Identidades Indefinidas, Um Mesmo Coração
11 Capítulo 11 - Curiosidade
Apesar de terem decidido que estavam namorando, a relação de Touta e Kuroumaru não tinha mudado tanto assim. Eles continuavam fazendo a limpeza matinal diariamente, ainda praticavam o treino de espadas, e de vez em quando um observava o outro enquanto estava se trocando sem que este percebesse. Mas, no geral, não tinha mudado muita coisa.
Exceto, é claro, que agora eles precisavam aguentar as insinuações de Kirie, as provocações de Ikkuu e os comentários sugestivos de Karin o tempo todo. Até mesmo Santa fazia algumas perguntas constrangedoras de vez em quando. Os quatro pareciam pensar que eles estavam fazendo muito mais coisas do que eles realmente estavam, mas Touta e Kuroumaru preferiam não discutir esse assunto com eles. Enquanto permanecesse apenas na imaginação deles, já estava bom.
Apesar de que, uma hora ou outra, aquelas insinuações acabariam se tornando verdade mesmo.
— Ei, Touta — Kuroumaru chamou enquanto vestia a camisa de costas para ele. Alguns hábitos não mudavam com tanta facilidade afinal, mas Touta dava uma espiada de vez em quando — Sabe aquele dia, quando estávamos no telhado?
— Quando decidimos namorar? — Touta perguntou, tirando a camiseta de dormir e procurando por alguma coisa para vestir — O que tem?
— Bem, eu estava pensando… — Kuroumaru falou enquanto dava um nó na gravata, ao mesmo tempo em que seu cérebro parecia estar cheio de nós também. Ele estava pensando nisso desde aquele dia, só não sabia como perguntar — Se a Kirie e os outros não tivessem interrompido naquela hora, você… bem… v-você ia me b-beijar…? — ele concluiu a frase com dificuldade, a voz tão baixa que se Touta não estivesse perto dele, não teria ouvido.
— O que? Hã… — Touta corou levemente ao ouvir aquilo e se esforçou para lembrar da ocasião. Ele geralmente não pensava quando se tratava desse tipo de coisa, simplesmente fazia. Ele se lembrava de ter se aproximado de Kuroumaru naquela hora, mas… ele tinha mesmo essa intenção? — Eu não sei… dependendo de como as coisas tivessem acontecido, talvez. Por que? Você não quer?
— Não é isso — Kuroumaru desviou os olhos dele, embaraçado — É que… deve ser óbvio, mas eu nunca beijei ninguém antes — ele confessou, voltando a encarar Touta — Você já?
— Claro que não — Touta respondeu, finalmente encontrando uma camisa e vestindo-a — Quero dizer, não que eu me lembre. Você sabe que perdi a memória. E, nos dois anos de vida de que me lembro, eu nunca beijei ninguém.
— Então, como você ia ia fazer uma coisa que você não sabe como se faz? — Kuroumaru perguntou. Antes que Touta pudesse responder, eles escutaram alguém esmurrando a porta e a voz estridente de Kirie do outro lado.
— Ei, vocês dois! Ainda estão dormindo? Levantem logo, seus preguiçosos!
— Deixe eles em paz. Não se deve perturbar um casal assim, eles podem estar fazendo algo mais interessante do que dormir — eles ouviram a voz de Karin censurando-a.
— Já estamos acordados, não precisa derrubar a porta — Touta saiu do quarto, quase batendo a porta no nariz de Kirie. Kuroumaru veio atrás dele, já completamente vestido — Francamente, vocês não cansam não?
— Jamais! — Kirie exclamou sorridente — E podem ir se preparando, o Ikkuu e o novato também estão curiosos para saber o motivo do atraso de vocês! Eles estão na varanda. Vamos tomar o café da manhã lá hoje.
— Mas e a limpeza matinal? — Kuroumaru indagou.
— Saber o que vocês fizeram enquanto estavam sozinhos no quarto é prioridade no momento — Karin respondeu.
