IV

1 Namjoon


Notas iniciais
Eu realmente espero que gostem.

Tentou se convencer que não, mas talvez estivesse um pouco nervoso. Ou talvez muito. Não sabia se por ter sido chamado para ir até a sala da diretoria, ou por causa dos murmúrios e olhares que seus colegas de classe ofereceram desde o momento em que fora convocado e que permaneceram enquanto ele andava em direção à porta, com as pernas trêmulas. Todos sabiam que se fossem chamados pela diretoria no meio de uma aula, provavelmente estariam com algum problema grave, já que eles não gostavam de privar os alunos de estudar por nem mesmo um segundo sequer. Para alguns, parecia inacreditável que Kim Namjoon, um dos melhores alunos da escola inteira, pudesse estar com problemas com a diretoria, e estes demonstravam sua surpresa sem cerimônia alguma enquanto tapavam suas bocas abertas com um grande e dramático suspiro. Já para outros, aquilo parecia ser algo que aconteceria inevitavelmente, tanto que ele quase pôde ouvir um “finalmente” vindo do fundo da sala.

Enquanto caminhava nos corredores, seguindo um dos secretários da escola que parecia estar distraído demais em uma calorosa discussão no telefone, ele não sabia se estava mais preocupado com o que a diretora poderia querer falar com ele ou se ele ainda seria o assunto dos murmúrios da sala quando voltasse. Sabia que, no momento, o professor provavelmente já havia acabado com qualquer tipo de barulho, já que em classes nível A, nenhum minuto podia ser perdido com fofocas. Mas com certeza, mais alguns boatos sobre ele estavam sendo criados em papeizinhos. Provavelmente, a razão dele estar indo para a sala da diretora naquele momento fosse um desses boatos que estavam criando sobre ele ultimamente. Suspirou de frustração.

‒ Aqui está ele, diretora. ‒ o secretário abrira a porta de uma sala no fim do corredor e falou rapidamente, saindo após receber um aceno como resposta e logo voltando a gritar no telefone.

A senhora, sentada à sua mesa, estava ocupada organizando diversos papéis. Parecia tão assustadora como sempre.

‒ Entre e sente-se. ‒ ela disse, terminando de assinar alguns documentos apenas para o observar com as mãos cruzadas sobre a mesa.

Sentou-se. O seu coração começava a contrariar a sua vontade de não ficar nervoso, e batia cada vez mais rápido. Não ajudava com o fato da diretora o encarar com aquela cara séria e um tanto intimidante, como se estivesse buscando alguma fraqueza no fundo de sua alma. Confuso, ele não sabia se a olhava de volta ou se apenas permanecia com a cabeça baixa encarando as mãos. Escolheu a primeira alternativa. Ou quase.

‒ A senhora mandou me chamar? ‒ disse hesitante, engolindo seco logo depois ‒ Aconteceu alguma coisa?

‒ Sabe, Namjoon-ssi, ‒ ela iniciou depois de um tempo, ignorando a pergunta ‒ eu nunca achei que um dia eu o chamaria aqui em minha sala para ter esse tipo de conversa.

Ela falava pausadamente, com sua típica voz rouca que todos sabiam que era devido ao cigarro, hábito no qual ela falhamente tentava esconder. Gostava de fingir que assim como cobrava um comportamento perfeito e sem prejuízo dos alunos, agia exemplarmente como tal. Ele permanecia em silêncio, desviando seus olhos vez ou outra para algum objeto aleatório na mesa, tentando distrair-se do iminente frio na barriga.

‒ Alguns professores vieram até mim fazer algumas… reclamações acerca do seu comportamento nos últimos meses.

Namjoon franziu a testa, como se não estivesse compreendendo o que ela estava falando. Porém o seu coração voltara a acelerar justamente por saber do que se tratava tudo aquilo.

