IV
2 Yoongi
Estava frio.
Dentro daquelas paredes de concreto nas quais Yoongi observava ao longe, estava com certeza mais quente e confortável. Ele poderia ter entrado, provavelmente há quase duas horas atrás. Fora até ali, inclusive, com o propósito de entrar, mas não conseguira passar das portas, provavelmente pela décima vez no mês. Estava frio no banco velho da pracinha quase fantasmagórica que ficava logo em frente da sua escola. Mesmo depois de já ter perdido pelo menos umas duas aulas àquela altura, ele ainda buscava em algum lugar dentro de si qualquer tipo de força que o ajudasse a entrar e aproveitar o quente conforto dos corredores e das salas de aula. Mas mesmo se ali fosse o lugar mais paradisíaco da Terra, conforto seria uma das últimas coisas que ele sentiria. O frio estava presente também em seu estômago, de todas as formas físicas e metafóricas possíveis. Uma parte porque não tinha tomado café da manhã, e talvez por quase um mês ele nem sabia mais o que era isso, mas principalmente porque ele sentia que estava em um daqueles momentos da vida no qual ele não fazia ideia do que estava por vir. Tudo poderia dar certo, assim como tudo poderia dar errado. E ele queria muito poder fazer alguma coisa além de esperar. Fora dado a ele uma chance, uma pequena chance, de fazer aquilo que gostava e tentava desde muito tempo antes dali, quando faltava aulas e passava fome em outros lugares. Depois de tanto tempo quase desistindo todos os dias do que o tinha tirado de sua cidade natal, ele conseguira entrar em uma empresa, o que era bom. Mas onde ele estaria depois de um tempo, era incerto. De início, foi dito a ele e a vários outros que o debut era certo, pois para talentos como o dele, o sucesso era inevitável. Mas eles diziam isso para todos. Faziam quase dois anos que essa promessa era alongada a cada dia mais com projetos cada vez mais diferentes do inicial. De início, Yoongi estava prometido a fazer parte de um grupo de rap, como o qual participava em Daegu, mas agora haviam boatos que seu talento iria ser de alguma forma utilizado em um grupo idol, ideia que fez muita gente desistir. Porém Yoongi não sabia se poderia ter esse mesmo privilégio. Para ele, não importava muito onde estivesse, se pudesse transmitir a sua música de alguma forma, estaria contente. Mas até mesmo o projeto de se tornar um idol era só um projeto, tão pequeno e incerto que já havia sido discutido várias vezes. Poderia até no mesmo dia receber a notícia de que nada mais daria certo, e lá estaria ele de volta ao início. O fato dessa chance em si ser tão pequena, o deixava em dúvida se ele poderia confiar nela o suficiente. No fundo, ele sabia que não, e por isso, não deveria estar ali. Deveria, pelo menos, tentando estar junto aos outros no imenso e falso conforto, para pelo menos dizer, talvez escondendo as inúmeras notas baixas e jogando as recordações ruins no porão da mente, que conseguira concluir os estudos. O que para muitos ali, era algo tão fácil, certo e o marco inicial para grandes oportunidades e sucessos, para ele era como um desafio que no final de tudo não faria grande diferença. Não que Yoongi não gostasse de estudar, ele gostava. Em outras condições ele poderia até mesmo estar se tornando um futuro arquiteto. Contudo, sua vida nunca o permitira priorizar os estudos como os outros. Enquanto seus amigos faziam cursinhos e viravam noites estudando para provas, ele tentava conseguir dinheiro em vários empregos de meio período durante o dia, e treinando para ser um futuro artista durante a noite. Na sala de aula, ou estudava, ou dormia pelo menos duas horas, que em dias ocupados poderiam ser os únicos minutos que ele teria durante o dia. As notas eram baixas, seu cansaço não o permitia ter um bom desempenho, e por conta de outros milhares de problemas próprios, ele nem sempre estava disposto a ter que ouvir sobre fórmulas matemáticas e histórias sobre pessoas que haviam morrido há anos atrás. Yoongi também não era bem uma pessoa com muitos amigos. Talvez isso também envolvessem milhares de razões, mas talvez ele também só não quisesse arrastar mais gente para toda a sua bagunça. Assim como em quase todos os cantos e esquinas daquela cidade que não era sua, ele não sentia que tinha um espaço ali. E pra falar a verdade, quase ninguém ali sentia sua falta. Na maioria das vezes, ele parecia não se importar muito com isso. Mas em dias como aquele, isso o afetava de uma forma tão grande que ele muitas vezes não conseguia nem pensar em entrar naquele lugar. Não tinha espaço para ele ali. Mais um dia naquela pracinha fria e solitária talvez não faria diferença nenhuma para ninguém, assim como se ele estivesse lá dentro. Pelo menos ali, ele não tinha que fingir que fazia parte de algo. Estava sozinho e era isso, assim como estava de verdade. Não sabia se isso era uma escolha, mas se fosse, talvez não fosse tão ruim como parecesse. Assim como poderia ser algo que ele iria se arrepender muito tempo depois. Não sabia de nada. Ele gostaria de pelo menos saber alguma coisa, por menor que fosse.
