ILHA DOS DESEJOS
6 Capítulo 6 — A CASA QUE NÃO EXISTE MAIS
Jacob percebeu que havia alguma coisa errada com Sarah no instante em que ela entrou na cozinha.
Não porque ela estivesse diferente.
Era justamente o contrário.
Ela estava casual demais.
— Bom dia.
— Bom dia — respondeu Jacob.
Sarah serviu café.
Pegou uma fatia de mamão.
Sentou-se.
Comeu.
Não disse mais nada.
Jacob continuou observando-a por cima da própria xícara.
Naquela manhã, Sarah usava um vestido branco leve sobre o biquíni. Os cabelos negros estavam soltos, ainda ligeiramente úmidos, caindo em ondas suaves até a cintura.
Ela parecia perfeitamente tranquila.
Jacob já a conhecia o suficiente para saber que aquilo significava problema.
— Pergunte.
Sarah levantou os olhos.
— Perguntar o quê?
— Aquilo que está tentando fingir que não quer perguntar.
— Não estou tentando fingir nada.
— Está mexendo no café há quase um minuto e nem colocou açúcar.
Sarah olhou para a colher.
Parou de mexer.
— Você observa demais.
— Aprendi com você.
Ela suspirou.
— Tudo bem.
Jacob colocou a xícara sobre a mesa.
— Vamos lá.
Sarah levantou-se.
Foi até a sala, pegou o celular e voltou.
Colocou-o diante dele.
Era uma fotografia de uma das plantas antigas da propriedade.
Jacob não precisou ampliar.
Soube imediatamente.
A casa de hóspedes.
— Onde encontrou isso?
— Ontem, entre as plantas.
Ele levantou os olhos.
— Você ficou olhando as plantas de madrugada?
— Não conseguia dormir.
— Por quê?
Sarah sustentou seu olhar.
Os dois sabiam que havia mais de uma resposta possível.
O beijo da noite anterior era uma delas.
— Jacob.
— Certo.
Ela ampliou a imagem.
— O que era isso?
— Uma casa.
— Isso eu deduzi pela parte em que está escrito “casa de hóspedes”.
Ele quase sorriu.
Quase.
— Era uma construção antiga. Dois quartos, sala, cozinha.
— Onde fica?
— Ficava.
Sarah ficou em silêncio.
— Foi demolida — completou Jacob.
— Quando?
Ele sabia que aquela pergunta viria.
— Quatro anos atrás.
Os olhos verdes ficaram atentos.
— Quanto tempo depois da morte de Isabella?
Jacob respirou fundo.
— Três dias.
Sarah recostou-se.
— Jacob...
— Antes que comece, não foi uma tentativa de destruir provas.
— Eu não disse isso.
— Pensou.
Ela ficou em silêncio.
— Pensei — admitiu.
— A polícia já tinha terminado a perícia da propriedade.
— Em três dias?
— A casa estava condenada havia meses. A tempestade daquela noite danificou parte do telhado. Um engenheiro já havia recomendado a demolição.
Sarah continuou olhando para ele.
— E você resolveu fazer isso três dias depois de Isabella morrer?
Jacob apertou a mandíbula.
— Resolvi.
— Por quê?
Ele poderia ter dado a resposta simples.
A construção estava condenada.
Seria verdade.
Mas não seria toda a verdade.
— Porque não conseguia olhar para ela.
Sarah franziu a testa.
— Por causa de Isabella?
— Sim.
— O que aconteceu naquela casa?
Jacob levantou-se.
— Chegamos à parte da conversa em que eu digo que isso não é da sua conta.
— E eu chegaria à parte em que digo que você não precisava ter aberto a ala oeste ontem se não quisesse que eu fizesse perguntas.
— Uma coisa não tem relação com a outra.
— Tem para você.
Jacob virou-se.
— Sarah.
— Você fica diferente toda vez que aparece alguma coisa sobre aquela noite.
