ILHA DOS DESEJOS

7 Capítulo 7 — SOB AS RUÍNAS


Sarah acordou às seis e vinte com alguém batendo à porta.

Abriu os olhos devagar.

Por alguns segundos, não soube se o som fazia parte do sonho.

Três batidas novamente.

— Sarah?

Jacob.

Ela sentou-se imediatamente.

— Um minuto!

Olhou para si mesma.

Camiseta larga.

Short curto.

Cabelos completamente desarrumados.

— Perfeito.

Tentou prender os longos fios negros, desistiu no meio do processo e caminhou até a porta.

Abriu apenas parcialmente.

Jacob estava do outro lado.

Já vestido.

Calça clara, camiseta preta e aquela expressão de homem que provavelmente estava acordado havia horas.

— Bom dia.

Sarah estreitou os olhos.

— Isso é discutível.

Jacob olhou para ela.

Depois para seus cabelos.

Um sorriso apareceu.

— O quê?

— Nada.

— Jacob.

— Nunca tinha visto seu cabelo assim.

Sarah passou a mão pelos fios.

— Assim como?

— Parece que você brigou com ele durante a noite.

— E perdi.

Jacob riu.

— Preciso de você.

Sarah apoiou a cabeça na porta.

— Essa frase teria um efeito muito melhor depois das nove.

O sorriso dele desapareceu lentamente.

Os olhos escuros permaneceram sobre ela.

Sarah percebeu tarde demais a interpretação possível.

— Eu estava falando sobre dormir.

— Eu não disse nada.

— Mas pensou.

— Você observa demais.

Ela fechou os olhos.

— Vá embora.

Jacob riu novamente.

— Embry está chegando.

Sarah abriu os olhos.

Agora estava completamente desperta.

— Sobre a casa?

— Sim.

— Dê-me quinze minutos.

— Vinte.

— Por quê?

Jacob olhou novamente para os cabelos dela.

Sarah fechou a porta na cara dele.

Do corredor, ouviu a risada.

Vinte e três minutos depois, Sarah desceu.

Jacob estava na cozinha com Embry.

Havia café sobre a mesa.

E a carta.

Embry estava lendo.

Sarah percebeu imediatamente que ele não sabia da existência dela.

— Onde encontrou isso? — perguntou.

— Atrás de uma gaveta no quarto — respondeu Jacob.

Embry leu novamente.

— É a letra de Isabella.

— Eu sei.

— E ela escreveu isso na noite em que morreu?

— A data está no verso.

Embry virou a folha.

Ficou em silêncio.

Sarah serviu café.

— Jacob disse que você supervisionou a demolição da casa de hóspedes.

Embry assentiu.

— Sim.

— Foi demolida completamente?

— Acima do solo, sim.

Sarah olhou para Jacob.

Ele percebeu.

— E embaixo? — perguntou.

Embry franziu a testa.

— A fundação ficou.

Sarah pousou a xícara.

— Toda?

— Quase toda. Era concreto. Remover custaria tempo e dinheiro sem necessidade. Cobrimos com terra e vegetação.

Jacob aproximou-se da mesa.

— Havia porão?

— Não.

— Compartimento?

— Não que eu saiba.

Sarah pegou a planta.

— Aqui.

Apontou.

— O que é isso?

Embry inclinou-se.

Uma pequena área quadrada aparecia junto à cozinha.

— Depósito.

— Subterrâneo?

— Meio enterrado. A casa ficava num desnível.

Jacob olhou para Embry.

— Foi removido?

Ele demorou.

— Não lembro.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Então começamos por lá.

Embry olhou para os dois.

— Começamos?

— Sim — disseram Sarah e Jacob ao mesmo tempo.

Embry sorriu.

— Vocês já estão fazendo isso.

Sarah franziu a testa.

— Isso o quê?

— Nada.

Jacob apontou para a porta.

— Vá buscar ferramentas.

Embry começou a sair.

— Mandão.

— Funcionário.

— Ontem eu era amigo.

— Hoje preciso de uma pá.

Embry riu e desapareceu.

Sarah olhou para Jacob.

— Você está nervoso.

— Muito.

Ela aproximou-se.

— Quer mesmo fazer isso?

— Preciso.

— Então vamos.

O sol ainda não estava forte quando chegaram à praia norte.

Embry levava ferramentas.

