ILHA DOS DESEJOS

8 CAPÍTULO 8 - O que começa a importar


Jacob acordou sorrindo.

Levou alguns segundos para perceber.

Quando percebeu, o sorriso desapareceu imediatamente.

Ficou olhando para o teto do quarto, como se pudesse responsabilizá-lo por aquela falha de caráter.

— Ridículo.

Virou-se para o outro lado.

E sorriu novamente.

A imagem de Sarah emergindo do mar voltou à sua cabeça com uma nitidez irritante. Os cabelos negros, longos e molhados, grudados às costas. Os olhos verdes faiscando de indignação quando ele a jogara na água. A expressão ultrajada que durara apenas alguns segundos antes de ela começar a rir.

E a boca.

Principalmente a boca.

Jacob fechou os olhos.

Era pior do que imaginara.

Levantou-se de uma vez.

Precisava correr.

Precisava de alguns quilômetros de distância entre ele e o quarto onde havia passado tempo demais pensando em uma mulher que estava em Saint Claire havia pouco mais de uma semana e já parecia ocupar espaço demais dentro de sua cabeça.

Às seis e dez da manhã, Jacob descia as escadas quando encontrou Sarah no hall.

Ela usava short preto, tênis e uma camiseta clara. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto e, pelo modo como mexia no relógio esportivo no pulso, evidentemente tinha planos.

Jacob parou no último degrau.

— O que está fazendo?

Sarah olhou para si mesma.

— Vestindo roupas.

— Eu percebi.

— Parabéns.

Ele ignorou.

— Por que está de tênis?

— Vou correr.

Jacob franziu a testa.

— Você?

Sarah abriu a boca.

Fechou.

Virou lentamente o rosto para ele.

— Repita.

Jacob percebeu o erro tarde demais.

— Não quis dizer...

— Repita exatamente desse jeito.

— Sarah.

— “Você?”

— Foi uma pergunta.

— Foi uma provocação.

Jacob começou a rir.

— Quantos quilômetros?

— Cinco.

— Tem certeza?

Sarah passou por ele e abriu a porta.

— Agora serão seis.

— Isso não faz sentido.

— Para mim faz.

Ele a acompanhou.

— Vai conseguir me acompanhar?

Sarah olhou por cima do ombro.

— Você fala demais para alguém que ainda não começou a correr.

Quase quarenta minutos depois, Jacob havia descoberto duas coisas.

A primeira era que Sarah corria muito bem.

A segunda era que ela era competitiva de uma maneira que beirava o preocupante.

Quando ele acelerava, ela acelerava.

Quando diminuía o ritmo para acompanhá-la, Sarah olhava para ele como se aquilo fosse uma ofensa pessoal.

— Está cansada? — perguntou.

— Não.

Estava.

Jacob sabia.

— Podemos voltar.

— Podemos continuar.

— Você está respirando como se tivesse escalado uma montanha.

— Estou respirando.

— Tecnicamente, é um argumento correto.

Sarah lançou-lhe um olhar mortal.

Jacob riu.

Ela acelerou.

— Sarah!

Sem olhar para trás, ela ergueu a mão e mostrou-lhe o dedo médio.

Jacob soltou uma gargalhada e correu atrás dela.

Quando chegaram à praia norte, Sarah finalmente parou. Curvou o corpo, apoiando as mãos nos joelhos enquanto tentava recuperar o fôlego.

— Eu... odeio... você.

Jacob ria tanto que também estava sem ar.

— Eu avisei.

Sarah levantou um dedo.

— Não.

— Não o quê?

— Não diga isso.

— Eu avisei.

Ela tentou empurrá-lo.

Jacob segurou seu pulso.

Sarah usou a outra mão.

Ele segurou também.

Em poucos segundos, ela estava diante dele, os dois pulsos presos pelas mãos de Jacob.

— Solte.

— Peça educadamente.

— Vá para o inferno.

— Não parece muito educado.

Sarah tentou se libertar.

Jacob puxou-a um pouco mais para perto.

O movimento mudou tudo.

A brincadeira desapareceu.

Sarah ainda estava ofegante.

Ele também.

Os olhos verdes desceram involuntariamente para a boca dele.

Jacob percebeu.

— Isso é injusto — murmurou Sarah.