— Minha noiva morreu naquela noite.
— Eu sei.
— Então talvez isso explique.
— Explica sua dor. Não explica seu medo.
Jacob ficou imóvel.
Sarah percebeu.
Maldição.
Aquela mulher percebia tudo.
— Eu não tenho medo.
Ela se levantou.
— Tem.
— Não me analise.
— Então pare de me dar motivos.
Jacob sentiu a irritação crescer.
Não com ela.
Com ele mesmo.
Com Isabella.
Com Edward.
Com aquela maldita ilha.
— Você chegou aqui há cinco dias.
Sarah ficou em silêncio.
— Cinco dias — repetiu ele. — E está fazendo perguntas sobre coisas que aconteceram quatro anos atrás como se tivesse direito às respostas.
Assim que falou, soube que havia ido longe demais.
O rosto dela mudou.
Não dramaticamente.
Sarah não era assim.
Apenas ficou frio.
— Você tem razão.
Ela pegou o celular.
— Sarah...
— Não. Tem razão.
— Não foi isso que...
— Eu trabalho para você. Só isso.
— Eu não disse isso.
— Não precisava.
Ela passou por ele.
Jacob segurou seu braço.
Sarah olhou para a mão dele.
— Solte.
Ele soltou imediatamente.
— Eu não quis dizer dessa forma.
— Mas disse.
Sarah caminhou em direção à porta.
— Aonde vai?
Ela virou-se.
— Trabalhar. Afinal, é para isso que estou aqui.
A porta fechou.
Jacob permaneceu parado.
— Perfeito.
Embry apareceu vinte minutos depois.
Jacob estava no escritório.
— O que você fez?
Jacob nem levantou os olhos.
— Bom dia para você também.
— Sarah acabou de passar por mim com a expressão de alguém decidindo onde esconder seu cadáver.
— Estou trabalhando.
Embry sentou-se.
— O que você fez?
— Por que assume que fui eu?
Embry apenas olhou para ele.
Jacob fechou o computador.
— Ela perguntou sobre a casa de hóspedes.
O sorriso de Embry desapareceu.
— Como descobriu?
— Plantas antigas.
— E o que você contou?
— Que foi demolida.
— Só?
Jacob ficou em silêncio.
Embry passou a mão pelo rosto.
— Jake...
— Não comece.
— Ela vai descobrir.
— Descobrir o quê?
— Que Isabella usava aquela casa para encontrar Edward.
Jacob levantou-se.
— Eu não sabia disso quando mandei demolir.
— Eu sei.
— Descobri depois.
— Eu sei.
— Então pare de falar como se eu tivesse encoberto alguma coisa.
Embry também se levantou.
— Eu não estou dizendo isso.
— Parece.
— Estou dizendo que você passou quatro anos guardando pedaços dessa história em caixas diferentes porque tinha medo de colocar tudo sobre a mesa.
Jacob virou o rosto.
— E sabe qual é o problema? — continuou Embry. — Agora apareceu alguém que começou a abrir as caixas.
— Sarah não tem nada a ver com isso.
Embry soltou uma risada curta.
— Continue repetindo. Talvez algum dia você acredite.
Jacob olhou para ele.
— Ela vai embora daqui em menos de três meses.
— Esse é o problema?
Jacob não respondeu.
Embry compreendeu.
— Ah.
— Não faça essa cara.
— Qual?
— Essa.
— Você está com medo de ela ir embora.
— Não.
— Está.
— Embry.
— Cinco dias.
Jacob endureceu.
— Eu sei quantos dias.
— Talvez não seja uma questão de tempo.
Jacob voltou-se para a janela.
Sarah estava do lado de fora.
Conversava com os trabalhadores.
Não olhava em direção à casa.
— Isabella levou anos para destruir sua confiança — disse Embry. — Não faça Sarah pagar a conta.
Jacob fechou os olhos.
Encontrou Sarah pouco depois do meio-dia.
