IV

3 Hoseok


Notas iniciais
talvez seja um pouco angst....... desculpa desde já...

O som do relógio ao passar dos segundos soava cada vez mais distante e abstrato. Sentado em sua cama, Hoseok tinha consciência de que já deveria ter saído, mas ao mesmo tempo, achava cada vez mais motivos para permanecer. Não que ele não quisesse ir, pelo contrário, ele amava se apresentar. Mas quanto tinha que se apresentar em competições, ele já não tinha tanta certeza disso. Odiava o sentimento que vinha com elas, como se qualquer falha que cometesse pudesse significar o fim de tudo. Talvez as derrotas não fossem assim tão drásticas na realidade, mas as vitórias com certeza trariam coisas boas. Principalmente em competições como essa, onde algum olheiros ou caça-talentos famoso sempre está presente, atento à cada apresentação, tentando achar o próximo prodígio do país. Essa mistura de sentimentos e expectativas o deixava tão nervoso que se, em teoria, ele pudesse evitar de alguma maneira, ele evitaria. Porém na prática, deixar tudo pra trás seria algo que ele nunca faria, afinal.

Pelo menos ele estava grato por seu pai não estar em casa naquele momento, porque aí sim, mesmo se quisesse ir, ele provavelmente não iria. Ou pelo menos não iria sem ouvir uns bons minutos de palavras negativas que, querendo ou não, acabavam o prejudicando. Além disso, ele teria uma prova no dia seguinte, e seu pai já o havia avisado há algumas semanas que se ele não tirasse uma boa nota, seria o fim dele com a dança; prova essa que ele nem mesmo teve tempo de estudar, pois estava ocupado ensaiando para essa competição.

Bem, talvez becos sem saída como esses, poderiam fazê-lo a considerar, na prática, fugir de tudo.

— Filho?

Uma batida na porta o fez perder de vista o ponto vazio que ele encarava perto da estante. Sua mãe entrara no quarto, com cuidado e curiosa. Sua voz soava calma como sempre e sua presença de alguma forma aliviou o peso do quarto. Ela, com um sorriso, deu alguns passos e sentou-se ao lado do filho, abraçando-o, ciente das suas preocupações.

— Pensei que já deveria ter ido há uns dez minutos. – Falou ela, passando o braço pelo ombro de Hoseok, que pareceu encolher com o que ela havia falado.

— Deveria… – ele falara com um suspiro – mas eu… estou um pouco nervoso. Eu preciso vencer hoje e vão ter várias pessoas melhores do que eu. Fora que vão estar lá algumas pessoas importantes que podem dar algumas oportunidades para os três melhores… e ficar entre os três talvez não vai ser tão fácil assim

— Nunca é fácil, na verdade. – ela dizia com a voz doce e tranquila. – E você é bom nisso filho, o melhor! – Hoseok riu. Sua mãe sempre o dizia isso – Com certeza você vai ficar entre os três melhores. Mas mesmo que você não vença, o que tiver de acontecer, vai acontecer. Pelo menos é nisso que eu acredito.

Hoseok ficara em silêncio, considerando o que sua mãe havia dito.

— Eu não acho que eu acredito nisso. – concluiu, depois de alguns segundos – De qualquer forma, eu nem sei se eu deveria ir. Além de eu ter perdido nas últimas duas vezes competindo com pessoas não tão difíceis como as de hoje, amanhã eu tenho essa prova super importante e se eu fosse um bom filho, como o pai diz, eu deveria estar estudando agora, e não sonhando acordado... e até mesmo nisso, falhando.

— Ei, porque o meu marido tomou o lugar do meu filho? Onde ele está? Cadê o Hoseok que está sempre positivo sobre tudo e que ama dançar?

Suspirou. Esse pensamento realmente não era algo que ele teria normalmente, ela estava certa.. Entretanto, para ele, existiam momentos em que ele achava que seria mais fácil se fossem. Às vezes, ter esperanças de que tudo pode dar certo até mesmo em situações impossíveis é um tanto cansativo e doloroso.

— Eu só… acho que ele pode ter razão, sabe? – continuou – Mesmo que eu ame isso, talvez, não me leve a lugar algum. E… se eu for e tirar uma nota baixa amanhã, ele vai ficar mais dois meses sem olhar pra mim. Na verdade, talvez eu nem queira que ele olhe, já que toda vez que ele olha pra mim ele deixa claro em sua expressão o quão desapontado ele é comigo...