— O quê?

— Você não parece cansado.

— Estou.

— Não o suficiente.

— Quer verificar meus batimentos?

Ela ergueu os olhos.

— Não provoque.

Jacob sorriu.

— Ontem você disse exatamente isso para mim.

Sarah deu meio passo à frente.

— Talvez eu esteja aprendendo.

— Péssima influência.

— Você começou.

Jacob soltou os pulsos dela.

Sarah poderia ter se afastado.

Não se afastou.

Em vez disso, colocou a palma da mão sobre o peito dele.

O coração de Jacob batia acelerado.

Sarah sorriu.

— Está mesmo cansado.

— Eu disse.

Mas ela não retirou a mão.

Jacob olhou para os dedos sobre seu peito e depois para o rosto dela.

— Sarah.

— Hum?

— Se continuar fazendo isso, não vamos voltar tão cedo.

— Talvez eu precise descansar.

Ele segurou sua cintura.

— Você não facilita nada.

— Nunca prometi facilitar.

Jacob a beijou.

E percebeu, assim que sentiu os braços dela passarem por seu pescoço, que aquilo estava se tornando um hábito.

Um hábito extremamente perigoso.

E do qual não tinha a menor intenção de se livrar.

Duas horas depois, o escritório de Jacob parecia menos um ambiente empresarial e mais uma sala improvisada de investigação.

A caixa encontrada sob as ruínas da antiga casa da praia permanecia aberta sobre uma mesa lateral. Fotografias, comprovantes bancários, anotações e documentos ocupavam quase todas as superfícies disponíveis.

Sarah estava sentada no chão, cercada de papéis.

Embry ocupava o sofá.

Jacob trabalhava diante do computador.

— Achei.

Sarah levantou os olhos imediatamente.

— O quê?

— A primeira transferência.

Ela se levantou e foi até ele.

Jacob apontou para a tela.

— Duzentos e oitenta mil dólares.

Embry assobiou.

— Quando?

— Quase seis anos atrás.

— Destino?

Jacob abriu outro arquivo.

— Blue Horizon Holdings.

Sarah se aproximou mais.

— Bahamas?

— Nassau.

Ela olhou para os papéis espalhados.

— A empresa que aparece nos documentos ligados a Edward?

— A mesma.

Jacob continuou pesquisando.

— Foi constituída oito meses antes da primeira transferência que encontramos.

— Proprietário? — perguntou Embry.

— Não aparece nos registros básicos que tenho aqui.

Sarah apoiou uma das mãos no encosto da cadeira de Jacob.

— E as outras transferências?

— Algumas foram para a Blue Horizon. Outras, para duas empresas diferentes que aparecem relacionadas nas anotações.

— Total?

Jacob já havia feito a soma.

— Pouco mais de quatro milhões de dólares.

O silêncio tomou conta do escritório.

Embry soltou um palavrão.

Sarah olhou para Jacob.

Ele estava calmo demais.

— Você está bem?

— Não sei.

— Quatro milhões é muito dinheiro.

— Não é o dinheiro.

Sarah compreendeu.

— É Isabella.

Jacob assentiu lentamente.

— Se ela estava envolvida...

Não conseguiu terminar.

Sarah puxou uma cadeira e se sentou ao lado dele.

— Então vamos começar pelo que efetivamente sabemos.

Jacob virou o rosto.

— Você fala como advogada.

— Não me insulte.

Embry soltou uma risada.

— Gostei.

Sarah apontou para ele.

— Você também fique quieto.

Depois voltou-se para Jacob.

— Fatos. Isabella teve um relacionamento com Edward.

O maxilar dele se contraiu.

— Sim.

— Edward tinha acesso às contas das empresas?

— Como diretor financeiro, sim.

— Encontramos transferências para empresas que aparecem relacionadas aos documentos que Isabella guardou.

— Sim.

— Isabella guardou comprovantes dessas movimentações.

— Sim.

— E deixou uma mensagem dizendo que precisava contar a verdade a você.

Jacob assentiu.

Sarah cruzou os braços.

— Isso não prova que Isabella participou do desvio.

Ele permaneceu em silêncio.

— Pode ter descoberto depois. Pode ter participado de alguma coisa e tentado sair. Pode ter sido enganada. Pode ter tentado impedir. Pode ter participado conscientemente de tudo. Neste momento, todas essas hipóteses continuam abertas.