— Não sei o que é pior, limpar essa casa enorme ou ser interrogado por esses lunáticos — Touta suspirou derrotado, seguindo-as até a varanda.
Assim como Kirie havia dito, Santa e Ikkuu estavam na varanda, esperando por eles. Os dois acenaram para o grupo quando o avistou e todos se acomodaram ao redor da mesa, com alguma dificuldade, devido ao espaço pequeno.
— Vocês dois acordaram tarde hoje — Ikkuu comentou como quem não quer nada — A última vez que isso aconteceu foi no dia em que vocês começaram a namorar, se me lembro bem.
— É, naquele dia o relacionamento de vocês deu um avanço e tanto — Santa concordou.
— O que significa que o namoro de vocês deve ter avançado mais ainda de ontem para hoje! — Kirie apontou para os dois de modo acusador, falando com a boca cheia de pão.
— Pára de cuspir farelo em mim! — Touta reclamou — Termine de comer seu sanduíche ao invés de ficar imaginando besteiras!
— Digam a verdade — Karin repousou seu copo de suco na mesa — Vocês foram dormir mais tarde ontem, não foram?
— Sei lá… no nosso quarto não tem relógio — Touta encarou Kuroumaru — Nós fomos?
— Acho que sim, considerando a posição da lua…
— Vocês são tão despreocupados — Santa comentou — Não estão vendo que elas estão querendo insinuar que vocês fizeram alguma coisa durante a noite? E, se estão admitindo que foram dormir mais tarde, só estão confirmando as suspeitas da Karin-senpai.
— Como assim? — Touta perguntou — Fizemos o que?
— Deixa pra lá… — Santa baixou a cabeça e se encolheu, o rosto levemente corado. Como raios Touta não tinha entendido aquilo, considerando que tinha um namorado, se até ele entendeu?!
— Agora é oficial, sua mente foi mesmo corrompida por elas. Bem vindo ao clube, garoto — Ikkuu deu tapinhas nas costas dele, fazendo Santa corar mais ainda. Touta tinha certeza agora, Ikkuu estava definitivamente feliz com isso.
— Qual é o problema de vocês afinal? — Touta perguntou.
— Nenhum, exceto que vocês ainda não nos contaram porque foram dormir tarde — Karin respondeu, tomando mais um gole do seu suco.
— Nós só ficamos conversando — Kuroumaru respondeu.
— Só "conversando"? Ah, conta outra! — Kirie exclamou. E então olhou bem nos olhos do garoto e estalou a língua. Sabia que Kuroumaru não costumava mentir, e quando tentava, mentia muito mal. Droga, eles realmente só tinham ficado conversando…
— Pois é — disse Touta, alheio aos pensamentos da menina — Apesar de que é chato conversar daquele jeito. Quero dizer, o Kuroumaru dorme na cama de cima, então fica difícil de encarar ele. Dá torcicolo.
— Ah… — Ikkuu murmurou, tendo uma súbita ideia — Nesse caso, por que vocês não desmontam a bicama e as colocam uma do lado da outra? Assim vocês poderiam olhar um para o outro sem problema, não é?
— Boa, Ikkuu! — Kirie falou baixinho. Aquela sim era uma ótima ideia. Sem falar que era incrível como Ikkuu conseguia dizer essas coisas sem assustá-los. Bem, pelo menos não muito.
— O que? — Kuroumaru corou só em pensar naquilo — Quer dizer… d-dormir juntos?
— Ah, é. Acho que vocês teriam que fazer isso também — Ikkuu falou como se só tivesse notado isso agora.
— Não podemos fazer isso — Kuroumaru negou de imediato — Além do mais, nosso quarto é muito pequeno. As camas não caberiam uma do lado da outra.
— Então, quer dizer que você já pensou nessa hipótese? — Santa perguntou curioso.
— Eu não! — Kuroumaru exclamou, a vermelhidão em seu rosto se intensificando.
— Não seja por isso. Vocês podem se mudar para um quarto maior hoje mesmo — Karin anunciou e fez mênção de se levantar, como se fosse começar a preparar um novo quarto para eles neste instante.