Ela estava na praia norte.
Jacob soube onde procurá-la.
Claro que soube.
Sarah estava exatamente no lugar onde a casa de hóspedes existira.
— Não encontrou nada.
Ela se virou.
— Não estava procurando.
Jacob olhou para o chão.
— Estava.
— Você realmente é convencido.
— E você mente mal.
Sarah cruzou os braços.
Jacob aproximou-se.
— A casa ficava aqui.
Ela olhou ao redor.
Restavam apenas algumas pedras parcialmente cobertas pela vegetação.
— Por que demoliu?
— Porque dois meses antes um engenheiro havia condenado a estrutura. Naquela noite, a tempestade derrubou parte do telhado.
— E três dias depois você mandou derrubar o restante.
— Sim.
Sarah assentiu.
— Entendido.
Começou a caminhar.
— Isabella encontrava Edward aqui.
Ela parou.
Não se virou imediatamente.
Quando o fez, não havia triunfo em sua expressão.
Apenas surpresa.
— Você sabia?
— Não quando mandei demolir.
Sarah voltou alguns passos.
— Quando descobriu?
— Duas semanas depois do funeral.
— Como?
— Edward havia deixado algumas coisas aqui.
Jacob apontou para onde antes ficava a construção.
— Durante a demolição, Embry guardou uma caixa que achou que fosse minha. Eu só abri semanas depois.
— O que tinha nela?
— Roupas. Um relógio. Fotografias.
Sarah compreendeu.
— Deles.
— Sim.
— Juntos?
— Algumas.
Jacob olhou para o mar.
— Não havia mais dúvida.
Sarah ficou em silêncio.
— Eu amava Isabella — disse ele. — E durante semanas depois que ela morreu, eu me culpei porque estava trabalhando naquela noite. Pensei que, se estivesse com ela, talvez tivesse percebido que iria nadar. Talvez tivesse ido junto. Talvez tivesse conseguido salvá-la.
Ele riu sem humor.
— Então descobri que, enquanto eu estava trabalhando, ela provavelmente estava aqui com meu melhor amigo.
Sarah aproximou-se.
— Jacob...
— Foi mais fácil ficar com raiva.
— Do que sentir falta dela?
Ele olhou para Sarah.
— Do que admitir que ainda sentia.
Sarah não respondeu.
— Eu odiava Isabella e sentia saudade dela ao mesmo tempo. Passei anos achando que uma coisa deveria anular a outra.
— Não anula.
— Agora sei.
Sarah ficou ao lado dele.
— E Edward?
— Nunca mais o vi.
— Tentou encontrá-lo?
— Sim.
— E?
— Ele não queria ser encontrado.
Sarah olhou para o oceano.
— Talvez estivesse fugindo de você.
— Talvez.
— Ou de outra coisa.
Jacob olhou para ela.
— É exatamente esse tipo de pensamento que me fez passar quatro anos preso naquela noite.
Ela compreendeu.
— Então não vamos fazer isso.
— Nós?
Sarah percebeu a palavra.
Jacob também.
— Eu quis dizer...
— Eu sei o que quis dizer.
Ela tentou esconder um sorriso.
— Ainda está brava comigo?
— Muito.
— Quanto?
— Bastante.
Jacob aproximou-se um pouco.
— Existe alguma coisa que eu possa fazer?
— Existe.
— O quê?
Sarah olhou diretamente para ele.
— Nunca mais use o fato de eu estar aqui há poucos dias para diminuir aquilo que existe entre nós.
Jacob ficou imóvel.
Ela continuou:
— Eu sei que são cinco dias. Sei que parece absurdo. Sei que não nos conhecemos o suficiente. Mas você me beijou. Eu beijei você. Você abriu aquele quarto comigo. Ontem segurou minha mão enquanto me contava coisas que provavelmente não conta para quase ninguém.
Jacob não desviou os olhos.