Embry observou Sarah.

— Você sempre pensa assim?

— Assim como?

— Pegando uma confusão enorme e colocando cada coisa numa caixa.

Ela deu de ombros.

— Alguém precisa impedir vocês dois de transformar suspeita em sentença.

Jacob olhou para ela por alguns segundos.

Era exatamente o que Sarah fazia.

Entrava no meio de situações emocionalmente impossíveis e separava fatos de medo, memória de prova, possibilidade de certeza.

Não tornava a dor menor.

Mas tornava possível atravessá-la.

— Precisamos descobrir quem controlava a Blue Horizon — disse Sarah.

Jacob assentiu.

— Posso acionar a equipe jurídica.

— Faça uma consulta restrita. E não conte sobre a caixa.

— Por quê?

— Porque ainda não sabemos quem mais pode estar envolvido.

Jacob franziu a testa.

Sarah apontou para a tela.

— Quatro milhões de dólares não desaparecem de uma estrutura empresarial complexa sem produzir algum tipo de rastro. Edward era diretor financeiro, mas alguém auditava essas contas.

Jacob ficou imóvel.

Embry também.

Sarah percebeu imediatamente.

— O quê?

Jacob abriu outra pasta.

— Na época, a auditoria externa era feita pela mesma empresa havia anos.

— E?

— Edward participou da indicação dela.

Sarah recostou-se.

— Então temos mais uma conexão.

— Ou mais uma fraude.

— Não — corrigiu Sarah imediatamente. — Temos mais uma conexão. Se ela é parte da fraude, precisamos provar.

Jacob olhou para ela.

— Você realmente não deixa passar uma palavra.

— Palavras erradas viram conclusões erradas.

Embry apontou para Sarah.

— Quero ela em todas as investigações da minha vida.

— Você não deveria ter tantas investigações na sua vida — respondeu ela.

Trabalharam até depois das duas da tarde.

Embry saiu para resolver um problema no cais, e Sarah continuou examinando os documentos enquanto Jacob atendia algumas ligações.

Quando encerrou a última, percebeu que ela estava completamente concentrada.

Uma mecha de cabelo havia escapado do rabo de cavalo e caía sobre seu rosto. Sarah mordia distraidamente a tampa de uma caneta enquanto comparava duas folhas.

Jacob ficou olhando.

Ela percebeu.

— O quê?

— Nada.

— Você está me olhando.

— Você está na minha frente.

Sarah retirou a caneta da boca.

— Terceira vez que usa essa desculpa.

— Continua verdadeira.

— Continua ruim.

Jacob levantou-se.

Caminhou até ela.

Sarah acompanhou cada passo.

— O que está fazendo?

— Melhorando minha defesa.

— Como?

Ele retirou a caneta dos dedos dela e colocou-a sobre a mesa.

— Você está distraindo minha investigação.

— Eu estou trabalhando.

— Eu também estava.

— Então volte.

— Não quero.

Sarah sorriu.

— Problema seu.

Jacob apoiou as mãos na mesa, uma de cada lado dela.

— Você é muito atrevida dentro da minha casa.

— Tecnicamente...

— Não termine.

Ela riu.

Jacob olhou para sua boca.

Sarah percebeu.

— Estamos trabalhando.

— Você já disse isso.

— E deveria ouvir.

— Deveria.

— Mas não vai.

— Provavelmente não.

Ele a beijou.

Sarah correspondeu imediatamente.

O beijo começou devagar, mas não permaneceu assim. Ela segurou a camisa dele e Jacob passou uma das mãos pela cintura dela, trazendo-a para mais perto.

Sarah riu contra sua boca.

— O quê? — murmurou ele.

— Nada.

— Sarah.

— Estava pensando que você é péssimo em manter distância.

Jacob beijou o canto de sua boca.

— Desisti.

— Percebi.

Ele voltou a beijá-la.

Por alguns segundos, Jacob esqueceu completamente a investigação, os documentos e os milhões de dólares.

Até o telefone tocar.

Sarah soltou uma risada contra sua boca.

Jacob fechou os olhos.

— Não atenda.

— Preciso.

— Não precisa.

