ILHA DOS DESEJOS

5 Capítulo 5 — O QUARTO DE ISABELLA


Sarah soube que Jacob estava arrependido antes mesmo de ele dizer qualquer coisa.

Eram nove e vinte da manhã quando os dois chegaram ao corredor do segundo andar.

A tempestade da noite anterior havia desaparecido completamente. O sol entrava pelas grandes janelas, iluminando o piso claro e tornando quase absurdo o peso daquele momento.

Jacob estava diante da porta da ala oeste.

A chave permanecia em sua mão.

Sarah não disse nada.

Desde que haviam terminado o café, ele falara pouco. Respondera perguntas sobre a reforma, atendera duas ligações e discutira rapidamente com Embry sobre o gerador.

Mas Sarah percebera.

Ele estava adiando.

Agora não havia mais nada para usar como desculpa.

— Podemos deixar para outro dia — disse ela.

Jacob olhou para a porta.

— Ontem você disse que precisava entrar.

— Ontem eu ainda não tinha encontrado as plantas originais. Consigo trabalhar sem entrar.

— Eu sei.

Sarah franziu a testa.

— Então não precisamos fazer isso.

Jacob finalmente olhou para ela.

— Precisamos.

— Para a reforma?

— Não.

Ela compreendeu.

Aquilo não tinha mais relação com paredes.

Jacob colocou a chave na fechadura.

Parou.

Sarah percebeu a tensão em seus dedos.

— Jacob.

Ele respirou fundo.

Girou a chave.

A fechadura fez um pequeno estalo.

E a porta se abriu.

Sarah esperava poeira.

Móveis cobertos.

Janelas fechadas.

Abandono.

Não encontrou nada disso.

A ala oeste estava limpa.

Silenciosa.

Intacta.

Uma pequena sala ocupava a primeira parte. Havia duas poltronas, uma estante com livros e portas de vidro voltadas para o oceano.

Fotografias estavam espalhadas pelas paredes.

Muitas.

Jacob mais jovem.

Embry.

Pessoas que Sarah não conhecia.

E Isabella.

Sarah reconheceu-a imediatamente.

Loira.

Bonita.

Elegante.

Em praticamente todas as fotografias, estava sorrindo.

Sarah aproximou-se de uma delas.

Isabella e Jacob estavam numa praia.

Ele a carregava nos braços enquanto ela ria.

Sarah sentiu uma sensação estranha.

Não era ciúme.

Não exatamente.

Era como conhecer uma versão de Jacob que não existia mais.

O homem daquela fotografia sorria de uma maneira que Sarah ainda não havia visto.

Livre.

— Você era diferente.

A frase escapou.

Jacob estava atrás dela.

— Era mais jovem.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Eu sei.

Sarah virou-se.

— Desculpe.

— Por quê?

— Não sei.

Jacob aproximou-se da fotografia.

— Foi tirada seis meses antes de ela morrer.

Sarah olhou novamente.

— Vocês pareciam felizes.

— Éramos.

Não havia hesitação.

Sarah sentiu alguma coisa apertar dentro dela.

Talvez fosse absurdo.

Ela conhecia Jacob havia quatro dias.

Quatro.

Ainda assim, beijara aquele homem duas vezes.

E agora estava diante da mulher que ele havia amado.

Uma mulher morta não deveria parecer uma ameaça.

E não era.

Mas Sarah percebeu algo desconfortável.

Isabella ocupava um espaço dentro de Jacob que ninguém poderia disputar.

Nem deveria.

— Quer continuar? — perguntou ele.

Sarah assentiu.

Passaram pela sala.

Havia um corredor menor.

Jacob abriu outra porta.

O quarto.

Sarah parou.

Agora compreendia por que aquela ala permanecera fechada.

Tudo estava ali.

Uma camisola cuidadosamente dobrada sobre uma poltrona.

Frascos de perfume.

Livros.

Sapatos.

Uma caixa de joias aberta.

Até um robe pendurado atrás da porta.

Parecia que Isabella poderia entrar a qualquer momento.

Sarah sentiu um arrepio.

— Jacob...

— Eu sei.

Ela virou-se.

— Você manteve tudo.

— Sim.

— Durante quatro anos?

— Sim.

Sarah olhou ao redor.

— Por quê?

Ele soltou uma respiração lenta.

— No começo, porque não conseguia tocar em nada.

— E depois?

— Porque passou tempo demais.

Sarah compreendeu.

A dor se transformara em hábito.

O hábito em prisão.

Ela caminhou lentamente até a janela.