— Então não venha hoje dizer que sou apenas alguém que trabalha para você.
— Eu não disse que você era apenas...
— Foi exatamente o que fez.
Ele respirou fundo.
— Tem razão.
Sarah pareceu surpresa.
— Pode repetir?
— Não abuse.
— Quero registrar.
Jacob sorriu.
— Você tem razão.
— Muito melhor.
— E eu sinto muito.
O sorriso dela desapareceu.
— Está desculpado.
Jacob estendeu a mão.
Sarah olhou para ela.
— O que é isso?
— Uma oferta de paz.
— Você poderia comprar flores.
— Estamos numa ilha tropical. Existem flores em todos os lugares. Não teria impacto.
Sarah riu.
Então colocou a mão na dele.
Jacob entrelaçou os dedos.
Continuaram caminhando pela praia.
Sem pressa.
— Posso perguntar outra coisa? — disse Sarah.
— Você percebe que nunca espera minha autorização?
— Estou sendo educada.
— Pergunte.
— Você ainda ama Isabella?
Jacob não esperava aquilo.
Parou.
Sarah também.
— Desculpe. Não precisava responder.
— Não.
Ela esperou.
— Não sei se amo a mulher que ela era quando morreu — explicou ele. — Talvez ame a mulher que pensei que ela fosse. Talvez ame aquilo que tivemos antes de tudo dar errado.
Sarah ficou quieta.
— Mas não estou esperando Isabella voltar.
— Eu sei que não.
— Sabe?
— Seu quarto está na ala oeste.
Jacob franziu a testa.
— O que isso tem a ver?
— Você dorme em outro quarto.
Ele compreendeu.
— Desde que voltei.
— Você não está tentando viver dentro daquela lembrança. Só não sabia como tirá-la de lá.
Jacob observou-a.
— Como consegue fazer isso?
— O quê?
— Dizer coisas sobre mim que eu demorei anos para entender.
Sarah sorriu.
— Sou irritantemente observadora.
— Isso é verdade.
Continuaram andando.
Depois de alguns minutos, Sarah apontou para o mar.
— Posso nadar?
Jacob olhou para o sol.
— Agora?
— Sim.
— Pode.
Ela soltou sua mão.
Tirou o vestido pela cabeça.
Jacob parou.
Debaixo dele, Sarah usava um biquíni preto simples.
Ele ficou completamente imóvel.
Ela percebeu.
Naturalmente.
— Algum problema?
Jacob desviou os olhos para o oceano.
— Nenhum.
— Você está me encarando.
Ele reconheceu imediatamente a frase.
Era a mesma que ela usara na primeira noite.
— Você está na minha frente.
Sarah começou a rir.
— Essa desculpa continua ruim.
Jacob olhou novamente.
Dessa vez sem fingir.
Sarah era linda.
Não apenas bonita.
Linda de um jeito que começava a incomodá-lo fisicamente.
— Melhor?
Ela percebeu a mudança em seu olhar.
O sorriso diminuiu.
— Um pouco.
Sarah caminhou de costas em direção à água.
— Vem?
— Não.
— Medo?
— Da água?
— De mim.
Jacob riu.
— Definitivamente não.
Sarah entrou no mar.
Jacob observou.
Quando a água chegou à cintura dela, Sarah mergulhou.
Ele ficou na areia.
O sorriso desapareceu.
Uma lembrança atravessou sua mente.
Escuridão.
Lanternas.
O mar.
As sandálias de Isabella.
Duas taças.
Seu peito apertou.
Sarah emergiu alguns metros adiante.
Acenou.
— Jacob!
Ele não respondeu.
— Jacob?
Ela percebeu.
Voltou imediatamente.
Saiu da água.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Não minta.
Sarah aproximou-se.
— Foi o mar?
Jacob respirou fundo.
— Às vezes.
Ela compreendeu.
— Eu saio.
— Não.
— Jacob...
— Não faça isso.