— Infelizmente, algumas pessoas ainda esperam que você trabalhe.

— Que falta de consideração.

O telefone continuou tocando.

Jacob se afastou com evidente relutância, passou a mão pelos cabelos e pegou o aparelho.

— Black.

Sarah voltou para os documentos, ainda sorrindo.

O sorriso desapareceu quando percebeu que Jacob havia ficado em silêncio.

Ele apenas ouvia.

— Repita.

Sarah ergueu os olhos.

A voz dele mudara.

— Quero o nome completo.

Mais alguns segundos.

Jacob virou-se para a janela.

— Não. Não entre em contato com ninguém. Absolutamente ninguém. Envie tudo diretamente para mim.

Pausa.

— Agora.

Desligou.

Não se virou.

Sarah colocou a caneta sobre a mesa.

— Jacob?

Nenhuma resposta.

— O que aconteceu?

— Pedi uma busca preliminar sobre a Blue Horizon esta manhã.

— Certo.

— Encontraram o responsável legal original.

Sarah levantou-se.

— Edward?

— Não.

— Isabella?

Jacob balançou a cabeça.

— Então quem?

Ele demorou.

— Charlie Swan.

Sarah ficou em silêncio.

O nome claramente significava mais do que uma simples descoberta empresarial.

— Quem era Charlie Swan?

Jacob soltou lentamente o ar.

— Advogado da minha família.

Sarah franziu a testa.

— Era?

— Morreu cinco anos atrás.

Ela fez a conta.

— Antes de Isabella.

— Onze meses antes.

Jacob voltou ao computador e abriu o arquivo que acabara de receber.

Leu a primeira página.

Depois a segunda.

Sua expressão mudou.

— Não.

Sarah se aproximou.

— O quê?

Ele abriu outro documento.

— Não.

Dessa vez, mais firme.

Não estava respondendo a Sarah.

Estava negando o que via.

— Deve haver outro Charlie Swan.

Sarah não disse nada.

Jacob conferiu número de documento, endereço, datas, registros empresariais.

A mão que segurava o mouse ficou imóvel.

— É ele.

Sarah se aproximou apenas o necessário para enxergar a tela.

— Tem certeza?

— Tenho.

Jacob se levantou abruptamente.

A cadeira deslizou para trás e bateu na parede.

— Filho da puta.

— Jacob...

— Filho da puta!

A mão dele bateu aberta sobre a mesa.

Sarah não tentou tocá-lo.

Ainda não.

— Ele sabia.

— Não sabemos disso.

Jacob apontou para a tela.

— O nome dele está na empresa!

— Eu sei. E isso prova que existe uma ligação documental entre Charlie Swan e a Blue Horizon. Não prova, sozinho, por que a empresa foi criada nem o que ele sabia sobre essas transferências.

— Sarah...

— Você quer a verdade ou quer uma conclusão que faça sentido hoje?

Jacob ficou imóvel.

Ela sustentou seu olhar.

— Porque não são necessariamente a mesma coisa.

A raiva permaneceu em seu rosto, mas ele se calou.

— Aquele homem entrou na minha casa durante anos — disse finalmente. — Sentou-se à mesa com meu pai. Foi advogado da minha família durante quase vinte anos. Quando Billy morreu, Charlie me ajudou a reorganizar tudo. Empresas. Contratos. Inventário. Patrimônio.

Sarah começou a entender a dimensão daquela descoberta.

— Você confiava nele.

Jacob soltou uma risada sem humor.

— Confiava?

Virou-se para ela.

— Eu dei procurações a Charlie. Ele conhecia cada empresa, cada conta, cada estrutura patrimonial que eu possuía.

Sarah olhou novamente para o documento.

— Então ele tinha condições de ajudar Edward.

Jacob parou.

— Ou de colocá-lo lá.

— Como?

— Foi Charlie quem recomendou Edward para o cargo.

Sarah sentiu um arrepio.

— Tem certeza?

— Eu conhecia Edward antes. Éramos amigos. Mas foi Charlie quem insistiu que ele seria perfeito para assumir aquela posição quando precisei reorganizar a área financeira.

A lembrança pareceu abrir outra porta.

Jacob ficou imóvel.

— Isabella também.

— O que tem Isabella?

Ele olhou para Sarah.

— Charlie me apresentou a ela.