— Não precisa mexer nisso hoje.

— Preciso começar.

— Começar não significa destruir tudo.

Jacob ficou olhando para ela.

Sarah percebeu a intensidade daquele olhar.

— O quê?

— Você disse praticamente a mesma coisa sobre a casa.

Ela sorriu discretamente.

— Sou coerente.

— Irritantemente.

Sarah virou-se novamente para o quarto.

— Podemos separar as coisas. O que você quiser guardar fica. O que quiser doar, doamos. E aquilo sobre o que ainda não conseguir decidir...

— Fechamos numa caixa.

— Exatamente.

Jacob assentiu.

— Certo.

Sarah ficou surpresa.

— Certo?

— Antes que eu mude de ideia.

Começaram pelos livros.

Era mais fácil.

Impessoal.

Sarah lia os títulos enquanto Jacob decidia.

— Esse?

— Guarda.

— Esse?

— Doa.

— Esse?

Jacob olhou.

— Guarda.

Sarah colocou na pilha.

— Você está guardando quase todos.

— Eu gosto de livros.

— Esses eram dela.

— Eu também gosto desses.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Certo.

Pegou outro.

— “Orgulho e Preconceito”.

— Guarda.

— Naturalmente.

— O que isso significa?

— Nada.

— Sarah.

Ela sorriu.

— Você tem energia de senhor Darcy.

Jacob ficou em silêncio.

— Não sei se isso foi elogio.

— Depende do capítulo.

Ele riu.

E aquilo tornou o quarto menos pesado.

Passaram quase uma hora trabalhando.

Às vezes Jacob contava pequenas histórias.

Isabella gostava de música clássica.

Odiava café.

Colecionava conchas.

Tinha mania de deixar livros abertos de cabeça para baixo, coisa que irritava profundamente Jacob.

Sarah ouviu tudo.

Sem sentir necessidade de competir com uma memória.

Aos poucos, Isabella deixava de ser apenas “a noiva morta”.

Tornava-se uma pessoa.

E, estranhamente, isso tornava tudo mais fácil.

Até encontrarem a caixa.

Estava no fundo de uma gaveta.

Sarah puxou-a.

— Essa?

Jacob olhou.

Ficou imóvel.

— Deixe.

Sarah parou imediatamente.

— Certo.

Colocou-a novamente.

— Não.

Ela virou-se.

— O quê?

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Traga.

Sarah entregou a caixa.

Ele sentou-se na cama.

Durante alguns segundos, apenas ficou olhando.

Depois abriu.

Fotografias.

Cartas.

Pequenos objetos.

Jacob retirou uma fotografia.

Sarah não tentou olhar.

— Sente — disse ele.

Ela hesitou.

Depois sentou-se ao lado.

Jacob entregou-lhe a foto.

Isabella aparecia numa praia com Embry e outro homem.

Sarah olhou.

— Quem é?

— Edward Cullen.

— Amigo?

Jacob soltou uma risada sem humor.

— Meu melhor amigo.

Sarah percebeu o tempo verbal.

— Era?

— Era.

Ele pegou outra fotografia.

Edward aparecia novamente.

Alto, cabelos claros.

Isabella estava ao lado.

Nada parecia incomum.

— O que aconteceu?

Jacob permaneceu em silêncio.

Sarah devolveu a foto.

— Não precisa contar.

— Isabella estava tendo um caso com ele.

Sarah ficou imóvel.

Olhou novamente para a fotografia.

— Você sabia?

— Não.

— Descobriu depois?

Jacob assentiu.

— Algumas semanas depois da morte dela.

Sarah não sabia o que dizer.

— Sinto muito.

— Essa frase funciona para tantas coisas nessa história que perdeu o significado.

Não havia agressividade.

Apenas cansaço.

Sarah tocou delicadamente a mão dele.

Jacob não afastou.

— Como descobriu?

Ele abriu uma das cartas.

Não entregou.

— Encontrei correspondências. Mensagens. Reservas de hotel.

Sarah fechou os olhos por um instante.

— E Edward?

— Desapareceu três dias depois do funeral.

Ela abriu os olhos.

— Desapareceu?

— Foi embora da ilha. Vendeu o apartamento em Miami. Pediu demissão. Nunca mais falou comigo.

Sarah sentiu um desconforto.

— Jacob...

— Não.

Ela ficou quieta.

— Ainda não.

Sarah assentiu.

— Tudo bem.

Ele guardou a carta.

Mas, quando colocou novamente na caixa, uma fotografia caiu no chão.

Sarah abaixou-se.