‒ Foi relatado que você ultimamente anda chegando atrasado, não presta atenção nas aulas, dorme em sala de aula, e que tudo isso vêm sido refletido nas suas notas nas últimas provas. O que é bastante impressionante para mim, ‒ ela tirou os óculos quase transparentes e o colocou com cuidado na mesa ‒ principalmente vindo de um aluno como você que, sem exageros da minha parte, obteve sempre um dos melhores resultados de nossa escola. Você é um dos nossos prodígios, Namjoon. Eu me preocupo o que pode ter acontecido para que você mudasse tanto.

Ele suspirou discretamente. Se não tivesse parado a si mesmo talvez teria até mesmo rido. Não por todos aqueles títulos parecerem engraçados, mas por, de certa forma, parecer triste. Triste de como ele era resumido àquilo desde que entrara ali. O quão engraçado era parecer que eles se importavam com ele quando na verdade só se importavam com o que os seus resultados ruins poderia causar para a reputação daquele lugar.

‒ Nós, por conta da preocupação que temos com você, tomamos a liberdade de investigar o seu armário e encontramos isso. ‒ ela tirou um pequeno caderno da sua gaveta à direita e o colocou na mesa.

Namjoon, apesar de toda a cautela, não conseguia esconder o quão incomodado havia ficado com o fato de terem invadido seu armário e sua privacidade daquele jeito.

‒ Vocês mexeram no meu ármario? ‒ manifestou, enquanto encarava o caderno tão familiar que pousava em cima da mesa.

‒ Nós encontramos nesse caderno algumas...letras, rimas, ou algo parecido, com uma certa linguagem que nós… não consideramos ser adequada.

‒ É um objeto pessoal. Não acho que precise se adequar ao que vocês acham melhor. ‒ falou em um impulso, antes mesmo que pudesse perceber. E não se arrependeu de ter dito, quando ouviu a si mesmo.

A diretora calou-se por alguns segundos, como se estivesse imaginando como utilizar melhor as palavras para respondê-lo.

‒ A questão é, Namjoon-ssi, que eu e todos nós da diretoria, nos preocupamos com os nossos alunos. Nos preocupamos e zelamos para que vocês não acabem desperdiçando sua inteligência e capacidade com coisas que não parecem tão promissoras.

Dessa vez ele não conteve um sorriso que formou-se com sarcasmo na curva da sua boca.

‒ Além do caderno, ‒ continuou ela ‒ soubemos, por alguns outros alunos, que você anda frequentando certos lugares impróprios para jovens da sua idade. Lugares onde drogas, bebidas e outras coisas ilícitas são liberadas durante toda a noite e madrugada, e isso é o que certamente mais me preocupa, Namjoon.

‒ Então vocês também estão me investigando…

‒ Por que você está frequentando lugares como esse? Eu, pessoalmente me preocupo não com o aluno, mas com você, Kim Namjoon. Por acaso está passando por algum problema?

Por um momento ele acreditou que ela realmente estava se preocupando com ele. Que aquilo não era só fachada, e sim que ele poderia ser um pouco mais sincero. Que ela poderia até mesmo ajudá-lo a entender a si mesmo. Porque ele estava tão confuso quanto ela. Confuso com o que queria, com o que faria. Mas provavelmente alguém como ela não entenderia.

‒ Olha, apesar de eu achar que o que acontece fora dessa escola interessa somente a mim, e me desculpe por parecer rude dizer isso, eu vou esclarecer que não, eu não estou com nenhum problema.‒ ele, dessa vez, falou olhando bem nos seus olhos, ignorando o quão intimidantes eles eram ‒ É só que… eu e uns amigos temos um grupo de.. música, digamos assim, e nós nos apresentamos em algumas casas de show como essas. Um grupo de...rap, pra ser mais específico. Eu uso esse caderno ‒ indicou levemente com a cabeça em direção à mesa ‒ para escrever algumas letras. Às vezes essas apresentações terminam muito tarde e por isso eu chego atrasado alguns dias ou até durmo em sala de aula… Mas eu garanto que eu não estou bebendo ou usando drogas, como a senhora deve achar que eu estou…

Pra falar a verdade, Namjoon chegava a beber algumas vezes, mas não iria dizer isso. Quem não bebia na idade dele? Seria inocência da diretora achar que não, e por isso ele achou que, de certa forma, ela não iria acreditar nele, mesmo que tentasse.