O escritório mergulhou em silêncio.

— Meu diretor financeiro e minha noiva — continuou Jacob. — As duas pessoas que mais tarde me traíram entraram naquela parte da minha vida com Charlie no meio.

Sarah aproximou-se.

— Isso é relevante.

— Finalmente.

— Relevante não significa que sabemos por quê.

Jacob virou o rosto bruscamente.

— Você ainda vai defendê-lo?

— Não estou defendendo Charlie. Estou defendendo a investigação de nós mesmos.

Ele franziu a testa.

— A Blue Horizon pode ter sido criada especificamente para desviar dinheiro. Pode ter tido uma finalidade legítima e sido usada depois. Charlie pode ter participado desde o começo. Edward pode ter usado uma estrutura que já existia. Os documentos podem ter sido alterados. Há várias possibilidades.

— E todas são péssimas.

— São. Mas só uma delas aconteceu.

Aquilo o fez parar.

Sarah continuou:

— Você passou quatro anos preenchendo os espaços vazios da noite em que Isabella morreu com aquilo que parecia fazer sentido. Não faça a mesma coisa agora.

Jacob desviou o rosto.

A frase atingira exatamente onde ela pretendia.

Ele caminhou até a janela.

Por alguns instantes, apenas o som distante do mar entrou no escritório.

— Charlie me disse que eu seria bom para ela.

Sarah não respondeu.

— Quando pedi Isabella em casamento, ele me abraçou. Disse que não poderia ter escolhido homem melhor para a filha.

A raiva havia desaparecido da voz.

Aquilo era pior.

— E agora você está pensando que talvez ele já soubesse de alguma coisa.

Jacob olhou para o oceano.

— Estou pensando que talvez todos soubessem, menos eu.

Sarah aproximou-se.

— Olhe para mim.

Ele não se moveu.

— Jacob.

Finalmente a encarou.

— Isabella mentiu para mim. Edward mentiu. Talvez Charlie também. Quantas pessoas mais?

— Não sei.

— Embry?

— Não há nada apontando para Embry.

— Você não pode saber.

— Exatamente. Não posso. Por isso não vou transformar a ausência de resposta em acusação.

Jacob soltou uma respiração pesada.

— Foi isso que pensei sobre todos os outros.

Sarah compreendeu.

Já não se tratava de dinheiro.

Tratava-se da destruição progressiva da capacidade de Jacob confiar nas próprias lembranças.

Ela colocou a mão sobre o braço dele.

— Então não confie cegamente em ninguém. Nem nos documentos isolados. Nem nas aparências. Nem nas nossas teorias. E, se aparecer prova objetiva contrariando aquilo de que você se lembra, nós revemos o que pensamos.

Jacob a encarou.

Sarah colocou a mão sobre o peito dele.

— Confie no processo. Uma coisa de cada vez.

— Você fala como se fosse fácil.

— Não é.

Ele passou uma mão pelos cabelos.

— Passei quatro anos acreditando que Isabella me traiu com Edward e depois morreu naquela praia. Agora descubro que havia movimentações financeiras, que ela guardava documentos, que pretendia me contar alguma coisa e que o próprio pai dela aparece ligado a uma das empresas.

Jacob respirou fundo.

— E a pior parte é que uma parte de mim quer uma explicação.

Sarah permaneceu em silêncio.

— Quero descobrir que Isabella não roubou de mim. Quero descobrir que Charlie não me usou. Quero que Edward seja o único filho da puta dessa história.

A amargura apareceu na voz.

— E odeio querer isso.

— Por quê?

— Porque parece fraqueza.

Sarah franziu a testa.

— Desejar que as pessoas que você amou não tenham destruído deliberadamente sua vida não é fraqueza.

Jacob desviou os olhos.

— Não faça isso.

— O quê?

— Torne as coisas suportáveis.

Sarah ficou surpresa.

Ele segurou a mão que ela mantinha sobre seu peito.

— Você faz isso desde que chegou.

— Eu não...

— Faz. Você entra no meio do caos e encontra alguma coisa que ainda faz sentido.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Talvez seja meu jeito de lidar com as coisas.

Jacob entrelaçou os dedos nos dela.

— Está começando a ser o meu.

Ele fechou os olhos e encostou a testa na de Sarah.