Jacob também.

As mãos dos dois chegaram juntas.

Ele parou.

Sarah pegou a fotografia.

Era Isabella.

Sozinha.

Na praia.

No verso havia uma data.

Dois dias antes de morrer.

E algumas palavras escritas à mão.

“Só mais um pouco. Depois seremos livres.”

Sarah sentiu um arrepio.

Olhou para Jacob.

Ele estava pálido.

— Você já tinha visto isso?

— Não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Sarah entregou a fotografia.

Jacob leu novamente.

— A letra é dela?

— É.

Ele levantou-se.

Caminhou até a janela.

Sarah permaneceu sentada.

— Jacob...

— Dois dias.

— O quê?

— Isso foi escrito dois dias antes.

Ele virou-se.

— Dois dias antes de morrer.

Sarah sentiu o peso daquela informação.

— Pode estar falando sobre qualquer coisa.

— Pode.

Mas o tom dele dizia que não acreditava nisso.

Sarah levantou-se.

— Não tire conclusões agora.

— Não estou tirando.

— Está.

Jacob apertou a fotografia.

— Você não sabe tudo.

— Então me conte.

Ele olhou para ela.

Sarah imediatamente se arrependeu da pressão.

— Desculpe.

Jacob virou-se novamente para o oceano.

O silêncio durou tanto que Sarah acreditou que ele não responderia.

Então:

— Havia duas taças.

Ela franziu a testa.

— Onde?

— Na praia.

Sarah ficou imóvel.

— Na noite em que Isabella morreu, quando percebi que ela não estava em casa, fui procurá-la.

Jacob respirou fundo.

— Encontrei as sandálias dela perto da água.

Sarah esperou.

— E duas taças de vinho.

Um arrepio percorreu seus braços.

— Então ela não estava sozinha.

— Não sei.

— Mas você acha que não.

— Durante quatro anos tentei não achar nada.

Sarah aproximou-se.

— A polícia investigou?

— Investigou.

— E?

— Encontraram apenas as pegadas dela próximas da água. Chovera naquela madrugada. Qualquer outra marca poderia ter desaparecido.

— A morte foi considerada acidente?

— Afogamento acidental.

Sarah olhou para a fotografia.

“Depois seremos livres.”

— E Edward desapareceu três dias depois do funeral.

— Sim.

Sarah sentiu o estômago apertar.

— Você acha que ele estava com ela.

Jacob virou-se.

— Eu acho que não sei o que aconteceu naquela praia.

A resposta era cuidadosa.

Mas Sarah viu a verdade.

Ele pensara nisso milhares de vezes.

Pararam de trabalhar pouco depois.

Jacob precisava ficar sozinho.

Sarah compreendeu.

Saiu da ala oeste e desceu.

Encontrou Embry na cozinha.

Ele percebeu imediatamente sua expressão.

— Ele abriu?

Sarah assentiu.

Embry fechou os olhos.

— Droga.

— Você sabia sobre Edward?

Ele ficou imóvel.

Sarah percebeu.

— Sabia.

— Sarah...

— Não estou pedindo detalhes.

Embry apoiou as mãos no balcão.

— Jacob passou quatro anos tentando enterrar isso.

— Enterrar não funcionou.

— Eu sei.

Sarah olhou para ele.

— Você acha que Edward estava com Isabella naquela noite?

Embry não respondeu.

— Embry?

— Não sei.

Mas Sarah percebeu outra vez.

A hesitação.

— Você está escondendo alguma coisa.

— Não é minha história para contar.

— Se tiver relação com a morte dela...

— Sarah.

O tom foi firme.

Ela parou.

Embry respirou fundo.

— Algumas portas ficam fechadas por uma razão.

Sarah olhou para a escada.

— E algumas precisam ser abertas.

Jacob só apareceu novamente perto das sete da noite.

Sarah estava no terraço.

Ele sentou-se ao lado dela.

Nenhum dos dois falou durante algum tempo.

— Desculpe — disse ele.

Sarah olhou.

— Pelo quê?

— Hoje.

— Você não fez nada.

— Coloquei você no meio de uma coisa que não tem nada a ver com você.

Sarah ficou alguns segundos em silêncio.

— Talvez agora tenha um pouco.

Jacob virou-se.

— Por quê?

Ela hesitou.

Porque estava começando a se importar com ele.

Muito mais rapidamente do que deveria.

— Porque somos amigos.

A expressão de Jacob mudou.

— Amigos?

Sarah percebeu imediatamente o erro.

— Não faça essa cara.

— Que cara?