Jacob carregava duas pás.

Sarah levava a planta.

Pararam diante de uma área coberta por vegetação baixa.

— Aqui — disse Embry.

Sarah olhou ao redor.

Era estranho imaginar uma casa naquele lugar.

O mar ficava a menos de cinquenta metros.

— Onde ficava a entrada?

Embry apontou.

— Ali.

Sarah caminhou lentamente.

Tentou reconstruir mentalmente a planta.

Sala.

Cozinha.

Corredor.

Depósito.

— Então precisamos ir uns quatro metros naquela direção.

Jacob a acompanhou.

— Tem certeza?

— Não.

— Excelente.

— Se quiser cavar a praia inteira, fique à vontade.

Embry riu.

— Eu realmente gosto dela.

— Você já disse — respondeu Jacob.

Sarah parou.

— Aqui.

Jacob olhou para o chão.

— Parece terra.

— Geralmente é assim que coisas enterradas funcionam.

— Engraçadinha.

Embry entregou uma pá.

— Boa sorte.

Jacob olhou para ele.

— Você também vai cavar.

— Eu supervisiono.

— Embry.

Cinco minutos depois, os três estavam trabalhando.

Quase uma hora se passou.

Nada.

Sarah estava suada, cansada e começando a considerar seriamente a possibilidade de ter interpretado a planta errado.

Jacob retirou a camiseta.

Ela tentou não olhar.

Tentou.

— Sarah.

Ela ergueu os olhos.

— O quê?

Jacob estava sorrindo.

— Você parou de cavar.

— Estou pensando.

— Olhando para meu peito?

Embry começou a rir.

Sarah apontou a pá para Jacob.

— Continue e eu enterro você no lugar da casa.

— Violenta.

— Extremamente.

Jacob voltou ao trabalho.

Sarah ouviu Embry murmurar:

— Três meses vão ser interessantes.

— Ouvi — disse ela.

— Era para ouvir.

Então a pá de Jacob bateu em alguma coisa.

Metal.

Todos pararam.

Jacob olhou para o chão.

Bateu novamente.

O som se repetiu.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Encontramos.

Começaram a retirar a terra.

Pouco a pouco, surgiu uma pequena tampa metálica.

Enferrujada.

Embry ficou sério.

— Eu não sabia disso.

Jacob ajoelhou-se.

— Tem fechadura.

Sarah aproximou-se.

Era uma pequena porta horizontal embutida no concreto.

— Pode ser apenas acesso hidráulico.

— Pode — disse Jacob.

Mas nenhum deles acreditava.

Embry buscou ferramentas.

Depois de alguns minutos, conseguiu romper a fechadura corroída.

Jacob segurou a tampa.

Olhou para Sarah.

— Preparada?

— Não.

Ele quase sorriu.

Abriu.

Um pequeno compartimento apareceu.

Escuro.

Seco.

E dentro dele havia uma caixa plástica.

Sarah sentiu um arrepio.

Jacob retirou-a.

A caixa estava suja, mas intacta.

— Isso estava aqui durante todo esse tempo — murmurou Embry.

Jacob ficou olhando.

Não abriu imediatamente.

Sarah percebeu.

— Quer que eu...

— Não.

Ele respirou fundo.

Abriu.

Havia documentos.

Fotografias.

Um pequeno caderno.

E um envelope.

Jacob pegou primeiro as fotografias.

Isabella.

Edward.

Juntos.

Em restaurantes.

Em hotéis.

Na própria casa de hóspedes.

Jacob apertou a mandíbula.

Sarah tocou seu ombro.

— Você já sabia.

— Saber é diferente de ver.

Ela não discutiu.

Embry desviou o rosto.

Jacob colocou as fotografias de lado.

Pegou o caderno.

Folheou.

Datas.

Valores.

Nomes.

Sarah aproximou-se.

— Isso parece financeiro.

Jacob franziu a testa.

— São transferências.

— De quem?

Ele continuou folheando.

Parou.

Seu rosto mudou.

— Da minha empresa.

Sarah olhou.

— Tem certeza?

— Esses são números de contas corporativas.

Embry aproximou-se.

— Isabella não trabalhava na empresa.

— Eu sei.

Jacob virou outra página.

Mais valores.

Alguns extremamente altos.

Sarah sentiu o clima mudar.

Aquilo já não parecia apenas uma traição amorosa.

