoplasma ambulante, como você ousa interromper os dois em um momento tão crucial como esse?!
— Isso é completamente imperdoável. Vou te exorcizar agora mesmo para que nunca mais cometa esse erro novamente — Karin avançou contra o menino.
— Acalmen-se meninas, ele já disse que foi sem querer — Ikkuu conteve as duas, segurando-as pelos braços. Não sabia se ria da cena ou se tentava ajudar o amigo — Eu sinto muito por você, Kuroumaru, nem consigo imaginar como deve ter sido isso…
— Realmente não dá para imaginar — Kuroumnaru respirou fundo, tentando se recompor.
— Bom, continuando — Touta prosseguiu, notando que Kuroumaru não conseguiria continuar contando a história sem amaldiçoar Santa ou coisa parecida — Depois disso, nós fomos falar com a Yukihime, eu fiquei para trás, o Kuroumaru fugiu de casa… essa parte vocês já conhecem. Depois que voltamos para casa e vocês foram entregar o relatório da missão para a Yukihime, nós dois voltamos para o quarto. Eu ainda devia uma resposta para o Kuroumaru, então… — ele interrompeu-se ao notar a intensidade no olhar dos quatro amigos que o observavam. Ele provavelmente tinha chegado na parte que eles estavam esperando. Touta não tinha ficado tenso daquele jeito nem quando conversou com Kuroumaru sobre aquele assunto, mas ver uma platéia encarando-o daquele jeito era um pouco assustador — B-Bem, resumindo, eu disse que também gostava dele. Satisfeitos?

Sim, eles estavam visivelmente satisfeitos. Kirie começou a gritar de felicidade com sua voz aguda, perfurando os tímpanos de Touta. Santa parecia mais aliviado do que feliz, provavelmente por não ter estragado completamente a chance dos dois ficarem juntos. Ikkuu exibia um enorme sorriso bobo-alegre. Já Karin, não era muito de sorrir, mas estava evidentemente feliz, pois estava com os olhos brilhando. Ela segurou as mãos de Kuroumaru de repente e disse:

— Muito bem, Kuroumaru. Eu sabia que você ia tomar a decisão correta. Desejo de coração toda a felicidade do mundo para vocês dois. Tenho certeza de que se tornará uma mulher maravilhosa quando atingir a idade adulta. Faço questão de ser madrinha quando vocês se casarem…
— Eu não sou mulher! — Kuroumaru exclamou, puxando as mãos de volta — E eu só tenho 14 anos! Por que está falando em casamento?!
— Bem, é o que casais fazem quando se tornam adultos, e… ei, espera um pouco — Kirie se interrompeu — Como assim, não é mulher?
— Eu não sou nem nunca serei! — Kuroumaru exclamou — Quantas vezes preciso dizer que sou homem?
— Mas o Touta não disse que também gosta de você? — Ikkuu lembrou.
— Sim, eu disse — Touta confirmou — Mas o Kuroumaru já tinha decidido que quer ser homem desde antes de me conhecer, então é isso que ele vai ser quando virar adulto.
— Ahhh… — os quatro falaram ao mesmo tempo, absorvendo a informação.
— Bem, tanto faz. Contanto que vocês fiquem juntos, não me importa o que você vai ser, desde que não perca o Touta, entendeu, Kuroumaru? — Karin deu de ombros — E saiba que eu desejo de coração toda a felicidade do mundo para vocês dois. Faço questão de ser madrinha quando vocês se casarem…
— Por que está repetindo a mesma coisa que tinha dito quando pensou que eu iria me tornar uma mulher? — Kuroumaru a interrompeu — E como assim "não importa o que eu vou ser"?
— É que, no fundo, eu realmente não me importo — Karin respondeu sincera — Só achei que você teria mais chances de ficar com o Touta se fosse uma mulher. Mas, contanto que você consiga mantê-lo longe da mestra Yukihime e ser homem ao mesmo tempo, está ótimo. Assim todo mundo sai ganhando.
— Como que todo mundo vai sair ganhando nisso? — Touta indagou confuso — E por que eu tenho que ficar longe da Yukihime?
— É incrível você não ter entendido isso mesmo tendo escolhido ficar com o Kuroumaru na forma de homem, Touta — Ikkuu riu.
— Esse nulo é um idiota mesmo. Parece que ele vai te dar muito trabalho, hein Kuroumaru — Kirie comentou, ajeitando os óculos — Aliás, que sorte a sua, hein? Vai poder ficar com o Touta sem ter que desistir do seu desejo de ser homem quando virar adulto! Que bom! Viu só, eu disse que assim era mais interessante!
— Como que isso pode ser mais interessante? — Santa indagou.
— Não é óbvio? — Kirie perguntou, mas parece que não era — Se eles forem dois garotos, dá para fazer muuuuito mais coisas! — ela abriu os braços em um gesto amplo.
— Por favor, Kirie, não comece a fantasiar de novo… — Ikkuu pediu, mas era tarde demais.
— Não é fantasia, é a realidade! — Kirie interrompeu — E pensar que nós estaremos tão próximos deles e poderemos assistir a evolução desse relacionamento… ah, é mesmo, Ikkuu, você não estava lá, mas quando o Touta fugiu de casa e nós fomos atrás deles, acabamos pegando os dois em uma situação bastante comprometedora, sabia?
— Vocês ainda estão pensando nisso? — Touta exclamou pasmo.
— Claro que estamos! Foi onde tudo começou! — a menina exclamou de volta — Na verdade, isso me fez pensar se, quando o namoro de vocês amadurecer, vocês vão revesar…
— Por favor, pare de falar essas coisas… eu sou uma criança, você está me fazendo imaginar coisas estranhas — Santa pediu, tampando os ouvidos, o rosto começando a enrubescer.
— Na verdade, você apenas possui a aparência de um menino de 12 anos, que é a idade que tinha quando morreu. Se contar o tempo em que você ficou preso naquela escola, na verdade você tem 20 anos — Ikkuu corrigiu — Eu entrei em coma quando tinha 13 anos. Fiquei "dormindo" durante todo esse tempo, então mantive essa idade mental, apesar do tempo ter passado e da minha aparência. Se tem alguma criança aqui, então sou eu.
— C-Como você aguenta ouvir a Kirie-senpai dizer todas essas coisas o tempo todo…? — Santa o encarou espantado.
— Infelizmente minha mente já foi corrompida por ela — Ikkuu suspirou — Acostume-se. Um dia a sua também será.
— É melhor se acostumar logo, porque temos algumas questões importantes para discutir aqui — Karin se intrometeu — Por exemplo, o seu erro de cálculo, Kirie. Não importa o quanto o namoro deles avance, não dá pra fazer nada enquanto o corpo do Kuroumaru estiver desse jeito.
— Mas é claro que dá! — a outra garota discordou — Você esqueceu que…
— Ei, espera um pouco! — Touta a interrompeu — Não sei o que vocês estão discutindo aí, mas nós não estamos namorando.

Os quatro interromperam o que prometia ser uma longa discussão e se viraram para encarar os dois. Os garotos pareciam bastante chocados. Já as meninas estavam visivelmente irritadas, talvez até indignadas.

— O que foi que você disse, seu nulo? — Kirie perguntou entre os dentes — É melhor eu ter entendido mal.
— Pois você entendeu bem, Kirie. Nós não estamos namorando — Touta repetiu.
— Mas por que não?! — Ikkuu e Santa exclamaram ao mesmo tempo.
— Ah… eu não sei… era para a gente namorar? — Kuroumaru perguntou para Touta, que deu de ombros, tão confuso quanto ele.
— Mas é claro que é, seu tapado! — Kirie bateu o pé no chão, irritada.
— Não era isso que você tanto queria, Kuroumaru? Ficar com o Touta? — Karin perguntou — Então por que não está com ele agora que sabe que ele também te ama?
— Na verdade eu só queria dizer para ele como me sinto… nunca acreditei de verdade que fosse ser correspondido, então nunca pensei no que deveria fazer a seguir — ele confessou.
— Céus, como podem ser tão lerdos? — Kirie deu um tapa na própria testa — Muito bem. Já dissemos o que vocês devem fazer. Touta, peça o Kuroumaru em namoro. Agora!
— Ah… tá. Certo — ele virou-se para Kuroumaru, o rosto levemente corado — Então, Kuroumaru… eu, bem… hã… quero dizer… não dá para fazer isso com platéia! — ele agarrou a mão de Kuroumaru e saiu correndo sem pensar duas vezes, arrastando o garoto consigo. Ouviu os gritos de Kirie ao longe, chamando-o de nulo trapaceiro e mandando eles voltarem, e não parou de correr até que a voz dela cessasse.