— Essa cara de homem ofendido.

— Nós nos beijamos duas vezes.

— Amigos podem se beijar.

— Que tipo de amigos você tem?

Sarah começou a rir.

— Você entendeu.

Jacob aproximou-se.

— Não. Explique.

— Não vou explicar.

— Sarah.

— Jacob.

Ele estava sorrindo agora.

E Sarah percebeu que havia conseguido exatamente o que queria.

Por alguns minutos, Isabella, Edward e aquela fotografia haviam desaparecido do rosto dele.

— Você está fazendo isso de propósito — disse Jacob.

— O quê?

— Tentando me distrair.

Sarah sorriu.

— Está funcionando?

Ele olhou para ela.

— Infelizmente.

— Então sou excelente no meu trabalho.

— Isso definitivamente não faz parte do seu trabalho.

— Serviços adicionais.

Jacob riu.

Então ficou sério.

A mão dele encontrou a dela sobre o banco.

— Obrigado.

Sarah entrelaçou os dedos nos dele.

— Não precisa.

Ficaram olhando o oceano.

O sol estava quase desaparecendo.

— Sarah.

— Hum?

— Tem uma coisa que preciso deixar clara.

Ela virou o rosto.

— O quê?

— Eu não sei onde isso está indo.

Sarah olhou para as mãos unidas.

— Nem eu.

— E não estou preparado para prometer nada.

— Não pedi promessa.

— Eu sei.

— Então por que está dizendo?

Jacob ficou em silêncio.

Sarah compreendeu.

— Porque está com medo de me machucar.

— Sim.

Ela apertou suavemente sua mão.

— Então não minta para mim.

Jacob franziu a testa.

— Só isso?

— Só.

— Parece simples.

— Não é.

Sarah olhou diretamente para ele.

— Não quero promessas, Jacob. Não quero que finja sentir coisas que não sente. E não quero ocupar o lugar de Isabella.

A expressão dele mudou.

— Sarah...

— Eu nunca conseguiria. Nem deveria.

Ele ficou olhando para ela.

— Você não parece em nada com Isabella.

Sarah sorriu levemente.

— Isso foi um elogio?

— Muito.

— Vou aceitar.

Jacob ergueu a mão dela.

Beijou seus dedos.

O mesmo gesto da noite anterior.

Mas agora pareceu diferente.

Mais íntimo.

— E você? — perguntou ele.

— Eu o quê?

— O que quer?

Sarah ficou em silêncio.

Essa pergunta era mais difícil.

— Neste momento?

— Neste momento.

Ela aproximou-se.

— Quero que você pare de pensar por cinco minutos.

Jacob sorriu.

— Isso parece impossível.

— Posso ajudar.

Sarah segurou suavemente seu rosto.

Dessa vez foi ela quem o beijou.

Jacob ficou imóvel apenas por um segundo.

Depois correspondeu.

A mão dele foi para sua cintura.

Sarah sentiu-o aproximá-la.

O beijo permaneceu lento, mas tornou-se mais profundo.

Não havia chuva.

Nem acidente.

Nem desculpa.

Dessa vez ambos sabiam exatamente o que estavam fazendo.

Quando se afastaram, Jacob manteve o rosto próximo ao dela.

— Cinco minutos? — murmurou.

Sarah sorriu.

— Podemos negociar.

Ele riu contra sua boca.

E a beijou novamente.

Mais tarde, Sarah voltou sozinha ao quarto.

Não conseguia dormir.

A imagem continuava voltando.

Isabella.

A fotografia.

As duas taças.

Edward desaparecendo.

Sarah levantou-se.

Pegou água.

Quando estava voltando para a cama, lembrou-se de alguma coisa.

A data.

Parou.

Dois dias antes da morte.

Sarah franziu a testa.

Havia algo errado.

Não sabia exatamente o quê.

Pegou o celular e abriu as fotografias que havia feito das plantas da casa naquela manhã.

Passou por várias.

Parou numa fotografia antiga da planta da propriedade.

Ampliou.

A praia onde Isabella morrera ficava na parte norte.

Mas Jacob dissera que encontrara as sandálias dela “perto da água”.

Sarah continuou olhando.

Então viu.

Na planta antiga havia uma construção que não existia mais.

Uma pequena casa próxima à praia.

Marcada apenas como:

Casa de hóspedes.

Sarah sentiu um arrepio.

Na manhã seguinte perguntaria sobre ela.

O que Sarah ainda não sabia era que aquela casa havia sido demolida três dias depois da morte de Isabella.

Por ordem de Jacob.