— O quê?
— Mudar tudo por minha causa.
Sarah ficou olhando para ele.
— Não estou mudando tudo. Estou saindo da água porque você está claramente desconfortável.
— Eu preciso aprender a suportar.
— E precisa ser hoje?
Ele não respondeu.
Sarah pegou o vestido.
— Vamos voltar.
— Você queria nadar.
— Posso nadar amanhã.
— Sarah...
Ela tocou o rosto dele.
— O mar vai continuar aqui amanhã.
Jacob fechou os olhos por um instante.
A mão dela estava fria por causa da água.
Ele virou o rosto e beijou sua palma.
Quando abriu os olhos, Sarah ainda estava olhando para ele.
— Não faça isso — murmurou ela.
— O quê?
— Fique me olhando desse jeito.
— Que jeito?
Ela sorriu.
— Agora você está se vingando.
Jacob colocou uma mão em sua cintura.
— Talvez.
Sarah não recuou.
— Ainda estamos brigados?
— Achei que tivesse me perdoado.
— Estou reconsiderando.
— Posso melhorar minha defesa.
— Como?
Jacob aproximou-se.
Sarah colocou uma mão contra o peito dele.
— Isso é suborno.
— Funciona?
— Talvez.
Ele a beijou.
O gosto de sal ainda estava nos lábios dela.
Sarah passou os braços ao redor de seu pescoço.
Jacob aprofundou o beijo.
Por alguns instantes, todo o resto desapareceu.
Isabella.
Edward.
A casa demolida.
O medo.
Existiam apenas Sarah e aquela praia.
Quando se afastaram, ela estava sorrindo.
— Funcionou parcialmente.
Jacob riu.
— Exigente.
— Muito.
— Vou precisar tentar novamente.
— Talvez mais tarde.
Ela pegou o vestido.
Jacob segurou sua mão.
— Sarah.
— Hum?
— Obrigado por sair da água.
Ela sorriu.
— Amanhã você entra comigo.
Jacob ia negar.
Sarah apontou um dedo para ele.
— Não discuta. Amanhã.
Ele soltou uma risada.
— Veremos.
— Isso significa sim.
Começaram a caminhar de volta.
Naquela noite, Jacob entrou sozinho na ala oeste.
A casa estava silenciosa.
Sarah havia subido fazia quase uma hora, e Embry retornara à própria casa pouco depois do jantar.
Jacob não pretendia voltar ao quarto de Isabella naquela noite.
Na verdade, quando chegou ao corredor, quase retornou.
Mas ficou diante da porta.
Durante quatro anos, aquele lugar exercera uma espécie de poder sobre ele.
Era absurdo.
Um quarto.
Madeira.
Paredes.
Objetos.
Nada além disso.
Ainda assim, bastava colocar a mão na maçaneta para voltar a ser o homem que entrara ali quatro anos antes esperando encontrar Isabella e descobrira que ela não estava.
Jacob abriu a porta.
Acendeu apenas o abajur.
As caixas que ele e Sarah haviam organizado permaneciam sobre o chão.
Guardar.
Doar.
Decidir depois.
Jacob ficou olhando para elas.
Antes, qualquer alteração naquele quarto parecia uma traição.
Agora não.
Talvez porque Sarah tivesse razão.
Mudar não significava apagar.
Jacob aproximou-se do armário.
Pegou alguns vestidos.
Colocou-os cuidadosamente na caixa de doação.
Depois alguns sapatos.
Um casaco.
Quando terminou, uma parte inteira do armário estava vazia.
Jacob ficou olhando para aquele espaço.
Não sentiu culpa.
Sentiu tristeza.
Mas era diferente.
A tristeza não o esmagava.
— Finalmente — murmurou.
Fechou o armário.
Ia sair quando percebeu uma pequena caixa caída atrás de uma das gavetas inferiores.
Jacob franziu a testa.
Abaixou-se.