Apesar de tudo, Hoseok admirava o seu pai. Ele podia ser rígido, mas desde criança Hoseok sempre se esforçara para dá-lo orgulho. Quando pequeno, cada vez que seu pai oferecia sorrisos e aplaudia o filho por alguma mini apresentação, ele se sentia feliz. Em certo momento, tudo o que ele fazia o deixava ansioso para que seu pai, o homem que ele tanto admirava, pudesse oferecê-lo o mesmo sorriso. Não entendeu como que, de repente, os aplausos viraram uma testa franzida e o sorriso transformou-se em alguma fala em reprovação.

— Pra mim, você não é uma decepção, é um orgulho. – sua mãe continuou, aproximando-o para mais perto de si – Você é muito corajoso por seguir seus sonhos, e eu tenho muito orgulho disso, Hoseok. Seu pai… ele só teme que você se machuque. Ele também já foi muito sonhador que nem você, mas pra ele não deu muito certo. Ele não tem o melhor jeito de demonstrar isso, mas ele só está tentando te proteger.

Mesmo antes dela lhe dizer isso, no fundo, Hoseok sabia e entendia. Afinal, ele também tinha medo, e já havia se machucado algumas vezes por causa do seu sonho. Todos os dias, na verdade, ele tinha que lidar com milhares de pensamentos ruins relacionados à ele. Mas talvez muita coisa melhoraria se ele pudesse ao menos ter um pouco mais de compreensão de seu pai. Se você não acredita em si mesmo, ele pensava, você tem seus pais para acreditar por você. E quando você não tem nem isso? Hoseok suspirou novamente.

Sua mãe o observou por mais algum tempo. Mas em um impulso, levantou-se, pegou uma bolsa relativamente pesada que estava numa cadeira à sua direita e colocou-a nos pés de Hoseok.

— Apesar de eu também temer por você, – ela falou, enquanto mantinha suas mãos na cintura – eu quero que você dê os seus próprios passos e tente. Por isso você precisa ir.

Ele estava prestes a falar alguma coisa, mas ela o interrompeu.

— Quanto à prova, vão vir outras não vão? Toda hora tem prova e coisas pra estudar nessas escolas. – Hoseok riu da forma de como sua mãe havia falado essa última frase – Quanto à competição, podem até vir outras, mas como você falou, essa é importante. As pessoas que estarão lá… quem sabe quando elas vão estar lá novamente? E mesmo que você perca, muitas coisas podem acontecer. É o que eu digo, o que tiver de acontecer, vai acontecer. O importante é estar lá. – Ela pegou nos braços do filho e os puxou para levantá-lo da cama. Hoseok não podia deixar de rir da atitude da mãe – Vamos, você precisa ir, ou vai chegar atrasado.

Hoseok levantou-se e a encarou orgulhoso. Ele se sentia muito sortudo por ter uma pessoa como ela em sua vida.

— O que eu seria sem a senhora? – Disse ele, em um abraço forte e animado que a pegou de surpresa.

Ela nada respondeu, apenas abraçou o filho de volta. Ao se afastarem, ela mais uma vez pegou a bolsa do chão e o entregou, empurrando-o para a porta entre risos.

Hoseok era realmente muito grato.

Passava das onze horas da noite quando a porta da frente finalmente abria para revelar a chegada de Hoseok. O sorriso largo que ele trazia consigo logo se desmanchou quando a primeira figura que ele encontrara na sala fora a de seu pai, visivelmente nada satisfeito, segurando algo que parecia um boletim que havia tirado de sua bolsa largada logo ao lado no chão. À essa altura Hoseok não sentia mais necessariamente medo do pai. Depois de um tempo, medo começou a ser considerado um paraíso se fosse comparado com todo o resto que ele sentia quando esse tipo de coisa acontecia.

De repente ele nem mesmo se lembrava do porque estava rindo há segundos atrás.

Depois de esperar que ele falasse alguma coisa e não ouvindo nada até ali, ele o cumprimentou com cautela, porém recebera apenas o silêncio e o olhar fixo de seu pai que analisava pensativo cada centímetro seu. Demorou mais algum tempo para que o silêncio fosse quebrado.

— Pai… – Hoseok começou, tentando de alguma forma já ajeitar o que poderia vir.

— Sabe Hoseok, – ele iniciou, aparentemente calmo, mas mantendo o tom sério – apesar de achar que toda essa coisa de dança que você insiste em continuar, uma perda de tempo, eu pelo menos espero que, como um bom filho, você possa ao menos tirar algumas boas notas. Não, talvez até mesmo notas regulares, que pelo menos permitam que você passe de ano. Mas isso é algo que eu sinceramente não estou vendo aqui. – Ele levantou-se e apontou para o papel em sua mão.