— Edward trabalhava com você?

— Era diretor financeiro.

Sarah ficou imóvel.

— Jacob...

Ele fechou o caderno.

Agora fazia sentido.

Pelo menos uma parte.

— Ele tinha acesso às contas.

— Sim.

— Isabella sabia?

— Pelo visto.

Embry soltou um palavrão.

Jacob pegou o envelope.

Não havia nome.

Abriu.

Dentro havia várias folhas impressas.

Extratos.

Transferências.

Empresas desconhecidas.

E uma anotação de Isabella.

Jacob leu em voz alta:

— “Não é só o dinheiro.”

Sarah sentiu um arrepio.

Ele continuou:

— “Edward diz que ninguém vai descobrir, mas encontrei coisas que ele não queria que eu visse. Se Jacob descobrir o que fizemos, vai me odiar. Mas se descobrir o resto...”

A frase terminava.

— O resto do quê? — perguntou Embry.

Jacob virou a folha.

Nada.

Sarah procurou dentro do envelope.

Vazio.

— Está faltando uma página.

Jacob ficou olhando para os documentos.

— Ou ela nunca terminou.

Sarah pegou um dos extratos.

— Essas transferências aconteceram durante quanto tempo?

Jacob verificou.

— Quase dois anos.

— Antes da morte dela?

— Sim.

— Então Isabella e Edward estavam desviando dinheiro?

Ele fechou os olhos.

— Parece.

Sarah imediatamente corrigiu:

— Parece. Ainda não sabemos.

Jacob olhou para ela.

— Obrigado.

— Pelo quê?

— Por não decidir por mim quem ela era.

Sarah apertou seu braço.

— Descobrimos primeiro. Julgamos depois.

Embry pegou outra fotografia.

— Jake.

Jacob virou-se.

Embry estava pálido.

— O quê?

Ele entregou a fotografia.

Não era Isabella com Edward.

Era Edward sozinho.

Diante de um banco.

No verso havia uma data.

Uma semana depois da morte de Isabella.

Sarah franziu a testa.

— Então?

Jacob não respondeu.

Embry explicou:

— Jacob disse que Edward desapareceu três dias depois do funeral.

— Sim.

— Essa foto foi tirada depois.

Sarah olhou novamente.

— Isso só prova que ele estava vivo.

— Olhe o lugar — disse Jacob.

Ela observou.

Não reconheceu.

— Onde é?

Jacob respondeu:

— Nassau.

Sarah ergueu os olhos.

— Bahamas?

— Sim.

— E o que isso significa?

Jacob pegou um dos extratos.

Procurou.

Encontrou.

Mostrou.

Uma das empresas para as quais o dinheiro havia sido transferido estava registrada nas Bahamas.

Sarah sentiu o estômago apertar.

— Edward foi até lá.

— Parece.

— Talvez buscar o dinheiro.

— Talvez.

Jacob guardou a fotografia.

Sarah olhou novamente para a caixa.

— Ainda não entendo uma coisa.

— Qual?

— Se Isabella e Edward estavam juntos nisso, por que ela esconderia provas contra ele?

Silêncio.

Jacob percebeu.

Era a pergunta certa.

Sarah continuou:

— E por que escreveria uma carta dizendo que precisava contar tudo para você?

Embry olhou para Jacob.

— Ela queria sair.

Sarah assentiu.

— Talvez.

Jacob voltou a olhar para a caixa.

A raiva em seu rosto começou lentamente a ser substituída por outra coisa.

Compreensão.

— “Depois seremos livres.”

Sarah lembrou.

— A frase da fotografia.

— Talvez eu tenha interpretado errado.

— Como?

Jacob ficou olhando para o caderno.

— Achei que significasse Isabella e Edward.

Sarah compreendeu.

— Mas talvez Isabella estivesse falando de você.

Jacob levantou os olhos.

— Talvez estivesse tentando sair daquilo.

Voltaram para a casa perto do meio-dia.

Embry levou a caixa para o escritório.

Jacob permaneceu na praia.

Sarah percebeu.

Ficou.

— Você não precisa ficar comigo — disse ele.

— Eu sei.

— Então por que está?

Sarah sentou-se na areia.

— Porque quero.

Jacob olhou para ela.

Depois sentou-se ao lado.

Durante alguns minutos, ficaram em silêncio.