— Já disse que não vamos dormir juntos…
— Bem, eu não me importo — Touta falou subitamente. Ele não parecia ter se dado conta das intenções contidas na ideia de Ikkuu, mas Kuroumaru sim.
— Touta! — Kuroumaru exclamou — V-Você não está falando sério, está?
— Por que? — ele encarou o garoto — Nós já dormimos juntos, enquanto viajávamos junto com a Yukihime, antes de chegarmos aqui, se lembra?
— Mas aquilo foi diferente — Kuroumaru respondeu — Nós não estávamos sozinhos. Eu ainda não gostava de você. E nós ainda não éramos…
— Ei, tudo bem. Não precisa ficar assim, eu só estava brincando — Touta segurou a mão dele e começou a acariciá-la. Na verdade ele não estava brincando. Apenas tinha percebido, finalmente, as reais intenções dos amigos por trás daquela ideia. Ele voltou-se para os outros, irritado — Vocês só estão tentando apressar as coisas entre a gente, não é? Todo santo dia ficam interrogando a gente, fazendo insinuações, dizendo coisas constrangedoras… por que vocês fazem isso afinal?
— Porque é interessante — Kirie respondeu.
— E divertido — Ikkuu falou com um sorriso no rosto.
— E conveniente para os meus interesses — Karin acrescentou.
— Eu acabei indo na onda deles… — Santa admitiu.
— Ora, será que eu posso saber que onda é essa?
Todos se viraram para a porta e viram Yukihime adentrando a varanda. Pensando bem, Touta não a via desde que ela os comunicou sobre a última missão. Desde aquele dia ela ficou enfurnada em seu escritório, e ele ficou ocupado demais para se dar conta disso.
Yukihime caminhou até eles sem pressa e parou ao lado da mesa, entre as cadeiras de Touta e Kuroumaru.
— Desculpe ter passado tanto tempo ausente, mas estou atolada até o pescoço de trabalho. Mas eu soube de uma coisa interessante, então tinha que vir conferir com meus próprios olhos — ela repousou uma das mãos no ombro de Touta e a outra no ombro de Kuroumaru — Touta, Kuroumaru. É verdade que estão namorando?
— Sim, é verdade — Touta respondeu, encarando-a desconfiado. Não era possível que Yukihime iria brigar com ele por causa disso, não é? Quer dizer, ele já tinha conversado brevemente sobre isso com ela, e a mulher não parecia ser contra — Como você soube? Ficou trancada lá no seu escritório por uma semana.
— A Karin fez a gentileza de me contar — Yukihime indicou a garota com a cabeça.
— Não precisa agradecer — Karin disse.
— E nem vou! Gostaria de ter contado eu mesmo — Touta resmungou.
— Kuroumaru — Yukihime chamou, surpreendendo o garoto — Se me lembro bem, você decidiu se tornar homem quando atingir a idade adulta, não é?
— É claro. Você sabe disso desde o dia em que nos conhecemos — Kuroumaru respondeu. Aonde ela estava querendo chegar com isso afinal?
— E, se você me disse isso agora sem fazer nenhum escândalo, posso concluir que o Touta já sabe a verdade sobre você? — Yukihime continuou.
— Que ele não tem sexo definido? Sim, eu já sei — Touta respondeu por ele.
— Entendo — Yukihime suspirou e fechou os olhos. Em seguida os reabriu, com uma expressão mais séria — Vamos conversar um instantinho no meu escritório, garotos — ela puxou os dois pela gola de suas camisas, arrastando-os consigo. Parou na porta da varanda, virando apenas a cabeça para encarar os demais — Vocês ficam. Não se atrevam a espiar. Se tentarem, eu vou saber, e acreditem, vocês não vão gostar nem um pouco de descobrir o que eu faço com enxeridos — ela deixou a varanda com os dois garotos, e a última coisa que Touta e Kuroumaru viram foi a expressão de crianças que tinham perdido seus brinquedos favoritos nos rostos dos amigos.
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