Não tentou beijá-la.

Não havia desejo naquele instante.

Havia algo muito mais íntimo.

A necessidade de não estar sozinho.

Sarah permaneceu ali.

— Tenho medo de descobrir — confessou Jacob.

Era a primeira vez que ela o ouvia admitir aquilo.

— Eu sei.

— E tenho ainda mais medo de nunca descobrir.

— Então continuamos.

Jacob abriu os olhos.

— Continuamos?

— Uma coisa de cada vez.

Ele a observou.

— Você percebe que está se envolvendo em algo que não tem absolutamente nada a ver com a reforma da minha casa?

Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela.

— Você percebe que já tentou essa conversa?

— Não funcionou da primeira vez.

— Também não vai funcionar agora.

Jacob soltou uma risada baixa.

Quando voltou a olhar para o computador, porém, a expressão tornou-se séria.

— Quero tudo sobre Charlie Swan.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Sem decidir antes o que os documentos precisam dizer.

— Estou tentando.

— Tente mais.

Ele sentou-se.

Sarah puxou uma cadeira e a colocou ao lado da dele.

Jacob abriu o primeiro arquivo.

Antes de começar a ler, olhou para ela.

— Fica?

Sarah demorou um instante para responder.

A pergunta era simples.

Mas ambos sabiam que havia muito mais dentro dela.

— Fico.

Jacob assentiu.

E voltou para a tela.

Sua mão, porém, permaneceu sobre a dela enquanto começavam a reconstruir, documento por documento, uma história que talvez nunca tivesse acontecido da maneira como ele acreditara.

Naquela noite, Jacob decidiu que não queria olhar para mais nenhum documento.

Pela primeira vez, Sarah não insistiu.

Jantaram no terraço.

Embry apareceu por alguns minutos, comeu quase metade de uma entrada que afirmara não querer e foi embora depois de receber um telefonema do cais.

Sarah bebeu vinho.

Jacob também.

E, por algum acordo silencioso, conversaram sobre qualquer assunto que não envolvesse Isabella, Edward, Charlie ou quatro milhões de dólares.

Sarah contou histórias de trabalhos anteriores, viagens e clientes impossíveis. Uma mulher havia mudado dezessete vezes a cor de uma parede e, depois de semanas de indecisão, escolhido exatamente o primeiro tom sugerido.

Jacob riu.

Riu de verdade.

Sarah o observou.

— Você está diferente.

— Como?

— De quando cheguei.

— Isso foi há uma eternidade.

— Oito dias.

— Sete.

— Minha contagem.

— Sua contagem é fraude.

Sarah ergueu a taça.

— Processe-me.

Jacob sorriu.

Depois ficou sério.

— Você estava dizendo.

— Quando cheguei, parecia que você tinha esquecido como relaxar.

— E agora?

Sarah o observou por alguns segundos.

— Agora, às vezes, você lembra.

Jacob sustentou seu olhar.

— Por sua causa.

O sorriso dela desapareceu.

— Não diga isso.

— Por quê?

— Porque é o tipo de coisa que faz uma mulher criar expectativas.

Jacob pousou a taça.

— E se eu quiser que crie?

Sarah ficou imóvel.

A pergunta permaneceu entre eles.

— Jacob...

Ele se levantou e caminhou até ela.

— Eu disse que não sabia onde isso estava indo.

— Eu lembro.

— Ainda não sei.

Sarah assentiu.

— Mas sei que não quero fingir que é apenas atração.

Ela levantou os olhos.

— O que é, então?

Jacob poderia ter escolhido uma resposta fácil.

Não escolheu.

— Você importa.

Sarah respirou fundo.

— Isso é perigoso.

— Muito.

— Rápido.

— Demais.

— E provavelmente pouco inteligente.

— Sem dúvida.

Sarah sorriu.

— Ótimo. Estamos de acordo.

Jacob estendeu a mão.

Ela segurou.

Ele a fez levantar.

— Venha.

— Onde?

— Praia.

— Está escuro.

— Não vamos entrar no mar.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— O homem das regras.

— Algumas continuam existindo.

Caminharam descalços pela areia sob a luz da lua.

Jacob carregava as sandálias de Sarah.

— Isso é estranhamente cavalheiresco.