— Droga, como aqueles dois ousam fugir da gente? — Kirie reclamava enquanto corria pela casa junto dos outros. Ela tinha ficado por último. Exercícios físicos nunca tinha sido seu forte — Eles só estão juntos graças a nós, e ainda vão nos privar de um momento tão memorável como esse?!
— Acho que eles foram para o telhado — Santa falou — Vai demorar muito para encontrarmos os dois, é melhor desistir.
— Nada disso — Karin discordou — Preciso ver com meus próprios olhos se eles vão mesmo namorar ou não.
— Mas eles fugiram justamente porque não querem que a gente veja — Ikkuu lembrou.
— Então você também vai desistir, seu covarde? — Kirie exclamou.
— Claro que não. Eu também quero ver isso — Ikkuu respondeu — Só estou dizendo que, se continuarmos fazendo barulho desse jeito, eles vão continuar fugindo e não farão nada. Então é melhor fingirmos que fomos embora e ficarmos espiando os dois em silêncio, certo? — ele piscou para a menina, que sorriu, impressionada com o plano dele.


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— Parece que finalmente despistamos eles — Touta comentou, ofegante de tanto correr.

Eles estavam sentados em um dos telhados mais afastados, quase na fronteira da sede da UQ Holder. Embora tivessem acordado atrasados naquele dia, ainda estava amanhecendo. O sol nascendo diante deles causava tons alaranjados nas faces dos dois e fazia a camisa de Touta parecer mais escura.

— Eles são muito insistentes. Principalmente a Kirie e a Karin-senpai — Kuroumaru concordou — Aliás, o que elas quiseram dizer naquela hora? Sobre reversarmos e não dar para fazer nada com meu corpo assim… do que elas estavam falando?
— Sei lá — Touta deu de ombros — Se você não entendeu, eu muito menos. Mas não parecia ser coisa boa, viu como o Santa e o Ikkuu-senpai ficaram?
— Acho melhor não pensar nisso. Tenho medo de descobrir o que é — Kuroumaru estremeceu.
— Você tem medo de mais coisas do que eu pensei — Touta comentou como quem fala do tempo — Estava mesmo com medo de me dizer a verdade porque achava que eu iria te rejeitar? Por causa da Yukihime?
— Por causa dela e por causa do meu corpo — Kuroumaru respondeu, encarando os próprios pés.
— Um clone defeituoso não tem o direito de rejeitar ninguém por causa disso — Touta comentou, olhando o nascer do sol com os braços atrás da cabeça — Então, você quer fazer isso? Namorar? — ele encarou o garoto com o canto dos olhos. Ele sabia que a resposta era óbvia, mas não conseguia evitar de se sentir nervoso. Percebeu que aquele cenário era o oposto de um pôr do sol, mas ainda assim era muito bonito. Imaginou se alguém já tinha pedido outra pessoa em namoro durante o nascer do sol. Era surpreendentemente romântico.
— Ah… — Kuroumaru sentiu a garganta seca. Nunca, nem mesmo em seus sonhos mais insanos, tinha se imaginado nesse tipo de situação. Ele sentiu seu rosto queimar e sabia que devia estar muito corado, mas felizmente os raios de sol batendo em sua face disfarçavam isso — T-Tudo bem para você? Digo, ficar com alguém como eu?
— Qual é o problema? Você gosta de mim, eu gosto de você, e parece que todo mundo quer que a gente fique junto — ele tirou os braços de trás da cabeça para poder encarar Kuroumaru mais de perto — Ah, você ainda está cismado porque ainda não tem um gênero definido? Esquece isso, cara.
— Não é tão fácil se esquecer disso quando você se olha no espelho todos os dias e vê que não é homem e nem mulher — Kuroumaru respondeu. Em seguida finalmente o encarou — Tem certeza que você não se importa?
— Contanto que você não se importe com o fato de eu ser um clone do meu avô — Touta respondeu, segurando a mão dele e sorrindo — Vou perguntar mais uma vez: Você quer namorar?
— Tudo bem. Somos namorados — Kuroumaru sorriu de volta, entrelaçando a mão com a dele. Ele viu Touta chegar mais perto e sentiu seu coração acelerar. Ele não sabia o que fazer. Nunca tinha feito aquilo. Será que Touta já tinha? Era melhor que ele soubesse o que estava fazendo, porque Kuroumaru não tinha ideia de como deveria proceder a partir dali.