Precisou retirar completamente a gaveta para alcançá-la.
Era uma caixa estreita de madeira.
Ele não se lembrava dela.
Sentou-se no chão.
Abriu.
Havia recibos antigos.
Cartões de restaurantes.
Bilhetes de avião.
Algumas fotografias.
Nada que parecesse importante.
Até encontrar um envelope.
Jacob ficou imóvel.
Reconheceu a letra imediatamente.
Isabella.
Seu nome estava escrito na frente.
Jacob.
Ele sentiu o peito apertar.
Durante quatro anos, vasculhara aquele quarto mais de uma vez.
Nunca encontrara aquilo.
Talvez porque estivesse escondido atrás da gaveta.
Talvez porque Isabella jamais tivesse pretendido que ele encontrasse.
Jacob abriu o envelope.
Havia uma folha dobrada.
Começou a ler.
Jacob,preciso contar uma coisa antes que descubra de outra maneira.Sei que deveria ter feito isso há muito tempo.Não quero continuar mentindo para você.Sei que vai me odiar quando souber, e talvez tenha razão.Mas o que aconteceu entre mim e Edward não é a única coisa que escondi de você.Preciso resolver uma última coisa esta noite.Quando voltar, vou contar tudo.Jacob parou.
Leu novamente.
Depois uma terceira vez.
O que aconteceu entre mim e Edward não é a única coisa que escondi de você.
Sentiu o sangue esfriar.
Isabella pretendia contar.
Naquela noite.
A noite em que morreu.
Jacob continuou lendo.
Havia apenas mais duas linhas.
Se alguma coisa der errado, procure na casa.Você vai entender.Nada mais.
Nenhuma assinatura além de um simples:
I.S.
Jacob ficou imóvel.
A casa.
Não podia estar falando da casa principal.
Se estivesse, não faria sentido.
Isabella sempre chamara aquele lugar de “casa”.
Mas havia outro lugar que ela chamava de forma diferente.
A casa da praia.
A construção que Jacob mandara demolir três dias depois da morte dela.
— Meu Deus.
Ele levantou-se.
O movimento brusco fez a caixa cair.
Fotografias espalharam-se pelo chão.
Jacob não percebeu.
Saiu do quarto.
Desceu as escadas.
Precisava de ar.
Sarah ainda estava acordada.
Tentara dormir durante quase uma hora.
Não conseguira.
Sua cabeça continuava voltando para Jacob.
Para a praia.
Para o momento em que ele congelara ao vê-la dentro do mar.
E para o beijo.
Principalmente o beijo.
Sarah virou-se na cama.
— Isso está ficando ridículo.
Então ouviu uma porta.
Passos.
Pouco depois, a porta principal.
Sarah sentou-se.
Esperou.
Nada.
Levantou-se.
Saiu do quarto.
— Jacob?
Nenhuma resposta.
Desceu.
A porta da frente estava aberta.
Sarah atravessou a sala.
Encontrou Jacob no terraço.
Ele estava parado diante do oceano.
Descalço.
Uma folha de papel estava apertada em sua mão.
Sarah soube imediatamente que alguma coisa havia acontecido.
— Jacob?
Ele não respondeu.
Ela aproximou-se.
— O que aconteceu?
Jacob virou-se.
Sarah nunca o vira daquela maneira.
Não era raiva.
Era choque.
— Encontrei uma coisa.
Ele estendeu a folha.
Sarah pegou.
— Posso?
Jacob assentiu.
Ela leu.
Quando chegou ao nome de Edward, olhou rapidamente para ele.
Jacob fez um gesto para que continuasse.
Sarah terminou.
Então voltou para a frase.
“Não é a única coisa que escondi de você.”
— Ela escreveu isso?
— Sim.
— Tem certeza de que é a letra dela?
— Absoluta.
Sarah continuou lendo.
— “Se alguma coisa der errado, procure na casa.”
Ergueu os olhos.