Hoseok pensou em falar alguma coisa, mas desistiu no meio do caminho e apenas deixou um suspiro passar enquanto abaixava sua cabeça.

— Você sabe muito bem que eu espero que você seja muito mais do que eu e sua mãe nos tornamos. – continuou ele, levantando um pouco a voz – Não é isso – ele enfatizava apontando para o boletim – que eu quero que você seja. Nós queremos que você seja o melhor, filho, e você não vai conseguir isso chegando atrasado na escola, tirando notas baixas ou faltando aulas pra ficar dançando. – Ele falara essa última palavra com certo deboche.

— Acontece que eu sou o melhor, pai. – Hoseok falou, calmo e com um sorriso amargo – Só não no que você quer que eu seja. E eu não vou ser o que você quer que eu seja.

Os dois continuaram em silêncio até Hoseok seguir em direção ao seu quarto, sem falar mais nada. Ele detestava discutir com seu pai, e sabia que, se continuasse, as coisas poderiam ficar piores. Estava cansado, sua cabeça começava a doer e ele só queria descansar por pelo menos alguns minutos porque provavelmente nem dormiria, tentando estudar para a prova do dia seguinte. Não sabia se estava triste ou com raiva, ou os dois. A raiva provavelmente era o que mais se sobressaía porque Hoseok já estava cansado se ser tratado por seu pai daquele jeito. Odiava como ele simplesmente jogava qualquer palavra, por mais ofensiva que fosse, só para se mostrar certo, como se isso não fosse o afetar por semanas, e como se ele mesmo já não tivesse conflitos e complexos demais que o deixavam com insônia e ansiedade por dias, coisas que provavelmente ninguém notava por conta da sua personalidade sempre brilhante. E odiava como o próprio pai não percebia isso, e nem mesmo considerava, porque além de ele ter essa ideia de que jovens como ele não tinham com o que se preocupar, ele sempre queria provar que tinha a razão.

— Se você for continuar com a dança, – seu pai cortara o silêncio, fazendo-o parar na porta de seu quarto, sem se virar – se continuar com essa atitude, com as notas ruins, e toda essa fantasia de que a vida é um musical, então eu acho melhor encontrar outro lugar para morar.

O sensação que Hoseok sentira logo em seguida fora como se um prédio que estava há muito tempo ameaçando cair, houvesse finalmente desabado com toda força em cima dele. Apesar de todas as brigas muito piores que já tiveram por causa do mesmo assunto, seu pai nunca houvera falado algo do tipo para ele. Mesmo que ele quisesse se virar e falar para ele todas as coisas que estavam presas em sua garganta desde muito tempo, Hoseok fechou os olhos e respirou fundo. Pensou em responder um “tudo bem” ou algo do tipo, ou até mesmo se virar e começar a gritar, mas as palavras se perderam no meio e ele apenas entrou no quarto em silêncio. Ao fechar a porta, todos os sentimentos mistos e confusos que se acumularam durante o dia e que se calaram no outro lado da porta começaram a se condensar e a formar juntos algo como uma grande e escura nuvem de chuva.

E uma grande tempestade começou.

Sentado em uma cadeira próximo à janela de seu quarto, Hoseok encarava o vazio novamente, dessa vez em algum ponto escuro da rua logo à frente de sua casa. Não ouvira o bater em sua porta, viu apenas de relance a sombra de uma figura que parecia com a de sua mãe entrar no quarto. Não olhou de imediato, tentou continuar encarando o ponto do vazio por mais algum tempo.

— Eu soube que vocês discutiram de novo… – ela falava com a voz pesada como sempre ficava quando episódios do tipo aconteciam – Eu não estava aqui filho, me desculpe. Se eu estivesse, eu com certeza não deixaria ele falar qualquer coisa com você novamente.

— Eu venci. – Hoseok a interrompeu, e falava com um fraco sorriso no canto de sua boca, dessa vez olhando pra sua mãe. – Fiquei em primeiro lugar.

A expressão dela logo suavizou-se e abriu-se em um grande e animado sorriso. Todo o seu corpo respondeu com alegria o que havia ouvido de seu filho.

— Primeiro lugar? De todos aqueles vinte?!

Hoseok concordava com a cabeça. Apesar de ressentido, ele se permitiu sorrir mais um pouquinho por conta da empolgação da mãe.