Olhava para o pequeno e antigo celular para ver as horas. Faltavam ainda quase vinte minutos para que ele pudesse voltar ao dormitório e ter que fingir para seu amigo que tinha assistido mais um dia de aula e que talvez pudesse ter dormido, sem querer, em todas elas. Quer dizer, ele confiava nele para admitir que não estava nem conseguindo entrar no colégio fazia alguns dias, mas ele não queria ter essa conversa com ele agora. Namjoon sabia do seu histórico, sabia que isso poderia significar muito mais do que uma simples falta de interesse, mas ele simplesmente queria se convencer que era só isso, pelo menos naquele momento. Precisava de um tempo. Porém, não era apenas isso que o impedia de entrar. Grande parte era porque ele estava tão nervoso pela probabilidade de receber uma ligação específica, que ele não conseguiria nem ao menos tentar prestar atenção em alguma aula. Nem mesmo o cansaço o deixava se distrair da possibilidade de receber essa ligação que poderia dar início a grandes coisas em sua vida. Mesmo que essa ligação tenha sido prometida há dias atrás. Yoongi teve a oportunidade de mostrar umas das suas músicas para um grande produtor que havia assinado um contrato com um velho amigo, há alguns meses atrás. Apesar de todo o estardalhaço, ele pôde, por esse amigo, entregar a ele um pequeno CD contendo algumas faixas que ele havia pensado em alguns momentos como aquele, no banco daquela pracinha. Apesar de toda a impossibilidade de um produtor de grande renome ao menos considerar gravar alguma faixa feita por ele, o mesmo garantiu com um sorriso amarelo e ilusório que ligaria se chegasse a se interessar por alguma coisa mínima que fosse. Ele, de certo, sabia que se o seu celular tocasse, no máximo seria sua mãe preocupada se ele estaria comendo direito. Seria tolice acreditar em algo diferente naquele momento. E quanto mais tempo ele passava encarando seu celular velho e arranhado, mais se dava conta disso. Um dia ele havia lido em algum lugar que talvez se tornar adulto significasse deixar de lado os sonhos de criança. Talvez era isso que ele deveria fazer, crescer. Ou talvez amanhã alguma outra oportunidade melhor poderia surgir. Yoongi suspirou alto. Sua cabeça estava tão cheia de “talvez” que provavelmente perdera toda e qualquer certeza em qualquer coisa que já teve em sua vida. O que ele mais odiava de todo esse mar de chances aleatórias era que por causa disso ele não conseguia fazer nada que o tirasse dali. Era como um beco sem saída. Como um daqueles momentos da vida. Minutos depois, algumas pessoas começaram a sair dos prédios à sua frente. Algumas em grupos, animadas e sorridentes, planejando dias de estudos com os amigos para as provas finais e imaginando como estariam eles em alguns meses depois, quando acabado o ensino médio. Naquele momento, Yoongi sentiu inveja. Queria poder estar junto a eles com o sorriso aberto e positivo sobre o que seria de sua vida. A maioria das pessoas ali provavelmente teriam chances melhores do que ele. E ele até poderia ter a mesma chance que eles, talvez pudesse ser um arquiteto e convidar todos os seus amigos de sala para a inauguração de seu primeiro prédio, mas ali estava ele, sentado mais uma vez no banco do parque frio e solitário, confiando nas chances que o mundo daria para que seu sonho impossível desse certo. O sonho que talvez o colocaria no maior palco da Coréia, com milhares de pessoas cantando suas músicas, ou em um lugar pior do que estava naquele momento, mas isso ele não queria nem imaginar. Deveria ter entrado, pensou, enquanto fechava os olhos. Talvez não teria feito diferença nenhuma, mas talvez ele não se sentiria daquele jeito. Guardou o celular no bolso do moletom e levantou-se enquanto pegava a sua mochila do chão. Enquanto dava seus primeiros passos, em meio a vários pensamentos e reflexões, Yoongi lembrara da vez que o perguntaram há alguns anos do porquê dele ainda continuar perseguindo um sonho como aquele. Ele não pode deixar de rir da resposta que dera. “Porque talvez possa dar certo.”
Notas finais
Qualquer erro, dica, podem falar viu? ♡
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