— Ela estava falando da casa de hóspedes?
— Acho que sim.
— Mas ela foi demolida.
Jacob soltou uma risada amarga.
— Por mim.
Sarah percebeu imediatamente para onde a mente dele estava indo.
— Não.
— Sarah...
— Não faça isso.
— Eu mandei destruir exatamente o lugar onde ela deixou uma pista.
— Você não sabia.
— Talvez houvesse alguma coisa lá.
— E talvez não houvesse.
— Nunca vou saber.
Sarah aproximou-se.
— Jacob, você tinha um laudo recomendando a demolição. A tempestade destruiu parte da estrutura. Você não encontrou essa carta antes. Não pode transformar uma decisão que tomou sem essa informação em culpa.
Ele olhou para ela.
— É impressionante como você consegue tornar tudo lógico.
— Não estou tornando lógico. Estou impedindo você de se condenar por uma coisa que não tinha como saber.
Jacob fechou os olhos.
Sarah tocou seu braço.
— Além disso, uma casa demolida não desaparece completamente.
Ele abriu os olhos.
— O quê?
Sarah apontou para o interior.
— As plantas.
— O que têm?
— Quando uma construção é demolida, você pode retirar as paredes, o telhado, as instalações...
Ela hesitou.
— Mas dependendo de como foi feita a demolição, a fundação pode continuar lá.
Jacob ficou imóvel.
Sarah percebeu que ele havia entendido.
— E se Isabella escondeu alguma coisa — continuou — talvez não estivesse dentro de uma gaveta.
Jacob olhou em direção à praia norte.
Mesmo na escuridão, sabia exatamente onde a casa havia ficado.
— O terreno foi coberto.
— Completamente?
— Não sei.
— Quem supervisionou a demolição?
Jacob pensou.
— Embry.
Sarah assentiu.
— Então amanhã perguntamos.
Jacob olhou para ela.
— “Perguntamos”?
Sarah cruzou os braços.
— Nem pense em começar novamente aquela conversa sobre eu estar aqui há cinco dias.
Um sorriso quase imperceptível surgiu no rosto dele.
— Seis.
Sarah piscou.
— O quê?
— Já passou da meia-noite.
Ela olhou para o relógio.
Depois para ele.
— Então estou aqui há seis dias. Agora tenho claramente autoridade investigativa.
Jacob soltou uma risada.
A primeira desde que encontrara a carta.
Sarah sorriu.
— Melhor.
Ele ficou sério novamente.
— Sarah.
— Sim?
— Isabella escreveu que Edward não era a única coisa que escondia.
— Eu sei.
— O que mais poderia ser?
Sarah olhou para a folha.
— Não sei.
— Ela disse que precisava resolver uma última coisa naquela noite.
— Eu sei.
— Talvez tenha sido por isso que estava na praia.
Sarah assentiu lentamente.
— Talvez.
— Talvez Edward nem estivesse com ela.
— Também é possível.
Jacob olhou para o oceano.
Durante quatro anos, construíra uma versão daquela noite.
Isabella encontrara Edward.
Beberam vinho.
Ela entrara no mar.
Morrera.
Edward fugira.
Simples.
Doloroso.
Mas simples.
Agora já não sabia se alguma parte daquela versão estava correta.
Sarah ficou ao lado dele.
— Amanhã vamos até onde ficava a casa.
Jacob olhou para ela.
— E depois?
— Depois descobrimos o que ainda existe lá.
— E se não houver nada?
Sarah segurou sua mão.
— Então pelo menos você finalmente procurou.
Jacob entrelaçou os dedos nos dela.
Olhou novamente para a carta.
Pela primeira vez em quatro anos, a pergunta que o atormentava havia mudado.
Já não era apenas:
Quem estava com Isabella naquela praia?
Agora havia outra.
Talvez muito mais importante.
O que Isabella pretendia contar a ele quando voltasse para casa?
Fale com o autor