Ela juntou as mãos próximo ao rosto e permaneceu rindo por alguns momentos, genuinamente feliz. Ela mesmo pôde ver o quanto ele havia se esforçado para esse dia e viu o quanto ele havia sofrido com dores tanto físicas como emocionais naquelas últimas semanas. Sabia que ele havia esperado aquilo por dias e que ele definitivamente merecia vencer.

Porém ao olhar novamente pra ele, percebera que o mesmo não parecia tão feliz. E entendia o porquê. Hoseok estava feliz, mas também estava exausto. Sabia que esse cansaço não era só por conta da competição ou das semanas de ensaio, mas que a maior parte dele poderia ser por conta da última discussão que ele tivera com o pai.

— Você não deveria estar assim tão triste… – ela dizia, se aproximando dele – Deveríamos comemorar.

— E também… – ele continuou, desviando o olhar por alguns segundos, ainda com um leve sorriso – eu recebi uma grande proposta para uma escola de dança muito respeitada. Só que para isso eu teria que ir para Seul. O que viria bem a calhar, considerando o fato de que meu pai provavelmente me expulsou de casa. – Hoseok falou essa última parte com um certo humor fingido, apesar de sua expressão cansada.

Sua mãe, que estava quase sorrindo novamente, franziu a testa com a última frase. Hoseok tentara ser sarcástico sobre ser expulso de casa, mas ela sabia o quão difícil aquilo estaria sendo para ele.

Suspirou. Não estava surpresa, na verdade sabia que o marido poderia vir com algo do tipo há muito tempo, mas não deixava de se sentir triste por isso. Por conta disso, por um momento considerou que Hoseok sair dali talvez poderia ser a melhor escolha para ele. Não sabia se aguentaria vê-lo por mais tempo com aquela mesma expressão de cansaço, olhando para o vazio e fingindo estar bem para não preocupá-la. Não aguentava mais ver o próprio filho se sentir tão mal na própria casa.

Ela se aproximou mais um pouco e sentou-se na beira da cama, de frente para ele, mas não o encarando. Assim como Hoseok em alguns segundos atrás, ela parecia contemplar algum ponto do vazio no chão, refletindo em algo. Um grande silêncio se formou entre os dois.

— Você deveria ir. – ela disse depois de um tempo, ainda com o olhar vazio, como se estivesse pensando alto.

Hoseok permanecia em silêncio, esperando que ela o olhasse novamente.

— Deveria ir. – repetiu ela, dessa vez o encarando com um sorriso – É uma chance que você não deve perder.

— Meu pai… – Hoseok iniciou.

— Mais um motivo para você ir. – Ela se aproximou, pegando nas mãos do filho e o fitando nos olhos. – Vá, e nem pense em olhar para trás.

Hoseok acariciou as mãos de sua mãe e as olhou com um leve sorriso.

— E quando você for, – ela continuou – eu quero que vá com a maior certeza do mundo de que você vai ser grande. Que você vai conseguir realizar tudo o que você sonha. Não duvide nem por um segundo disso. Não deixe ninguém, nem mesmo seu pai, ou até mesmo eu, te fazer duvidar disso. E se, por algum motivo, que eu não acredito que irá acontecer, tudo der errado, não se preocupe. – ela então apertou as mãos do filho com mais força, porém com carinho – Eu vou sempre estar aqui pra te ajudar. Eu acredito em você. Afinal, você é o melhor.

Hoseok sorriu. O maior sorriso que podia. Ele sabia que não seria fácil e que milhares de coisas poderiam dar errado, mas ele ao menos tinha que tentar, porque pelo menos ela acreditava que ele conseguiria. Se ela o dava tanto crédito assim, então ele deveria começar a acreditar em si mesmo também, mesmo que tivesse que sair de casa, brigado com seu pai, com o peso do mundo em suas costas. Ele se esforçaria para dar orgulho tanto para ela, quanto para ele, e mostrá-lo que ele estava errado. E quem sabe, um dia ele veria aquele sorriso e aplausos do pai mais uma vez.

Seu maior sonho, não se resumia apenas em ser um artista. Ele só queria dar orgulho a seus pais, independentemente de como fosse. Apesar de sentir que não era o melhor filho naquele momento, ele tentaria seu máximo. E ele era eternamente grato por ter alguém que acreditava que ele não só já era um orgulho, como ele iria conseguir ser muito mais.

Pouco a pouco, a tempestade se desfazia, e alguns tímidos, mas quentes raios de sol, tomavam o seu lugar no céu

Notas finais
claramente inspirado na letra de MAMA... só que com um pouquinho de angst... desculpa de novo kk aliás, pra tirar esse clima triste, é recomendável ouvir MAMA em seguida ;)