‒ Grupo de...rap? ‒ ela repetia, definitivamente o julgando. ‒ Namjoon-ssi… você sabe que isso não vai te levar algum, não é?

Suspirou. Permaneceu calado por alguns segundos, olhando para o caderno em cima da mesa, mas com a mente muito distante dali. Como ele pensara, ela não entenderia.

‒ Eu… gosto de escrever rap. ‒ falou depois de algum tempo, ainda com o olhar distante ‒ Gosto de me apresentar. Gosto de cantar com meus amigos, me sinto bem fazendo isso. Um tempo atrás eu passei por alguns problemas e a música… ela me deu inspiração para descobrir coisas sobre mim que eu nem mesmo sabia que era ou podia fazer. Eu gosto dessa sensação, de ser eu mesmo. E talvez, quem sabe, eu até queira sentir isso pelo resto da minha vida. Quem não iria querer? Eu diria que… escrever músicas, me apresentar… talvez esse seja o sonho que eu nunca tinha encontrado…e eu não acho que é errado seguir os seus sonhos depois de ter passado tanto tempo sem saber ao certo o que fazer...

Olhou para baixo e suspirou. Apesar de dizer isso, se sentia ridículo. Quase pôde ouvir os murmúrios e risos da escola inteira. O garoto prodígio queria ser um músico.

De certa forma era mesmo engraçado, até ele riria.

‒ Kim Namjoon… ‒ a diretora iniciara, depois de alguns segundos em silêncio, o avaliando. Falava dessa vez mais cautelosa ainda ‒ eu entendo. Quando somos jovens, estamos cheios de sonhos e desejos impossíveis que muitas vezes construímos por ver muita ficção. Mas na vida adulta, a realidade se mostra muito mais dura. Nós precisamos ser muito mais… responsáveis por nossas escolhas, e cada minuto é precioso. O que nós fazemos, nessa escola, é tentar ajudar ao máximo os nossos alunos a terem um futuro bom e brilhante, que dêem orgulho aos seus pais.. E que vocês não tenham que se sentir perdidos ou em condições ruins, como a maioria de nós já experimentamos na vida adulta. Você, Namjoon-ssi, tem um grande potencial para ser um homem de sucesso. É inteligente, tem as melhores notas, é alguém de bom caráter e eu acredito muito que um dia você provavelmente vai ser um dos nossos maiores orgulhos. Mas para isso, você precisa sacrificar algumas coisas. Precisa deixar de lado esses sonhos...tolos, que provavelmente não vão te levar a lugar algum. Você tem uma grande oportunidade aqui. Pode ser um homem bem sucedido e trazer uma boa vida à sua família. Não jogue isso fora por um sonho, uma vontade passageira… Você é jovem. Ainda vai crescer e notar que a vida é muito mais do que isso. Ande pelo caminho mais certo, aproveite a inteligência que você tem. Acredite, eu e todos nós dessa escola, só queremos seu bem.

Ao ouvir isso, Namjoon pensara que se sentiria triste. Mas não conseguia sentir nada mais além de raiva. Não suportava mais o quão prejudicial era esse tipo de pensamento e quantas pessoas ali estavam abdicando de suas próprias vidas para viver o que os outros esperavam que vivessem. Por causa desse pensamento, de pessoas como a diretora, ele não queria ser só mais um adulto bem sucedido por fora e sem esperança por dentro. Não queria ser alguém que seguisse sempre o caminho mais fácil e vivesse a vida inteira infeliz. Apesar de tolo, tinha o sonho de que poderia fazer da sua vida muito mais do que isso. Não queria ser o que os outros quisessem que ele fosse, queria apenas ser ele mesmo. Se isso fosse apenas um pensamento adolescente e bobo, ele preferiria ser jovem para sempre.