— Ela me traiu — disse ele finalmente.

Sarah não respondeu.

— Isso não muda.

— Não.

— Talvez tenha roubado de mim.

— Talvez.

— E ainda assim...

Ele passou as mãos pelo rosto.

— Se ela tentou consertar...

Sarah esperou.

— Eu passei quatro anos odiando-a.

— Você também passou quatro anos amando-a.

Jacob olhou para ela.

— Como consegue não sentir ciúme?

Sarah ficou surpresa.

— Quem disse que não sinto?

Agora foi a vez dele se surpreender.

Ela sorriu sem humor.

— Jacob, ontem entrei no quarto de uma mulher linda que você amou o suficiente para querer se casar. Vi fotografias de vocês felizes. Ouvi você falar dela. Claro que alguma parte de mim sente alguma coisa.

— Então por que não demonstra?

Sarah olhou para o mar.

— Porque Isabella está morta. Eu não vou competir com uma mulher que não pode responder.

Jacob ficou em silêncio.

— E porque aquilo que você viveu com ela pertence a vocês — continuou. — Não quero apagar.

Ela olhou para ele.

— Quero saber se existe espaço para alguma coisa nova.

Jacob não respondeu imediatamente.

Sarah sentiu o coração apertar.

Talvez tivesse dito demais.

Então ele segurou sua mão.

— Existe.

Uma única palavra.

Mas foi suficiente.

Sarah sorriu.

Jacob aproximou-se.

— Muito mais do que deveria existir depois de seis dias.

— Sete.

Ele franziu a testa.

— O quê?

— Passou do meio-dia. Decidi arredondar.

Jacob começou a rir.

— Isso não funciona assim.

— Funciona na minha contagem.

— Então você está roubando dias.

— Quero vantagem.

— Para quê?

Sarah inclinou a cabeça.

— Ainda não decidi.

Jacob tocou suavemente seu rosto.

— Perigosa.

— Você continua aqui.

— Esse é o problema.

Sarah sorriu.

Ele a beijou.

Dessa vez não havia urgência.

Nem medo.

Era lento.

Quase carinhoso.

Quando se afastou, Jacob manteve a mão em seu rosto.

— Venha comigo.

— Para onde?

— Você disse ontem que hoje eu entraria no mar com você.

Sarah abriu um sorriso.

— Achei que fosse fingir que esqueceu.

Jacob levantou-se.

Tirou a camiseta.

Sarah acompanhou o movimento.

Ele percebeu.

— De novo?

— Cale a boca.

Jacob estendeu a mão.

Sarah segurou.

Foram até a água.

Quando as primeiras ondas tocaram os pés dele, Jacob parou.

Sarah percebeu.

Não puxou.

Não insistiu.

Apenas permaneceu ao lado.

— Podemos voltar — disse.

Jacob olhou para o mar.

As lembranças vieram.

Mas dessa vez havia outra mão dentro da sua.

Quente.

Presente.

— Não.

Deu mais um passo.

Depois outro.

Sarah acompanhou.

Quando a água chegou à cintura, Jacob respirou fundo.

Sarah sorriu.

— Está tudo bem?

Ele olhou para ela.

— Está.

E pela primeira vez em quatro anos, Jacob entrou no mar sem procurar um fantasma.

Sarah mergulhou primeiro.

Emergiu diante dele, os cabelos negros molhados caindo pelas costas e os olhos verdes brilhando sob o sol.

Jacob sorriu.

Ela jogou água nele.

— Você não fez isso.

— Fiz.

Jacob avançou.

Sarah gritou e tentou fugir.

Não conseguiu.

Ele segurou sua cintura e a levantou.

— Jacob!

— Peça desculpas.

— Nunca.

— Última chance.

— Nem morta.

Ele a jogou na água.

Sarah emergiu indignada.

— Você vai pagar.

— Estou apavorado.

Ela avançou sobre ele.

Jacob riu.

Riu de verdade.

Sem culpa.

Sem lembrar de Isabella.

Sem pensar em Edward.

Por alguns minutos, existiram apenas os dois.

E Sarah percebeu.

Não disse nada.

Apenas sorriu.

Porque talvez aquela fosse a primeira coisa verdadeiramente importante que haviam encontrado naquele dia.

Não estava enterrada sob as ruínas.

Estava ali.

Jacob começava, finalmente, a voltar para a própria vida.