Mas na verdade isso não importava. Porque, antes que o rosto de Touta se aproximasse mais dele, os dois ouviram um berro. E era uma voz bastante familiar.

— Ah! Eu não acredito que vivi para ver isso! Touta, você é o namorado mais lerdo que eu já vi em toda a minha vida, mas ainda bem que deu certo! Ai, eu preciso tirar uma foto do primeiro beijo de vocês! Maldição, esqueci meu celular no quarto! Alguém me empresta um celular, por favor! — Kirie tinha estragado completamente o disfarce ao perder a compostura. Ela subiu no telhado e gesticulava na direção do novo casal e dos outros amigos, que desistiram de tentar se esconder. Karin, Ikkuu e Santa subiram no telhado também.
— Mas que droga, Kirie! — Karin exclamou — Por que você tinha que começar a gritar?
— Você interrompeu na melhor parte — Ikkuu reclamou.
— Há q-quanto tempo vocês estão aí espiando?! — Touta exclamou, vermelho até as orelhas.
— Desde o início — Santa respondeu — Desculpa, Touta, eles me arrastaram junto…
— Pare de mentir, você estava até querendo apostar se eles iam se beijar ou não — Karin acusou e o menino se encolheu — Aliás, você perdeu. Pague — ela estendeu a mão.
— Isso não vale! Foi só porque a Kirie-senpai interrompeu! — Santa rebateu.
— Detalhes… — Karin abanou a outra mão como se isso não tivesse importância.
— Viu só, eu disse que elas iam acabar te corrompendo também — Ikkuu riu. Se Touta não o conhecesse bem, poderia jurar que ele estava satisfeito com isso. Talvez Touta não o conhecesse tão bem assim.

E enquanto os quatro amigos ainda discutiam entre si, Touta e Kuroumaru se encararam e riram da cena. Era terrivelmente constrangedor saber que haviam tido plateia enquanto conversavam sobre um assunto tão particular, é claro, mas eles eram seus amigos afinal. Sua família. A família que os amava, que os apoiava de verdade e que só desejava o bem deles, do seu próprio jeito. A família que nenhum dos dois nunca tiveram.

E agora eles também tinham um ao outro. Duas pessoas tão diferentes, que tinham perdido tantas coisas, e que não tinham nem mesmo uma identidade própria. Touta finalmente tinha entendido que o que sentia por Kuroumaru era muito mais do que uma simples "atração".E Kuroumaru, que apenas torcia para não ser odiado por Touta quando o garoto soubesse a verdade sobre ele, não cabia em si de felicidade por ter sido correspondido.

Mas, é claro, ainda havia uma pessoa que não sabia sobre o recente namoro dos dois.
Yukihime.

Notas finais
Heey~ pessoas! Finalmente, depois de muita enrolação e lenga-lenga digna de uma novela mexicana, esses dois começaram a namorar! Precisaram de um "pequeno" empurrãozinho dos amigos para isso acontecer, é verdade, mas o importante é que deu certo! Agora resta saber como a Yukihime vai reagir a isso... hehehehe... Deixem reviews, por favor, quero muito saber o que vocês estão achando da história! Kissus^^