‒ Não, diretora, a senhora não dá a mínima pra mim ou para ninguém dessa escola. Você se preocupa apenas com o status, com o dinheiro. Porque quanto mais alunos bem sucedidos e ricos saírem da sua escola, mais pais virão matricular seus filhos aqui. Mal sabem eles que vocês, que tanto promovem um apoio e futuro para os jovens, andam por aí desmotivando eles a seguirem os próprios objetivos. Tudo o que vocês querem é moldar toda uma geração para as suas vontades, para fazer e conquistar tudo o que vocês não conseguiram. E a minha tão estimada inteligência, como a senhora tanto citou, não me permite seguir esse padrão. Eu não vou me permitir viver pelo que você, a escola, ou o país queiram pra mim. Nunca pensou que, talvez, tudo o que nós queremos é viver nossas próprias vidas? Que tudo o que esse… sistema faz é nos privar? Que tudo o queremos é seguir o nosso próprio caminho? Falar esse tipo de coisa para mim não é querer meu bem. É me guiar a ter uma vida de fachada e fingir que sou feliz por ter tudo o que eu, que no caso aqui é vocês, sempre quiseram. Eu posso estar confuso ou até mesmo enganado sobre o que eu quero da vida, mas eu sei que o que eu menos quero é viver assim.

Namjoon realmente quis ter falado algo do tipo. Quis ter falado isso e muito mais. Quis ter gritado para todos os professores e todos os alunos que, assim como ele, sonhavam com algo muito mais além disso. Como em um filme, quis que tivesse derrubado todos os papéis da mesa da diretora no chão e ser aplaudido por uma multidão de jovens que se sentissem representados por ele, enquanto a câmera foca em sua pose de herói.

Mas não disse.

Aquela resposta talvez teria sido dita por alguma outra versão sua em algum mundo paralelo na qual ele fosse mais corajoso e ousado para tanto.

Nessa, ele permanecia olhando as próprias mãos e cerrando os dentes, contendo tudo aquilo dentro de si.

Talvez não valesse a pena.

‒ Entendi. ‒ respondeu, ao invés ‒ não vai acontecer novamente.

Para a surpresa da diretora, ele se levantou, pegou o caderno da mesa e a olhou, dessa vez com os olhos firmes.

‒ Posso ir?

Apesar de ainda querer continuar a conversa, a diretora deu um pequeno aceno, e logo depois ele andou em direção à porta, pensativo.

Ela poderia estar certa sobre muitas coisas, mas também poderia estar errada. De tantas músicas que Namjoon já tinha ouvido, ele tinha essa visão quase fantasiosa de sonhos e sobre segui-los, que se fazia tão presente nas letras dos seus cantores favoritos. Sabia que poderiam ser só fantasias. Sabia que ele poderia ser apenas mais um que acreditou demais, que tudo podia dar errado. Que se seguisse o caminho que pessoas como a diretora quisessem que ele seguisse, poderia ser muito mais do que um simples sonhador. Poderia ter mais dinheiro, um bom emprego, e um grande renome. Mas sabia que, para ele, nada valeria a pena se ele não estivesse fazendo o que sonha, o que gosta. Essa visão poderia ser ridícula e clichê, mas tinha ideia de que pelo menos isso era o que ele queria levar para a vida adulta. Queria se arriscar, tentar o que fosse, e seguir o seu fantasioso e ridículo sonho. Mesmo que nada fosse garantido. E se, em um futuro distante, ele se tornasse apenas mais um perdedor, sentiria mais orgulho de si mesmo do que se estivesse vivendo uma vida falsa.

‒ Eu realmente espero que você tenha um futuro cheio de sucessos, Namjoon-ssi. ‒ disse a diretora, quando ele já estava quase na porta.

Olhou para o caderno em sua mão e riu da frase ironicamente escrita no canto da capa.

Seja você

‒ Eu também. ‒ Falou sem se virar, e então saiu da sala.

Notas finais
alguns espaçamentos podem parecer estranhos então.... me perdoem....