— Posso jogá-las no mar.

— Retiro o elogio.

Chegaram a uma pequena enseada protegida pelas pedras.

Sarah parou.

— É lindo.

— Meu lugar favorito em Saint Claire.

Ela virou-se para ele.

— Você tem um lugar favorito?

— Tenho sentimentos também.

— Ainda estou reunindo provas.

Jacob riu.

Sentaram-se na areia.

Sarah apoiou a cabeça no ombro dele.

O gesto foi tão natural que Jacob demorou alguns segundos para percebê-lo.

Quando percebeu, não queria que ela saísse dali.

— Sarah.

— Hum?

— O que acontece quando os três meses terminarem?

Ela levantou a cabeça.

— Essa pergunta não combina com o homem que não queria pensar além de amanhã.

— Estou evoluindo.

Sarah sorriu.

— Não sei.

— Você vai embora.

— Esse era o plano.

Jacob percebeu a palavra imediatamente.

— Era?

— Jacob...

— Não estou pedindo para ficar.

— Ainda.

Ele sorriu.

— Ainda.

Sarah voltou a olhar para o mar.

— Tenho vida fora daqui.

— Eu sei.

— Trabalho.

— Sei.

— Casa.

— Sei.

— Pessoas.

Jacob franziu a testa.

— Pessoas?

Sarah começou a rir.

— Não faça isso.

— Fazer o quê?

— Essa cara.

— Que pessoas?

— Amigos.

— Homens?

— Jacob.

— Pergunta legítima.

— Não.

Ele se virou para ela.

— Não existem homens?

Sarah sustentou seu olhar.

— Existe um homem atualmente ocupando uma quantidade inconveniente dos meus pensamentos.

Jacob ficou sério.

— Conheço?

— Infelizmente.

— Bonito?

— Convencido.

— Rico?

— Irritantemente.

— Inteligente?

Sarah fingiu pensar.

— Às vezes.

Jacob a puxou para perto.

Ela riu.

— E ele beija bem?

Sarah passou os braços pelo pescoço dele.

— Ainda estou avaliando.

— Talvez precise de mais dados.

— Talvez.

Jacob a beijou.

Dessa vez devagar.

Sem urgência.

Sem tentar esquecer coisa alguma.

Quando se afastaram, Sarah permaneceu com a testa encostada na dele.

— Resultado preliminar? — perguntou Jacob.

— Promissor.

Ele riu.

Sarah voltou a apoiar a cabeça em seu ombro.

E ficaram ali.

Em silêncio.

Jacob olhou para o oceano.

Durante quatro anos, Saint Claire significara Isabella.

A morte.

A culpa.

A traição.

A ausência.

Agora, pela primeira vez, a ilha começava a guardar outras lembranças.

Sarah rindo na chuva.

Sarah correndo pela praia.

Sarah espalhando papéis sobre sua mesa.

Sarah discutindo com ele.

Sarah beijando-o.

Sarah dormindo no andar de cima.

Sarah.

Foi naquele instante que Jacob compreendeu algo que o assustou mais do que gostaria.

Não estava apenas voltando a viver.

Estava começando a construir uma vida na qual Sarah já ocupava espaço.

E talvez fosse exatamente por isso que a ideia dos três meses começava a incomodá-lo tanto.

Na manhã seguinte, antes que Jacob ou Sarah acordassem, uma pequena lancha aproximou-se silenciosamente da costa norte de Saint Claire.

Não utilizou o cais principal.

O homem que a conduzia conhecia bem a ilha.

Conhecia os recifes.

As correntes.

E uma pequena enseada escondida onde uma embarcação poderia permanecer sem ser vista da propriedade principal.

Desligou o motor antes de chegar à areia.

Saltou na água rasa.

Carregava apenas uma mochila.

Ao alcançar a praia, permaneceu parado durante alguns segundos, observando ao longe a propriedade de Jacob.

Quatro anos haviam se passado.

Muita coisa mudara.

Mas não o suficiente.

O homem retirou do bolso uma fotografia antiga.

Três pessoas sorriam para a câmera.

Jacob.

Isabella.

E ele.

Edward Cullen guardou a fotografia.

Depois ergueu os olhos para a casa de Jacob Black e começou a caminhar em direção ao interior de Saint Claire.